O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 41 de 52

Páginas do PDF

O Circo dos Fantasmas

Capítulo 40

 

Por toda uma noite, a primeira após a chegada da carta de Peggy Walker, Rillie e Monsieur

Roland ficaram acordados em suas camas, cada um em seu quarto, pois podiam ouvir o

choro terrível de Cordelia. Às vezes, escutavam o som abafado da voz de Arthur Rivers,

seguido pelo som angustiado e sofrido: o som da dor. E o som do passado.

Ao amanhecer, Rillie e Monsieur Roland ouviram Arthur se levantar e sabiam que ele

não dormira nada. Ele fechou a porta e desceu as escadas. Embora o ar da manhã já

estivesse quente enquanto descia Maiden Lane em direção às docas do rio East, o policial

puxou a capa e a ajustou melhor ao redor do corpo como se buscasse conforto.

Na Casa de Celine, explicaram a Cordelia repetidas vezes como se ela fosse uma

criança: se a carta chegara, era bem possível que Gwenlliam estivesse em um navio que

poderia chegar a qualquer momento. Em algum navio que tomara a rota que contorna o

cabo Horn, vindo da Califórnia. Ou vindo de Chagres, no istmo do Panamá. Qualquer

que fosse a rota escolhida, era bem provável que Gwenlliam Preston apareceria em uma

das docas acompanhada por um inglês. E sua família estaria esperando por ela quando

isso acontecesse. Não havia outra forma de pensar na questão. Todos se ocuparam.

Recusaram-se a considerar qualquer pensamento sobre agulhas no palheiro. Além disso,

contavam com Alfie Tyrone ao lado deles.

A cada dia que passava, Cordelia sentia como se estivesse flutuando sobre si mesma,

olhando para o caos sem fim que o seu passado acarretou na vida das pessoas que mais

amava. Tudo isso é minha culpa. Então, olhava para o daguerreótipo na parede e para as

feições amadas. Com todo autocontrole que lhe restava, ela também seguia para o

trabalho.

 

***

 

Com os contatos dos jornais (em cada um havia um genro de Alfie Tyrone trabalhando) e

dos píeres de Battery Park e do rio East (com os quais Alfie Tyrone e seus filhos tinham

contatos íntimos, assim como o policial e inspetor Arthur Rivers), todos os navios vindos

da Califórnia eram verificados. Os marujos gritavam e cantavam enquanto enrolavam as últimas velas; barcos a vapor pequenos soltavam fumaça negra; navios de passageiros e de

mercadorias chegavam ao porto de Nova York. Nos píeres do rio Hudson Cordelia e Rillie

perguntavam com urgência: de onde vocês vieram? Em que navio?, enquanto as multidões

desembarcavam.

Oi!, ouviram. Lá estava Regina, ligeiramente enfeitada pela família, mas vestida como de

costume, e sem qualquer chapéu.

— Fiz com que Alfie me trouxesse — disse. Carregava uma pequena sacola. — Estou de

volta — prosseguiu — até que a encontremos! Por todo o dia, sua voz alta pôde ser

ouvida: de onde vieste? Que navio tomaste?

Alfie e Monsieur Roland tentaram verificar os barcos que chegavam ao rio Hudson:

todos os navios ordinários e com vazamentos e botes que subiam e desciam pela costa do

Atlântico entre Nova York e Chagres, além dos navios mais suntuosos e barulhentos

barcos a vapor. Em geral, não existia qualquer tipo de lista de passageiros em algumas das

embarcações com menos reputação: mineradores, ex-mineradores, oportunistas,

desordeiros, jogadores, damas da noite — nenhum dos quais talvez tenha pensado em

usar o nome de batismo e alguns dos quais não respondiam a nenhuma pergunta. Às

vezes, Regina se juntava a eles e sua voz ecoava: de onde estão vindo? Em que navio vieram?

Em raras ocasiões cantava o salmo 23.

No rio East, o inspetor Arthur Rivers, com a ajuda de seu fiel tenente, Frankie Fields,

trabalhava durante o dia e em muitas noites, fazendo por esta filha o que não podia fazer,

pelo menos por enquanto, pelas outras. Verificava cada chegada e partida que conseguia,

checava as importações e as exportações de mercadoria, investigava as gangues do rio East,

assim como os passageiros que chegavam pelo rio Hudson, dando aos seus homens

algumas instruções especiais. Mal voltava à Maiden Lane. Frankie Fields também não

voltava para casa: ele vira aquela garota, jogara pôquer com ela e até recebera recados em

suas cartas, e a família dividira com ele as cartas. Pensava muito nela. As gangues locais

que vigiavam o inspetor Rivers e seu tenente com cada vez mais suspeitas ficaram em alerta

total naquele momento: o que significava toda aquela atividade extra? Será que ele não

entendera a mensagem depois dos tumultos de Astor Place? E mais reuniões foram

organizadas atrás das cortinas das quitandas. Agora, havia ouro chegando. Fizeram um

roubo muito bem-sucedido e não seriam impedidos de continuar. Mesmo que

compreendessem bem a lei não escrita da cidade, determinada pelos Pais da Cidade, de

não matarem policiais.

Alfie Tyrone não conhecia essa Gwenlliam, mas analisara seu retrato na parede e agora

o carregava na bolsa. Contaram muitas coisas sobre ela para ele. E Alfie Tyrone sabia mais

do que qualquer pessoa de Nova York sobre o tráfego marítimo e as entradas e saídas da

cidade portuária. Alfie mandou pessoas para todos os lugares, fez todo tipo de

investigação, inquiriu o genro que trabalhava em um jornal. Alfie contou para a família

sobre os novos e velozes clíperes, os quais Gwenlliam descrevera em suas cartas,

semelhantes aos navios que velejavam a toda velocidade para a China e para a Índia com

carregamentos de ópio e chá; agora aqueles navios contornavam o cabo Horn, levando menos de cem dias, cortando as ondas, cortando o tempo e trazendo cartas, ouro e,

algumas vezes, passageiros. À noite, Alfie e Arthur se sentavam, dividiam suas anotações e

comparavam suas listas.

— Bem — disse Alfie, por fim, no sótão, enfiando os dedões nos bolsos do paletó. —

Vamos tentar simplificar as coisas. Se eu estivesse transportando alguém contra a sua

vontade, acho que eu iria... principalmente se tivesse a chance de subir a bordo de um

desses novos clíperes, tomaria a rota que contorna o cabo Horn. Não arriscaria o istmo

do Panamá, infestado de cólera e crocodilos com uma pessoa relutante, mas valiosa ao

meu lado, não até que encontrassem um modo de tornar essa rota mais segura. E eles

farão isso, não duvidem!

“E quanto ao México? Com certeza é rápido, e um navio atravessando o golfo seria

uma boa opção, mas duvido que um inglês faça isso. Não mesmo. Todo mundo sabe que

há corpos sem cabeça de pessoas que acharam que a rota pelo México seria mais rápida,

corpos que são largados ao léu sob o sol. E há muitos grupos agora se empenhando em

fazer a viagem por terra, atravessando as montanhas, mas também não acredito que ele

tenha optado por isso. Também é perigoso demais, lento demais e já houve muitas

mortes. Se eu estivesse transportando alguém contra sua vontade, acho que tentaria trazê-

la sã e salva, e bem rápido, em um clíper contornando as Américas.”

— A carta foi entregue para Danny, o irlandês, no mesmo dia em que foi escrita —

lembrou Arthur. — Ele ainda não está bem o suficiente para responder a perguntas, mas

hoje à noite conversamos um pouco e ele me disse que os charros e Silas P. Swift subiram

a bordo com a carta um pouco antes de o navio a vapor zarpar do porto de São

Francisco. É claro que muitos mineradores conheciam Silas e Danny se ofereceu para

trazer a carta quando soube o que acontecera com Gwenlliam. Peggy escreveu a mensagem

no dia 14 de maio e nós a recebemos há três dias. Isso significa que a carta levou 74 dias

para chegar aqui. Danny saiu do navio no Panamá e tomou a rota do istmo. Abençoado

seja. Nenhum navio, nem mesmo um clíper poderia ter concluído a viagem nesse tempo.

Acho que devemos supor que nosso amigo, o Sr. Doveribbon esteja com pressa, mas que

será sensato, considerando o quanto está em jogo. Acho que também podemos supor

que ele deve ter partido de São Francisco na noite anterior a da partida de Danny e,

provavelmente, em um nos navios menores que seguem para o Panamá, os quais Gwennie

descreveu em suas cartas. Caso contrário, teriam sido encontrados com tanta gente

procurando por eles e ela sendo tão conhecida por trabalhar no circo.

Alfie disse:

— OK, mas o que teria acontecido com ela uma vez que chegassem ao Panamá? Fiz

algumas investigações sobre o Panamá e a corrida do ouro. Atualmente, todo mundo diz

que a cidade é um buraco dos infernos. Desculpem o meu linguajar, senhoras, mas ouvi

muitas histórias! Trata-se de uma cidade espanhola famosa e antiga, é claro, com seu

camino real que atravessa o istmo. Estrada real, pois sim! Estou certo de que Gwenlliam

não a chamaria assim! Hoje em dia, a cidade do Panamá não passa de um terminal entre o

norte e o sul ou entre o Pacífico e o Atlântico. As pessoas estão ficando presas lá, como sua filha descreveu na carta dela, Cordelia: americanos, ingleses, franceses, italianos,

chineses, índios, mexicanos; todos ali se movimentando entre botequins, mesas de jogos

e garotas, aguardando por navios. Ouvi dizer que eles passam uns por cima dos outros

para entrar em qualquer coisa que flutue. Só existe uma rota segura para subir a costa do

Pacífico até São Francisco e é por mar, e dizem que não existem navios suficientes para

realizar essa viagem, mesmo agora, para as pessoas que ainda querem procurar ouro.

Assim: muitos navios vindos de São Francisco só chegam até o Panamá e, depois,

retornam para São Francisco. Assim: não há muitos navios contornando o cabo Horn se é

essa a rota que tomaram. E não podemos ter certeza, mas achamos que é isso que

estamos procurando.

Arthur Rivers falou em tom baixo:

— Sr. Doveribbon é um inglês possivelmente com acesso a dinheiro e ele teve tempo

de planejar. Então, se algum clíper chegar a Nova York, acredito que encontraremos nossa

menina.

 

Danny, o irlandês, o mensageiro, começou a se recuperar de forma bastante lenta — mas

sua recuperação se deveu principalmente aos cuidados constantes de Blossom e Maybelle

(embora elas tenham chamado Jeremiah, o enorme barman, para banhá-lo e torná-lo

suportável). Alimentaram-no com sopa, frango e arroz e lhe serviram um pouco de

cerveja irlandesa. Sempre que abria os olhos, uma delas estava com ele de forma

indistinta. À noite, ele gritava, chorava e se revirava na cama: quando se sentava de

repente, uma delas estava lá, Blossom ou Maybelle; mesmo que estivessem cochilando na

cadeira, elas se levantavam e se aproximavam dele, arrumavam os cobertores e

murmuravam que estava seguro. Durante o dia, ele achava difícil conversar sem se chatear:

costumava chorar e, sempre que chorava, vomitava. Ainda assim, Blossom ou Maybelle

envolviam os ombros dele em um abraço. Como a maior parte dos seus compatriotas, o

irlandês nutria um desdém contra os negros (e a recíproca era verdadeira), ainda assim,

nunca ficara em um lugar tão confortável e nunca fora tão paparicado na vida, tendo vindo

ainda criança da Irlanda e se instalado em Cherry Street, próximo ao rio. Estava se

habituando ao jeito cantado que falavam e com os gentis braços negros que, às vezes,

tentavam sentá-lo na cama. Ainda assim, achava que elas tinham um cheiro engraçado. La

Grande Celine o intimidava um pouco com seu tapa-olho preto e seu jeito expansivo, mas

percebia que era bondosa.

Cordelia, então, veio vê-lo.

Ficara acordada quase a noite toda, tentando pensar em alguma maneira de saberem

mais. Deveria conversar com o irlandês, mesmo que Arthur dissesse que ele ainda estava

muito debilitado para responder às perguntas. Eu preciso, ele era a única conexão que

tinham com a Califórnia. Uma vez mais, Arthur não voltara para casa. Ela se revirara na

cama durante a noite quente e úmida.

Tia Hester conhecia muito bem o modo como o mundo funcionava.

— Ellis pode colocá-la em algum lugar e pagar suas contas. Mas nunca abra mão da sua

carreira, pois nem sempre ele estará disponível para você.

— Eu não vou ser “colocada” em algum lugar. Não é isso que eu quero.

— Ellis não se casará com você, Cordelia. Ele é um nobre. Um dia ele será o duque de

Llannefydd, é impossível para ele se casar com uma atriz. Você não deve construir sonhos que

são impossíveis de se realizar.

— Ele me ama! Ele me ama!

A tia tentou uma vez mais:

— Cordelia, você não entende a diferença entre o mundo dele é o nosso. As barreiras de

classe são intransponíveis. Aparecer de braços dados em eventos respeitáveis não significa nada,

nada mesmo: jovens lordes têm licença para fazer esse tipo de coisa. Não pode se casar com

alguém tão superior. E eu não digo superior a você como pessoa, pois não há ninguém neste

mundo que possa ser superior a você aos meus olhos. — Ela lançou aquele olhar irônico e

carinhoso. — Mas superior perante a sociedade. Isso é impossível, Cordelia, e você está

investindo em um futuro de problemas.

 

Cordelia chegou ao quartinho. Blossom estava lá e tentou ajudá-lo a se sentar.

— Esta aqui é a mãe — informou ela com voz gentil. — Esta é a mãe para quem você

trouxe a carta.

Danny se esforçou para se sentar e ficou surpreso. Para ele, mães eram velhas.

Cordelia era bonita.

Cordelia também ficou surpresa. Ela o vira muito rapidamente na noite em que

chegara e, naquele momento, sem o bigode e a barba imunda, ele parecia magro e jovem.

Tentou controlar a própria ansiedade.

— Gostaria de agradecer a você, Danny, por trazer notícias da minha filha. Sem você

não saberíamos nada sobre o que aconteceu com ela.

— Como eu disse, ela é um anjo. Então, era meu dever chegar até aqui.

— Por que diz isso?

— Foi ela quem segurou meu irmão. Foi quem o acalmou e ficou com ele até que a

morte o levasse. Ela não se afastou e não se importou se ele estava com a febre ou com

qualquer outra coisa; o abraçou e conversou com ele até que morresse porque ela é um

anjo. Foi por isso que prometi trazer a carta.

Cordelia, de repente, emitiu uma pequena exclamação de surpresa quando

compreendeu. Do bolso lateral do seu vestido, retirou a pequena pepita de formato

estranho que sempre carregava consigo.

— Foi você Danny, que deu isto para Gwenlliam?

Ele pareceu surpreso ao ver a pequena pepita de ouro e estendeu a mão. Ela o

entregou a ele, que revirou a peça nas mãos. Então, começou a chorar.

 

— Foi meu irmão Johnny. Sim. Achamos que parecia uma lesma. Eu dei a ela. Como a

— Foi meu irmão Johnny. Sim. Achamos que parecia uma lesma. Eu dei a ela. Como a

pepita chegou às suas mãos? — E o rosto pálido, manchado de lágrimas, parecia confuso.

— Então, ela foi encontrada?

— Não, ela ainda não foi encontrada. Ela nos enviou essa pepita dentro de uma Bíblia

e, em sua carta, nos contou a história do seu irmão. E graças a sua determinação e

coragem, nós agora temos muitas informações e esperamos ser capazes de encontrá-la.

Ele devolveu-lhe a pepita e lágrimas brilhavam em seus olhos.

— É uma história bonita — disse Danny. — Sobre o ouro chegar para a senhora

dentro da Bíblia Sagrada.

— Você cruzou o istmo. Nós sabemos disso.

— Sim.

— Você conseguiu chegar mais rápido do que qualquer navio, Danny. Também

sabemos disso.

— Acho que essa viagem drenou toda a minha vida. Ou assim parece. Tudo que nós

queria era chegar em casa. Nunca mais na vida quero ver a Califórnia, o Panamá ou

qualquer outro lugar. Então, eu não vou.

Toda a agitação que as negras tentavam acalmar tomou conta dele, e Blossom tentou

recostá-lo nos travesseiros. Ele falava tão rápido e seu sotaque era tão forte que tiveram

dificuldades de entender.

— Meu irmão Johnny morreu em Sacramento e, depois, meus dois melhores amigos

morreram na floresta fétida do Panamá e eu queria morrer também, mas tinha a carta

sobre o anjo, então continuei o caminho. Todos aqueles índios enganadores, os barcos

furados, o calor, as cobras e crocodilos, os macacos e o vapor horrendo se elevando do

rio fétido como espíritos do mal... No final, só eu desci em Chagres, aguardando para ser

pego por qualquer navio velho. Eu paguei uma pepita pela minha passagem, pois havia

prometido para o homem do circo que entregaria a carta pela segurança do anjo. E foi só

por isso que tive forças de colocar um pé na frente do outro, sem parar. Não fosse isso,

acho que teria deitado em Chagres e morrido.

— Por quanto tempo ficou no Panamá? — Ela percebeu que ele não queria mais falar

sobre o assunto, mas ela não conseguia parar, pois só conseguia pensar naquilo. — Eu

não o aborreceria, Danny, mas talvez consigamos alguma pista sobre a minha filha, pois

me parece que vocês dois devem ter estado no Panamá na mesma época. Você é a única

pessoa, Danny, que pode nos ajudar.

Ele balançou a cabeça, devagar, concordando com ela. Mas, em seguida, meneou a

cabeça.

— A senhora quer saber as datas? Não notamos o passar dos dias. É claro que eu não

vi o anjo ou já teria contado a vocês.

— Você chegou e logo partiu? Ou ficou no Panamá por um tempo?

Ele negou com a cabeça.

— Ficamos lá por um tempo. Queria que não tivéssemos parado. Meus companheiros

e eu ficamos por alguns dias. Acho que nos embebedamos antes de retomarmos a viagem.

— Será que poderia tentar se lembrar de algo?

Ele concordou dessa vez, mas parecia incerto.

— Tipo o quê?

Cordelia tentou se controlar. Estava sendo ridícula. Do que ele poderia se lembrar?

— Onde fica a sua casa, Danny?

— Cherry Street, perto do rio. A senhora não gostaria de conhecer o lugar.

Cordelia ouvira Arthur Rivers falar de Cherry Street. Não fora lá que ele vira um vidro

cheio de orelhas humanas conservadas em álcool? Engoliu em seco.

— Você gostaria que eu tentasse entrar em contato com alguém de lá? Alguém de sua

família? — Ele riu, o que causou um som engraçado em seu peito.

— Acho que lá não é um lugar adequado para pessoas como a senhora.

— Posso ir, encontrar alguém e trazê-los até aqui, se você quiser.

— Pode deixar que eu vou. A senhora não conseguiria, não pode ir até lá.

Ele tentou se levantar da cama. Blossom o deitou de volta com mãos gentis.

— Não, Danny — disse Cordelia. — O médico disse que você ainda tem de descansar.

Esteve muito doente.

— Ora, madame, eu sou assim mesmo! — Ele pensou por um momento. — Se a

minha mãe e o meu irmão viessem, se é que ainda estão vivos, pois parti há quase dois

anos, mas se ainda viessem, poderiam me levar para casa. — Ele mordia o lábio inferior.

— Tenho de contar a eles sobre a morte de Johnny e acho que seria melhor fazer isso em

casa. — E ela viu que ele estava sofrendo de novo. — E meus companheiros — continuou

ele. — Tenho de contar para os pais deles. — E começou a chorar de novo.

— Tentarei ir agora mesmo — prometeu Cordelia, em tom suave. — Talvez você ainda

não tenha forças para ir para casa, mas, pelo menos poderão se ver. Onde em Cherry

Street?

— Paradise Buildings, Cherry Street. Pergunte por Bridget O’Reilly e Kenny O’Reilly. —

Levou as mãos à cabeça.

— Irei agora mesmo — repetiu ela, seguindo para a porta. — Bridget e Kenny O’Reilly,

Paradise Buildings. Enquanto eu estiver fora, será que poderia tentar se lembrar de algo?

Sobre o Panamá. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Qualquer informação pode ser de

grande ajuda. — Então, de repente, percebendo a angústia do irlandês, ela se forçou a

deixar seu sofrimento de lado e perguntou: — Você sabe aquilo que viu a minha filha

fazer no circo? O mesmerismo? Você se lembra?

Ele ergueu os olhos.

— Sim — respondeu. — Costumávamos brigar para ser o próximo da vez. — Esfregou

o nariz com o braço. — Meu irmão Johnny — começou ele, falando rápido. — Johnny

estava muito mal e ela apenas passou as mãos acima do seu rosto e ele se acalmou,

mesmo depois que acordou e sabíamos que estava morrendo. É por isso que eu a chamo

de anjo. Ela tornou a morte dele melhor. Ela fez isso, então, eu tinha de trazer a carta.

Então, o corpo dele todo se retesou de sofrimento e Blossom tentou acalmá-lo.

Cordelia entrou no quarto e ficou ao lado da pequena cama.

— Ouça com atenção, Danny — começou ela. — Entregue-se aos meus cuidados. — Ela

respirou profunda e longamente, então, sobre o corpo magro, ansioso e agitado, fez os

longos movimentos dos passes do mesmerismo, concentrando-se apenas em Danny, em

sua dor, enquanto passava as mãos repetidas vezes, sem parar e, bem devagar, ele

começou a se acalmar e, mesmo depois de um tempo, Cordelia não parou os

movimentos até que os olhos dele se fechassem e ele adormecesse.

Blossom olhou para ela com olhos arregalados.

— A senhora é uma bruxa? — sussurrou ela.

— Você sabe que não sou uma bruxa, Blossom! É como... É como ir ao médico. Isso

se chama mesmerismo — explicou ela. — Às vezes, ajuda as pessoas, faz com que se

acalmem por um tempo. Ele deve dormir um pouco agora e eu tentarei encontrar alguém

que o conheça.