O Circo dos Fantasmas
Capítulo 27
A esposa de Alfie, Maria, retornou de Tarrytown para Washington Square quando o clima
quente e úmido chegou ao fim, e, na mesma hora, Regina começou a ser bombardeada
com convites: deveria ir até lá conhecer sua grande família. Regina, porém, recusou-se a ir
a Washington Square: na verdade, estava nervosa, embora não transparecesse isso.
— Talvez ele convide muitos deles para me conhecer, todas essas novas pessoas de
quem sou tia. Talvez eu nem goste deles — disse com firmeza. — E essa Maria. Ele diz que
é uma dama do sul. Sobre o que posso conversar com ela? E como voltarei para casa
depois? Eu não ficarei por lá!
La Grande Celine, que, como sempre, se envolvia nos dilemas dos hóspedes, tinha a
resposta.
— Ora, eu posso resolver isso! — respondeu na mesma hora. — Eles devem vir à
minha casa de refeições!
Então, foi Celine quem fez todos os preparativos para a visita da família de Alfie a
Maiden Lane: Regina ficava cada vez mais nervosa e insegura conforme o dia se
aproximava. As sorridentes garçonetes, Ruby e Pearl, moveram o biombo que protegia a
área das mulheres do restante do salão de jantar para que uma mesa maior pudesse ser
trazida e, ainda assim, manter a privacidade.
— Trarei apenas seis pessoas — protestou Alfie quando soube dos planos e
compreendeu o nervosismo da irmã. — Não queremos assustar Queenie!
— Então, teremos uma mesa para doze, podendo chegar a dezesseis pessoas! —
apaziguou Celine.
Monsieur Roland sorriu para ela.
— A senhora é muito gentil, minha cara — declarou ele. — Temos muita sorte em tê-la
encontrado.
— Talvez o senhor queira usar seu novo casaco roxo — sugeriu ela.
— É claro — respondeu o francês, e Celine cantou “Frère Jacques” na cozinha do
porão enquanto sorria e ajudava nos preparativos do banquete.
Alfie ofereceu dinheiro para essa refeição comemorativa, mas Rillie e Cordelia, mesmo
sabendo que a situação financeira da família estava cada vez mais precária, sequer
consideraram a sugestão.
— Regina viveu conosco e nos ajudou por mais tempo do que consigo me lembrar —
— Regina viveu conosco e nos ajudou por mais tempo do que consigo me lembrar —
dissera Rillie a Alfie com firmeza. — Esse jantar de comemoração a sua recém-encontrada
família será, com muito prazer, pago por nós.
O inspetor Rivers a acompanhou até o Bank of America, e ela retirou dinheiro extra. O
inspetor sabia muito bem que ela estava ansiosa em relação à situação financeira à medida
que as semanas passavam: ele mesmo estava ficando preocupado; apesar de ainda
possuírem algumas economias, sabia que o FALE COM O MESMERISTA ainda não estava
dando lucro. No momento, era o único apoio financeiro que a família possuía. Não podia
nem começar a pensar que Charlie, o marido de Millie que trabalhava na Companhia de
Águas de Londres, era a única fonte de renda para sustentar as outras 19 pessoas pelas
quais Arthur se sentia responsável. Mas aprendeu a nunca interferir na conta bancária de
Rillie: era apenas o signatário da conta e nada mais. Assim, não fez qualquer menção às
dificuldades financeiras e assinou o formulário.
Rillie e Cordelia compraram flores e as distribuíram ao longo da mesa antes de subir
e vestirem as melhores roupas que possuíam; Blossom e Maybelle davam risadinhas
enquanto poliam repetidas vezes as cadeiras e os espelhos; Ruby e Pearl dispuseram à
mesa os melhores talheres.
Regina, ainda nervosa, murmurou vários salmos no andar de cima e leu em voz alta
manchetes dos jornais: GAROTAS SE ESFAQUEIAM POR AMOR DE BANQUEIRO.
Pareceu se interessar bastante, até que percebeu que lera errado: na verdade, era
GAROTAS SE ESFAQUEIAM POR AMOR DE PADEIRO , que era, de alguma forma,
diferente. Quando se deparou com uma história de um grupo de pessoas com intenção de
se tornarem mineradores na Califórnia, e que partiram de Nova York havia mais de um
ano em busca do ouro e tiveram seus corpos encontrados nas montanhas Rochosas,
virou a página e leu mais propagandas. Disse a todos que aquele era apenas mais um dia,
apesar de tudo: no entanto, colocou a pena festiva no chapéu. A Sra. Spoons, parecendo
incerta sobre para onde ia enquanto era levada lentamente pelas escadas, ou mesmo sobre
quem era, pegou a pequena luva amarela: um pouco mais cedo, demonstrara muita
ansiedade quando Rillie insistiu em lavar a luva em um balde d’água.
Duas matronas robustas e com muito estilo e charme foram apresentadas como filhas
de Alfie. Um dos maridos trabalhava para Alfie e o outro em um jornal: ambos vestiam
paletós claros, assim como Alfie. Apenas dois dos inúmeros netos de Alfie foram
autorizados a comparecer àquela importante visita: eles olhavam para todos com grande
interesse; analisavam os pôsteres do circo, quando não estavam observando a nova tia
Queenie com seu chapéu engraçado.
Então, Alfie, orgulhoso, apresentou a esposa (por suas visitas a Maiden Lane, haviam
entendido que foram muitas): essa Maria era uma viúva que conhecera enquanto fazia
vendas de algodão pelo sul.
Maria carregava um leque que agitava de forma vagarosa, mais como se fosse uma peça
de seu vestuário do que pelo clima, pois os dias estavam frescos naquela altura. Havia
muitos cachos sob o grande chapéu e ela tinha praticamente a mesma altura das robustas enteadas. Perguntou, em tom sulista lânguido, onde poderia se sentar; saudou Regina com
graça quando foram apresentadas. Mas, então, arruinou a imagem de dama do sul ao dar
um grande e repentino abraço em Regina, envolvendo-a em seu xale, mangas e perfume.
— Declaro que há anos não vejo Alfie chorar! — informou ela, sorrindo de alegria,
segurando Regina um pouco mais longe a fim de observá-la melhor. — Estou muito feliz
que ele a tenha encontrado. Quantos anos a senhora tem?
Todos prenderam a respiração. Regina olhou para a mulher calorosa e cheia de boas
intenções à sua frente e respondeu:
— Para dizer a verdade, Maria, não tenho tanta certeza. Acho que tenho 73. E a
senhora, quantos anos tem?
Maria não ficou nem um pouco desconcertada.
— Tenho sessenta. — respondeu. — E sabe? Eu trabalho para Alfie igualzinho aos
filhos dele! Quando conheci Alfie, há uns vinte anos e nós viemos para Nova York, onde
as mulheres fazem coisas diferentes de Nova Orleans, ele me disse que seria ótimo se eu
aprendesse a ler melhor, então arrumei uma professora para mim e não só melhorei
minha leitura como também aprendi contabilidade. Hoje cuido de todos seus livros
contábeis! O que acham disso? — perguntou ela. — E vejam isso. Ajude-me com esse
embrulho, Dolly. Mesmo que o verão tenha acabado, eu pensei em apresentar a todas
vocês, senhoras, o costume sulista de se refrescar quando necessário!
E distribuiu belos leques para todas elas, até mesmo para La Grande Celine. Então, a
dama do sul se abanou (dando a elas uma lição, embora Cordelia e Rillie, tendo sido
atrizes, soubessem usar leques muito bem). Por fim, sentou-se, mas não antes de ser
simpática com Arthur e cumprimentar Monsieur Roland em francês. Alfie continuava
olhando tudo, orgulhoso, observando a reação das pessoas.
Ruby e Pearl serviram ostras de Staten Island, pão fresco do padeiro alemão de Maiden
Lane, bife, batatas fritas, torta de maçã e montanhas de creme. Jeremiah, o garçom, serviu
cerveja, vinho do Porto e uísque, e sarsaparilla para as crianças. A Sra. Spoons estudava
seu leque com grande interesse e emitiu um pequeno som de prazer quando Rillie abanou
o ar sobre seu rosto por um momento.
— É claro, eu o teria encontrado anos atrás — disse Regina. — E não seria necessária
toda essa busca se ele não tivesse mudado o maldito nome para George Macmillan, que
era nosso tolo avô, que deve ter entrado para a Sociedade da Temperança.
— Ora, nós todos o chamamos de Alfie, é claro! — informou Maria. — Ele sempre
dizia que gostava mais do próprio nome, mas, como sabemos, teve que trocá-lo por
conveniência tempos atrás.
Os netos haviam ensaiado:
— Prazer em conhecê-la, tia-avó Queenie. — E tendo dito isso pelo menos quatro
vezes, ambos queriam tocar o harmônio.
Os outros clientes ergueram o olhar de forma breve quando escutaram os estranhos
sons vindos do instrumento, mas, como sempre, logo voltaram a comer, apressados, a
fim de voltarem ao trabalho. Um raio de sol da tarde de outono brilhou nos talheres polidos. Depois de um tempo, os netos haviam esgotado as possibilidades de
brincadeiras no harmônio, voltaram a observar a estranha e interessante tia.
— O vovô nos disse que a senhora é poetisa! — declarou a menina com voz estridente
devido à excitação do dia. — A senhora conhece o Sr. Edgar Allan Poe?
— Oh, eu ensinei a ele tudo que sabe — respondeu Regina, e enquanto os olhos da
menina se arregalaram, continuou: — Não, estou brincando, mas eu aprendi, sim, os
poemas dele. — E, sentada na longa mesa de jantar, recitou:
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais...
A Sra. Spoons, que já havia escutado essas palavras várias vezes, ainda que não se
lembrasse, acompanhou o ritmo do poema com os pés. Os netos — novos parentes de
Regina — olharam maravilhados para a tia Queenie; o menininho agarrou a saia da mãe,
enquanto fitava aquela estranha senhora. Os maridos bateram os copos na mesa e todos
se juntaram ao aplauso.
Então, Alfie se levantou para fazer um discurso, com os polegares repousados nos
bolsos do paletó. Agradeceu à família pela agradável hospitalidade e, então, disse:
— Durante toda minha vida, disse à minha família que tinha uma irmã. Minha irmã
Queenie, eu dizia, era poetisa, mas nós nos separamos. Sempre me recordei de um ou
dois de seus poemas e os recito às crianças. “Esse é da sua tia”, costumava lhes dizer. — E
as filhas robustas concordaram com a cabeça. — Agora. Vocês podem pensar que, depois
de cinquenta anos, dois irmãos podem se esquecer um do outro. Mas não nós. Eu
descobri que minha irmã tem me enviado cartas para o grande posto de correios de Nova
York; não, Queenie, — pediu ele, quando ela quase se levantou, surpresa. — Eles não
jogam fora simplesmente as cartas depois de um mês, não com tantas pessoas chegando e
partindo: eles possuem um depósito. Fui até lá e perguntei se havia alguma
correspondência para o Sr. Alfie Tyrone, dei um dólar ao garoto e disse “procure com
cuidado, rapaz, e lhe recompensarei mais tarde”, e ele retornou com as cartas, Queenie,
suas cartas. Eu guardarei essas cartas para sempre, minha irmã, elas são agora meu
tesouro pessoal. Agora escutem: em uma das cartas, ela me escreveu um poema. Ela o
escreveu para mim, disse isso, e vou lhes contar, eu chorei ao ler esse poema, e nunca o
mostrei a Maria, mas vou lê-lo agora para todos. — Retirou do paletó seus óculos.
A esposa lhe lançou um olhar surpreso; Cordelia e Rillie se olharam, admiradas, e
ambas se voltaram para Regina, a quem conheciam há tanto tempo — mas talvez não tão
bem quanto imaginavam. Foram tantas as emoções que transpareceram no rosto de
Regina que Monsieur Roland, que também a observava, perguntou-se se ela iria desmaiar (embora isso fosse bastante improvável). Os netos observavam o avô com os olhos
arregalados enquanto ouviam a história.
Às vezes quando estou a adormecer,
Acordo com o coração a bater,
A bater, a bater na noturna escuridão.
De tempos remotos, às vezes vem a recordação
Do abrigo com as luzes fracas a pouco iluminar
E o pai com pancadas a nos castigar
Por tudo que não tínhamos como considerar
A bater, a bater na noturna escuridão.
Não precisava de motivos para nos dar uma lição
Mas Alfie e eu agarramos nossa canção,
O amor às palavras também nos ensinou
Tais palavras soavam como um pássaro que cantou
E a nossa cabeça as palavras segurou
Quando ele ficou
A bater, a bater na noturna escuridão.
— Ela contou a história da nossa vida nesse poema.
Lágrimas de surpresa escorriam pelos rostos de Cordelia e Rillie. E os olhos dos
netos pareciam saltar do rosto.
— Agora me digam se ela não poderia ter sido a professora do tal Sr. Poe? —
perguntou Alfie, e assoou o nariz em um grande lenço. — E Maria e eu conversamos
muito sobre Queenie e eu nos reencontrarmos. — Maria concordou com a cabeça
enquanto sorria, chorava e se abanava com o leque. — Ficaríamos muitos satisfeitos, se
parecer apropriado, é claro, se minha irmã viesse morar conosco em Washington Square.
— Ele viu a expressão assustada no rosto da irmã. — Se isso lhe parecer apropriado, ouça
bem o que estou dizendo, Quennie!
***
Por fim, depois de várias semanas, com muito estímulo da família recém-encontrada,
Regina tomou coragem para viajar, pelo menos para uma visita, a Washington Square.
— Só vou dar uma olhada — disse ela, rápido, para Cordelia e Rillie. — Não vou ficar
muito tempo, não quero abandonar a senhora idosa por um período longo demais.
Alfie chegou pela manhã para buscá-la em uma pequena carruagem: ele não aprovava
muito essas coisas e teria ido a pé, mas queria proporcionar todo o conforto à irmã.
— O senhor acha que as cartas já estão para chegar, Alfie? — perguntou Cordelia.
— Ainda não, minha querida. Eu farei mais alguns cálculos em uma semana ou mais,
— Ainda não, minha querida. Eu farei mais alguns cálculos em uma semana ou mais,
mas não agora. Você está se cuidando bem e carregando aquele ferro de passar? — (Regina
havia recontado a ele toda a história).
— Carrego ele comigo para onde quer que eu vá — confirmou Cordelia. — Assim
como nos velhos tempos, em Londres, Alfie!
— Boa garota! — E ele riu e brincou com a irmã. — Vamos embora agora, Quennie. —
E a ajudou a subir os degraus do veículo com a pequena mala com seus pertences
enquanto todos acenavam em despedida. Estava frio, ele colocou uma manta sobre os
joelhos da irmã. Regina Tyrone nunca havia andado de carruagem e observou tudo à sua
volta com um ar de desagrado.
— Não ficarei muito tempo! Voltarei em breve! — gritou para os outros. A Sra.
Spoons, observando os outros, acenava e sorria, imitando-os.