O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 11 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 10

 

O circo: a hora dos sonhos por apenas uma noite em uma cidadezinha minúscula

chamada Hamford, a muitos quilômetros a oeste de Nova York.

Os lampiões dentro da Grande Tenda lançavam uma luz quente, suave e singular,

atraindo a multidão ao entardecer a atravessar a plantação em direção a um lugar mágico e

encantado: o circo. Nas sombras da parte de trás da tenda, sem ser visto pelo público que

a lotava, havia um elefante indiano. Orelhas pequenas, presas de marfim, olhos

melancólicos e inteligentes: o elefante aguardava com muita paciência. A tromba estava

enrolada na alça de um grande cesto sobre rodas, que nada mais era do que a versão de

Silas P. Swift de uma dessas novas invenções chamada carrinho de bebê. Dentro do

carrinho, havia um pequeno bebê elefante: as orelhas escapavam de um gorro de tricô

feito especialmente para ele e a pequena tromba balançava de um lado para o outro.

A multidão dentro da tenda sentia o cheiro de lona e serragem, de animais exóticos e

lampiões, enquanto gritavam uns para os outros, todos ávidos e impacientes. Homens

cuspiam grandes talos de fumo mastigado os quais pousavam sobre as paredes da tenda e

escorriam lentamente, deixando manchas escuras na lona. Mulheres com chapéus

coloridos chamavam suas amigas em tom alto e ansioso, rindo e acenando; crianças

brincavam no chão; ninguém parecia se preocupar com a lama nas botas, nos vestidos ou

no rosto, enquanto aguardavam, sentados ou em pé. Mal continham a animação,

enquanto olhavam a serragem que cobria o picadeiro iluminado por lampiões e para os

trapézios, presos no teto alto, tão silenciosos, sombrios e estranhos.

A chegada do circo foi o acontecimento mais excitante em Hamford. Como esperaram:

fazendeiros e comerciantes, cordoeiros e ferreiros, curtidores de couro e marceneiros e

suas esposas e filhos; como esperaram pelo dia em que eles entrariam na cidade ou

caminhariam pelas estradas solitárias até a rua principal, onde os donos de loja logo

fechariam seus estabelecimentos ou puxariam suas carroças de mercadorias e todos se

apressariam para a Grande Tenda que aparecera de forma milagrosa naquela tarde no

campo — erguida logo depois da procissão exótica e brilhante do circo pela rua principal,

com a banda tocando alto. As pessoas de Hamford fizeram fila para pagar enquanto o

mestre de cerimônias do circo, com sua casaca vermelha, gritava pelo megafone e pegava o

dinheiro (no lugar do Sr. Silas P. Swift, que voltara às pressas para Nova York).

 

— DIRETAMENTE DA SELVA DA ÍNDIA! — gritava ele, ou: — DIRETAMENTE DO

— DIRETAMENTE DA SELVA DA ÍNDIA! — gritava ele, ou: — DIRETAMENTE DO

POLO NORTE! — ou: — DIRETAMENTE DAS ARÁBIAS! — ou: — DIRETAMENTE DO

COLISEU EM ROMA! VENHAM! VENHAM TODOS! SENHORAS E SENHORES!

VENHAM VER O LINDO BEBÊ ELEFANTE! VENHAM! VENHAM TODOS! VENHAM

VER A FANTASMA ACROBATA DIRETAMENTE DE LONDRES, INGLATERRA, QUE

APARECERÁ DOS CÉUS PARA AJUDÁ-LOS NESTA NOITE! VENHAM! VENHAM

TODOS, SENHORAS E SENHORES! APENAS 40 CENTAVOS. AS CRIANÇAS PAGAM

APENAS 20 CENTAVOS! VENHAM VER O INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P.

SWIFT!

Naquele momento, na tenda, o barulho da multidão que aguardava ficava cada vez

mais alto: então, de repente, a banda entrou. Homens vestindo uniformes azuis brilhantes

(talvez os únicos uniformes tolerados nos Estados Unidos fossem os de músicos de

banda) começaram a tocar uma música e, quase ao mesmo tempo, o mestre de cerimônias

do circo, usando casaca vermelha, cartola e carregando um grande chicote (o dinheiro

trancado em um grande cofre em uma das carroças), adentrou o centro da tenda pulando

sobre um palco bem iluminado. O público, sentado nas tábuas de madeira, aplaudiu e o

mestre de cerimônias ergueu o chapéu em saudação. Então, usou o chicote: CR ACK!

CR ACK! E o som reverberou ao redor da Grande Tenda. E sempre, de alguma forma,

nas pequenas e grandes cidades de todo o país, sempre acontecia a mesma coisa: as

pessoas prendiam a respiração porque chegara o momento, tudo em volta deles era como

um sonho. A magia do circo.

Os palhaços com rosto branco e grandes sorrisos vermelhos, narizes de borracha e

sapatos enormes surgiram das sombras, gritando sobre a banda, rindo e chamando as

pessoas de Hamford, que imediatamente gritavam de volta, Oi! Olá! Os palhaços devam

saltos mortais e cambalhotas, tropeçavam nos próprios sapatos e batiam uns nos outros;

faziam malabarismo com pequenas bolas coloridas, as quais, às vezes, jogavam para o

público, que lutava bravamente entre si para possuir tal tesouro. Os palhaços carregavam

uma grande rede, como a de um pescador: às vezes jogavam um ou outro na rede para o

delírio do público, principalmente das crianças, jogavam a vítima para cima e para baixo e

ela parecia voar de forma desajeitada: B R AVO ! VIVA!

Depois de o chicote estalar mais duas vezes, um cacique entrou galopando no

picadeiro com um penacho adornando-lhe a cabeça, o rosto pintado, brincos nas orelhas

e cordões no pescoço: controlava doze cavalos com cobertores coloridos. Todos os

animais circundaram o picadeiro, trotando cada vez mais rápido, seus cascos levantando

lama e serragem; então, a um comando do cacique, todos ergueram os cascos dianteiros

de forma graciosa seguindo o ritmo da banda: cavalos dançarinos! O público,

independentemente do que pensasse sobre os índios pele vermelha, ficou impressionado.

Então, logo que os cavalos se curvaram — vejam os cavalos estão fazendo uma reverência! —

o triste elefante mencionado anteriormente, com as orelhas balançando, surgiu das

sombras, empurrando com a tromba um grande cesto sobre rodas. O bebê elefante foi

logo visto e o público gritou extasiado: Ooooooooh!, exclamavam eles, ele veio da selva indiana! Aaaaaaah, veja que gracinha o pequeno! Vejam, vejam a touca de tricô! Que fofura!

O mestre de cerimônias do circo com seu casaco vermelho fez um movimento: CR ACK!

Estalou o chicote e o elefante que empurrava o seu bebê no cesto sobre rodas parou por

um instante e ficou em pé sobre as patas traseiras, como os cavalos haviam feito antes, e

acenou com a tromba. Então, delicadamente, pousou as patas dianteiras no chão, colocou

a tromba sobre a alça do carrinho e caminhou calmamente pelo picadeiro: os olhos

sábios observavam o público; eles podiam ver a pele cinzenta, enrugada e marcada do

elefante. Os cavalos, mantidos juntos pelo cacique que falava com eles em tom tranquilo,

como se fizesse um encantamento, tocaram os guizos nos arreios e a banda continuava a

tocar.

— A Rainha Vitória da Inglaterra encomendou três dessas novas invenções: o carrinho

de bebê! — anunciou o mestre de cerimônias de forma triunfal pelo megafone que

amplificava sua voz, e a multidão gritou novamente.

Mencionar a rainha da Inglaterra era sempre uma aventura, não dava para saber a

reação que causaria. Naquela noite, o grito da multidão foi de zombaria: ela deve ter tido

bebês gigantes! Hahaha! Mas o mestre de cerimônias (encorajado por Silas P. Swift) gostava

de provocar, elevando a animação aos níveis mais altos possíveis.

Agora, engolidores de fogo saíram da escuridão; anões apareceram logo atrás deles,

pulando uns nos ombros dos outros, fazendo malabarismo com tacos de madeira; um

camelo corcunda e exótico foi levado para o centro do picadeiro, seus olhos piscavam por

causa das luzes. E, sempre, entre os gritos de B R AVO ! e VIVA!, os artistas

conversavam entre si, enviando mensagens uns para os outros sobre os números, sobre o

público, contando piadas, cronometrando tudo cuidadosamente — usando a conversa

constante, secreta e regular do circo. O camelo balançou de um lado para o outro e andou

de forma tão delicada, coberto com valiosas e luxuosas tapeçarias (bem, na verdade,

cobertores bordados com contas brilhosas pela costureira dos figurinos). B R AVO ! As

contas brilhavam como joias sob a luz dos lampiões que iluminavam todos os cantos.

D E PÉ! O camelo elegante com sua corcunda estranha virou o pescoço comprido de um

lado para o outro como se não acreditasse no próprio destino; então, o chicote estalou

uma vez mais e o animal subiu no palco do mestre de cerimônias com suas pernas finas e

cambaleou, ainda que graciosamente, até descer do outro lado, enquanto os engolidores

de fogo corriam engolindo grandes chamas e soprando-as no ar. Os tambores rufavam

cada vez mais alto e as pessoas gritavam: Viva! Viva!

Agora, homens com jaquetas brilhantes entraram no picadeiro: os caubóis mexicanos,

os charros, seguidos por uma matilha de cães; pegaram os cavalos que os aguardavam,

galopavam por um instante em um, depois pulavam para outro, galopavam mais um

pouco e estimulavam os cavalos a correr, enquanto os cachorros latiam e os seguiam. Os

mexicanos pularam uns nos ombros de outros, formando uma pirâmide humana. O

público aplaudia, gritava e balançava no ritmo da música e os homens animados, mesmo

que os cavaleiros fossem mexicanos, cuspiam tabaco, manchando ainda mais a tenda com

gosma escura. E, durante todo o tempo, serragem e lama voando para todos os lados, gritos em espanhol se elevando no ar, cavalos suando, cachorros latindo, homens

suando, música tocando, cheiro de animais, barulho e animação: Oh! O circo!

CR ACK! CR ACK! O chicote cortou o ar: a multidão se aquietou quando duas

jaulas foram colocadas no centro do picadeiro, puxadas por dois cavalos separados e cada

qual era acompanhada por um treinador com um chicote na mão. Em uma das jaulas, um

leão rugia e, a cada rugido, o treinador, que tinha apenas um braço e vestia uma toga

romana, acertava as barras com o chicote, e o leão rugia de novo e arreganhava os dentes e

o público gritava. Algumas vezes, um cavalo se assustava e se erguia nas patas traseiras,

sendo acalmado por um som estranho feito pelo cacique. Quando o público voltou sua

atenção para uma jaula ainda maior, viram um enorme urso branco e sujo, que parecia

não ligar para o chicote e se perguntaram por que enjaular um urso? Olhem para ele! Não

fará mal a ninguém! (Tratava-se do urso que fora vendido a preço reduzido para Silas P.

Swift enganadoramente como um urso dançarino: ele dançara uma vez, é verdade, mas

nunca mais o fez). O público não conseguira ver direito os olhos pequenos e sem

expressão; talvez não soubessem que ursos brancos comem carne humana.

Os tambores rufaram e o domador de leão com um braço só se aproximou da jaula

do leão. Os tambores silenciaram: o público reteve a respiração. Um pouco antes de a

porta da jaula se abrir, o mestre de cerimônias falou em seu megafone:

— SENHORAS, SENHORES E CRIANÇAS. DEVEMOS PEDIR O MAIS ABSOLUTO

SILÊNCIO ENQUANTO O TREINADOR DE LEÃO, QUE VEIO DIRETAMENTE DO

COLISEU DE ROMA PARA ESTAR COM VOCÊS NESTA NOITE, ENTRA NA JAULA

DESTE ANIMAL PERIGOSO E SELVAGEM. QUALQUER BARULHO DA PLATEIA

PODERÁ COLOCAR A VIDA DESTE HOMEM EM PERIGO.

Houve um burburinho de vozes enquanto as pessoas falavam com seus filhos. Um

chicote estalou, dessa vez, o do treinador de leão: silêncio. Então, o treinador destrancou

a jaula com sua única mão e entrou. O leão arreganhou os dentes para ele, mas não emitiu

qualquer som: na tenda lotada era possível ouvir um grampo cair no chão. Então, o

treinador, com movimentos bastante suaves, posou o chicote no chão da jaula, colocou a

mão na boca do leão e a abriu bem lentamente, enfiando a cabeça entre os dentes do

animal, enquanto a mão ainda segurava a mandíbula superior da fera. Um arfar audível

veio da plateia, o mestre de cerimônias ergueu a mão em aviso. Mas, como acontecia todas

as noites, em todas as cidades, ouviu-se um grito Arranque a cabeça dele. Em uma fração

de segundos, o domador de leão estava do outro lado da jaula com o chicote nas mãos

(ele deixara a porta destrancada: era assim que funcionava, como o mecanismo de um

relógio, em todas as cidades); o leão que permanecera parado rugiu, mas rapidamente o

treinador estava fora da jaula e com a porta trancada novamente. (Na verdade, ele perdera

o braço não em um ataque do leão, mas quando uma carroça pesada o atropelara, mas

isso ninguém contava.) Ele chicoteou a lateral da jaula e o leão rugiu e atacou as barras.

Como as pessoas comemoraram! Como gritaram e aplaudiram, aliviadas! Ele quase foi

devorado! E o cheiro forte de esterco e lona, suor e animais, ficou ainda mais forte e o

leão rugia e os chicotes estalavam no ar e os palhaços gritavam e, com baldes coloridos, jogavam mais serragem na lama que se formara. O ar estava cada vez mais pesado e quente

e era tanta excitação que uma pobre senhora desmaiou e teve de ser carregada para fora,

passando de mão em mão sobre a cabeça das pessoas como um pacote, seu pequeno pé

calçado com uma bota saindo pelas saias de forma tão imprópria que alguns cavalheiros

no público se animaram.

Mas a senhora com a perna desnuda logo foi esquecida, quando os tambores rufaram

novamente. Surgiram dois acrobatas: um homem enorme e musculoso com um bigode

extremamente grande e uma garota bonita com a cabeça adornada com uma tiara:

B R AVO ! Eles correram para o círculo bem iluminado, acenando para o público,

resplandecentes em suas fantasias coloridas e brilhantes. Pularam nas traves da tenda e

subiram até chegar aos trapézios pendurados no alto: B R AVO ! Eles deram saltos

mortais entre as barras com uma facilidade perfeita, balançando cada vez mais rápido. O

grande acrobata, que gritou para a menina em francês e parecia particularmente atlético e

audacioso, era conhecido como Pierre l’Oiseau: Pierre, o Pássaro. A garota usando a tiara

saltou em direção a ele: Olhem para ela com uma coroa. Ela acha que é uma princesa! Mas

ela é bonita e inteligente, não é? O francês a pegou e pareceu jogá-la de novo para o outro

trapézio: B R AVO ! B R AVO ! A plateia estava animadíssima e havia uma vibração no ar:

e se eles caírem? Só havia serragem no picadeiro. Os espectadores arfaram quando pareceu

que ele não conseguiu pegá-la com uma mão e a pegou com a outra: ela poderia facilmente

ter caído! Muitos deles, fiéis da igreja, se esqueceram por um momento que aquele

comportamento desonroso, com pessoas com pouca roupa, era exatamente o que os

pastores criticavam, tão arrebatados estavam com a coragem e a habilidade dos artistas.

Agora, uma longa vara foi entregue à garota com a coroa brilhante: ela deixou a segurança

do parceiro e começou a caminhar por um longo cabo horizontal, quase invisível, usando

apenas uma vara fina para se equilibrar. Os pés protegidos por sapatilhas cor-de-rosa. A

plateia arfou: será que ela vai cair? Talvez quisessem que caísse para acrescentar emoção —

certa vez, uma trapezista caiu aqui em Hamford. O médico na plateia não pôde fazer nada

por ela. Morreu aqui em Hamford e isso seria assunto por muitos e muitos meses. E esse

pensamento acrescentava frisson, enquanto observavam a princesa colocar um pé na frente

do outro em silêncio emocionado. Ela chegou à outra extremidade do cabo, virou-se e

começou o caminho de volta. Então, parou de repente, pareceu perder o equilíbrio,

deixou a vara cair no chão e correu, realmente correu pelo cabo, até chegar aos braços

carinhosos de Pierre, o Pássaro: VIVA! E eles acenaram de forma graciosa para o

público. E todos acenaram de volta e comemoraram! Como gritaram de alegria! Então,

com leveza, os dois acrobatas se separaram e se penduraram sobre a plateia, de cabeça

para baixo, balançando devagar, enquanto a multidão aplaudia e gritava e batia com os

pés, acompanhando o ritmo da banda.

Depois, de forma repentina, a banda parou de tocar, a não ser pelos tambores que

rufaram novamente. Dessa vez, porém, o som parecia ameaçador. E, de alguma maneira (o

público ficou inquieto olhando ao redor), as luzes diminuíram, muitos dos lampiões

devem ter sido retirados ou a intensidade da chama reduzida. Os aplausos da plateia se reduziram, o leão se virou de repente na direção de um som diferente. Os outros animais

ficaram parados no picadeiro.

De alguma forma (não ficou muito claro como), podiam ver um outro acrobata

sombrio acima deles: uma figura que definitivamente não estivera ali antes bem no final do

cabo da acrobata . Era quase impossível: como chegara ali? Os outros dois ainda balançavam

nos trapézios; a figura sombria estava meio encoberta pela escuridão na outra extremidade

ficou parada ali, nas alturas, sem se mover. A multidão não conseguia entender: como

chegara ali? Então, o que quer que fosse desapareceu completamente nas sombras, em um

lugar que — certamente? — não havia trapézios. E no silêncio enfeitiçado, os tambores

rufaram — e agora, na parte de baixo do mastro da tenda, a mesma figura reapareceu.

Parecia um fantasma. Um silêncio assustador tomou conta do lugar. O fantasma se moveu

devagar, parecia flutuar até a luz: tratava-se de uma figura envolta em xales. O mestre de

cerimônias do circo desaparecera, e a figura subiu no palco vermelho bem no centro do

picadeiro. Até mesmo o leão estava em silêncio agora: apenas o cheiro dos animais, da

multidão e de lama, tudo misturado com serragem, lona e cordas. Algo sobre a figura de

pé fez com todos na tenda quente e suada prendessem a respiração, enfeitiçados.

Então, o fantasma falou.

Ela (pois, na verdade, era uma mulher) falou com uma voz acostumada a preencher

lugares amplos: de alguma forma, ela falou sem gritar, usando um tom baixo, mas que foi

claramente ouvido por todos.

— A dor de quem posso aliviar aqui? — perguntou a fantasma.

Era esse o momento específico que os espectadores aguardavam. Já haviam ouvido

falar daquilo: ocorreram algumas brigas, homens começaram a gritar e as pessoas

empurravam para frente ou eram carregadas por outras pessoas. Aqui! gritavam as

pessoas. Aqui!

Naquele momento, o leão, zangado, começou a rugir tão alto e a bater a cabeça contra

as barras da jaula que o treinador teve de estalar o chicote para o cavalo que puxava a

jaula, para que a levasse para as sombras e para os fundos (essas eram instruções

rigorosas do gerente para o caso de o leão atrapalhar os procedimentos) e o rugido foi

ficando mais distante à medida que a jaula desaparecia, mas ainda podia ser ouvido,

soando tão estranho na noite de uma pequena cidade na grande e nova América.

O urso que comia seres humanos e não dançava não emitiu nenhum som sequer no

lugar onde sua jaula havia sido colocada no picadeiro. A mamãe elefante batia as orelhas

levemente. Algumas vezes os cavalos ao lado do cacique sacudiam as rédeas e os pequenos

guizos brilhavam e soavam nas sombras.

A figura fantasmagórica agora fez um gesto lento e gracioso para cima, seus xales

drapejados cintilaram quando se virou na direção da princesa que agora estava de pé no

trapézio.

E algo aconteceu entre a fantasma e a princesa. Nada foi dito: ainda assim algo

aconteceu, quase como se os espectadores tivessem visto, mas nada viram. Muitas pessoas

estremeceram, desconfortáveis, e se inclinaram, buscando conforto na proximidade dos amigos e da família. Algo silencioso, não dito e o som baixo dos tambores. Então, de seu

ângulo de visão vantajoso, a princesa indicou algo para a fantasma. Ela apontou, apenas

uma vez, em direção a alguém que havia sido trazido para a frente da plateia.

Esta parte poderia parecer duvidosa para aqueles que não acreditavam em fantasmas

ou em poderes mágicos, talvez alguém pudesse ter sido plantado na plateia especialmente

para isso. Mas ali não era Nova York, era Hamford, a muitos quilômetros a oeste de Nova

York; uma cidade agrícola com plantações de milho com menos de oitocentas almas e a

maioria delas se encontrava ali naquela noite — a tenda comportava seiscentas pessoas e

estava lotada. Aqui as pessoas se conheciam ou conheciam alguém que conhecia: não dava

para enganar as pessoas de Hamford. “Nenhuma falsidade escapa às pessoas de

Hamford!”, sempre diziam uns aos outros. Ninguém poderia ter sido colocado na plateia

como um truque, pois as pessoas sensatas e animadas de Hamford teriam notado na

hora, o que causaria uma revolta.

Então, quando a acrobata apontou para alguém na plateia, os espectadores se voltaram

para olhar uma mulher pequena e pálida sustentada por duas outras mulheres e um

homem.

— Ora, mas é a Emily — sussurravam uns aos outros. — Ora, mas é a pobre Emily.

A novidade se espalhou rapidamente em sussurros pela multidão. Todos conheciam a

pobre Emily; seus dois filhos pequenos queimaram até a morte na nova e linda casa de

madeira pintada de branco. Emily enlouquecera como consequência. Sua cabeça doía

tanto que não conseguia suportar a dor e balançava-a sem parar, andando pelas ruas de

Hamford, chorando, lamentando e causando muitos problemas para a família. Mas nunca

mencionava os filhos, então, os lamentos se tornaram incoerentes e — as pessoas

comentavam entre si — ela enlouquecera. Ela precisa ser levada para algum lugar, diziam os

moradores de Hamford, embora não soubessem para onde.

— Tragam-na para mim — pediu a figura fantasmagórica em pé no palco, bem no

centro do picadeiro, em tom sombrio e estranho.

A mulher pálida e perturbada, obviamente sentindo dor, foi levada, meio carregada na

verdade, até o centro do picadeiro e os tambores pararam o rufar grave. Em silêncio, uma

cadeira foi colocada no palco e a família que acompanhava a mulher a ajudou a subir. O

homem tentou sentá-la na cadeira, mas ela se arremessou em direção à figura envolta em

xales.

— Minha cabeça dói! — exclamou ela, balançando a cabeça. — Minha cabeça não para

de doer! — E, de forma bem clara, a multidão silenciosa ouviu o fantasma dizer:

— Entregue-se aos meus cuidados.

Talvez fosse algo na voz ou talvez fossem as palavras: Emily permitiu que a colocassem

na cadeira, embora ainda balançasse a cabeça de um lado para o outro. A família, a um

sinal da figura etérea, se afastou do palco e ficou em pé, sem se mover, sobre a serragem

do picadeiro. Nas sombras, um cavalo bateu com o casco no chão e espichou o pescoço;

o tilintar dos guizos presos aos arreios quebrou o silêncio. A figura envolta em xales

lentamente desenrolou os que estavam em volta do seu rosto: as pessoas mais próximas viram uma mulher bonita de cabelos escuros, tez pálida e uma estranha mecha de cabelo

branco na parte da frente. Os xales caíram no palco, o fantasma se aproximou de Emily,

que a encarou, mesmo enquanto a cabeça balançava de um lado para outro. A figura,

inclinando-se um pouco, começou a mover as mãos um pouco acima da cabeça da

mulher e da parte superior do corpo, fazendo longos movimentos com as mãos e os

braços, repetidas vezes, em ritmo constante, sem parar, e seus olhos não se afastavam dos

de Emily. Parecia talvez sussurrar algo para Emily enquanto trabalhava — a multidão não

conseguia ouvir as palavras. A cabeça da mulher ainda se movia, percebeu a plateia, mas

ela estava tranquila.

Então, pareceu que a pobre Emily, triste e pálida, adormecera. Os braços caíram

soltos ao lado da cadeira e a cabeça tombou para trás. Ainda assim, a figura sobre ela não

parou os movimentos das mãos, repetindo-os sem parar, por alguns minutos, às vezes

murmurando algo para Emily. A multidão estava em silêncio: apenas a respiração

excitada, uma tossida, uma pergunta de criança em voz alta; em certo momento, o elefante

bramiu o que fez o público se mexer um pouco, mas ainda assistiam ao que acontecia no

centro do picadeiro. Por fim, a figura misteriosa, envolta em xales, diminuiu os

movimentos, ficou parada sem se mover, observando a jovem pálida, observando a pobre

Emily a quem todos conheciam.

Como se recebesse um sinal (o que talvez tenha acontecido, afinal, isso tudo não

passava de entretenimento), a banda começou a tocar novamente. Às vezes, Silas P. Swift

pedia que um hino religioso fosse tocado naquele momento, apenas se houvesse alguma

interrupção de algum pastor ou seguidor da igreja desaprovando os procedimentos (e

essa era a parte que eles mais reprovavam de todo o número, pois milagres e uso das

mãos para suposta cura — com bastante ênfase naquilo — era totalmente inaceitável a não

ser que fosse realizado por Deus). Naquela noite, porém, não houve qualquer

interrupção, então, a banda começou a tocar, mas bem baixinho, uma versão bem

açucarada de “Home, Sweet Home”. O elefante bramiu uma vez mais — talvez em resposta

à corneta da banda — e a plateia riu nervosa, mantendo os olhos na mulher adormecida.

Ela não se moveu.

Depois, aconteceu algo estranho — mas não para os artistas do circo, pois isso

acontecia todas as noites em todas as cidades pequenas —, o público reconheceu a música

e começou a acompanhá-la, primeiro apenas cantarolando com a banda e depois cantando

as palavras, bem baixinho:

 

Mid pleasures and palaces,

Wherever we may roam

Be it ever so humble

There’s no-o place like home.*

Cantavam os moradores de Hamford suavemente.

Então, a mulher, a pobre Emily, cujos filhos morreram queimados, acordou.

A banda parou de tocar ao final do último verso e as vozes foram silenciando.

Não foi de forma repentina, assustada ou de uma vez só — mas como se voltasse de

um sono profundo —, a pobre Emily acordou: eles a viram se mexer; o homem que

estava próximo, o pai dos filhos que morreram, viu que o rosto pálido da esposa estava

corado. A mulher olhou para a fantasma — isto é, para a figura envolta em xales

novamente — e o público ouviu o longo suspiro de Emily. A cabeça estava parada.

Trêmula, sorriu para a dama de xales.

— Sim — disse ela, como se respondesse a uma pergunta enigmática, e se voltou para

o marido.

E, o público surpreso viu o marido segurando a esposa pelo braço — mas ela andava

sozinha, sem ser carregada e sem balançar a cabeça —, enquanto Emily e a família saíam

da tenda em uma procissão silenciosa até mergulharem na escuridão. E quando o público

(aquelas pessoas que conheciam Emily e seus bebês, seus problemas e assistiram a toda

cena com grande espanto) olhou de volta para o palco vermelho, ele estava vazio. A

fantasma se fora — não, ali estava ela, meu Deus, lá em cima de uma das barras de balanço

com os outros dois acrobatas, vejam! Vejam a figura sombria! A figura sombria, aquela

fantasma, estava em pé em um trapézio acima deles, balançando para a frente e para trás,

das sombras para a luz, que, de alguma forma, diminuiu ainda mais e, então, ouviu-se um

estrondo de tambores que fez a plateia gritar em choque e, quando olharam de novo, o

trapézio estava vazio. Em silêncio fascinado, as pessoas assistiram ao trapézio se mover

cada vez mais devagar, até que, por fim, parou.

O público demonstrou sua aprovação com gritos e aplausos, e a banda começou a

tocar uma animada marcha ianque, e todo o circo: animais, treinadores, engolidores de

fogo, anões, palhaços, cavalos e o cacique, todos circundaram o picadeiro. Os caubóis

mexicanos carregavam alguns lampiões, acenando com eles no meio da plateia: a tenda

estava cheia de sombras estranhas e de mágica. O elefante e seu bebê e o novo carrinho se

juntaram ao círculo — todos brilhantes e glamorosos — todos em torno do picadeiro

mágico do circo do Sr. Silas P. Swift em turnê e, de repente, acima deles, a princesa e o

grande francês Pierre, o Pássaro, estavam de pé no trapézio acenando sua despedida para

o povo de Hamford. Mas a fantasma já havia partido.

 

O público, suas vozes ainda cheias de animação, saiu da tenda e caminhou junto sob o

clima agradável da primavera. A lua quase cheia banhava o campo e várias tochas foram

colocadas para iluminar o caminho de volta. Ao verem a estrada que os levaria de volta à

vida, pareceu que um suspiro coletivo se elevou da multidão — não, não, ainda não — e

muitos se viravam uma vez mais em direção ao circo. As tochas agora iluminavam as

jaulas dos animais, as carroças e a parte externa da Grande Tenda; lá dentro, as pessoas

que realizavam o circo se moviam, lançando compridas sombras na lona; barras acrobáticas foram erguidas, estacas da tenda e argolas foram arrancadas do chão:

arrumavam tudo para seguir para a próxima cidade e o povo de Hamford sentiu um tipo

mágico de melancolia: tinham visto o circo e agora a trupe estava de partida.

Ainda assim, muitas pessoas não saíram do campo — ainda não, ainda não — e

vagaram em direção à parte de trás da Grande Tenda, atraídos pelos movimentos

estranhos e excitantes, o rugir do leão, o latido dos cães, os artistas do circo chamando

uns aos outros. Alguém cozinhava em uma pequena fogueira, o cheiro de salsicha e

cebola no ar misturando-se ao odor de esterco, lama e pessoas.

— Será que era uma fantasma de verdade? — perguntou uma criança em voz alta. —

Era mesmo uma fantasma?

— Aquela fantasma! — exclamou uma mulher, erguendo a saia para evitar a lama e a

sujeira. — Ela foi boa para Emily. Pobre Emily. Acho que li em algum lugar que ela é

prima da Rainha Vitória.

— Quem?

— A fantasma, é claro!

— Que chique! — respondeu a amiga.

— Com licença — interrompeu outra dama. — Você leu errado! Eu li que ela tentou

matar a própria rainha, por isso ela é uma fantasma!

E os homens riram.

— Bom para ela! — gritaram eles. — Abaixo a nobreza!

E começaram a cantar uma antiga canção que os pais costumavam cantar:

 

Poor Britannia!

Britannia waves the rules!

Britons ever ever ever}

Will be fools!**

 

Todos aplaudiram e cantaram juntos com vozes roucas e prontas e o leão rugiu em algum

lugar, bem mais próximo agora, e as mulheres soltaram gritos e se dirigiram à jaula do

urso. E ainda se perguntavam: será que era uma fantasma de verdade? E as esposas se

aconchegaram aos maridos. O urso encarou as pessoas com olhos inexpressivos atrás das

barras que o prendiam. Conseguiam sentir o cheiro profundo, forte e desagradável,

mesmo que muitos deles fossem fazendeiros e conhecessem o odor dos animais. O urso

tinha olhos pequenos de porco sem expressão e, de perto, os seres humanos podiam ver

pedaços de pele de onde o pelo caíra. Ele se coçou, ainda observando-os, e todos se

sentiram apreensivos.

— Bem, eu gostaria de levar este urso para casa — declarou um lojista em voz alta e

corajosa. — Ele não ruge e não se mexe muito, não é muito útil para o circo, mas poderia

comer todo o lixo na sarjeta, matar os ratos e perseguir os porcos!

Um dos treinadores passava naquele momento e respondeu:

— Aquele urso, senhor, poderia comê-lo em trinta segundos se quisesse.

Mas eles não acreditaram. Olhem como o urso branco fica quietinho apenas olhando

e, então, lentamente, como um grande balão, a tenda começou a cair.

— Aquela fantasma, ela foi muito boa para a pobre Emily — disse alguém de novo. —

Vocês viram a Emily?

— Eu vi. Eu vi a pobre Emily.

— Achei que tudo não passasse de um truque barato, mas como pode ser um

cambalacho se eles usaram a pobre Emily?

— E aquele leão perigoso! Dizem que, em Nova York, naquele museu, tem um leão

que é um homem!

— Um dia iremos a Nova York.

— Mas nós vimos um leão de verdade aqui hoje. Eu nunca tinha visto um na minha

vida. Só gravuras. Vejam! Vejam, lá está ele!

Um grupo grande de pessoas se aproximou da jaula nas sombras, mas o leão estava na

outra extremidade, com as costas voltadas para eles, comendo uma grande porção de

carne.

Com cuidado, uma das mulheres bateu nas barras: o leão, com sangue e carne

escorrendo pela boca, se virou, zangado, arreganhando os dentes para a mulher, que

agarrou o braço do marido, arfando e rindo. O leão voltou para o seu jantar. O elefante

bramiu de novo bem próximo das pessoas que se juntavam na frente da sua jaula para ver

o adorável bebê; os cães latiam, o camelo permanecia imóvel, ouviram gritos de aviso nas

sombras quando as últimas cordas e estacas foram arrancadas e a última parte da tenda

do circo flutuou para baixo, enquanto os homens a pegavam antes que caísse no chão

enlameado, enrolando a lona de modo experiente. Os palhaços passavam com seus lábios

finos sob os grandes sorrisos vermelhos pintados no rosto e os homens, por fim,

conduziram as esposas de volta para casa, afastando-se do fedor da lama do ar perigoso e

não respeitável, enquanto a lua de abril brilhava sobre Hamford.

 

Em uma das carroças, Cordelia Preston, exausta, desamarrou as almofadas ocultas sob o

vestido para lhe proteger os joelhos quando escalava o grande mastro do circo na

escuridão para o céu sombrio, onde, noite após noite, ela aparecia de forma misteriosa e

fantasmagórica. De pé ou sentada em um trapézio balançando, aprendera a lidar com

aquilo; entretanto, escalar e descer por mastros escorregadios exigia dela os limites de

suas forças, embora não admitisse isso a ninguém. Só tenho 51 anos, repetia para si todas

as noites. Tenho apenas 51 anos e desatava as almofadas.

Podia ouvir a risada da filha, Gwenlliam, enquanto chamava um dos charros.

— Hola Manuel!

— Hola Inglesa, que tal?

— Bien, gracias!

 

Gwenlliam Preston amava o circo. Amava voar pelo ar: aprendera como um pássaro e

Gwenlliam Preston amava o circo. Amava voar pelo ar: aprendera como um pássaro e

era muito boa naquilo. Conhecia as regras: não tinha senso de perigo. Voar preenchia sua

alma com uma luz clara e brilhante (era assim que descrevia a sensação para si).

Gwenlliam Preston não temia absolutamente nada. Naquela noite, a cabeça pequena e

bonita apareceu na porta da carroça onde a mãe guardava os xales esvoaçantes,

embalando-os junto com as almofadas que usava nos joelhos.

— Mãe, seguirei com a carroça do telégrafo!

E Cordelia sorriu para a filha, assoprou-lhe um beijo e continuou a guardar as coisas.

Ela se obrigava a sempre deixar Gwenlliam ir, mesmo quando queria gritar: Não! Não saia

da minha frente! E se alguma coisa acontecer com você? Ela entendera, porém, há muito

tempo, que não podia prender Gwenlliam. No passado, Cordelia também teria desejado

viajar na carroça do telégrafo. Os caubóis mexicanos, audazes e violentos em muitas

situações, tomavam conta de sua menina sempre com muito cuidado: eles admiravam sua

coragem e alegria. As velas na pequena carroça tremularam quando Gwenlliam subiu para

guardar a tiara, as sapatilhas de balé cor-de-rosa e procurar sua saia de viagem e anáguas;

fariam mais um show no dia seguinte e retornariam a Nova York, atendendo aos

chamados urgentes do homem que pagava seus salários, Silas P. Swift.

— Você acha que Silas realmente tem um grande local em Nova York para o circo? —

perguntou Gwenlliam, retirando as meias, mantendo-se distante das velas. — Talvez

recebamos mais dinheiro, mãe? — Pois sabiam muito bem quanto seus ganhos eram

necessários: era difícil receber salários tão baixos, depois dos dias de triunfo quando

eram um sucesso escandaloso. Então, Gwenlliam acrescentou: — Mesmo assim, vou

sentir falta da turnê. Adoro a primavera. Tudo é tão lindo e hoje temos uma lua quase

cheia. Mas agora resta apenas mais uma cidade.

— E voltaremos para casa, para nossa família! — E Gwenlliam pegou a pequena bolsa

com seus pertences e mãe e filha riram: o riso exasperado, amoroso e saudoso.

Em algum lugar entre as carroças do circo, um violão quebrava o silêncio na

escuridão. No campo enlameado, a carroça do telégrafo estava pronta para partir e um

dos charros segurava um lampião para que Gwenlliam pudesse encontrá-los e dava para

ver que, do lado de fora da carroça, estava pintado O INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS

P. SWIFT em letras grandes e coloridas. Dentro da carroça do telégrafo, parte dos

assentos rústicos do circo já estava guardada, rapidamente desmontada assim que o

público saía. Todos os outros tinham mais tempo para guardarem seus pertences e

parafernália em todas as carroças, onde depois poderiam dormir um pouco, enquanto a

longa e lenta procissão de animais, carroças e jaulas seguisse seu caminho. Mas a carroça

do telégrafo tinha de partir imediatamente com um mapa desenhado à mão (Silas P. Swift

não deixava nada ao acaso): sua tarefa era marcar a rota para todas as outras que seguiriam

e detectar qualquer surpresa ou perigo.

Gwenlliam, enrolada em seu manto, subiu e se sentou na frente, ao lado do condutor

mexicano e seu companheiro. Três cachorros aguardavam, alertas, ao lado dos cavalos.

— Tudo bem, Inglesa?

— Sí.

— Vamos seguir por um quilômetro e meio. Está com frio?

— Não.

— Então, vamos!

Os cavalos seguiram pelo campo, viraram para entrar na estrada principal e sair da

cidade, seguindo para o próximo destino.

— Para onde acha que vamos depois de Nova York, Inglesa?

— México! — respondeu ela, e todos riram. Os mexicanos deram gritos de alegria que

ecoaram na noite.

A lua cheia mostrou-lhes todos os campos de milho pelos quais passavam; viam

claramente os recortes sob a luz prateada. Ouviram o som do gado em algum lugar. Às

vezes, ouviam o som de algum córrego. Quando os campos das fazendas ficaram para trás

as árvores ficaram mais densas e o caminho mais estreito e, em alguns momentos,

íngreme.

Depois de cerca de uma hora, chegaram à primeira bifurcação; o condutor, olhando

para o mapa iluminado por um lampião a óleo, indicou que deveriam virar ali. O outro

mexicano saltou e, com a faca, entalhou em um pedaço de madeira retirado da cerca de

uma fazenda até completar uma placa. Para que pudesse ficar mais visível, mergulhou a

placa em uma substância branca que ele mesmo fizera e a colocou no meio do caminho

que o circo não deveria seguir. Esse era o trabalho deles: marcar a rota. Partiram de novo,

deixando a bifurcação para trás. Por vezes, paravam: Gwenlliam segurava os cavalos

enquanto os mexicanos, sob a luz da lua, atacavam com suas facas os obstáculos mais

óbvios da jornada: um tronco de árvore, uma pedra grande, sempre conversando entre si

em espanhol, rindo de vez em quando, e os cachorros corriam em volta e os cavalos

sacudiam as rédeas e resfolegavam no ar noturno. Os mexicanos sabiam a importância do

seu trabalho, assim como Gwenlliam: tinham de abrir uma rota segura da melhor forma

que conseguissem. Várias vezes no passado, uma carroça do circo virara e, em uma

ocasião, um dos condutores foi esmagado. De vez em quando, enfrentavam chuva forte e

pesada e árvores caíam obstruindo a estrada. Às vezes as grandes rodas das carroças

atolavam na lama e as pessoas tinham de sair para empurrar, pois o circo tinha de seguir

em frente. Naquela noite, porém, o céu estava limpo e a lua brilhava iluminando o

caminho e as estradas estavam em boas condições. Os mexicanos cantavam suas músicas e

Gwenlliam soltou um suspiro de prazer enquanto atravessavam os campos e a carroça do

telégrafo deixava sinais misteriosos para o circo.

 

Cordelia Preston foi acompanhada, de forma bastante respeitosa e orgulhosa, por um dos

anciões da cidade (e sua esposa, é claro), até o único hotel de Hamford, onde jovens locais

tinham voltado do circo e tomavam cerveja em grandes copos ou diretamente da

mangueira presa a um grande barril. Ao verem Cordelia sendo acompanhada para o

andar de cima, ergueram os chapéus de forma breve como um cumprimento de admiração e gritaram elogios enquanto ela seguia caminho: Ela é real!, exclamavam e

queriam saber mais e pediam que ela descesse para conversar com eles (com toda cortesia

de que eram capazes). Não importava que se tratasse de uma mulher desacompanhada;

não importava que não fosse jovem: ela era conhecida agora. Era a estrela do circo. Eles a

tinham visto e foram enfeitiçados por sua mágica. De alguma forma, nunca a esqueceriam.

Ela é real!, diziam entre si. E, em todas as cidades, se as pessoas a vissem de perto,

desejavam que se juntasse a eles no andar de baixo, no grande salão de jantar. Queriam

conversar sobre poderes mágicos, perguntar se sabia alguma coisa sobre mães falecidas

ou amantes. Perguntar sua idade, perguntar (se ainda se lembrassem) sobre o escândalo

em que estivera envolvida em Londres, sobre o qual todos provavelmente haviam lido nos

jornais, mas não se lembravam dos detalhes: era verdade que tentara assassinar a rainha

da Inglaterra? Se fosse verdade, eles apertariam-lhe a mão e pagariam-lhe uma bebida.

Entretanto, depois de vários encontros amigáveis e inquisitivos: quantos anos a senhora

tem? O que acha da América? Não é um país adorável? A senhora realmente é uma assassina?,

Quanto ganha por semana?, Cordelia aprendeu a se enrolar em xales e desaparecer. (Por

sorte, era uma fantasma: as pessoas tinham de aceitar que não era como os outros.)

Aprendera também a pedir primeiro e educadamente que a perdoassem: eram amigáveis,

curiosos, americanos e podiam dificultar muito as coisas para os ingleses se assim

desejassem.

— Perdoem-me, meu trabalho é muito cansativo. Preciso dormir. — (E certamente

essa era a mais absoluta verdade para uma mulher de 51 anos como Cordelia Preston, que

escalava mastros e balançava em trapézios.)

Providências eram tomadas para que o jantar fosse levado até o seu quarto. Assim que

fechava e trancava a porta, depois que a comida era servida, soltava um enorme suspiro de

alívio, tirava os sapatos, pegava uma garrafa de vinho do Porto de sua mala e dava um

longo e grato gole. E foi exatamente o que fez naquela noite, usando uma caneca de

estanho que sempre levava na bagagem junto com a garrafa de vinho.

Aquela era a hora perigosa, a hora do vinho e das lembranças: a hora dos seus

fantasmas. Todavia, ela se impusera um treinamento rigoroso de pensar apenas sobre o

presente: canalizou seus pensamentos no circo, pensou novamente sobre a jovem mulher

de Hamford cuja história soubera mais tarde, a mulher cuja cabeça doía tanto, e sobre o

seu sofrimento. Às vezes, em casos como aqueles, assim que passava as mãos repetidas

vezes em movimentos longos e fluidos nas estranhas cidades americanas, Cordelia sentia

que ela, de forma quase impessoal, tomava para si a dor da pessoa para se juntar com a

própria dor que tomava seu coração, a fim de permitir que as pessoas tristes das cidades

pequenas descansassem. E ela, como sempre, se lembrava das sábias palavras de

Monsieur Roland: ainda sabemos muito pouco sobre a mente humana e como ela funciona;

ainda estamos aprendendo e não devemos parar... porém, enquanto forem usados de forma

adequada, o mesmerismo e a hipnose serão sempre forças do bem, não importa o que venha a

ser descoberto no futuro.

 

Cordelia sabia que ajudara a aliviar a dor da mulher naquela noite e dado a ela

Cordelia sabia que ajudara a aliviar a dor da mulher naquela noite e dado a ela

descanso, por um momento pelo menos. Esse era o seu trabalho: era paga para isso, não

importava se estivesse em Londres, Nova York ou Hamford, e as acrobacias e sombras (e

suas lembranças) talvez a exaurissem, mas tinha de suportá-las. Aquela era sua vida.

Sentou-se na cama macia e frágil no único hotel de Hamford, girando a caneca de

vinho do Porto nas mãos e bebendo novamente. O som da conversa dos jovens

barulhentos chegava até o andar de cima e, por vezes, ela ouvia um grito e, depois, uma

gargalhada.

No dia seguinte, ao alvorecer, como sempre, um condutor com dois cavalos

descansados e uma fantasma acrobata parcialmente descansada seguiriam as marcas

deixadas pela carroça do telégrafo, percorrendo todo o caminho até encontrarem um

córrego ou um rio perto da próxima cidade; ali encontrariam o resto da trupe do circo.

Assim, Cordelia terminou de tomar o vinho e comeu ensopado de coelho, bolo de

milho e lavou o rosto. Depois de amanhã, voltariam para Nova York: quem sabe o que

aconteceria, então? Havia rumores de um novo grande local para o circo em Nova York.

Cordelia Preston, porém, já era experiente e sabia que Silas tinha um plano. Talvez eles

recebessem mais, o que ajudaria muito. Ainda assim, o que mais o Sr. Silas P. Swift

poderia exigir dela? Por fim, deitou-se na cama e fechou os olhos.

 

A praia longa e deserta era a vida delas: podia ver as três cabecinhas louras brincando na areia

molhada enquanto as ondas quebravam. Eles se inclinavam e catavam pedras, conchas e

gravetos; o dia inteiro suas vozes ecoavam no ar, ela os ouvia rindo e falando sobre os tesouros

estranhos que encontravam. Aves marinhas sobrevoavam a praia e havia sempre o cheiro de sal

e de algas. E, então, viria uma forte tempestade galesa e a chuva intensa castigaria o mar e o

vento levaria as crianças de volta para dentro da casa cinzenta de pedra que era o seu lar

enquanto as ruínas do antigo castelo lançavam sombras atrás deles e as lareiras eram acessas por

criados e, de vez em quando, Cordelia cantaria:

 

When that I was and a little tiny boy

With a heigh ho, the wind and the rain

A foolish thing was but a toy

For the rain it raineth every day…***

 

Mais tarde naquela noite, ela sonhou com antimônio de potássio e viu órgãos internos

queimados; lágrimas escorreram pelo seu rosto e ela se virou para os braços de Arthur,

que sempre a abraçavam, consolavam e a compreendiam, mas Arthur não estava lá.

 

Como sempre, na tarde seguinte todos se encontravam de novo: a carroça do telégrafo, a Como sempre, na tarde seguinte todos se encontravam de novo: a carroça do telégrafo, a

Sra. Cordelia Preston e toda a parafernália do circo — carroças cheias, jaulas limpas,

animais e pessoas. A cidade seguinte se aproximava. Todos estavam acordados e já

vestidos com as fantasias do circo. Água do córrego próximo foi colocada em grandes

barris e guardada em uma carroça para ser usada quando deixassem a cidade naquela

noite para a longa viagem de volta a Nova York. Os cachorros corriam uns atrás dos

outros em volta de árvores antigas.

O cacique Great Rainbow, com traços azuis pintados no rosto, estava sentado na relva

jogando cartas e apostando dinheiro com um dos engolidores de fogo e dois dos charros;

Gwenlliam estava sentada ali também, assistindo ao jogo como costumava fazer. Há meses,

o grande cacique ensinava à menina como jogar pôquer. Quase nunca lhe dirigia a palavra,

mas — em uma concessão extraordinária para qualquer jogador de pôquer — permitia

que ela sentasse ao seu lado, onde poderia ver suas cartas, ver como ele apostava, quando

blefava e quando fazia o fold.

— Observar, menina — era tudo o que dizia.

Ela via que o rosto dele, escuro e estranho, nunca demonstrava nada e tentava treinar

para fazer o mesmo.

Apenas uma vez quase perdera o professor: em um jogo de quatro, ele tinha um Royal

Flush e ela não conseguia entender por que ele não subia as apostas de forma mais rápida:

as apostas aumentavam de forma lenta demais e ela começou a roer as unhas, ansiosa por

ele não estar fazendo apostas mais altas e os dedos dela chegaram a sangrar. Ficou claro

para os demais jogadores que ele devia estar com um bom jogo nas mãos; todos

desistiram da rodada e começaram a rir de Gwenlliam. Obrigado, garota. O cacique não

demonstrou nada enquanto recolhia os poucos ganhos. Logo, ele se levantou e se afastou.

Ela o seguiu, indignada.

— Mas por que você não dobrou ou mesmo triplicou a aposta logo? — perguntou ela,

obstinada. — Você poderia ter aumentado as apostas muito mais e mais rapidamente e

ganhado muito dinheiro!

Por sobre os ombros, o cacique Great Rainbow respondeu:

— Se fazer isso rápido demais, eles saber o que ter nas mãos e parar de apostar. Você

má sorte. Você mostrar minha mão. — E se afastou de novo.

Depois disso, ela passou a se sentar mais distante, mas foi se aproximando devagar,

até estar de volta ao lugar de costume.

— Observar, garota — orientou ele, por fim.

O rosto dela nunca mais revelou nada em um jogo de pôquer. A partir de então, era

como se um baralho transformasse seu rosto expressivo em uma máscara fria. Naquela

tarde, viu o cacique Great Rainbow ganhar o salário da semana de um dos charros, que

também era um excelente jogador, sem demonstrar qualquer emoção.

O elefante estava na beira do córrego, jogando água fresca na boca com sua tromba e

estimulando o bebê elefante a fazer o mesmo. Como sempre, o treinador reclamou que

aquele elefante precisava de muita água e muitos quilos de feno.

— Todos os dias! — exclamava ele. — Todos os dias! Eu preferia ter um camelo! —

Mas todos amavam o pequeno elefante: Kongo era o nome da mãe e todos chamavam o

filhote que tanto amavam de Lucky.

O mestre de cerimônias do circo com sua casaca vermelha era um ator que conhecera

épocas mais glamorosas; ninguém conseguia calá-lo quando começava a contar sobre os

triunfos de outrora. Sua vítima daquela tarde foi o domador de leão, já com sua toga e

sandálias romanas, preso pela voz trovejante:

— Edwin Forrest — reclamava o mestre de cerimônias. — Ele pode ser o herói de

Bowery agora, mas já foi meu aluno!

Um dos charros deu um sorriso amigável e encorajador enquanto escovava os cavalos,

e o leão bocejou, abrindo a bocarra. Os músicos da banda também bocejaram, coçaram

as costas com galhos de árvores, acordaram novamente o corneteiro e vestiram as casacas

azuis. Os palhaços retiraram a garrafa de bebida de um dos colegas mais ébrios e

pintaram o rosto de branco com grandes sorrisos vermelhos que cobriam os lábios finos

de tristes.

Cordelia, olhando para eles, pensou novamente: pelo menos três deles são mais velhos do

que eu, aterrorizada que Silas os despedisse assim que tivessem dificuldades em arrancar

gargalhadas e tropeçarem uns nos outros. Então, o que seria deles? Um deles arrastou uma

bolsa cheia de narizes vermelhos e sapatos pretos enormes pela relva. Não é de se espantar

que bebam: não é de se espantar que todos nós bebamos.

Alguns dos charros mexicanos cantavam uma canção de amor em espanhol ao som de

um violão, às vezes acompanhavam a música como palmas e um deles dançava com os

braços erguidos sobre a cabeça. Próximo ao rio, o urso branco que não dançava coçou o

pelo gasto e olhou para todos da jaula puxada por um cavalo com os olhos miúdos e sem

vida. As mulheres vestiram as fantasias de acrobacia, reclamando em tom alegre:

— Mãe do céu, ainda está frio quando o sol se esconde atrás de uma árvore. Graças a

Deus, voltaremos para Nova York amanhã. Espero que Silas nos mantenha por lá.

O mestre de cerimônias, ainda falando das glórias do passado, colocou a casaca

vermelha brilhante; Cordelia se enrolou em xales.

A fantasia de Gwenlliam descosturou nos ombros.

— Peggy Walker! — chamou ela e os outros começaram a chamar também.

— Peggy Walker, precisamos de você! — E uma mulher grande saiu de uma das

carroças carregando o cobertor exótico do camelo.

Peggy Walker fazia verdadeiros milagres e era responsável por se certificar de que

todas as fantasias já gastas parecessem — pelo menos a distância e sob a iluminação

enganadora dos lampiões — glamorosas e brilhantes. Ela sempre carregava consigo

tesouras e pequenas facas, linha, agulha, alfinetes e centenas de contas brilhantes. Na

carroça das fantasias, havia escovas, sabão forte e baldes de água; ela se esforçava para

retirar a pior parte da lama, mato e sujeira que encontrava, sem nunca ter tempo

suficiente para lavar as fantasias de forma adequada; os artistas reclamavam amargamente

se tivessem de usar fantasias molhadas, diziam que preferiam feder e avisaram a ela, com níveis variáveis de animosidade, que se morressem de edema, tosse ou febre, voltariam

para assombrá-la.

— Não! Lucky, anjinho. Não! — pediu Peggy enquanto o curioso bebê caminhava em

sua direção e tentava investigar o cobertor brilhoso com a pequena tromba. Peggy riu,

afastou a trombinha e depositou o cobertor nas mãos do treinador do camelo, que estava

apoiado no animal triste, com olhos de lebre. — É o melhor que posso fazer. Diga a Silas

que você precisa de um novo. Se fôssemos viajar por mais uma semana, esse cobertor se

desfaria por completo! — E foi costurar a fantasia de Gwenlliam.

— Suas mãos estão geladas!

— Não tão geladas quanto as suas ficarão se sua fantasia desmontar!

— Estamos atrasadas!

— Não tão atrasadas quanto você ficará se o xerife a prender por atentado ao pudor!

A animação costumeira pairava no ar: Silas sempre viajava com eles, mas primeiro teve

de voltar às pressas para Nova York e, depois, enviou aquela mensagem. Será que

realmente encontrara uma data para se apresentarem em Nova York? Risos, gracejos e

assovios para os cachorros; os anões contavam uns para os outros histórias indecentes e

fumavam tabaco de qualidade duvidosa; os engolidores de fogo brincavam com o bebê

Lucky, mas de forma cuidadosa para não aborrecerem Kongo; o cacique Great Rainbow,

com seu penacho na cabeça pronto para a parada, colocou os arreios com guizos nos

cavalos (guardando seus ganhos de pôquer consigo para que os mexicanos não os

roubassem de volta). Os olhos perspicazes de Peggy Walker analisaram uma vez mais as

inglesas, que se juntavam a todos e ainda assim se mantinham afastadas. A trupe do circo

nunca se importava com escândalos, todos tinham os seus. Sempre que se juntavam à

tarde à beira dos inúmeros rios antes da próxima apresentação na próxima cidade:

sempre, todos eles, toda a trupe do circo costumava dividir com os outros histórias

escandalosas: o acrobata francês, Pierre l’Oiseau, os charros mexicanos, os anões e os

verdadeiros americanos nativos, como a própria Peggy, os treinadores de animais e os

palhaços. Todos cheios de histórias de suas vidas e do passado selvagem, trocando

aventuras e perigos, riso e dor. Peggy era neta de um dos filhos da revolução, orgulhosa

de sua história, de sua dura vida de pioneira e de sua fuga da fazenda para o circo. Mas

Peggy Walker notou que quando os outros contavam sobre suas aventuras passadas, as

inglesas permaneciam em silêncio. Sempre.

Laços de cores alegres foram presos em todas as carroças. Eles flutuavam ao lado das

palavras pintadas: O INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT.

A um sinal do maestro, o tambor rufou e a banda começou a tocar uma marcha alegre

— e a trupe glamorosa e animada do circo do Sr. Silas P. Swift, uma vez mais, fez uma

entrada triunfante na cidade.

Notas

 

* Tradução livre: “Entre prazeres e palácios / Por onde quer que vaguemos / Mesmo que

seja humilde / Não há nenhum lugar como o lar.” (N.T.)

 

** Tradução livre: “Pobre Bretanha! / Bretanha que dá as regras! / Os bretões sempre

/Serão idiotas!” (N.T.)

 

*** Tradução livre: “Quando eu era um menininho / Com um ei, olá, o vento e a chuva

/Algo tolo, não passava de brincadeira / Pois a chuva chovia todos os dias...” (N.T.)