O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 2 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 1

 

Na parte mais elegante de Londres, em sua mansão, o duque de Llannefydd, velho e

cansado, se serviu de uísque e esbravejou:

— Encontrem a meretriz! Encontrem a messalina! Encontrem a atriz!

— Nossas investigações mostraram, milorde, que, há algum tempo, ela viajou para a

América e, sinto informar, entrou para um circo.

— O que o senhor quer dizer com “suas investigações mostraram”? Essa informação

foi publicada no Times para todos lerem e rirem!

— Realmente, o fato foi relatado pelos jornais.

— Encontrem a meretriz!

— A América é grande e sem leis, milorde.

— Bem, se é grande e sem leis, a messalina estará em um dos lugares óbvios, não?

Washington. Nova York. Boston. O senhor acha que eu não conheço a geografia daquela

terra desleal e revolucionária povoada por traidores, camponeses irlandeses e

democratas? É claro que ela escolheria tal lugar para ir. A meretriz! Ela matou o meu

filho!

O Sr. Doveribbon pai (advogado rico da nobreza, um homem alto e acostumado com

o conforto, mas que não fora convidado a se sentar naquela reunião) limpou a garganta e

trocou um olhar preocupado com o filho, o Sr. Doveribbon filho (suposto advogado e

frequentador de lugares sofisticados).

— Milorde, creio que vossa senhoria deva abandonar essa noção, pois já foi provado

que seu filho foi assassinado pela própria esposa.

O duque praguejou e gesticulou e, ao fazê-lo, derrubou a garrafa de uísque no piso de

mármore, onde ela se espatifou, espirrando o conteúdo dourado sobre as caras botas do

Sr. Doveribbon filho, para total horror do elegante jovem. O odor da bebida se elevou e

um serviçal apareceu, como que por milagre, trazendo consigo uma vassoura e uma

garrafa, e uma expressão de mártir no rosto.

— Lady Ellis pode ter matado meu filho de fato — brandindo o punhal que lhe tirou a

vida. — Mas quem assassinou o meu filho em termos morais? Quem? A meretriz! A atriz!

— (Talvez seja incongruente ouvir a palavra moral naquela sala de Mayfair repleta de

canalhas, pois não apenas o duque, mas também o serviçal, o advogado, o filho do

advogado e o médico que tentava ouvir atrás da porta sem ser notado, nenhum deles poderia reconhecer o significado da palavra moral mesmo que ela estivesse escrita em suas

testas.) — Quero que sumam com a atriz messalina e quero a filha, seja lá qual for o nome

dela. Ela tem o meu sangue. Meu. Ela tem de cuidar de mim. Ela é a filha do meu filho,

mesmo que a mãe não passe de uma prostituta. — Ele pegou uma segunda garrafa e se

serviu de mais uísque. — Estou sozinho. — Os olhos se encheram de lágrimas que

escorreram pelo rosto astuto. — Eu a quero aqui comigo. — E as lágrimas se secaram tão

rapidamente quanto haviam aparecido. — E quando ela estiver comigo poderei aniquilar o

interesseiro do sobrinho do meu primo, o pulha que só espera a minha morte para que

possa herdar Gales!

O Sr. Doveribbon pai limpou a garganta novamente.

— Milorde, sua neta é mulher e, de acordo com a lei, não poderia herdar qualquer

parte de Gales de propriedade de vossa senhoria.

— A antiga e nobre família Llannefydd está acima da lei! Eu mudarei a lei! Aquela

menina demonstrou mais senso do que a irmã, por quem eu fiz tanto, e do que aquele

garoto mimado e estúpido — esbravejou ele, cuspindo um pouco de uísque. — E ela deve

ser devolvida a mim como me é de direito! E a mãe deve sumir!

— Quando vossa senhoria diz “sumir”, quer dizer...

— O que acha que quero dizer, seu idiota? Com certeza, o senhor pode conseguir um

brutamontes irlandês disposto a encontrar um canto escuro naquela terra traiçoeira! Será

que preciso explicar tudo para o senhor? — Então, lançou um olhar demorado e

perspicaz para advogado e filho e suavizou a voz: — É claro que minha carteira estará

aberta para os senhores. Todas as despesas. Qualquer conta será paga. Apenas encontrem

a meretriz e tragam a minha neta!

Agora que dinheiro havia sido mencionado, o Sr. Doveribbon pai ponderou:

— Eu teria de mandar meu filho para a América. Ele é um inglês muito distinto.

O Sr. Doveribbon filho, com suas botas manchadas de uísque, parecia ainda mais

alarmado. Certamente era distinto. Na verdade, tinha consciência de que era extremamente

bonito. E de burro não tinha nada. Estava envolvido (sem o conhecimento do pai) em

alguns negócios imobiliários escusos no novo bairro residencial próximo a Edgware

Road. Ele tinha seus planos, e estes não incluíam uma viagem para qualquer parte que

fosse da América.

— Seria uma viagem longa e árdua para encontrar mãe e filha — continuou o pai.

— Livrem-se da mãe! Aquela meretriz de cabelo preto e branco! Se ela interferir não

será nada bom. Livrem-se da mãe e tragam minha neta!

— Precisaremos de um adiantamento considerável para cobrir as despesas, milorde.

Novamente, o olhar agudo e perspicaz.

— Nada de adiantamentos! Livrem-se da mãe, tragam a minha neta e eu lhes pagarei

dez mil libras!

Ao ouvir essa declaração, os dois Doveribbon mostraram-se admirados: dez mil

libras? Nem os mais ricos falavam de tal soma, mesmo no sombrio mundo dos

advogados.

Entretanto, o instinto fez com que o Sr. Doveribbon pai recusasse aquelas instruções

Entretanto, o instinto fez com que o Sr. Doveribbon pai recusasse aquelas instruções

em particular. O duque de Llannefydd era certamente um dos mais ricos e proeminentes

nobres na Inglaterra, mas também era conhecido por não ser confiável, mesmo entre

aqueles que faziam da desconfiança uma norma. E “livrar-se de alguém” era algo que o Sr.

Doveribbon deixava a cargo de homens mais rústicos. No entanto, dez mil libras falavam

alto. Além disso, seu filho era bastante atraente e — de repente, sonhou ainda mais alto —

bem poderia atrair a herdeira. A cobiça e o instinto travavam uma batalha na mente do Sr.

Doveribbon pai.

A cobiça venceu.