O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 21 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 20

 

Peggy Walker, a responsável pelas fantasias, a pessoa que fazia tudo e todos brilharem no

circo, realmente concordara em ser a guardiã de Gwenlliam: assim que convidada, saiu de

sua pensão no Brooklyn e seguiu para Maiden Lane para conhecer todo mundo, ser

avaliada e aprovada. Abraçou Gwenlliam quando saiu.

— Pode fazer as malas, camarada, teremos uma aventura — disse Peggy. —

Escreveremos cartas cheias de ouro!

E, no sótão da Casa de Celine, todos ficaram animados, mesmo que odiassem ver

Gwenlliam partir. O rosto de Cordelia permaneceu pálido enquanto sorria para todos.

 

Assim que todos os arranjos foram feitos com Silas, Cordelia disse que tinha de sair para

comprar um chapéu novo. Isso era tão improvável que ninguém na pequena sala de estar

acreditou, embora nunca sonhassem em dizer isso.

— Quer que eu vá com você, Cordie? — Rillie conhecia Cordelia muito bem: essa

saída não tinha nada a ver com um chapéu, mas sim com outra coisa.

— Não, não. Farei uma surpresa para todos vocês.

(Mas Rillie havia se oferecido para acompanhá-la porque percebera um tremor nas

mãos de Cordelia quando calçava as luvas. Cordelia estava travando uma batalha interna

sobre algo. Rillie tinha certeza.)

Tentando evitar a lama suja, as fezes e a poeira levantada pelos cavalos puxando

carroças e os ônibus, Cordelia caminhou em direção ao Terminal de Embarcações do

Brooklyn. Bandeiras americanas erguidas orgulhosamente tremulavam sobre os prédios,

mesmo quando o lixo inundava as ruas, as moscas e os ratos andavam por todos os

lugares e o verão ainda nem tinha chegado. O fedor das pilhas de lixo piorava cada vez

mais à medida que se aproximava das docas. Nova York até podia ser uma próspera

cidade portuária, mas as docas próximas às barcas eram imundas e em total estado de

decadência. Havia placas de madeira perigosamente soltas sobre as águas turvas do rio e,

ao lado de uma pilha de lixo particularmente fétida, um negro baixo estava de pé, batendo

na pilha com uma vara enquanto gritava “NEGRA VADIA! NEGRA VADIA!” Batia no lixo

sem parar e as pessoas passavam apressadas por ele.

 

Os passageiros subiram a bordo da barca, Cordelia foi carregada pela grande

Os passageiros subiram a bordo da barca, Cordelia foi carregada pela grande

multidão, mal notando que havia sido empurrada e acotovelada, mesmo que de forma

amigável. Como sempre, o rio East estava lotado com uma centena de embarcações:

grandes, pequenas, velhas, novas, americanas e estrangeiras. Lixo e ratos mortos podiam

ser vistos na água. E, à medida que a barca partia e Cordelia olhava para a água suja,

notava ainda outras coisas estranhas: ferro, madeira, um manequim de alfaiate sem

braços, jornais ensopados, parte de um estrado de cama. E algo que parecia com ossos.

Brooklyn também era tumultuado e Peggy Walker a encontrou na margem do rio,

usando incontáveis xales brilhantes. Acompanhou Cordelia pela colina até o quarto

colorido que alugava em uma grande casa de pensão que tinha vista para o rio East e para

Manhattan. Da janela de Peggy, podia ver as docas e os prédios do outro lado do rio e,

acima de tudo, o pináculo da Trinity Church. Cordelia tentou captar o aposento com

cores fortes, decorado com todos os tipos de objetos estranhos e interessantes, assim

como a cama de Peggy: desenhos pintados, a cabeça de um alce, uma águia americana, um

espelho decorado com conchas e um relógio no formato de George Washington em seu

uniforme, com as mãos apontando para os minutos e as horas. Peggy estava fazendo as

malas: havia roupas e materiais de costura e contas brilhantes espalhadas por todos os

lados.

— Recebi sua mensagem, Cord — disse Peggy. — Sente-se aqui. — E ela esvaziou uma

cadeira que estava lotada de coisas e ofereceu cerveja e biscoitos. A almofada na cadeira de

Cordelia era decorada com a bandeira americana.

Ela segurou a cerveja, mas não bebeu. Peggy percebeu que ela travava uma batalha

interna, como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse.

— Sou muito grata a você, Peggy — começou Cordelia, por fim. — Sei que você olhará

por Gwenlliam da melhor forma possível.

E Peggy riu: ambas sabiam que Gwenlliam era eficiente, alegre e inteligente e que talvez

fosse ela a tomar conta de Peggy.

— Pare de se preocupar, Cord. Eu estarei lá. Nem índios nem crocodilos nos pegarão!

— Enquanto conversavam, Peggy estava bordando um novo cobertor brilhante com

contas, sem dúvida para o camelo exótico, caso ele sobrevivesse à viagem. — Ainda assim,

eu poderia ter sido derrubada com uma pena quando Silas chegou aqui para me contar

sobre seus planos e sonhos. Conhecendo Silas, posso dizer que não vai ser para sempre e

estou certa de que não quero viver com mineradores de ouro para sempre. Ouvi dizer

que eles fazem competição de cuspe: dez dólares por cuspida! Eu preferiria um pouco

mais de cultura a isso. Bem, se conseguirmos fazer nossas fortunas, terá valido a pena!

Vamos cruzar os dedos! — Ela continuou costurando, mas com o canto dos olhos viu

que Cordelia fazia um grande esforço para engolir. — Vamos lá, o que está se passando

com você, Cord?

 

No último dia antes de partirem de Londres para sempre, Cordelia e Gwenlliam voltaram ao No último dia antes de partirem de Londres para sempre, Cordelia e Gwenlliam voltaram ao

pequeno cemitério da igreja que ficava na esquina da Elephant com Castle. Encomendaram

uma pequena lápide sobre o túmulo dele, na qual se lia apenas:

 

MORGAN

AMADO IRMÃO E FILHO ADORADO

Apesar do frio congelante, havia pequenos sinais de primavera. Viram açafrão aos pés de uma

árvore desfolhada e traços de amarelo e roxo. Mas elas sentiam um pesar terrível e doloroso que

aquele menino que tanto sonhara em partir para a América teria de ficar ali. Uma vez mais

choraram; viram a antiga casa galesa: a casa de pedras e as ruínas do castelo mais além e o mar

infinito e os cascos de navio quebrados atraídos pelas rochas por contrabandistas — navios que

talvez tivessem vindo do novo país sobre o qual Cordelia lhes contara: América. “É um novo

país”, dissera ela. “Deveríamos ir para lá”.

Por fim, de braços dados, vestidas pela última vez em roupas pretas de luto, as duas

mulheres se afastaram do túmulo e caminharam em direção à saída do cemitério. Viraram-se

apenas uma vez. Ergueram as mãos protegidas com luvas pretas por um momento e deram um

aceno de adeus para uma vida que se fora.

 

***

 

— Se algo... qualquer coisa. Isto é, se alguma coisa acontecer com Gwenlliam, se ela ficar

doente, por exemplo...

— Você está sendo pessimista.

— Eu sei. Não quero, mas tenho de fazer isso. Vocês estão indo para longe e se... Se

alguma coisa acontecer, gostaria que conhecesse um pouco mais sobre ela, de modo que

não esteja com uma estranha. Não, é claro que você não é uma estranha.

Cordelia virou a maior parte da cerveja em um gole, colocou o copo ao seu lado. As

mãos estavam trêmulas. Peggy percebeu como ela, literalmente, se obrigava a falar.

— Ouça, Peggy. Gwenlliam tinha uma irmã e um irmão. Manon e Morgan. Talvez ela

queira conversar sobre eles. — Cordelia não se deu conta, mas, à medida que falava, seu

sotaque inglês ficava mais carregado, como se quisesse fugir da emoção. — Eu... Eu era

uma atriz conhecida em Londres. Trabalhei com Edmund Kean. Trabalhei com William

Macready, o ator envolvido nos tumultos de Astor Place. — Peggy ouviu estoicamente, ela

não dava a mínima para o estilo inglês de atuar. — Abandonei os palcos. Na época,

acreditei que para sempre, quando eu... — Ela gaguejou. — Quando me apaixonei e me

casei. Tive três filhos. E eles me foram tirados pelo pai

— Bastardo cruel, não é?

 

— Vivemos juntos por oito anos, todos nós, incluindo ele, em uma linda casa de

— Vivemos juntos por oito anos, todos nós, incluindo ele, em uma linda casa de

pedras ao lado de um castelo em ruínas na costa de Gales.

 

A praia deserta era a vida deles: ela podia ver as três cabecinhas louras brincando na areia

molhada enquanto as ondas quebravam na praia, eles se inclinavam e catavam pedras e

conchas; o dia inteiro suas vozes ecoavam no ar, ela os ouvia rindo e falando sobre os tesouros

estranhos que encontravam; aves marinhas sobrevoavam a praia e havia sempre o cheiro de sal

e de algas marinhas. E, então, viria uma forte tempestade galesa e a chuva intensa castigaria o

mar, e o vento levaria as crianças de volta para a casa cinzenta de pedra que era o seu lar

enquanto as ruínas do antigo castelo lançavam sombras atrás deles e as lareiras eram acessas por

criados e, de vez em quando, Cordelia cantaria:

When that I was and a little tiny boy

With a heigh ho, the wind and the rain

A foolish thing was but a toy

For the rain it raineth every day…

 

— Quando meu marido nos deixava por longos períodos, eu simplesmente achava que ele

tinha negócios a resolver em Londres. Ele era um membro da aristocracia e eu, como já

disse, não passava de uma atriz. Então, deveria ter desconfiado. Havia sinais... Sinais de

que o casamento não passava de uma fraude.

— Bem, que surpresa aqui — interrompeu Peggy, com ironia. — Aqui, nós bem

sabemos que não devemos confiar em nenhum nobre inglês! Você veio para o lugar certo

quando decidiu se mudar para a América.

Mas Peggy Walker era uma mulher sensata e viu que suas interrupções não ajudariam

Cordelia a contar sua história. Ela se esforçou para se concentrar nas contas reluzentes.

— Em um dia terrível, ele enviou uma mensagem para que eu partisse para Londres

com urgência e, enquanto estava ausente, planejou para que as crianças fossem levadas da

nossa casa para serem criadas como filhos dele com a nova esposa nobre. Só os encontrei

de novo dez anos mais tarde. Nessa época, Rillie e eu já tínhamos nosso negócio de

mesmerismo para sobrevivermos.

— Dez anos! Nossa! Que história triste! Como você os encontrou?

— Gwenlliam. Gwenlliam me encontrou. — Peggy se perguntou se Cordelia iria

desmaiar. Então falou em um tom alegre:

— Eu deveria ter desconfiado! Gwen é uma garota muito inteligente e espirituosa. A

melhor combinação para qualquer garota.

 

Foi a voz. Por mais absurdo que parecesse depois de tantos anos e apesar das palavras

entrecortadas e das vogais prolongadas, típicas da nobreza, tinha certeza de que reconhecia a

voz que vinha do aposento ao lado. E, ao ouvi-la, Cordelia emitiu um pequeno som, como um choro engasgado: o quarto girou e o suor brotou em sua testa e sobre os lábios, no peito e nas

pernas.

Será que Rillie sabia? Será que Rillie achava que se tratava simplesmente de uma nova

cliente?Ser á que aquela era apenas uma nova cliente?Ser á q ue estou enga na da ? A

qualquer momento, Rillie traria a dona daquela voz para o grande quarto onde Cordelia

praticava o mesmerismo.

O pânico de Cordelia era tanto que, por um instante, apenas olhou freneticamente ao redor

do quarto decorado com estrelas, como se procurasse um lugar para se esconder. Por fim,

sentou-se no mesmo canto escuro, apagando rapidamente duas das velas mais próximas para que

a penumbra fosse mais intensa do que o usual. Envolveu a cabeça com xales esvoaçantes, como

sempre fazia antes de um cliente entrar: seu coração batia forte no peito.

A porta se abriu e uma jovem entrou. Rillie indicou, como sempre, que a cliente deveria se

sentar no sofá e, então, fechou a porta atrás de si. Cordelia viu que a jovem — uma garota

muito pálida — tentava adaptar os olhos à escuridão e, então, percebeu que a jovem a vira.

Cordelia teria de falar.

— Como posso ajudá-la? — perguntou em uma voz que mais parecia um sussurro.

A jovem não respondeu de imediato. Seus longos cabelos louros estavam presos na altura do

pescoço. Estava mais velha e muito pálida, mas o rosto era o mesmo rosto amado. Sem emitir

qualquer som, lágrimas escorreram pelo rosto de Cordelia. Ela viu o rosto que conhecera, mas

que não mais conhecia: os olhos cinzentos e inquiridores, a mesma expressão aberta e peculiar

de tia Hester e os olhos.

— Disseram-nos que estava morta — começou a jovem e Cordelia percebeu que sua voz

tremia.

Lentamente, perguntando-se se estava sonhando ou se perdera a razão, Cordelia desenrolou

os xales que envolviam sua cabeça: eles caíram sobre seus ombros onde descansaram. Devagar,

caminhou até o sofá e, enquanto caminhava, as palavras surgiram:

— Eu não morri — e a garota acenou com a cabeça e o quarto escuro girou.

Mas era um antigo provérbio da família: as mulheres da família Preston nunca

desmaiavam. Jamais.

As duas mulheres se avaliaram. Rillie começou a tocar flauta no quarto ao lado, como

sempre fazia enquanto Cordelia criava o clima.

— Reconheci a sua voz, Gwenlliam — afirmou Cordelia.

— Eles disseram que você estava morta — repetiu a jovem.

Bem devagar ainda, como se estivesse doente, Cordelia se sentou ao lado da filha.

— Procurei por você em Gales tantas vezes, mas a velha casa foi trancada há muitos anos e

o castelo está em pior estado do que antes.

— Sim. — A flauta continuava tocando, bem baixinho. Ainda assim, elas ficaram sentadas,

um pouco separadas. D ez a nos se p a ssa r a m. Por um momento o silêncio ficou tão

intenso que era como se o quarto estivesse vazio. Então, seguiu-se uma avalanche de palavras.

— Gwenlliam, para onde levaram vocês? Devem tê-los levado para algum lugar logo depois

que eu parti, porque voltei logo para casa e...

— ... Sim. No mesmo dia em que partiu para Londres, alguns homens e uma mulher

chegaram em uma carruagem e simplesmente nos pegaram. Pude apenas deixar um bilhete na

nossa casa da árvore. Não sabia para onde estávamos sendo levados, mas pensei...

— ... e procurei na nossa casa da árvore, parecia óbvio...

— ... e sabia que você procuraria lá. Tinha certeza. Se estivesse viva, sabia que procuraria na

casa da árvore.

A voz delas estava um pouco ofegante.

— Mas houve uma tempestade. Quando cheguei, nossa casa estava trancada e caíra um

terrível temporal. Não havia bilhete algum. Eu subi na casa da árvore. Não havia bilhete, mas

eu sabia que você teria deixado um se pudesse...

— ... e eu escrevi “eles estão nos levando embora”, mas não sabia para onde. Eles apenas nos

pegaram e nos levaram para o norte, algum lugar próximo de Ruthen, soube depois. Ficamos

em outra casa de pedras antiga, mas não era próxima ao mar. E eles nos disseram que você

estava morta. — E durante todo o tempo em que falavam, estavam sentadas eretas e distantes,

apenas olhando uma para a outra como se são acreditassem. — Vivemos lá por muitos anos.

— O que... O que vocês faziam? Como viviam? Quem tomava conta de vocês?

— Tivemos muitos tutores. Morgan não fazia nada além de ler e pintar, mesmo quando o

enviaram para uma escola de verdade. Mas Manon e eu aprendemos as etiquetas de jovens

damas. — Cordelia os imaginou com tutores, tão longe, seus aniversários passando enquanto ela

tentava retomar a vida nos palcos, uma atriz mais velha agora, fazendo papéis de bruxas e

rainha das fadas.

— Eles, eles... — Nenhuma delas especificou quem eram “eles”. — Eles cuidaram... —

Cordelia tentava desesperadamente manter a coerência. — Vocês foram bem cuidados?

— De certo modo.

— Manon? — Ela disse a palavra com cuidado, como se fora porcelana chinesa.

— Manon acabou de ser apresentada à corte. Ela vai se casar na sexta-feira. Com um

duque.

Cordelia tentou esconder o choque. M a non, c a sa da ? Com um duq ue? Manon

tinha apenas 7 anos quando Cordelia se despedira dela.

Ela disse a próxima palavra:

— Morgan? — Não houve resposta. — Morgan? — repetiu ela em tom de urgência.

— Ele está... Ele é como sempre foi. — E Cordelia, uma vez mais, emitiu um som como

um choro engasgado. Olhou para as mãos. Viu o rosto do pequeno menino angustiado enquanto

a cabeça doía, a raiva, a mão passando pela cabeça, o silêncio; ouviu não mais a flauta de Rillie,

mas o som do mar, as vozes das crianças gritando umas para as outras pela praia deserta

embaixo da antiga casa da árvore; flores selvagens azuis, vermelhas e amarelas inclinadas pelo

vento. Ergueu o olhar e viu a jovem sentada à sua frente. Acima dela, estrelas de mentira

captavam a luz das velas no quarto escuro.

Tinha de fazer mil perguntas ou nenhuma. Por fim, disse:

— Como me encontrou?

— Há alguns meses, Morgan foi levado para Cardiff por causa das dores de cabeça e...

— Ele ainda tem dores de cabeça?

— Elas são diferentes das de antes. Em Cardiff, Morgan achou um anúncio no jornal.

MÃE PROCURA POR CRIANÇAS NA CASA DA ÁRVORE. Você colocava um anúncio à nossa

procura todas as semanas? Depois de todos esses anos?

— Eu coloco uma vez por ano. No aniversário dele. Mas nunca houve qualquer resposta.

— Ele encontrou e me mostrou, eu disse que era bobagem dele que ficou zangado e rasgou

o jornal. — Novamente, Cordelia viu o pequeno rosto angustiado de outrora. — Não pensei que

Morgan conseguisse encontrá-la de novo — continuou Gwenlliam com simplicidade. — Ele

demorou muito para se recuperar da sua partida. Mas é claro que fiquei na dúvida se

realmente era você e respondi, ao anúncio, em segredo, quando estávamos vindo para Londres

para Manon ser apresentada à Rainha Vitória e se casar.

— Mas... Eu não recebi nenhuma carta.

— A Srta. Spoons a encontrou. — Ela ouviu Cordelia arfar, chocada. — Ela logo entrou em

contato comigo. Tivemos tanta sorte, mamãe, pois a minha madrasta exige ver todas as cartas

que recebo, mas eu estava chegando de uma caminhada na praça e o carteiro estava lá e me

entregou a carta da Srta. Spoons. Eu apenas dei meia-volta e vim para cá. Peguei um cabriolé

sozinha e nunca tinha feito isso antes.

Cordelia precisou de todas as suas forças para se manter coerente, para falar normalmente.

As velas tremulavam.

— Então, todos vocês estão em Londres? Manon? Morgan? E você.

— Sim. Morgan e eu nunca estivemos aqui, mas Manon ama Londres e a vida da nobreza.

Mas Morgan e eu sempre planejamos fugir para o novo país. Para a América.

— O que quer dizer?

— Sempre sonhávamos em ir para a América. Você nos contou sobre aquele novo país que

surgiu no mar. Mas nosso tutor nos disse que a América sempre esteve lá.

— Oh! Gwenlliam, inventei isso para divertir vocês! Eu não sabia nada sobre a América!

E as duas mulheres, ao se lembrarem, começaram a rir por um segundo, surpresas porque

parte do passado as tocava como um fantasma. E, então, pararam de rir e o silêncio pairou no

ar.

— Mas Londres sempre fora o sonho de Manon. Nosso avô, o duque de Llannefydd, um

homem velho, cruel, terrível e mau, está sempre bêbado e fede a uísque e tem os dentes

podres. Somos obrigados a beijá-lo e é ele quem controla nossas vidas e toma todas as decisões.

Acho que até mesmo nosso pai tem medo dele. O duque tem uma casa em Grosvenor Square.

— Sim — disse Cordelia. — Eu conheço aquela casa. Uma vez, tentei procurar por vocês lá.

Havia muitas perguntas não respondidas no ar: nenhuma delas sabia bem como navegar por

aquelas águas turbulentas. Ouviam apenas o som da respiração irregular e de alguém limpando

a garganta.

A jovem pálida, de repente, se inclinou para a frente.

— Caminhei pela Little Russell Street assim que cheguei aqui. Eu me lembrei do nome e

das histórias sobre sua mãe e tia Hester e sobre sua vida no teatro. E lembrei da Tia Hester quando foi nos visitar em Gales. Lembro que dei a mão para ela e lhes mostramos as nossas

conchas.

E, pela terceira vez, Cordelia emitiu o som de choro engasgado.

—Sua tia-avó Hester! — sussurrou ela. — Você se parece tanto com sua tia-avó Hester.

E ela, por fim, abraçou a jovem de cabelos claros e a manteve em seus braços, juntamente

com os xales, e ambas choraram.

E, enquanto choravam, a jovem repetia:

— Não entendo nada. — Por fim, ela olhou para a mãe através das lágrimas. — Há tantas

perguntas na minha cabeça: por que meu pai se divorciou de você? Por que disse que estava

morta? O que aconteceu quando a chamou para vir a Londres?

— Não falemos sobre essas coisas agora — respondeu Cordelia, rapidamente, enquanto

abraçava a filha.

E, durante todo o tempo, Rillie continuava tocando flauta no quarto ao lado, desejando, de

todo o coração, que elas pudessem viver felizes para sempre.

 

A voz de Cordelia parecia vir de um sonho.

— Quando ela me encontrou, Peggy, eles eram jovens em uma sociedade, tendo a vida

dominada pelo avô ditatorial e cruel. As pessoas não sabiam... E não tinham como saber,

é claro, que eles tinham nascido fora do casamento. O pai deles tinha casado com uma

prima distante da Rainha Vitória. — Peggy mordeu a linha, impaciente. — Minha filha

mais velha, Manon, se casou com um duque. Rillie e eu fomos, em segredo, até a igreja

usando nossas melhores roupas e vimos tudo de um banco lateral. Ela estava linda.

Nesse ponto, Peggy não se conteve:

— Cord, veja bem! Meu avô morreu na Revolução lutando contra esses malditos

ingleses com sua pomposa nobreza, achando-se superior a todos os outros e todo esse

lixo cruel de classes sociais! Eu sou americana. Com certeza, você não pode esperar que

eu fique impressionada porque sua filha se casou com um duque! — A agulha em suas

mãos não parava de coser. — É muito triste ter perdido seus filhos por todo aquele

tempo, mas me parece que Gwen ficará bem melhor indo para a Califórnia do que

casando com um daqueles esnobes. Acho que você a salvou de um destino pior do que a

morte ao trazê-la para a América.

Cordelia arfou. Seu rosto ficou tão lívido que Peggy abrandou o tom.

— Bem, não ligue para mim. Espero que a menina tenha se tornado uma linda

duquesa e vivido feliz para sempre.

— Ela... Eu não pude revelar a minha presença para ela, é claro. As pessoas não

poderiam descobrir que a duquesa de Trent era ilegítima. Ela foi tão infeliz com seu

marido nobre que... acabou se matando.

A agulha parou. Peggy desejou ter guardado na boca suas últimas palavras.

Em uma autópsia imediata, não restou dúvida sobre como Manon, a jovem duquesa de Trent,

morrera; os jornais logo tinham todos os detalhes. Ela pedira ao noivo um pouco de antimônio

de potássio, pois tinha um cavalo muito doente com o qual lidar. Morrera por volta das três

horas daquela tarde, em grande agonia com órgãos internos queimados: vestira-se com seu

vestido de noiva, o rosto estava retorcido devido a dor terrível pela qual passara. Estava deitada

no leito matrimonial na nova casa da duquesa de Trent em Berkeley Square, Londres.

 

— E o meu filho — a voz de Cordelia era quase um sussurro. — Também morreu.

Gwenlliam é tudo o que me resta.

O silêncio pairou no quarto do Brooklyn. O tique-taque do relógio de George

Washington era o único som que se ouvia. Peggy se inclinou como se quisesse tocar o

braço de Cordelia, mas ela se afastou um pouco.

— Ainda tem mais. Logo depois que me encontraram, o pai deles foi assassinado pela

madrasta, assim que ela descobriu que havia sido enganada, que eu ainda estava viva. —

As palavras agora vinham em uma torrente. — Assim como as crianças, ela também

acreditara que eu estivesse morta e concordara em assumir as crianças como se fossem

dela quando descobriram que não poderia conceber. — Naquele momento, Cordelia fez

um som que parecia um suspiro irônico. — Por diversas razões, eu fui logo acusada pelo

assassinato. — Então, Peggy parou de costurar, mas Cordelia parecia não vê-la, tamanho

esforço que fazia para terminar a história o mais rápido possível. Então falou muito

depressa. — Foi assim que conheci Arthur, ele era o detetive responsável pelo caso. Fui

inocentada, mas a minha vida se tornara pública. Naquela época, eu era uma próspera e

conhecida mesmerista em Londres. Monsieur Roland foi meu professor e mentor e Rillie

cuidava dos negócios. É claro que depois de tudo aquilo a minha reputação estava perdida

para sempre e eu nunca conseguiria trabalhar de novo. Por fim... — Um sorriso soou na

voz tensa de Cordelia. — Por fim, foram todas as histórias pavorosas nos jornais, até

mesmo aqui, que fizeram com que Silas me oferecesse trabalho na América. Quando seu

circo estava no auge. Então, eu vim para Nova York e nós moramos no American Hotel e,

por um breve tempo, ficamos famosas e prósperas!

Por fim, Cordelia se calou.

Peggy Walker assoviou, sentada ali, segurando o cobertor brilhante do camelo.

— Isso é o que eu chamo de história, madame!

Mas Cordelia apenas deu de ombros.

— Creio que a maioria das pessoas tenha suas histórias. Elas talvez não sejam tão

públicas quanto a minha.

— Agora, não me diga que aquela madrasta horrenda, a tal da prima da Rainha

Vitória, rainha da Inglaterra e do Império, foi enforcada por assassinato.

— É claro que não! Era apenas uma prima distante, creio eu. Mas também tentou me

atacar, mas por ser parte da realeza e como as investigações tornaram impossível para o júri chegar a qualquer veredito que não fosse que o pai dos meus filhos foi “assassinado

por pessoa ou pessoas desconhecidas”.

— Deve ter sido muitíssimo difícil para você, Cord.

E a bondosa Peggy Walker, que, afinal, era americana, não conseguiu evitar: fez mais

uma pergunta. Ela a formulou de forma gentil, mas perguntou assim mesmo:

— E o seu filho... Como ele morreu?

— Eu... Eu... — Cordelia ergueu da cadeira. — Peggy. Não. Eu não consigo mais. — Ela

caminhou até a janela e olhou novamente para Manhattan. O ponto mais alto era o

pináculo de Trinity Church, que cortava o céu como uma faca.

 

Gwenlliam correu para o médico: Cordelia ficou com ele.

— Mamãe, essa é diferente. A dor na minha cabeça é diferente dessa vez. Ajude-me,

mamãe. Eu não consigo suportar. Tem algo acontecendo dentro da minha cabeça!

E ele vomitou de novo.

Cordelia respirou fundo e ficou ao lado dele. O cheiro de vômito se elevou no ar, mas ela

não notou. Por um momento segurou a cabeça dele como costumava fazer há muito tempo,

quando ele era um garotinho, e acariciou seu cabelo. Então, sentiu o corpo do rapaz de 15 anos

se convulsionar mais uma vez. Ela se afastou um pouco e passou as mãos sobre o rosto dele,

fazendo passes do mesmerismo, repetidas vezes. Ela não podia chorar. Se chorasse, não

conseguiria ajudá-lo. Suor, não lágrimas, escorria pelo seu rosto, enquanto tentava, com todas as

forças, passar para ele a energia do próprio corpo. Atrás dela, sua sombra agigantava-se na

parede, enquanto passava as mãos bem acima da cabeça dele, as sombras dos braços em

movimento passavam pelo teto, repetidas vezes, sem parar. Ele se encolhia na cama e gritava,

mas era de dor.

— Nós nunca nos separaremos de novo, mamãe? Agora que nos encontramos? — A voz

começou profunda e terminou como o sussurro de uma criança. Ela sorriu para ele, suas

lágrimas, e ela viu a areia molhada interminável, até chegar aos rochedos e ao mar.

— Nunca. Nunca — respondeu ela, sorrindo. — Agora que nos encontramos.

Ela passou a mão sobre a cabeça do filho repetidas vezes; ele aguardou pelo alívio que ela

sempre trazia quando segurava sua cabeça ainda menino. E tão grande era sua confiança nela

que quando se sentiu flutuando para longe acreditou que ela o havia salvado.

Ela continuava passando as mãos sobre ele repetidas vezes, sem parar, com todas as suas

forças e com todo seu amor, todo aquele amor reprimido por anos. Não ouviu os outros

chegarem, não ouviu nada. Até que Monsieur Roland a pegou gentilmente pelos ombros.

— O mesmerismo não pode trazer a vida de volta, querida. Não é mágica.

Então, Cordelia olhou para Monsieur Roland e compreendeu.

 

— Ele sempre sofreu de dores de cabeça terríveis. Logo depois que nos reencontramos,

ele teve uma apoplexia causada por uma hemorragia cerebral. Não tinha como sobreviver àquilo. — Cordelia ainda olhava para o outro lado do rio e, de repente, se voltou para a

Peggy, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. — Essa é a minha história, Peggy

Walker.

— Sinto muito, Cordelia.

— Qual é a sua?

— O quê?

— Qual é a sua história?

— Ora, Cord, você já ouviu a minha história umas vinte vezes à beira de uns vinte

rios! Da minha mãe, orgulhosa filha da revolução, casada por amor e humilhada por um

tolo. Eu fugi da fazenda e entrei para o circo e nunca mais voltei. Todas aquelas esposas

dos fazendeiros pioneiros, por todo o Meio-Oeste levando a vida com suas caras chocadas

— disse ela, debochada. — Tinham a cabeça cheia de ideias românticas. Não imaginavam

como a vida seria difícil, mas como achavam que seria? Trabalhei com La Grande Celine

quando aquele alemão louco a perseguia para se casar e morar em uma fazenda de

porcos. Eu disse a ela Não faça isso, Celine! É claro que a história dela também surgiu. Ela

é uma mulher corajosa, aquela Celine. Viu, aí está outra história. Veja bem, acredito que

haja centenas de pessoas que não possuem histórias tão trágicas, mas, então, nós não as

conhecemos, não no nosso ramo!

E Cordelia tentou forçar um sorriso e, ao perceber que ela se recuperara, Peggy se

aproximou da janela e, por um instante, segurou a mão de Cordelia e a apertou.

— Estou muito satisfeita por ter me contado. Tomarei conta de Gwenlliam da melhor

forma que conseguir e não falarei nada disso com ela, a não ser que ela fale primeiro.

Dou minha palavra. Agora — disse ela, agitada, voltando para o cobertor do camelo —,

todos concordamos em um ponto: Silas P. Swift é louco. Essa ideia de irmos para a

Califórnia é insana. Mas é verdade que chegam notícias de trupes que fizeram a viagem e

que agora estão ganhando uma fortuna. Então talvez tenhamos a mesma sorte. Ou, por

outro lado, terminaremos como as esposas dos fazendeiros, chocadas por termos sido

tão tolas. Mas, pelo menos, aqueles de nós que leem o jornal estão cientes dos perigos e

das dificuldades. As cartas demorarão muito para chegar, é claro. Entretanto, a viagem

agora é sobre dinheiro e, guarde bem minhas palavras como americana que sou, dinheiro

significa viagens cada vez mais rápidas e hão de descobrir uma maneira de fazer as entregas

de correio. Esse é o modo americano. E, Cord, acho o seguinte: não somos apenas um,

somos o circo, e temos de rezar, creio eu, para que com tantos de nós, que já nos

conhecemos e nos ajudamos, conseguiremos chegar lá.

— Incluindo um leão, dois elefantes e um camelo?

— Talvez eles viajem melhor do que nós, humanos — declarou Peggy, secamente.

Cordelia olhou para o relógio com a imagem de George Washington.

— Oh! — exclamou ela, cansada. — Não havia percebido que já era tão tarde. Não

contei a eles que vinha aqui conversar com você novamente. Disse que ia sair para

comprar um chapéu. Tenho de comprar um chapéu.

Mas Peggy viu como Cordelia estava cansada. Ela nem se afastou da janela.

— Ah! — disse Peggy. — Creio que eu tenha exatamente o que precisa. — Ela começou

a mexer em um dos armários repletos de coisas e um lindo chapéu cinza, muito estiloso,

apareceu. Cordelia soltou uma exclamação de admiração. — Era da minha pobre mãe.

— Oh. Então ela morreu?

Peggy ficou em silêncio por um instante.

— No final das contas, eu não contei toda a minha história. Engraçado, não é? Como

não contamos tudo? Sei que você só me contou o principal. — Ela suspirou. — No final,

minha mãe não aguentou a vida. Humilhada por um tolo. Um dia, ela mergulhou em um

lago. Foi nesse dia que fugi e trouxe comigo alguns poucos pertences dela. Você me

confiou a sua filha, então, eu gostaria de presenteá-la com o bonito chapéu da minha mãe.

Sei que eu levei a melhor nessa negociação!

Com muito cuidado, Cordelia colocou o refinado chapéu na cabeça.

— Ora, ora, Cordelia Preston! Você parece uma... Você está linda! É tão estranho que

o chapéu não tenha ficado antiquado. Ou talvez a moda tenha voltado. Você parece... —

Ela parou. — Posso entender por que Silas está tão zangado com você.

— Ele está muito zangado comigo?

— É claro que está. Você é a estrela do circo. Tem algo que os outros não têm, nem

mesmo Gwen. Sempre teve isso, um ar estranho e etéreo. Isso afeta as pessoas. Olhe para

você, principalmente agora, com o rosto tão branco.

— Gwenlliam é uma mesmerista tão boa quanto eu. Monsieur Roland também

ensinou tudo para ela. Silas não sabe como tem sorte de tê-la. Ela será uma Fantasma

incrível, ainda mais sendo acrobata de verdade. Uma que não precisa amarrar almofadas

aos joelhos! — Cordelia, com seu chapéu novo, tentou rir, mas sem sucesso. — Ah,

Peggy, cuide bem dela.

— Somos todos sobreviventes no circo — respondeu Peggy Walker, cheia de vida. Ela

pegou uma garrafa de uísque e serviu uma dose nos copos de cerveja. — Gwen ama o

circo, qualquer idiota consegue ver isso.

— Eu sei. E é por isso que não posso impedi-la de seguir em frente, mesmo quando

não posso suportar... — E a voz de Cordelia falhou. — Deixá-la ir. — Tomou um gole da

bebida.

— Silas P. Swift é louco — afirmou Peggy. — Mas eu o admiro muito! Ele tem corrido

por toda Nova York, fazendo todos os tipos de arranjos. Não deve ter sido nada fácil

enviar os animais e toda a parafernália do circo quando há tanta gente lutando para

conseguir um lugar nos navios para partirem em busca de ouro. E você sabe que ele já

mandou gente na frente para atravessar o istmo, anunciar o circo e observar o terreno.

Um tipo de carroça do telégrafo seguindo pelo mar para sinalizar o caminho quando

chegarmos!

Então, as duas começaram a rir e Cordelia terminou a bebida e pensou ironicamente

em Monsieur Roland: no final, ela se obrigara a contar sua história para outra pessoa.