O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 3 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 2

 

 

Nova-iorquinos de todos os tipos (independentemente da classe social) iam ao Incrível

Circo do Sr. Silas P. Swift: buscavam o selvagem, o exótico, o vulgar e o perigoso. Na

ousada cidade de Nova York, superpovoada, barulhenta e em franca expansão e

enriquecimento, o Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift era o mais famoso — e o mais

visitado. A bandeira brilhante e chamativa tremulando sobre a Grande Tenda podia ser

vista da Broadway e os pôsteres do circo eram maiores, mais atraentes e interessantes do

que qualquer outro.

 

VENHAM! VENHAM TODOS!

O INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT

apresenta

A ASSASSINA absolvida de LONDRES

SRTA. CORDELIA PRESTON, A FAMOSA MESMERISTA!

E sua filha, a Srta. Gwenlliam Preston,

INCRÍVEL ACROBATA!

Acompanhadas pelos cavaleiros e artistas mais famosos do Mundo Circense

E ANIMAIS SELVAGENS, incluindo

UM FEROZ LEÃO DA ÁFRICA!

UM ENORME ELEFANTE DA ÁFRICA!

UM CAMELO DA ARÁBIA!

CAVALOS DANÇARINOS!

LINDAS ACROBATAS E CAUBÓIS MEXICANOS!

DESTEMIDOS ENGOLIDORES DE FOGO!

PALHAÇOS E ANÕES!

O show mais excitante já visto neste país!

Apenas $1,00 (crianças pagam $0,75)

 

ASSASSINA e M ESM ER IST A eram as palavras que reverberavam, como FER O Z

LEÃO D A ÁFR ICA, atraindo uma multidão e muitos dólares para a Grande Tenda do Sr. Swift, que abrigava 1.500 pessoas. O chão era coberto de serragem e os bancos feitos

de tábua. Mascates montavam estandes ao redor e vendiam ostras e cerveja e sarsaparilla e

grandes tortas.

Naquela tarde, os conselheiros municipais foram assistir ao show levando consigo os

filhos vestidos com roupas elegantes e enfeitadas. Não muito distante deles, mas

mantendo-se nas sombras, estavam membros da mais cruel gangue de Nova York,

esparramados nos precários bancos de madeira, rindo e comendo tortas. Usavam camisas

escuras e brincos de ouro.

O domador de leões já havia escapado da morte certa (como fazia duas vezes por dia);

o elefante soltava altos bramidos enquanto palhaços faziam malabarismo com bolinhas

coloridas e o mestre do circo, com casaca vermelha e cartola, estalava o chicote.

Engolidores de fogo cuspiam chamas no público que fedia a suor, álcool e animação e

inalava os odores peculiares e eletrizantes do circo: a mistura do cheiro de animais

selvagens e serragem, de lona e lampiões, de estrume e fogo. A banda tocava marchas

patrióticas. E, durante todo o tempo, a trupe do circo mantinha, como sempre,

comentários entre si sobre o público, entre os gritos de VIVA! e B R AVO ! e o rugido

do leão. As pessoas que vinham para se divertir no circo talvez não soubessem que elas

também forneciam diversão. Não importava se eram garotas bonitas ou pomposos

conselheiros municipais ou gângsteres desbocados: eles talvez não notassem, mas também

eram observados. Os artistas se comunicavam entre si usando linguajar próprio do circo:

uma mistura de gírias — janotas, cambalacho — somada a gestos teatrais que poderiam

parecer parte do espetáculo e gritos em espanhol dos charros, os destemidos e espertos

caubóis mexicanos. Foi um dos engolidores de fogo que apontou os conselheiros

municipais, aqueles homens com tantos recursos para gastar, e um dos anões correu em

direção aos degraus de madeira na plateia e plantou um beijo na bochecha de um deles:

seja o que for que o conselheiro tenha pensado sobre aquele gesto exuberante e um tanto

desagradável, ele, é claro, acenou para a multidão, aceitando a honra e soltando uma

gargalhada. Os acrobatas balançavam cada vez mais alto e os lampiões iluminavam todos

os cantos e, embora os membros da perigosa gangue estivessem bem no fundo, a luz dos

lampiões captava o brilho dos brincos e crucifixos de ouro que usavam no pescoço. E

sentada entre os membros da gangue havia uma pessoa muito alta, com cabelo

desgrenhado e suspensórios grossos; só se você observasse detidamente perceberia que a

figura alta e de aparência selvagem era uma mulher. E apenas se estivesse prestando muita

atenção é que talvez percebesse que a mulher de cabelos vermelhos bagunçados e um dos

conselheiros da cidade (uma combinação bastante improvável) trocaram um quase

imperceptível aceno de cabeça. Os anões correram e deram um salto mortal e os charros

galopavam a toda velocidade pelo picadeiro, passando pelo hostil e ruidoso elefante

africano e pelos palhaços, com o rosto branco e sorrisos rubros pintados, grandes

narizes vermelhos e sapatos enormes, e a banda que não parava de tocar a tuba, as

cornetas e os tambores.

E Silas P. Swift era, acima de tudo, um incomparável produtor teatral e apresentador.

Subitamente, a música parou. Palhaços, charros, anões e engolidores de fogo

Subitamente, a música parou. Palhaços, charros, anões e engolidores de fogo

diminuíram a luz dos lampiões e, de repente, acrobatas começaram a voar como pássaros

nebulosos e silenciosos sobre o público. Então, a estrela do espetáculo, a linda,

escandalosa e infame mesmerista emergiu lentamente das sombras dos bastidores da

Grande Tenda e o público suspirou e, à meia-luz, eles viram uma mulher bonita e

madura, envolta em xales esvoaçantes. E os tambores rufaram, ela ergueu os braços com

movimentos suaves, os xales longos e brilhantes escorregaram de sua cabeça e eles viram

que ela possuía olhos grandes e rosto pálido. Viram que tinha no cabelo uma mecha

extraordinariamente branca por entre os fios escuros, como se tivesse levado algum

choque conferindo-lhe um ar antigo ou sábio ou fantasmagórico. Então, ouviu-se uma voz

estranha e rouca, usada para lugares amplos — A dor de quem posso aliviar aqui? — E se

achavam que realmente se tratava de uma assassina ou não, as pessoas se aproximaram,

ou foram levadas a se aproximar por familiares. Pois elas ouviram falar sobre os poderes

do mesmerismo e queriam milagres. Das sombras, a mesmerista ergueu o olhar para os

acrobatas e os observou por um tempo como se esperasse por um sinal. E, então,

apontou o dedo para um homem pálido na multidão, cujos ombros estavam envergados

de dor.

Nervoso, o homem se aproximou. A mesmerista deu um passo à frente e sentou o

homem em uma cadeira que aparecera de forma misteriosa. Falou com ele em voz baixa e

gentil, o que obrigou o público a se esforçar para ouvi-la. Será que ela dissera Entregue-se

aos meus cuidados ou enunciara algum tipo de encantamento? Então, a mulher sombria,

sem afastar os olhos do homem, começou a passar os braços sobre ele, bem acima da

cabeça: de um lado para o outro, em movimentos rítmicos, acima do corpo, sem nunca

tocá-lo, inspirando profundamente repetidas vezes, em total concentração: sua própria

energia invadindo a dor do homem, tentando expulsá-la, expurgá-la. Será que sussurrava

algo para ele? Não estava claro. A tenda enorme, quente, malcheirosa e abafada estava no

mais completo silêncio: o público parecia enfeitiçado. Podiam ver que o homem pálido

caíra no sono, observavam o suave movimento rítmico dos braços da mulher passando

sobre ele, sem nunca tocá-lo, de um lado para o outro, sem parar.

E, no final (pois a mesmerista havia escolhido o paciente com muito cuidado, e com a

ajuda da filha que voava por sobre o público em um trapézio: elas sabiam que não

podiam curar membros quebrados ou tumores cancerígenos, mas podiam aliviar a dor),

o homem despertou, a expressão leve e o corpo ereto. Surpreso e aliviado, o homem

olhou para si. E, com um sorriso suave e descrente nos lábios, foi acompanhado para

fora do picadeiro. De repente, as luzes fortes e brilhantes voltaram a iluminar o circo e os

palhaços entraram com suas trapalhadas, o leão rugiu e os acrobatas balançaram e voaram

pelo ar repentinamente leve: — B R AVO ! B R AVO !, gritavam as pessoas, enquanto

olhavam de um trapézio para outro e a banda tocava marchinhas alegres e, quando

olharam novamente para o centro do picadeiro, não havia mais ninguém ali.

— Será que era um fantasma? — sussurrou um dos homens com brincos de ouro para

seus companheiros. Ele estava inclinado como se fosse levantar, mas mudara de ideia. A voz soara quase infantil.

— Sente-se, Charlie, seu vagabundo estúpido — disse a mulher alta, com aparência

selvagem e suspensórios segurando a saia. Ela se inclinou em direção a ele e continuou: —

É apenas um truque!

Mas o rosto de Charlie estava pálido sob a luz dos lampiões. Com a música da banda

ao fundo, ela murmurou no ouvido dele usando um tom maligno:

Que o diabo te condene em negro, biltre de cara de coalhada.

Onde encontraste essas feições de ganso?*

 

Entretanto, zangado, ele a afastou com os ombros e cuspiu o tabaco que mascava.

Os charros agora galopavam em formação de pirâmide humana, de forma perigosa e

interessante, cada vez mais rápido ao redor do picadeiro, gritando uns com os outros em

espanhol.

— Malditos estrangeiros — praguejou Charlie, voltando a cuspir tabaco, mas, dessa

vez, na parede da tenda. Seus olhos estavam presos no lugar onde estivera o fantasma.

Entretanto, a imagem bela e sombria desaparecera.

 

O New York Tribune escreveu:

 

Artigos de jornais de Londres descreveram Cordelia Preston, mesmerista,

como uma mulher escandalosa e imoral que foi acusada (e absolvida) de ter

assassinado o pai de seus filhos, lorde Morgan Ellis, herdeiro do duque de

Llannefydd, que, ao que parece, é proprietário de quase a totalidade de Gales.

(Gostaríamos de saber como os galeses se sentem quanto a isso.) Sabe-se agora

que a verdadeira assassina era a esposa de lorde Ellis, prima da Rainha

Vitória. Mas como bem sabemos em nossa querida república democrática,

aqueles próximos à monarquia são protegidos por ela (neste caso, até que ficou

impossível esconder a verdade quando lady Ellis tentou matar Cordelia

Preston).

 

Nem todos os fatos dessa questão vieram à tona — e, sem dúvida, Cordelia

Preston, absolvida do assassinato, é, de fato, uma mulher imoral e,

certamente, escandalosa. Sabe-se que agora trabalha como mesmerista no

INCR ÍVEL CIR CO D O SR . SILAS P. SW IFT aqui em Nova York,

o que fala por si. Contudo, por acaso, este jornal também apurou que tanto

Cordelia quanto sua filha, Gwenlliam, acrobata, prestam serviços de

mesmerismo gratuitamente, sem publicidade, em um dos hospitais de Nova

York que usa essa técnica para fins anestésicos durante operações dolorosas.

Elas trabalham junto com o renomado e mundialmente conhecido

mesmerista Monsieur Alexander Roland, treinado pelo próprio Mesmer.

Descobrimos que eles têm sido bem-sucedidos na ajuda aos pacientes.

 

Seja qual for a história completa, que contaremos aqui, como fazemos quase

sempre, que Deus abençoe a América, a terra da liberdade. E sejamos gratos a

Cordelia Preston e sua filha pelo bom trabalho que estão desenvolvendo.

 

O Sr. Silas P. Swift (que tomou para si a tarefa de divulgar para o Tribune o trabalho

filantrópico acima mencionado) esfregou as mãos em pura satisfação, enquanto o

faturamento subia: fizera uma aposta ao trazer as escandalosas srtas. Preston para a

América e o retorno foi maior do que em seus sonhos mais loucos. Sabia perfeitamente

que tudo funcionara tão bem, pelo menos de certa forma, porque a Srta. Cordelia Preston

(tendo trabalhado por tantos anos como atriz) e a Srta. Gwenlliam Preston (tendo sido

educada como a filha de um nobre) comportavam-se com graça e dignidade que

contrastavam com as histórias horríveis que as cercavam. A filha era muito bonita e estava

se tornando uma excelente acrobata e equilibrista, mas a mãe mesmerista (com a mecha

branca no meio do cabelo escuro) era assustadoramente linda: com um toque quase

etéreo nas feições e nas maçãs do rosto, além dos olhos escuros e enigmáticos.

Então, duas vezes por dia, centenas e centenas de nova-iorquinos vinham ao circo:

milhares deles, todos respirando a mistura de odores excitantes de serragem, estrume,

lona e animais selvagens, de lampiões, lama e animação. E, duas vezes por dia, em uma

das pequenas carroças da caravana do circo que ficavam estacionadas na parte de trás da

Grande Tenda, a Srta. Cordelia Preston, a imoral assassina, absolvida por júri, vestia sua

fantasia fluida e esvoaçante, prendia os cabelos compridos e enrolava xales ao redor do

rosto pálido. Em algumas ocasiões, lembranças assustadoras e dolorosas a arrebatavam e

ela se encolhia, arfando em choque. Nessas ocasiões, sua filha Gwenlliam abria caminho

por entre fantasias, xales e sapatos e marombas para chegar até a mãe. Por alguns

momentos, as duas ficavam abraçadas, buscando conforto uma na outra. Certa vez,

Cordelia encontrou a filha, sempre tão calma e sensata, chorando incontrolavelmente em

sua fantasia brilhante de acrobata na carroça pequena e entulhada; rapidamente abraçou-a

e respiraram juntas, pensaram ter ouvido um som distante: shshshshshshshshshshsh.

Pensaram ter ouvido o som das ondas do mar arrebentando na praia e vozes de criança

chamando: Manon! Morgan!

Manon.

Morgan.

Os filhos de Cordelia, a irmã e o irmão de Gwenlliam.

 

E, então, elas terminavam de se vestir e deixavam a pequena carroça e empertigavam-se,

E, então, elas terminavam de se vestir e deixavam a pequena carroça e empertigavam-se,

sorriam, provocavam, riam e conversavam enquanto se aproximavam do elefante africano

com orelhas grandes e olhos miúdos e inteligentes. Elas se espremiam entre os palhaços,

os charros, os engolidores de fogo, os anões e os outros acrobatas e, juntas, voltavam para

a Grande Tenda, enquanto o perigoso leão rugia e o imprevisível elefante bramava de

repente e os mexicanos chamavam, em espanhol, seus cavalos; e, em vez do som do mar,

Cordelia Preston e sua filha Gwenlliam ouviam novamente o som de gritos estridentes e

animados da multidão ruidosa de Nova York, todos aguardando a magia do circo.

Nota

 

 

* Shakespeare, Macbeth, Ato V, Cena 3. (N.T.)