O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 46 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 45

 

Havia seis barcos da polícia aguardando. Todos apagados; cada barco contava com dez

policiais espremidos no espaço disponível. Esses barcos aguardavam atrás da estreita

península de Sandy Hook, na extremidade final do porto de Nova York.

Havia outros seis barcos da polícia aguardando, sem qualquer iluminação (ocultos

pela terra), quando vários conjuntos de remos quase silenciosos mergulharam na água

escura do porto, também seguindo para Sandy Hook.

A lua apareceu e foi oculta pelas nuvens, deixando as águas uma vez mais na

escuridão.

Existem vários tipos de sons na água durante a noite: às vezes, um peixe dá um salto; e

o mar sempre vai e volta em um constante shshshshshshshshshshshsh na praia: indo e

voltando, de forma gentil, e na escuridão da noite calma, como aquela,

shshshshshshshshshsh. É possível ouvir claramente as vozes na água à noite. O som abafado

dos remos poderiam ser peixes ou as ondas quebrando na praia; as vozes talvez

pertencessem a um barqueiro ou a pessoas na terra escura: quase sempre é difícil

determinar.

A lua apareceu por entre as nuvens novamente, iluminando as pequenas ondas.

E eles ouviram a distância. O som de um vapor de rodas cortando as águas: o som de

um navio a vapor.

Na escuridão, os barcos policiais trocaram sinais entre si, mas não emitiram qualquer

som.

Nos outros barcos, os remos estavam na água, para a frente e para trás, quase sem

barulho enquanto ouviam a aproximação do navio que aguardavam. Aproximando-se. Os

barcos a remo não viam os barcos policiais, assim como os barcos da polícia, ocultos

atrás da terra, também não viam os barcos a remo.

O único som a quebrar o silêncio da noite era o shshshshshshshshsh contínuo,

enquanto as ondas iam e viam, estimuladas pelo vento noturno. Shshshshshshsh: o som do

mar.

Então, conseguiram ver lampiões se aproximando de Sandy Hook. À medida que se

aproximavam, sem, de forma alguma, se esconder, viram que, realmente, se tratava de

uma balsa para abastecimento de carvão. No meio da noite.

As nuvens ora ocultavam a lua, ora a mostravam.

O som do navio a vapor com rodas de pás ficou cada vez mais alto e a sombra do SS

O som do navio a vapor com rodas de pás ficou cada vez mais alto e a sombra do SS

Scorpion se aproximava — então, o som diminuiu até o silêncio cair sobre a noite.

Ouviram o barulho da âncora sendo jogada ao mar.

À medida que a balsa de abastecimento se aproximava chamando o Scorpion, como se

fossem abastecer naquele horário estranho, os barcos a remo saíram lentamente do lugar

em que estavam; os remos movendo-se de forma silenciosa na água, sem serem detectados

sob os gritos dos homens da balsa e as respostas dos homens a bordo do Scorpion.

Sombras se moviam pela água.

Sombras inesperadas: sombras de homens, dos barcos a remo, que subiam agora

pelas cordas da âncora na escuridão, sem serem vistos pelos homens do Scorpion ou da

balsa de carvão, mas certamente vistos pelo detetive-inspetor Arthur Rivers.

Foi apenas quando viu as sombras que Arthur Rivers compreendeu o perigo de tudo

aquilo. Emitiu um assovio baixo, bem baixo. Não havia uma gangue, mas sim duas. Em

vez de caixas sendo transferidas de forma discreta do Scorpion para a balsa de carvão, os

inesperados Garotos do Alvorecer em seus barcos a remo tinham seu próprio plano:

entrariam em uma batalha com quem quer que tenha se associado com a balsa: uma outra

gangue estava invadindo o território deles.

O inspetor Rivers sentiu o coração disparar, Gwennie estava no meio de tudo aquilo.

Passou a informação para seus homens: os pequenos barcos de polícia estavam prontos.

Frankie Fields, no mesmo barco que o chefe, também sentiu o coração acelerar no peito:

aquele não era o lugar que escolheria para o seu próximo encontro com a Srta. Gwenlliam

Preston, que permanecera em seu coração e lhe mandara mensagens do outro lado da

América.

Cada um dos barcos da polícia carregava um lampião bem grande. Arthur Rivers

murmurou algumas instruções e, então, apenas o seu barco partiu, sozinho, em direção à

outra extremidade do Scorpion. O barulho da balsa de abastecimento abafava o som do

barco de Arthur. Quando seu barco estava nas sombras, deu o sinal: um assovio alto. Na

hora, cinco lampiões a óleo se acenderam enquanto os barcos da polícia avançavam e

iluminavam o Scorpion: as cenas que se passavam na água se tornaram mais claras, pois,

de certo, não havia carvão. Homens escalavam por cordas, como macacos, para subirem a

bordo do Scorpion; outros homens levavam caixas para a balsa de abastecimento; gritos

selvagens se ergueram no ar da noite quando gângsteres se deram conta de que havia duas

gangues naquele momento e não apenas uma. Quando dois homens se encontraram e não

gostaram do que viram, a lâmina de uma faca brilhou e um corpo caiu na água. A polícia

gritou e se aproximou dos barcos a remo. Iniciou-se a batalha. O som de um tiro ecoou

de um dos barcos.

Havia várias cordas na extremidade do navio a vapor e caixas estavam sendo

transportadas; enquanto três policiais lidavam com uma caixa, Arthur Rivers e Frankie

Fields rapidamente subiram a bordo do Scorpion.

Ele tinha de arriscar:

— Gwennie! — chamou. — Gwennie!

Ouviu o som de passos apressados, lutas, mas nada de Gwenlliam.

Desceu as escadas de ferro a caminho das cabines de passageiros: com certeza, estarão

em uma cabine de primeira classe, caso contrário, Gwennie teria de compartilhar uma cabine

com outras mulheres e o Sr. Doveribbon não permitiria isso, não é mesmo? Ou será que estava

dividindo a cabine com ela?

Os passageiros ou emergiam, aterrorizados, de suas cabines, ou trancavam suas

portas. Todos pareciam temerosos do que acontecia no deque superior: ainda nem sinal

de Gwennie.

As cabines de primeira classe: tinha de ser esse corredor. Tinha de ser. Ele gritou:

— Gwennie! Gwennie! Onde você está? — Ouviu, na hora, uma batida nervosa mais

adiante no corredor e, então, pensou ter ouvido um grito abafado. Em algum lugar

daquele corredor estreito. — Gwennie! — chamou uma vez mais. — Preciso saber onde

você está! — E, da cabine, próxima ao fim do corredor, ouviu o som de uma pancada. Ali?

Talvez? Com Frankie ao seu lado, não pensou duas vezes; usou seu corpo para arrombar

a porta da cabine, que cedeu, parcialmente, ao primeiro impacto. Frankie também usou o

próprio corpo e a pequena porta arrebentou e se abriu. Lá estava: Gwenlliam, presa por

um homem que brandia uma barra de ferro e uma faca. Estava amordaçada por algo que

parecia um guardanapo amarrado com um nó de gravata. O rosto sangrava, os olhos

estavam arregalados e aterrorizados. Ela o viu e tentou escapar, jogar-se na sua direção,

lágrimas escorriam pelos seus olhos. Ela tentava dizer algo, mas ele não conseguia

entender. Foi Frankie que, naquele momento, derrubou o Sr. Doveribbon: atirou-se em

direção ao homem e à barra. A faca voou pela cabine e o Sr. Doveribbon gritou e caiu

sobre a cama e, então, ficou em silêncio, atingido pela própria barra de ferro e por

Frankie Fields.

— Pegue ela! — ordenou Arthur para Frankie, desfazendo o nó da gravata e retirando

o guardanapo.

— Mamãe! — gritou ela, assim que conseguiu falar. — Onde está a minha mãe? Eu

encontrei o cabelo dela! Ele está carregando o cabelo dela!

Rapidamente ele a abraçou.

— Ela está viva e bem, aguardando por você em Maiden Lane! — Mas notou que ela

olhava para ele sem acreditar. — Eles cortaram o cabelo dela, mas não a mataram, Gwennie

— contou, com tom gentil, e só então ela se permitiu abraçá-lo, enquanto as lágrimas

escorriam pelo seu rosto e tremia, sua menina amada. — Leve-a em segurança para a praia

— disse ele para Frankie. — Não pense em mais nada. Vá com ele, querida menina —

pediu rapidamente para Gwenlliam. Frankie não precisou ouvir mais nada, embora

Gwenlliam olhasse para Arthur parecendo confusa. Mas Arthur já pegara a barra de ferro

do Sr. Doveribbon, deitado inerte, e os apressou para fora.

Arthur voltou para o deque superior, onde reinava o pandemônio: homens da

tripulação lutavam com membros das gangues que também lutavam entre si e com os

policiais, tudo na escuridão quebrada pela luz dos lampiões. O capitão do Scorpion viu o

inspetor e gritou:

— Tire esses criminosos do meu navio!

O inspetor Rivers soprou seu apito bem alto para que pudesse ser ouvido sobre o

som da luta e, de algum lugar, ecoou o som de mais um tiro. Ele se abaixou encostado no

parapeito do convés e chamou seus homens abaixo para apreenderem a balsa de

reabastecimento e levá-la até o ancoradouro para ser revistada; chamou seus homens a

bordo do Scorpion e ordenou que cercassem os membros das gangues e da tripulação.

Alguns dos homens que lutavam correram para o parapeito do navio e pularam na água

escura.

— Destruam os barcos a remo também — ordenou o inspetor. — Alguém lá embaixo

tem uma arma. Vamos deixá-los nadar. — Então, voltou-se para o capitão do Scorpion. —

Tenho de pedir para que o senhor leve seu navio até o ancoradouro.

— Mas estou a caminho de Boston! — exclamou o capitão. — E é para Boston que vou.

Não há nenhuma lei contra o reabastecimento! — E ele despertou a ira do inspetor.

— Mas, por certo, há leis anticontrabando, capitão. — E a barra de ferro desceu,

pesada, sobre o ombro do capitão. — Meu nome é detetive-inspetor Arthur Rivers. —

Exibiu o distintivo. — Ordene que seu navio seja levado até o porto, capitão — repetiu

com voz calma. — Ele será liberado amanhã de manhã se tivermos cometido algum erro.

Uma multidão de passageiros, por fim, se reuniu no convés e viu a situação de forma

mais clara.

— Existe algo que possamos fazer para ajudá-lo, inspetor? — perguntou um jovem

entusiasmado.

— Isto é um ato de pirataria — gritou o capitão. — Estou sendo atacado!

— Muito obrigado — agradeceu o inspetor Rivers. — Apenas convença o capitão aqui

que ele terá de fazer uma parada rápida em Nova York. Gostaria de me desculpar com

todos pelo drama da viagem. Se o capitão cooperar, os senhores não terão de esperar por

muito tempo.

Então, passou por cima de muitos corpos estendidos sobre o convés e entregou a

barra de ferro para o jovem que oferecera ajuda. De repente, o silêncio caiu sobre o SS

Scorpion.

Tão rapidamente quanto a violência começou, terminou.

Ou assim parecia.

A balsa de abastecimento e o Scorpion seguiram lentamente até o porto, em direção às

docas do rio East. Arthur Rivers contou os barcos da polícia escoltando a pequena

flotilha, seus lampiões a óleo iluminando o caminho: seis. Um deles bem mais à frente

dos demais, quase nas docas. Suspirou de alívio: Gwennie estava segura. De repente,

cambaleou contra o parapeito do convés, compreendendo como estava exausto, mas não

importava. A ação das gangues fora frustrada, mas, no fim, nada daquilo importava.

Gwennie estava segura.

Enviou alguém ao andar de baixo para prender o Sr. Doveribbon.

Os navios foram amarrados. Vários membros da tripulação de ambos os navios foram

levados até a prisão e diversos gângsteres foram presos — alguns deles ainda gritando

obscenidades uns contra os outros: Garotos do Alvorecer versus Coelhos Mortos e

Pangarés Terríveis combinados — estavam agora em celas. E um Sr. Doveribbon, bastante

pálido e também preso em uma cela, foi apresentado ao detetive-inspetor Arthur Rivers.

Era bastante óbvio que o Sr. Doveribbon estava aterrorizado, mas tentava esconder o

fato por trás de desafios loucos:

— Os senhores não podem me prender aqui neste sanatório de loucos, perigosos! —

exclamou ele, indicando os membros das gangues. — Isto aqui é um chiqueiro! O senhor

não tem qualquer jurisdição sobre mim. Sou um inglês.

— Assim como eu e o senhor não tinha qualquer jurisdição sobre a minha filha.

Sr. Doveribbon, apesar de todos os seus desafios, parecia chocado. Cordelia Preston se

casara com um policial. Mas — graças a Deus —, pelo menos, escolhera um inglês.

— Ouça bem e espere até entender. Tudo que fiz, eu fiz por ela. Tudo.

— Inclusive afogar a mãe dela?

— Não sei do que o senhor está falando. — Mas o policial, em silêncio, ergueu a bolsa

contendo o cabelo. Sr. Doveribbon se desesperou e sua voz se elevou como se Arthur

estivesse batendo nele, embora, até aquele momento, não estivesse. — Não tive nada a ver

com isso. Estava viajando para a América em um navio. Posso provar. Ouça, ouça bem. O

senhor também é britânico. Compreende essas coisas. Ela será uma das mulheres mais

ricas de toda a Grã-Bretanha! Tudo que fiz, eu fiz por ela.

— Não, o senhor não fez. Tudo o que fez foi por si mesmo.

— O senhor tem noção da fortuna envolvida?

— Minha filha deixou bem claro que não tinha o menor interesse em tal fortuna.

— Sua filha! Sua filha! O senhor está fora de si — declarou o Sr. Doveribbon,

audaciosamente. — Ela é filha e neta de membros da nobreza britânica!

— E o senhor será julgado por sequestro e tentativa de assassinato, Sr. Doveribbon.

Asseguro-lhe isso. Creio que lhe fará muito bem passar algum tempo na América, como

temo ser o seu destino, e reavaliar seus sentimentos em relação à nobreza.

— Não acredito nisso. Simplesmente não consigo acreditar como alguém pode recusar

metade de Gales quando a oportunidade aparece. É claro que ela não entende.

Arthur Rivers, de repente, se sentiu muito cansado.

— Boa noite, Sr. Doveribbon — despediu-se ele em voz baixa, saiu da cela e trancou a

porta, exatamente como o Sr. Doveribbon fizera tantas vezes enquanto viajava pelas

Américas.

 

Quando Arthur subiu, Frankie Fields tinha acabado de chegar à delegacia, quase chorando

de emoção por ter testemunhado as cenas de felicidade em Maiden Lane.

— Estão aguardando o senhor em casa.

Era quase de manhã.