O Circo dos Fantasmas
Capítulo 25
Tendo seguido Cordelia Preston e seu estranho grupo formado por senhoras idosas, uma
senhora pirata e um senhor estrangeiro (novamente sem saber que policiais de Nova York
não usavam uniforme) até a Casa de Celine, para onde mais o Sr. Doveribbon poderia ir
(tendo é claro trocado as botas vomitadas no American Hotel e tê-las entregado a um
serviçal) senão de volta para os seus únicos amigos na América: os estivadores, os
oportunistas e o capitão de navio em Broadwalk, próximo aos portões trancados de Silas
P. Swift que debochavam dele e o provocavam com os dizeres: PARTIMOS PARA A
CALIFÓRNIA.
Bebeu muito e com raiva — seus camaradas acharam que sofria de coração partido;
comprou bebidas, resmungou, xingou obscenidades e se comportou cada vez mais como
se fosse um deles e não como um advogado, cavalheiro de Londres.
— Meu coração está partido — admitiu ele.
— Vá atrás dela na Califórnia, rapaz! Consiga algum ouro enquanto estiver por lá! — E
o Sr. Doveribbon cuspiu a bebida e, de fato, riu.
— É certo que estarei atrás de ouro! — disse ele.
O capitão do clíper Sea Bullet estava nas docas, pois havia alguns reparos a fazer no
casco da embarcação. O capitão era um homem escuro, taciturno e desagradável de muitas
formas, mas também era o melhor amigo do Sr. Doveribbon naquele momento.
— Você teria de esperar por um tempo por mim — disse o capitão. — Pegue um navio
a vapor, não tão rápido quanto eu e o meu Sea Bullet, porém o mais próximo possível, e
eu o encontrarei lá!
Sr. Doveribbon, de repente, ficou muito alerta.
— Você vai ficar muito tempo por lá?
— Irei apenas entregar a carga e recarregar. — E o capitão lançou um olhar astuto sob
as sobrancelhas grandes e escuras. — Correio e passageiros. E um pouco disto ou
daquilo.
— Quanto tempo leva a viagem até São Francisco?
— Em um navio a vapor? Cento e vinte dias ou mais.
— Meu Deus do céu! — exclamou o Sr. Doveribbon, empalidecendo.
— Eu e minha belezura? Noventa, se eu for esperto e tiver sorte.
— Você poderia nos trazer de volta? Eu e minha garota?
Suas cabeças se aproximaram até que a lua de junho estivesse cheia do lado de fora,
Suas cabeças se aproximaram até que a lua de junho estivesse cheia do lado de fora,
mas eles não notaram. Sr. Doveribbon contou mais verdades do que de costume. Assim
como o capitão do navio. Para grande surpresa de ambos, descobriram que poderiam
chegar a um acordo.
Sr. Doveribbon reservou uma passagem de primeira classe em um navio a vapor para a
Califórnia com dificuldade e tendo de subornar algumas pessoas devido ao grande ímpeto
do ouro: ainda assim, teve de esperar por dois dias. Novamente, ele e o capitão do navio
se reuniram e beberam muito em um canto do Broadwalk e conversaram com as cabeças
tão próximas que quase se tocavam.
Pois o Sr. Doveribbon tinha mais um assunto a resolver.
A essa altura, ele e o capitão do navio sabiam muito um sobre o outro.
— Eu posso ajudá-lo, camarada — afirmou o capitão do navio.
Na tarde do dia seguinte, os dois homens foram vistos em um prédio conhecido em
Five Points: a antiga fábrica de cerveja. A construção realmente abrigara uma cervejaria,
mas agora não passava de um cortiço, cujas laterais se afundavam na lama do pântano
sobre o qual fora construída: um prédio escuro, fétido e tortuoso com corredores
sombrios e sem esperança, e o Sr. Doveribbon acreditou que adentrara o próprio
inferno. No entanto, havia apenas entrado nas instalações do lar de alguns membros da
gangue Coelhos Mortos. Os dois visitantes desceram (e só estavam seguros pela escolta de
um dos companheiros de bebida da taverna Broadwalk) para níveis cada vez mais
inferiores até chegarem aos porões do purgatório. Lá, o Sr. Doveribbon, aconselhando-se
com o capitão do navio, deu instruções para alguns irlandeses e pagou 25 dólares,
referentes a um terço do pagamento: o restante seria pago pelo capitão ao receber a prova
do sucesso, caso o Sr. Doveribbon já tivesse partido para São Francisco. O capitão levaria
a prova para ele.
Algumas vezes, naquelas noites quentes de verão, depois de passar o dia planejando e
conversando com Monsieur Roland sobre seus novos negócios, Cordelia caminhava
sozinha até Battery Gardens, próximo do local onde vira a filha pela última vez: isso era
contra todas as regras emocionais que se autoimpusera: aqueles eram os momentos mais
depressivos.
Naquela noite, observara os últimos navios partindo dos píeres. A multidão que
acenava se dispersou, todos retornaram para seus negócios em Nova York. Cordelia não
teria como saber ou se preocupar que o navio a vapor que desparecia no horizonte levava
um homem chamado Doveribbon. Uma suave brisa de verão vinha do rio, a lua estava
oculta atrás das nuvens, amantes se afastavam, e ela andava quase sozinha na escuridão.
Observou as sombras e as luzes dos navios que partiam sem perceber os dois homens
que se aproximavam — (e, dessa vez, não havia Regina para cantar alto
The Lord’s my Shepherd I’ll not want
He makes me down to lie
e chamar a atenção) — até que estes a tivessem carregado até a margem do rio e enfiado
algo dentro de sua boca para evitar que gritasse e traziam algo mais: tesouras para o seu
cabelo?
Ela os ouviu cochichando um com o outro e percebeu o sotaque irlandês.
— Cê tá enxergando alguma coisa? Cadê a faca?
Cordelia lutava ferozmente, enquanto tentava gritar.
— Bruxa! — Ele acertou o rosto dela novamente e, uma vez mais, ela lutou contra eles.
— Jesus! Eu deixei ela cair. Aqui, usa isto.
— Não a tesôra, seu pateta! Num dá pra cortar os dedu com tesôra! Eles querem um
dedo!
— Droga! — Eles ainda cochichavam. — Deixei a faca cair em algum lugar. Tá escuro.
— Começaram a tatear o chão ao redor deles, enquanto seguravam a mulher amordaçada
e que se debatia. Algo caiu na água ao lado deles com um splash baixo. — Diabos! Agora já
era!
— Jesus, cê é um grande idiota!
— Bem, já temu bastante cabelo aqui, este duque galês, que aqueles dois tava falano, vai
ter de se contentar com isso. Rápido!
Então, eles se apressaram em puxar e cortar o cabelo comprido dela e, em seguida, a
lançaram nas águas escuras do rio. Carregavam consigo um bastão comprido e, toda vez
que ela emergia para tentar respirar e suas roupas flutuavam à volta até ficarem
encharcadas, eles a empurravam para o fundo.
— Certo, vamu logo! Tem gente vindo. Olha lá!
E partiram apressados, voltando para o Broadwalk com sua prova a fim de coletar o
restante do dinheiro. Todo o incidente levara apenas alguns instantes.
— O que é aquilo? — perguntou um garotinho que passeava com o pai que iluminava
o caminho com um lampião. — É um peixe grande?
O pai olhou com atenção, então, pediu ao garoto que segurasse o lampião e
iluminasse a água: o pai rapidamente despiu o paletó, mergulhou no rio Hudson e puxou
a mulher inconsciente até a margem. Eles a viraram, todo o senso de regras de etiqueta
esquecido naquele momento, a água escorria pelos cabelos da mulher (ou o que sobrara
dele), assim como da boca e das roupas.
Eles a deitaram na grama, nada indicava quem seria a mulher de rosto estranho e
atraente — será que estava respirando? — havia algo estranho sobre o cabelo e as roupas
rasgadas. As pessoas que se juntaram para assistir à comoção nada podiam fazer; alguns
simplesmente deram de ombros e partiram, outro suicídio, mas, de repente, ali estava
Rillie, que viera em busca da querida amiga, preocupada com o modo como desaparecera,
tão discreta, uma vez mais e adivinhando que talvez ela tivesse ido novamente ao píer do qual Gwennie partira. E Rillie nunca, jamais, em momento algum acreditaria que Cordelia
teria se lançado ao rio Hudson, não importava como se sentia: conhecia a amiga bem
demais.
Ela abriu caminho e se ajoelhou ao lado do corpo.
— Cordelia — chamou com voz viva. — Cordelia. — E esbofeteou o rosto da amiga de
leve, enquanto, na escuridão, curiosos paravam para assistir ou seguiam seu caminho. —
Cordelia — chamou Rillie com urgência na voz.
Outra mulher que passava apressada pela escuridão de Battery Gardens, seguindo
caminho para resolver negócios bem diferentes, parou ao ouvir o nome: Cordelia. A
mulher que caminhava era bem alta, tinha cabelos desgrenhados; se houvesse como
enxergar naquela noite escura, as pessoas teriam notado que sua saia era presa por um
suspensório masculino. Ela lançou um olhar para a figura encharcada deitada na grama
escura.
— Parece morta para mim — declarou um homem.
O pai herói, com água ainda escorrendo pelas roupas, não querendo impressionar
ainda mais o filho, pegou o lampião, o casaco e o filho e desapareceu; a mulher alta,
selvagem e curiosa também seguiu seu caminho, refletindo, no entanto, que nunca antes
conhecera alguém chamado Cordelia; ou Shylock também; ou ainda Lady Macbeth ou Titus
Andronicus e riu sozinha enquanto caminhava na escuridão, voltando para o bar Hole in
the Wall, perto de Paradise Buildings e uma pessoa que passasse por ela poderia tê-la
ouvido murmurar:
Muito tempo, porém, não demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta
água e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta.*
Mas Rillie Spoons não podia aceitar tal destino para a amiga. Agindo rápido, sentou
Cordelia e empurrou sua cabeça para a frente; bateu em suas costas o que fez com que
Cordelia cuspisse ainda mais água do Hudson; Rillie, então, enrolou a própria capa bem
firme ao redor da mulher trêmula, semiconsciente e engasgada e pediu a um homem que
ainda assistia a tudo para ajudá-la a encontrar uma carruagem de aluguel e levar a amiga
para casa. Por sorte, Arthur estava lá: pálido, desceu e pegou o fole da lareira do salão de
refeições de Celine e subiu os cinco lances de escada até chegar ao sótão. Colocou o fole
na boca de Cordelia para a preocupação de Regina e total incompreensão da Sra. Spoons;
Cordelia respirou, tossiu e cuspiu ainda mais água. Arthur acenou para Monsieur
Roland, devastado com o que via e que o ajudara a erguê-la e virá-la de forma gentil,
empurrando-lhe a cabeça, agora com aparência extraordinária, em direção à bacia.
Também o ajudou a cobrir a mulher com vários cobertores para aquecê-la. Arthur
esquentou as mãos e os pés da esposa repetidas vezes. Compreendeu na hora que se
tratara de algum ataque relacionado com as gangues do rio, mas, enquanto Cordelia se recuperava, voltando a si e perdendo a consciência por diversas vezes, ela murmurou uma
vez: o duque galês vai ter de se contentar com isso. Parecia tão pouco provável que não
conseguiram entender. Olharam, assustados, para os resquícios do seu cabelo, enquanto
ela ainda vomitava mais água. E tudo o que Cordelia dizia era: “o duque galês vai ter de se
contentar com isso”. Por fim, horas depois, ela começou a respirar com menos dificuldade
e adormeceu, e eles a deitaram em sua cama.
No dia seguinte, estava mais consciente e forte.
— Foram dois irlandeses — declarou ela. — Eles tentaram me afogar e, por alguma
razão, esse incidente está ligado ao duque de Llannefydd.
— Mas por que aquele porco gordo e bêbado ia querer o seu cabelo? — perguntou
Regina.
Grande parte do cabelo dela se fora, tanto da mecha branca quanto das mechas
escuras. Parecia estranha, frágil e violentada de certa forma, também trazia no rosto um
olho roxo e manchas da agressão.
— Você não deve nunca mais, nunca mais, sair à noite sozinha — disse Arthur.
— Quem a salvou? — questionou Rillie, de repente. — Acabei de me dar conta de que
alguém deve tê-la resgatado das águas. — Mas Cordelia não se lembrava de ter sido salva
pelo heroico pai.
Então, Cordelia arfou.
— Graças aos céus que Gwenlliam está a caminho da Califórnia! Nenhum de vocês
deve contar a ela sobre esse incidente quando escreverem. Não quero que se preocupe.
Pelo menos, ela está segura e fora de alcance.
Devagar, começou a se recuperar. Rillie teve de cortar as madeixas que sobraram. Na
verdade, o cabelo da amiga fora tão atacado que não havia muito que fazer. Rillie tentou
dar alguma forma às mechas, esperando que voltassem a crescer.
— Não importa — declarou Cordelia, sem expressão. Zangou-se e a raiva a exauriu.
— Cordelia — disse Monsieur Roland, com voz gentil. — Cordelia.
Arthur Rivers acariciou o cabelo da esposa ou o que sobrara dele, com um misto de
amor e exasperação. Com voz baixa e suave, tentou conseguir mais informações: será que
conseguira vê-los? Onde estava exatamente quando fora atacada? O que acontecera
realmente?
— Não preciso dos seus serviços de detetive policial! — irritara-se ela, e todos ouviram
a raiva em sua voz. — Não tenho mais nada a dizer, Arthur, então, pare de perguntar:
estava escuro, tudo aconteceu muito rápido, eles eram irlandeses, assim como metade de
Nova York. Eles disseram que o duque galês teria de se contentar com o cabelo. — E
naquele momento ela se lembrou de algo que a fez empalidecer ainda mais. — Oh, meu
Deus, eles disseram que queriam um dedo. — E essa recordação a deixou ainda mais
zangada. — Eu não quero mais falar sobre isso!
— Mas preciso que você fale, querida Cordelia — replicou ele, gentil. — De modo que
eu consiga encontrar quem a atacou.
— Saia daqui Arthur! Não preciso das suas habilidades como detetive! Sei exatamente o
— Saia daqui Arthur! Não preciso das suas habilidades como detetive! Sei exatamente o
que aconteceu: é o passado voltando e o passado não pode ser “resolvido” por um
detetive. O duque de Llannefydd talvez ache que pode me destruir, mas é claro que ele
nunca conseguirá. Eu andarei por onde quiser, mas me esforçarei para não mergulhar em
pensamentos dolorosos à beira do rio no escuro. O maldito velho cruel nunca levará a
melhor sobre mim e minha filha. Graças a Deus ela partiu para a Califórnia.
— Sabe de uma coisa, Cordelia? — interrompeu Regina. — Agora que Rillie cortou o
seu cabelo, você parece uma margarida.
— O quê?
— Uma margarida preta e branca, com pontas espetadas e curtas. E ainda com rosto
zangado, como as margaridas.
E Cordelia deu uma risada breve.
— Eu não ligo — disse.
Monsieur Roland olhou para ela e, em seguida, para o rosto pálido de Arthur, agora
sem expressão. Cordelia Preston era a mulher mais forte e corajosa que conhecera, e ele a
amava muito. Mas ela não era nada fácil.
Nota
* Shakespeare, Hamlet, Ato IV, Cena VII. (N.T.)