O Circo dos Fantasmas
Capítulo 18
Casa de Celine. Maiden Lane
Querido irmão Alfie,
Ando me perguntando se recebeu minha carta. Não, claro que não, ou já teria me encontrado, pequeno Alfie, conheço você. Sei que já teria me encontrado. Não consigo imaginar nenhuma outra maneira para encontrar você, então, continuo escrevendo.
Também me pergunto se talvez tenha partido atrás de ouro, Alfie? Você teria ido quando jovem, mas
tenho pensado muito e acho que já deve ter uns setenta anos. É uma senhora viagem para alguém de setenta anos, Alfie! De qualquer forma, sei que teria feito isso no passado.
Também estamos falando sobre ouro aqui em casa. O dono do circo quer levar o espetáculo para a
Califórnia. Bem, Alfie, sou mais velha do que você, também estou na casa dos setenta e acho que sou velha demais para partir em busca de ouro, não que eu me sinta velha, veja bem, mas me sinto mal quando ouço falar sobre atravessar istmos, passando por crocodilos, cobras e essas coisas. Aquela senhora idosa, a Sra. Spoons, perdeu-se completamente dentro de si e nunca conseguiria. Há poucos anos, atravessamos o Atlântico e acho que já chega de viagens para ela.
Depois que o dono do circo foi embora, um policial chegou com os relatórios do nosso inspetor ferido
durante o tumulto. Moramos em um pequeno sótão, então, as mulheres saíram para caminhar, “Só uma caminhada”, me disseram, como se eu fosse tão louca como a mãe, “enquanto os policiais trabalham”. Mas sei que elas estão discutindo sobre a Califórnia e gostaria que falassem na minha presença para saber o que estão decidindo. “Cuida da mamãe”, Rillie me pediu— e isso é o que sempre fiz; faço há vários anos desde Londres, quando aluguei um quarto delas e já impedi várias vezes que ela caísse na lareira! De qualquer forma, elas saíram para essa “caminhada” e me deixaram em paz. A velha senhora está dormindo profundamente na cadeira de balanço, enquanto nosso policial e seu parceiro estão murmurando e escrevendo à mesa, então, agora posso escrever novamente para você, Alfie. Esse inspetor Rivers é um bom homem, mesmo sendo um deles, acho que se machucou muito no tumulto, mais parece que foi espancado. E essa Cordelia, sobre quem já comentei e que trabalha no circo, ela precisa dele, mesmo que ache que não. Ela já foi muito popular! Ah, e está mais quieta do que costumava ser. Mas a filha dela, Gwenlliam, aposto que vai para a Califórnia. Eu conto histórias para ela à noite, antes de dormirmos, nós dividimos um quarto. Ela se aninha na cama e pede “conte uma história, Regina”, eu conto e ela dorme. Se ela for, sentirei saudades.
Em todo caso, tenho sentido vontade de voltar a escrever, Alfie. Escrevi um novo poema outro dia, para
nós dois, para você na verdade, depois de ler aquele Sr. Poe. Então aqui vai. De qualquer forma, você saberá bem do que estou falando.
Às vezes quando estou a adormecer,
Acordo com o coração a bater,
A bater, a bater na noturna escuridão.
De tempos remotos, às vezes vem a recordação
Do abrigo com as luzes fracas a pouco iluminar
E o pai com pancadas a nos castigar
Por tudo que não tínhamos como considerar
A bater, a bater na noturna escuridão.
Não precisava de motivos para nos dar uma lição
Mas Alfie e eu agarramos nossa canção,
O amor às palavras também nos ensinou
Tais palavras soavam como um pássaro que cantou
E a nossa cabeça as palavras segurou
Quando ele ficou
A bater, a bater na noturna escuridão.
Aí está, Alfie, para você.
De qualquer forma, continuo à sua procura. Realmente não acho que poderei enfrentar a Califórnia. Ontem eu perguntei novamente por você nas docas, principalmente para os marujos mais velhos, com certeza alguns deles o conhecem, Alfie Tyrone, eu digo e eles negam com a cabeça. Gostaria muito de encontrá-lo. Isso é como enviar uma mensagem ao vento.
Espero que essa carta o encontre bem, pequeno Alfie, se é que o encontrará.
Sua irmã
Regina.