O Circo dos Fantasmas
Capítulo 19
Deixaram os policiais tratarem dos seus assuntos e desceram pela sempre movimentada
Broadway. Não falaram muito e, mais tarde, ao anoitecer, como muitos outros nova-
iorquinos, sentaram-se entre as árvores de Battery Park: Cordelia, Rillie e Gwenlliam. O
sol estava baixo no horizonte, brilhando sobre o rio Hudson, parecendo incendiar as
velas brancas das embarcações. Salgueiros chorões inclinavam-se sobre o rio e alguns
homens magros pescavam. Estava mais frio agora e as mulheres puxaram seus mantos
quando se sentaram juntas na grama. Gwenlliam olhou para os galhos sombrios dos
plátanos, mas nada disse.
— Bem? — perguntou Rillie, por fim.
— Realmente — disse Cordelia. Novamente ficaram em silêncio até que Cordelia
explodiu: — Ele está louco! Só de pensar. Califórnia! A ideia é absurda: Kongo e Lucky já
estão em algum navio descendo a costa do Atlântico e o pobre e velho camelo, com suas
pernas finas e compridas, o leão em sua jaula e as carroças pintadas batendo de um lado
para o outro! — Cordelia riu, mas pareceu um riso de raiva. Gwenlliam não dissera nada,
mas olhou para elas com atenção.
Então, seguiu-se silêncio até que Rillie o quebrou:
— Cordie, mamãe e Regina não conseguirão chegar a Califórnia! No final, não
podemos carregá-las de um lado para o outro, sempre mudando. Essa viagem deve levar
uns seis meses, não importa o que Silas diga. — Então, Rillie respirou fundo. — Dessa
vez, não poderei ir. — Ela deu sorriso cansado para a velha amiga. — Uma de nós tem de
dizer.
Cordelia suspirou em um misto de exasperação, raiva e resignação.
— Sei que está certa, Rillie. É claro que está. O velho e louco Silas Swift! Não posso
imaginar como não adivinhei antes qual seria seu próximo plano. Com a palavra OURO
estampada em todos os jornais. — Cordelia meneou a cabeça e disse:
Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso?
Este escravo amarelo
Fará e desfará religiões; abençoará os réprobos;
Fará prestar culto à alvacenta lepra; assentará ladrões,
Dando-lhes título, genuflexões e aplauso,
No mesmo banco em que se sentam os senadores.*
— Shakespeare. Titus Andronicus — disse Rillie e todas riram.
— E quanto deste ouro amarelo, brilhante e precioso viria para nós, eu me pergunto? —
continuou Cordelia. — Não estou muito entusiasmada para desaparecer na fumaça de
Silas presa a um cabo invisível do outro lado do continente. Ainda assim, o que faremos
para ganhar dinheiro? Oh, meu Deus, aqui vamos nós de novo. Por que, no final das
contas, sempre voltamos à velha história, não importa o quanto superamos tudo?
Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Por quanto tempo podemos viver com o que ainda temos,
sem o ouro reluzente?
— Você sabe que sempre conseguimos sobreviver, Cordie. Guardei tudo que podia
dos bons tempos do circo. Arthur e Monsieur Roland também me dão dinheiro. Nós
teríamos de mudar para algum lugar mais barato do que a Casa de Celine, mas
sobreviveríamos com a ajuda deles.
— Eu irei para a Califórnia — declarou Gwenlliam, de repente. — Vou ganhar
dinheiro e mandar para vocês. Eu gostaria de ir.
Cordelia se inclinou no ombro da filha, sentada ao lado dela no parque ao anoitecer.
Arrependimento e dor e a dificuldade das decisões também estavam ali.
— Seria uma aventura maravilhosa, Gwennie, é claro que seria. — Ela suspirou. — E a
verdade é que você seria uma acrobata fantasma muito melhor do que eu. Meus joelhos
estão acabados.
— Mas eu não sou você, mamãe — declarou Gwenlliam.
— Você seria melhor do que eu — repetiu Cordelia. — Você é mais bondosa.
Monsieur Roland sempre disse que a bondade é importante em um mesmerista. —
Pensou por um momento. — Sou muitas coisas, mas acho que não sou particularmente
bondosa.
Ao ouvir isso, Rillie a cutucou na escuridão, como se dissesse não seja boba. Por um
longo tempo, a noite fria se fechou sobre elas. Cordelia sentia o coração batendo e a velha
sensação de aperto no estômago. Será que cruzo a América ou é aqui que perco Gwenlliam
também?
— O policial bonito disse que poderia me vencer no pôquer — contou Gwenlliam,
indignada. — Não são muitas as pessoas capazes de me vencer depois das minhas aulas
com cacique Great Rainbow.
— Se você ficar olhando para os olhos do policial bonito em vez de para as suas cartas
— comentou Rillie. — É claro que vai perder, minha jovem!
— Sou uma ótima jogadora de pôquer — reiterou a menina. — Só não posso me
distrair.
Todas riram e o rosto de Gwenlliam ficou rosado e, mais vez uma, Cordelia se apoiou
na amada filha.
— Bem, preciso encontrar nosso velho Monsieur Roland e levá-lo de volta para casa —
disse Cordelia, por fim, sentando-se ereta. — Acho que nunca o vi tão zangado. Silas é tão
pouco diplomático.
— Para não dizer grosseiro, imprudente e rude — acrescentou Rillie, secamente. — E
irracional e louco, como você bem disse.
— Mas ele é um produtor artístico — protestou Gwenlliam. — Eles têm de ser assim!
E todas riram de novo, as três mulheres sentadas na grama do parque.
— Temos de conversar sobre tudo isso juntos — declarou Cordelia, rápido. — Arthur
também. Temos de dar uma resposta para Silas. — Mas estava pensando meu Deus, o que
farei agora? Ela balançou o corpo de leve. — Vou procurar o velho homem — repetiu. —
Não o queremos vagando pelas ruas de Nova York à noite. Ele nem tem uma capa grossa o
bastante. — Ela se levantou da grama. — Pobre homem, deve ter ido para Nassau Street em
busca de um pouco de paz. Ah, é tão surpreendente que tenha vivido tanto tempo
sozinho e que agora consiga viver em um pequeno sótão com mais seis pessoas.
— Diga a ele que a torta estará quase pronta — orientou Rillie. — Essa é a vantagem de
morar com outras pessoas. Diga a ele!
Elas fizeram um movimento indicando que acompanhariam Cordelia, mas ela já se
fora na meia-luz, andando rápido como sempre, com joelhos acabados ou não. E,
quando Rillie e Gwenlliam, por fim, se levantaram, seguiram na direção de Maiden Lane e
viram a capa clara de Cordelia à frente delas, refletindo a luz enevoada dos lampiões a gás
por entre as árvores e as pessoas ocupadas e apressadas da cidade.
Nem Gwenlliam nem Rillie falaram sobre Arthur Rivers, mas ambas pensaram nele.
Ainda não havia se passado duas semanas desde que Cordelia voltara.
Quando virou na direção de Nassau Street, Cordelia parou um pouco na frente do estúdio
de daguerreotipia do Sr. L. Prince. Observou as fotografias na vitrine ao lado da placa em
que se lia RETRATOS, GRUPOS, MEMORIAIS, A LUA. Ao anoitecer, sob a luz suave dos
lampiões a gás ao longo da Broadway, os rostos capturados ali pareciam pinturas escuras:
assombradas e misteriosas; cada qual uma vida, pensou ela. Na parte inferior da placa,
estava escrito em letras pequenas, e aquela não era a primeira vez que notara:
MINISTRAMOS AULAS DE DAGUERREOTIPIA: INFORME-SE AQUI.
Na pequena placa na Nassau Street onde se lia: Monsieur Roland: Mesmerista, havia luz
na janela. Ela bateu na porta e ele a atendeu da forma cortês de sempre e a levou para a
segunda sala, um pouco maior do que a primeira. Se ainda estava zangado, não
demonstrou.
— Rillie disse para o senhor voltar logo, pois haverá uma torta — informou Cordelia.
— Obrigado — agradeceu ele e, lentamente, juntou os papéis espalhados em uma pilha
que colocou na lateral da mesa. — Mas sente-se aqui, minha querida, apenas um
momento.
Ofereceu a ela a própria cadeira. A luz de um dos lampiões iluminava a mesa, os
Ofereceu a ela a própria cadeira. A luz de um dos lampiões iluminava a mesa, os
papéis e os livros. Monsieur Roland se sentou na cadeira do cliente, do outro lado da
mesa e, então, começou a falar, antes que ela o fizesse:
— Gwenlliam irá, é claro, para a Califórnia.
Monsieur Roland raramente falava de amor. Mas ele amara a tia de Cordelia, Hester, e
amara e protegera Cordelia e, acima de tudo, amara e protegera Gwenlliam, que carregava
doces semelhanças com Hester no rosto e no jeito de ser. Fora o professor dela, assim
como o de Cordelia. Ela tem o dom, dissera ele a Cordelia. E tem algo mais. A presença de
bondade. Ela sempre fará as pessoas se sentirem melhor. Assim como Hester.
Se Gwenlliam fosse para a Califórnia, Monsieur Roland sentiria muita saudade dela.
— Ela quer muito ir — confirmou Cordelia, tentando soar positiva e alegre. — Maldito
Sr. Silas P. Swift e seus planos loucos, mas é claro que seria uma aventura brilhante.
Ele assentiu.
— É claro que se trata de uma aventura. Mas esta será uma decisão difícil para você,
querida. — Ele não deixou claro se se referia à decisão de Gwenlliam ou a dela própria, e
ela nada respondeu.
Ouviram o som leve da chama que tremulava no lampião. As pessoas passavam
apressadas pela pequena janela, vozes e passos, carroças e cavalos trotando. Até logo,
camarada! Disse uma voz na rua. Até logo, camarada! Até logo.
Mas ele repetiu a pergunta:
— E você, Cordelia? O que vai decidir?
Ela olhou para ele, em desespero, apenas por um momento. Então, deu de ombros.
— Para dar ao diabo o que lhe cabe, como diz Shakespeare, Silas sempre nos pagou
bem. Tenho de trabalhar, pois somos muitos para o senhor e Arthur sustentarem e é
claro que sei, embora ele ache que não, que Arthur precisa mandar dinheiro para a
família na Inglaterra. Sei que ele sente que elas deveriam ter algum apoio de sua parte já
que está tão longe.
— Ele não fala muito da família.
— Não — respondeu Cordelia. — Ele não fala. — Uma pequena pausa: nenhum deles
falava. — Isso se deve ao fato de que ele tem uma cunhada que cuida da casa dele e ela é...
— Ela fez uma careta de resignação, ao se lembrar do infeliz encontro em Marylebone. —
... um tanto difícil.
Monsieur Roland a ouviu e ela nada mais disse.
— Acho que temos outras coisas sobre as quais conversar neste momento de decisão,
tanto quanto sobre a Califórnia.
Uma expressão assustada cruzou o rosto de Cordelia. É claro que ele não vai fazer
perguntas sobre Arthur e eu? Sobre o meu casamento. Eu não quero conversar sobre isso. Os
dedos compridos e magros de Monsieur Roland descansaram sobre os papéis ao lado do
lampião. Ela viu anotações com sua letra pequena e caprichada e, quando recomeçou a
falar, não foi sobre o casamento dela.
— Cordelia, os grandes dias do mesmerismo se acabaram de forma irrevogável. — Ela
— Cordelia, os grandes dias do mesmerismo se acabaram de forma irrevogável. — Ela
deu sinais de que iria falar, mas ele ergueu a mão de forma gentil. — Ouça por um
momento. Por mais que pareça, não estou mudando o assunto do nosso futuro. Se as
minhas palavras parecem caóticas é porque meus pensamentos ainda não estão ordenados
de forma perfeita.
Ela percebeu que os olhos dele passaram por todos os livros do aposento e sobre sua
mesa. Ele respirou fundo e começou a falar:
— É claro que, para mim, não é nada fácil perceber que os estudos e o trabalho da
minha vida foram, no final das contas, suplantados por novas descobertas. Falo sobre o
éter e o clorofórmio e não sobre essas baboseiras excruciantes de psíquicos e
espiritualistas e batidas em mesas que enchem os jornais. — Tamborilou os dedos sobre
os papéis. — Entretanto, meus estudos e meu trabalho talvez tenham me levado, mesmo
agora, por novos caminhos. Talvez tenham me guiado para novos modos de cura. A dor
física não é a única dor no mundo.
Naquele momento, ouviram uma batida na porta da rua e Monsieur Roland deixou a
sala. Ela ouviu vozes abafadas e consultas sendo marcadas. As pessoas ainda procuravam
por aquele curandeiro. É isso que ele é acima de todas as outras coisas, pensou ela, de
repente. Como sempre, desde épocas imemoriais. Ele é um sábio e um curandeiro. A luz do
lampião tentou chegar do outro lado da sala escura e esparsa.
Quando Monsieur Roland voltou, inclinou a cabeça como um pedido de desculpa pela
interrupção, caminhou até a pequena janela e olhou para a rua movimentada.
— Surpreendo-me repetidas vezes por toda a energia cheia de esperanças que sinto
aqui. É impressionante observar. Assim, nunca pense, Cordelia, que me arrependi de ter
vindo para Nova York. Esta é uma cidade extraordinária e, de alguma forma, otimista.
E ela conseguiu perceber a alegria em sua voz.
— Toda a minha vida estudei a energia humana, aquilo que vemos de forma tão clara
nas ruas e creio que essa energia venha da mente humana. Você e eu bloqueamos a dor,
só que em vez de usar meios químicos usamos nossa própria energia para desbloquear a
energia de nossos pacientes para o mesmo fim. Creio que, de certa forma, isso seja um
milagre. — Ele se voltou para ela. — E, ao estudar as pessoas, eu sempre pensei que a
força da energia mental era o que tornava as pessoas quem elas eram. Que essa energia
mental era, de alguma forma, a base da personalidade.
Ele voltou e se sentou com Cordelia à mesa.
— Mas então eu comecei a morar e a passar algum tempo com a Sra. Spoons.
Cordelia ficou tão surpresa que repetiu suas palavras:
— A Sra. Spoons?
— Nesses últimos anos — continuou ele. — Vivendo tão próximo à Sra. Spoons, acho
que aprendi algo muito importante, mas estou apenas começando a reconhecer e a
transformar isso em um pensamento coerente. Eu só pensava na energia e em seus usos.
Nunca compreendi inteiramente a importância da memória.
— Memória? — Ele não poderia tê-la surpreendido mais.
— Mas pense bem nisso, Cordelia. — Ele se inclinou sobre a mesa. — Pense nisso. O
que somos? O que nos faz saber quem somos? Nós somos as nossas lembranças. A nossa
memória é que nos torna quem somos. Que utilidade poderia ter toda a energia mental
do mundo se não soubéssemos quem somos? Sabemos quem somos porque nos
lembramos, pois o que mais nos torna quem somos e nos dá consciência de quem somos
na nossa vida? — Ele bateu com os dedos em um dos livros sobre a mesa. — É claro que
não sou a primeira pessoa a pensar nisso. Há muito tempo, filósofos pensam sobre a
memória. John Locke aqui diz que a memória é a pessoa. A Sra. Spoons ainda funciona
como um ser vivo, não há dúvida, ela ainda respira, come e dorme, mas não é mais ela
mesma porque não tem qualquer lembrança. Ainda assim, foi uma jovem, criada em
Londres, que casou com o Sr. Spoons e que teve filhos, e Rillie. Ela morou com Rillie,
Regina e você em Londres, embarcou em um navio e veio morar em Nova York.
Tragicamente, começo a perceber que ela não se lembra de nada disso. Não é de se
estranhar que tenha se tornado ansiosa e perturbada. Não acredito que não tenha pensado
nisso antes. A Sra. Spoons tem uma doença. Ela está presa em um mundo de nada.
Ele a ouviu arfar.
— Nossa, isso parece tão... solitário.
— Realmente. Trata-se de uma doença terrível e solitária. Ainda assim, é claro, nada é
tão simples. Você e Rillie sempre falaram sobre como ela era bondosa quando jovem.
Percebemos que, de um modo estranho, ela ainda é bondosa. Pense em Arthur e em suas
bandagens; de alguma forma ela percebeu que havia algo errado e quis confortá-lo.
Mesmo que não se lembrasse de quem ele era. Será que isso significa que a bondade não é
uma memória? E, por fim, você estava lá, acompanhou a canção: whistle and I’ll come to
you, cantou ela. Conhecia a letra, conhecia a versão original escocesa como se algo ainda
permanecesse dentro dela. Será que talvez a música e a bondade continuem com alguém
mesmo depois que essa cruel doença acabe com tudo? — Ele falava bem devagar, como se
nada do que estava dizendo fosse certo. Percebeu a expressão confusa no rosto de
Cordelia. — Tenha um pouco mais de paciência — pediu ele, sorrindo. — Como eu disse,
não estou fugindo do assunto Califórnia. Como tenho pensado muito sobre a Sra.
Spoons e a perda de sua memória, comecei a pensar nas pessoas que (algo que notei no
meu trabalho e não dei a devida importância) não perderam a memória, como aconteceu
com a Sra. Spoons, mas que... Como posso dizer isso de forma correta? Pessoas que
afastam as memórias, que as bloqueiam, por serem difíceis demais de suportar.
Monsieur Roland viu a expressão do rosto dela e continuou rapidamente:
— Moro com você, Cordelia. Vejo em seu rosto todos os dias que se lembra. — Ela
deu um breve aceno de cabeça e, por um momento, ficaram sentados em silêncio. —
Embora também raramente fale do passado — acrescentou ele.
— Não — respondeu ela, por fim. — Não falo do passado. Mas vivo com pessoas que
sabem o que aconteceu. Vocês estavam todos lá. Não preciso discutir o que se passou.
Creio ser indigno ficar repetindo a história, chorar e me lamentar. Simplesmente não
consigo imaginar uma situação em que poderia contar a minha história para qualquer outra pessoa. — Lançou um olhar firme ao amigo. — Isso não significa que eu tenha
bloqueado minhas lembranças. Mas tenho uma nova vida agora. E a antiga se acabou.
Ele apenas tomou a mão dela nas suas e a segurou sobre a mesa. Se discordava, nada
disse naquele momento. Ficaram sentados em silêncio. Então, de forma gentil, soltou sua
mão e aumentou um pouco a intensidade da luz do lampião.
— Mas, minha querida, algumas pessoas, e agora (mesmo que tardiamente) reconheço
a partir dos muitos anos de trabalho, algumas pessoas talvez bloqueiem suas lembranças
sem saber que estão fazendo isso. E agora chegamos ao que realmente quero dizer: assim
como usamos os passes do mesmerismo para desbloquear o fluxo de energia em outra
pessoa... Preste atenção a este pensamento... Eu me pergunto se não seria possível
desbloquear lembranças. Pois talvez lembranças bloqueadas causem nas pessoas, pelo
menos um pouco, a dor emocional que nós, como mesmeristas, às vezes tentamos curar
e, algumas vezes, como você bem sabe, essa dor emocional se manifesta como dor física.
Cordelia, de repente, viu a tenda do circo em Hamford: a jovem Emily com suas dores
de cabeça cegantes, que faziam com que balançasse a cabeça para a frente e para trás, as
crianças queimadas sobre as quais não conseguia falar.
— Sim — respondeu ela, devagar. — Tenho certeza de que isso pode ser verdade.
— E você sabe, Cordelia, aqui neste país, as pessoas não se prendem ao passado, ao
modo antigo de se pensar. Acho que não é coincidência que essas invenções modernas, o
telégrafo, por exemplo, e o trabalho do Sr. Morton com o éter sulfúrico para “desligar” o
cérebro, tenham sido feitas aqui e não no velho continente. A tradição não sufoca as
pessoas daqui.
— Mas o daguerreótipo do Sr. Daguerre foi inventado em nosso país!
— É claro que estou generalizando. As pessoas inventam coisas em todos os países.
Mas quem percebeu rapidamente como ganhar dinheiro com daguerreótipos? Onde
surgiram os primeiros estúdios para tirar retratos baratos o suficiente para que várias
pessoas pudessem tê-los? Na América! Em que país o Sr. Daguerre é mais festejado e
reconhecido? Onde recebeu fitas de honra? Na América! A América abraça as novas ideias!
Bem, esta é a minha nova ideia: se as pessoas pudessem falar conosco, se viessem
procurar nossa ajuda para suas dores, talvez nós mesmos pudéssemos observar os sinais
das lembranças que elas escondem, mas que, ainda assim, as fazem sofrer. E se
conseguíssemos fazê-las perceber o mal que fazem a si mesmas, será que tornaríamos
mais fácil curar a dor física? Será que conversar conosco talvez as fizessem compreender
melhor a si mesmas?
— Certamente as pessoas adoram falar na América — comentou ela, seca.
— É claro! É exatamente o que quero dizer! Na América, as pessoas falam o tempo
todo com estranhos sobre assuntos bastante íntimos sem qualquer receio. Também
costumam fazer perguntas íntimas sobre a outra pessoa. La Grande Celine, por exemplo,
há um tempo me perguntou, sem o menor pudor, se eu possuía outro casaco e quanto
exatamente eu ganhava como mesmerista! — exclamou ele. Mas ela viu que ele sorria sob a
luz do lampião e sorriu também.
— E o que respondeu?
— Não fora um bom dia aqui em Nassau Street, embora, às vezes, ainda tenha alguns
bons dias. Eu havia atendido dois pacientes. Cobrei um dólar e cinquenta centavos do
primeiro e o outro me ofereceu meio guinéu, pois era tudo que possuía, então acenei
com a cabeça e aceitei. Mas não conseguiria pagar o aluguel aqui em Nassau Street com
aquilo! Dei a Celine essa informação como ela pediu e, imediatamente, insistiu que eu
tomasse um chocolate quente misturado com conhaque!
Ambos riram, porém ele suspirou e se levantou novamente, afastando-se da mesa e da
luz, seguindo para a janela e retornando, andando de um lado para o outro como se, de
repente, precisasse de mais espaço.
— Dr. Mesmer reconheceu que a energia podia ser bloqueada — continuou. — Estou
tentando e reitero que estou tropeçando nessa direção, mas me pergunto se as lembranças
são bloqueadas por serem dolorosas demais. E se fossem liberadas, será que uma cura
verdadeira aconteceria? Será que ajudaríamos no processo apenas ao ouvir mais? Se
pudéssemos ajudar um homem a enxergar o próprio coração, talvez isso fosse capaz de
acabar com a dor em sua cabeça. Isso é tudo.
— Mas e se as pessoas não quiserem lembrar?
— Então talvez estejamos fazendo um convite à loucura. Se as pessoas não se
permitirem lembrar, não poderemos ajudá-las. E eu nem ao menos sei se essa nova forma
de ajudá-las seria bem-sucedida. Mas poderíamos tentar.
— Mas como, exatamente? Você ainda não disse como !
— Talvez apenas ao convidá-las para conversarem conosco?
— E ainda usar o mesmerismo?
— Sim. Talvez. É isso que ainda tenho de resolver. — E ele encolheu os ombros frágeis
e velhos. E olhou para ela, sentada à sua mesa de trabalho. Caminhou com cuidado e
falou em tom gentil: — Talvez você mesma um dia tenha necessidade de falar novamente
sobre tudo o que aconteceu com você. — (Ele falava de forma cuidadosa e gentil.) — Para
que o passado não a assombre tanto. Talvez não viva a sua nova vida de forma completa.
— É claro que vivo! Não estou doente! Não sinto dores! Eu me casei com Arthur!
As palavras dele a chocaram. Sentia-se quase afrontada, ainda assim o adorado
Monsieur Roland nunca a afrontava. Ele ergueu a mão, indicando que compreendera.
— Minha querida, eu já falei demais e você, Arthur e Gwenlliam precisam conversar
sobre tantas coisas. Não estou, de forma alguma, e acho que me conhece bem, tentando
mantê-la em Nova York. Estou apenas sugerindo que talvez haja um novo trabalho para
você, caso decida ficar. E agora temos de voltar para casa.
Então, ela se deu conta de que ele estava oferecendo uma alternativa às acrobacias de
Silas, caso precisasse. A chama do lampião tremulou quando passaram para sair. A
conversa extraordinária se esgotara, mas ela não conseguiu evitar perguntar, curiosa:
— O senhor diz que começou a desenvolver essas ideias porque observou a Sra.
Spoons. Não acha que as lembranças da Sra. Spoons talvez estejam bloqueadas? Que talvez
pudéssemos ajudá-la com suas novas ideias?
— Conversei incontáveis vezes com a Sra. Spoons nesses últimos meses. Acredito que
ela saiba que somos coisas familiares, assim como a sua cadeira de balanço, e ela é
bondosa conosco, pois sempre foi bondosa, mas não reconhece a si mesma e não nos
reconhece. Nem ela nem nós fazemos parte de suas lembranças. Acho que devemos
supor, se é que podemos fazer qualquer suposição sobre algo tão complexo e
desconhecido quanto o cérebro humano, que, em algumas pessoas, partes do cérebro
morrem, que as lembranças da Sra. Spoons já morreram, se foram e nunca mais voltarão.
Essa é a doença dela e não podemos fazer nada para ajudá-la. Gostaria que fosse diferente,
minha querida, e ficaria muito feliz se provassem que estou errado amanhã, mas acho que
essa é a verdade.
Naquele exato momento ouviram uma batida na porta e ambos tiveram um leve
sobressalto. Mas era Gwenlliam que entrou nos pequenos aposentos com o rosto corado
devido à corrida desde Maiden Lane até Nassau Street.
— Algum problema? — perguntou Cordelia, aproximando-se da filha.
— Não! — Gwenlliam começou a rir ao ver a expressão de susto no rosto deles. — É
claro que não! Mas vocês sabem que horas são? Quando vão voltar para casa? Queremos
tê-los conosco! O belo policial, o Sr. Frankie Fields levou o relatório de Arthur, um
documento bastante inflamado, diga-se assim, até a delegacia de polícia e já voltou para
jantar conosco a convite de Rillie; o bife e a torta já estão prontos. Rillie, Arthur, Sr.
Fields e Regina já tomaram uma taça de vinho do Porto e eu até tive tempo de jogar
pôquer com o Sr. Fields e, até o momento, estamos empatados! Estamos confortáveis
como uma família real em nosso pequeno sótão, mas precisamos de vocês para nos
sentirmos completos. Então, venham logo para casa! Espero que o verão de verdade
chegue logo. Está muito frio agora.
Nenhum deles notara. Mas Gwenlliam estava lá, tão jovem, animada, cheia de vida e
desejo por aventuras e eles sabiam que o que ela realmente queria dizer era Vamos para
casa e vamos conversar sobre a Califórnia! E, de repente, Cordelia emitiu um som baixo e
abraçou a filha, apertado, segurando-a por um longo tempo. Então, ergueu a cabeça e fez
um leve aceno com a cabeça, quase imperceptível, para Monsieur Roland. E ele entendeu
que ela dizia: Vou ficar.
Então, se voltou para a filha.
— É claro que não podemos fazer as malas e partir para a Califórnia, minha querida,
como fizemos quando deixamos a Inglaterra! A Sra. Spoons nunca sobreviveria à viagem,
Rillie nunca a deixaria para trás e para onde vamos Regina também vai e nunca a
deixaríamos agora. E também há os meus velhos joelhos acabados! Ai, meu Deus, imagine
todos nós em canoas passando por crocodilos, cobras e florestas tropicais! Mas você
quer ir, Gwennie, eu sei. Sei e prometi que seja lá qual for a sua decisão, eu nunca a
impedirei. Pronto! — Por fim, Cordelia soltou a filha, acariciou seu cabelo e, depois,
afastou os cabelos dos olhos. — E, meu velho — disse ela carinhosamente para Monsieur
Roland que ouvia tudo em silêncio. — Sem o senhor teríamos desmoronado há muitos
anos e não conseguirá se livrar de nós agora! Só sob o meu cadáver é que o senhor viajaria no meio de crocodilos para chegar à Califórnia! Mas Gwenlliam é diferente, ela é a
única entre nós que realmente é jovem e tem toda a vida pela frente e o resto de nós ficará
aqui, esperando seu retorno. É claro que sei que você quer ir para a Califórnia com o
circo, Gwennie, sei o quanto ama essa vida.
— Mas você não virá? — Gwenlliam lançou um olhar incerto para a mãe. — Eu
também amo você, mãe.
— Eu sei, querida. Mas essa não é uma decisão entre dois amores! São diferentes tipos
de amor. — Cordelia, então, respirou fundo e declarou: — falaremos com Peggy Walker.
— Ela se voltou para Monsieur Roland e explicou: — A maravilhosa costureira de
figurinos sobre quem você já nos ouviu falar. É ela que sempre faz roupas brilhantes.
Tenho certeza de que ela aceitará ser a guardiã de Gwenlliam e eu ficarei em Nova York e
trabalharei com o senhor.
E Monsieur Roland uma vez mais compreendeu a força de Cordelia Preston.
— Acho que já sou crescida o suficiente para precisar de uma guardiã, mamãe!
— Que seja apenas para tomar conta de você enquanto estiver jogando pôquer e
aproveitando a “embriaguez de éter”! Sabemos muito bem que você pode ser qualquer
tipo de oráculo fantasma e acrobata que Silas possa inventar. E fazer isso tão bem quanto
eu e com muito mais agilidade e eu farei com que Silas pague a você um salário muito
bom.
Gwenlliam olhou para Monsieur Roland. Estava bastante contido, aquele senhor que
tanto amava, mas fora ele que encontrara o seu talento e a ensinara tudo que sabia.
— Você sabe que terá meu apoio seja qual for a sua decisão — disse ele em tom grave.
— Confio em você quanto ao uso da nossa arte.
Mas as palavras não ditas pairaram no ar: como poderia ser diferente? Só podemos
esperar que todos fiquemos juntos de novo.
— Eu ainda não decidi — declarou Gwenlliam em voz baixa.
Monsieur Roland disse:
— Dependeremos muito de você, ma chère. Dependeremos de você para nos sustentar
na velhice!
E o momento passou e ele logo estava sorrindo e Gwenlliam o abraçou e sentiu os
ossos finos do velho senhor.
— Celine tem devorado os jornais — contou ela, então. — É claro que tendo
trabalhado em circos, conhece Silas e ele contou a ela, quando nos deixou hoje, sobre
seus planos e sonhos, então ela subiu para o sótão com todos os jornais que encontrou e
ficou lendo para nós todos os artigos para mostrar como a Califórnia é perigosa e
terrível! Ela e Regina competiam entre si para ver quem lia o pior desastre! Celine não
consegue suportar a ideia de nos ver partir. Acho que ela gosta de nós, mas o mais
importante é que se apaixonou pelo senhor, Monsieur Roland.
Ele pareceu envergonhado.
— As pessoas não se apaixonam por homens velhos, querida. Embora eu tenha de
admitir que ela realmente prepara um excelente chocolat chaud.
— Já se cansou de homens jovens — provocou Gwenlliam. — O senhor a faz lembrar
da sua infância na França e ela o acha bonito e bondoso. Ela só se apaixona por homens
franceses, sabe? Pois bem, o grande amor da vida dela, e confidenciou isso apenas para
mim, foi Pierre l’Oiseau, Pierre, o Pássaro. Vocês sabem? O meu parceiro de acrobacias,
com seu grande bigode. Ela não sabia que ele trabalhava no nosso circo até eu o
mencionar ontem.
— Será que há alguma forma de convencermos Pierre l’Oiseau de continuar em Nova
York quando o circo partir para a Califórnia? — perguntou Monsieur Roland, fazendo
uma piada com um fundo de verdade.
Cordelia começou a rir ao ver a expressão de desconforto no rosto de Monsieur
Roland e ele tentou rir também. Por fim, meneou a cabeça e olhou nos olhos da amiga.
— Amei a sua tia Hester — declarou ele. — Aquilo era amor para mim. — Então, em
voz baixa, continuou: — Ela era a alegria da minha vida. Essa é a minha lembrança: a que
me faz saber quem sou.
— Mas Celine tem tantas esperanças! — lamentou Gwenlliam.
Contudo, Monsieur Roland apenas meneou a cabeça novamente, mesmo com um
sorriso nos lábios enquanto trancava a pequena porta da frente, onde se lia de forma
discreta: Monsieur Roland: Mesmerista, e os três caminharam para casa, seguindo pela
Broadway até o sótão, onde encontraram a família e comeram torta.
As folhas estavam verdes e as flores podiam ser vistas nos lugares mais estranhos: ao
longo da Broadway, em Battery Park, nas redondezas do reservatório de água Croton e, até
mesmo, ao lado das quitandas com repolhos empilhados do lado de fora e cortinas nos
fundos. Arthur insistiu em voltar ao trabalho: ele e Frankie Fields caminharam livremente
pelas docas, exibindo escoriações e bandagens como se dissessem: ainda não, irlandeses de
Bowery, ainda não.
Sr. Doveribbon, resgatado por um grande gancho de navio das águas rasas, imundas e
nojentas do rio East, seguiu direto para sua cama no American Hotel, esperando ter
contraído alguma febre perigosa; sentia tanta pena de si mesmo e estava tão zangado que
pensou em voltar para Londres. Teve de repetir o mantra dez mil libras, dez mil libras para
se recuperar. Então, não tendo morrido afogado ou de contaminação e apenas espirrando
bastante, tirou as medidas em um alfaiate judeu para outro terno cinza (na verdade, dois):
ficou impressionado, mesmo sem querer, com a velocidade com que aqueles americanos
trabalhavam, embora, obviamente, a mão de obra nunca chegasse aos pés do trabalho de
um alfaiate inglês.
Naquele meio-tempo, Cordelia e Gwenlliam desceram a Maiden Lane em direção ao
escritório em Pearl Street para se encontrarem com o Sr. Silas P. Swift, como prometido.
Eles conversaram e planejaram e decidiram entre si qual seria a melhor forma de
transformar Gwenlliam da princesa com tiara na estrela do circo (uma que, na verdade,
não lesse a sorte ou previsse o futuro, mas que dançasse nas sombras e mesmerizasse aqueles que precisassem dela). Elas chegaram ao escritório e Cordelia apresentou seus
planos.
— Será ainda mais excitante, Silas! — afirmou Cordelia. — Gwenlliam é jovem e uma
acrobata maravilhosa, como o senhor bem sabe. E uma excelente mesmerista! Como
consequência, Gwenlliam terá de ganhar pelo menos o dobro do salário que costumava
pagar a ela e ainda mais se forem um sucesso na Califórnia.
Cordelia Preston, nascida no teatro, ainda assim tivera tanta prática em ser uma dama
de classe na Inglaterra que não conseguia falar de qualquer outra forma: e não se
esquecera de impressionar, sendo fria e firme.
Silas P. Swift não dava a mínima para o modo de falar dos ingleses de classe, ainda
assim, Cordelia o intimidava um pouco. Além de indeciso, estava zangado e decepcionado
com a deserção de sua estrela.
— Eu a trouxe para a América! Você sempre foi a estrela do meu circo! É a você que as
pessoas fazem fila para assistir. — Então, falou como se ela não estivesse presente,
dirigindo-se a Gwenlliam. — Há algo nela. Algo estranho e poderoso e não tem nada a ver
com juventude ou idade. Sinto calafrios quando aparece lá nas sombras; até hoje.
Cordelia, pense bem, camarada! Eu pagarei mais!
Entretanto, Cordelia manteve-se firme.
— O senhor sabe quantos anos eu tenho?
Ele explodiu, desconcertado:
— Esse não é o ponto. Pois eu mesmo acabei de fazer 40 anos e já tenho netos.
— Bem eu tenho quase idade para ser sua mãe, Silas e, desse modo, avó dos seus
netos. E tenho certeza de que o senhor não permitiria que sua própria mãe, juntamente
com toda sua família, cruzasse a América em busca de ouro!
— Uma família se constitui de pais e filhos — disse Silas, sombrio, acostumado a
conseguir tudo o que queria. — E não senhoras idosas e cavalheiros. — Ainda não se
esquecera da ira de Monsieur Roland.
— Não, Silas, família é uma palavra com muitos significados. É constituída pelas
pessoas com as quais vivemos, amamos e que dependem de você também. Mas meu
querido, o senhor deveria estar animado! Gwenlliam é jovem, bonita e os mineradores
vão amá-la: como vivo dizendo, a juventude é uma grande vantagem, ela poderá fazer
muitas coisas que eu não sou mais capaz. Foi treinada no mesmerismo da mesma forma
que eu e é escandaloso pensar em como o senhor a subaproveita! E o senhor sabe muito
bem que ela é uma acrobata muito melhor do que uma senhora idosa como eu, com
almofadas amarradas nos joelhos, jamais poderá ser. Ela será um sucesso!
Ele considerou as palavras de Cordelia enquanto alisava o bigode, pensativo.
— Você será chamada de A FANTASMA CLARIVIDENTE — disse ele para
Gwenlliam, por fim. — Caso contrário, não aceitarei isso.
Nenhuma das duas respondeu: as negociações haviam começado.
— O que aconteceu como o urso, Silas? — perguntou Gwenlliam.
— Não faço ideia. Aquela grande fraude. Provavelmente virou uma torta. Eu o vendi.
— Não faço ideia. Aquela grande fraude. Provavelmente virou uma torta. Eu o vendi.
Apenas ursos marrons dançam, sei disso muito bem. Não sei como fizeram aquele velho
urso branco me enganar, mas conseguiram. Bem, ele deve ter ido para o paraíso dos
ursos. O velho enganador, imprestável e ameaçador. Nunca me senti seguro com ele.
Esses ursos comem seres humanos.
Por fim, olhou para Gwenlliam com atenção.
— Hmmm. Gwenlliam, talvez oráculo? — sugeriu ele. — Aquela ideia que eu tive de...
mostrar talvez mais ou menos onde o ouro está ao olhar em uma bola de cristal? Eu
poderia cobrar vinte dólares por isso!
Gwenlliam riu.
— Pare com isso, Silas! Já conversamos! Eu penso exatamente como mamãe e
Monsieur Roland sobre o mesmerismo. Mas aparecerei das sombras como... — Ela
lançou um olhar para a mãe, ambas teriam de ceder um pouco. — ... A Fantasma
Clarividente, se você insiste, mas nada de bolas de cristal. O número ainda deve ser de
mesmerismo como conhecemos e entendemos. Mas ouça, Silas, ouça bem. Tenho
algumas ideias. Ouça. O que acha de uma varinha dourada brilhando como ouro lá em
cima? Ouro, entende? Varinhas de ouro em campos de ouro, captando a luz...
E ela começou a descrever para Silas suas ideias sobre como despertar mais excitação
do público, sua voz dançando e cintilando como sempre. E demonstrando confiança em
si, como sempre. Cordelia observou a filha, ouviu em silêncio, não se permitindo ser
nada além de incentivadora.
— Então, Silas — disse Cordelia, por fim. — O entusiasmo de Gwenlliam é óbvio.
Com todos os talentos que possui, ela será um sucesso ainda mais estrondoso do que eu.
E quer ir com o senhor, Silas. Olhe para ela, mal pode esperar para começar a ensaiar as
novas ideias. Vocês podem começar no navio enquanto seguem para o Panamá. Há muitas
cordas em um navio. Ela ama o circo e nós já conversamos com Peggy Walker sobre ela
assumir o papel de guardiã de Gwenlliam quando não estiver bordando contas ou
lavando as calças dos palhaços! Entretanto, — A voz de Cordelia ficou inflexível naquele
ponto. — Sabemos muito bem todas as dificuldades e perigos para se chegar à Califórnia
e, em troca do que acordamos aqui, devemos fazer um contrato em que ela será paga
antecipadamente assim que o senhor começar a ganhar dinheiro e que, em dois anos,
voltará para nós. Afinal, são apenas dois anos — disse ela para Gwenlliam, mas a voz
firme tremeu um pouco.
— Bem — respondeu Silas, ainda decepcionado e incerto, mas reconhecendo que uma
delas era melhor do que nenhuma já que planejava partir logo e, na verdade, poderia ter
perdido ambas se aquela carta tivesse sido entregue. — Bem, ninguém é como você,
Cordelia e, quando eu voltar, terá de se juntar a nós de novo.
— Dou a minha palavra que me juntarei a vocês quando voltarem se não estiver
satisfeito com a minha talentosa filha. O que lhe parece?
Silas passou a mão no bigode repetidas vezes.
— Bem, eu concordo apenas porque sou obrigado. Sem querer ofender, Gwen. —
— Bem, eu concordo apenas porque sou obrigado. Sem querer ofender, Gwen. —
Com as mãos, ele fez um gesto pensativo sobre a cabeça delas, já planejando o novo
cartaz: A FANTASMA CLARIVIDENTE em letras enormes. — E talvez apenas uma
pequena bola de cristal. — Novamente, ele fez um gesto amplo com as mãos. Conseguia
visualizar tudo: ESTE É O CAMINHO PARA O OURO!
— Não! — exclamou Gwenlliam. — Nada de bolas de cristal, Silas. Podemos fazer mais
saltos mortais e usar uma varinha mágica feita de ouro, é claro. Ainda mesmerizaremos
todos os mineradores com uma varinha de ouro!
E o Sr. Silas P. Swift teve de se contentar com aquilo.
Nota
* Shakespeare, Timon de Atenas. Ato IV, Cena III. (N.T.)