O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 5 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 4

 

— Vou direto ao ponto — declarou o Sr. Silas P. Swift.

Não foi apenas a descoberta do éter que afetou a sorte do mesmerismo. Aquela nova

América, sempre dinâmica, estava repleta de novidades: novas descobertas, novas

invenções, novas sensações. O novo sistema telegráfico do Sr. Morse provou que tudo era

possível. As pessoas falavam sobre ocultismo, sobre prever o futuro, sobre leituras

psíquicas, sobre sessões espíritas e conversas com entes queridos já falecidos: por que

não? Se mensagens podiam ser enviadas por fios elétricos em vida, por que não poderiam

ser enviadas por fios psíquicos depois da morte? O mesmerismo por si só não era mais

suficiente, nem fascinante ou exótico o bastante, e o passado escandaloso de Cordelia

Preston foi logo esquecido, sobrepujado por outros dramas mais recentes: o público da

Grande Tenda começou a decair.

Então, veio o pior: em Nova York, assim como em Londres, a Igreja, alarmada com as

novas ideias, começou não apenas a denunciar teatros (comportamento imoral e

decadente em público) e circos (mulheres e homens vestidos de forma indecente se

jogando uns nos braços dos outros pelo ar) — essas censuras eram antigas —, mas

passaram também a vociferar contra os supostos milagres que o mesmerismo e a

hipnose, o ocultismo e os sonhos psíquicos professavam realizar. Milagres, explicava a

Igreja com firmeza, vinham apenas de Deus. As igrejas americanas sensatas e práticas

enviavam não apenas pregadores para a porta dos principais teatros das cidades grandes,

mas também providenciavam para que ficassem ao lado da barraca de vendas de entradas,

lançando olhares reprovadores às pessoas que ali se encontravam, denunciando os

acrobatas pelados e, em especial, o mesmerismo, como afronta ao Senhor. Todas as

artistas do sexo feminino, incluindo Cordelia e a filha, passaram a ser consideradas não

apenas imorais e vulgares (elas sempre foram vistas assim), mas também perigosas. As

srtas. Cordelia e Gwenlliam Preston, devido à sua história, eram alvo de mais insultos e,

sob o novo ar de moral, tinham seus nomes associados a charlatanismo diabólico em vez

de trabalho filantrópico; Silas P. Swift providenciou para que o nome de Cordelia fosse

trocado nos cartazes para SRA. Preston, para lhe conferir pelo menos um toque de

respeitabilidade, mas já era tarde demais.

Os jornais agora vociferavam: enquanto a vida das pessoas cujo objetivo é nos entreter for

marcada, com raras exceções, por um estado de moral humilhante à natureza humana, iremos nos afastar delas.

Cordelia e Gwenlliam apenas riram. Ganhavam muito dinheiro e já estavam

acostumadas com os jornais: afinal, eram as histórias publicadas que faziam lotar a

Grande Tenda.

Entretanto, a Grande Tenda não lotava mais quanto antes.

Um dia, Silas P. Swift foi ao American Hotel, onde elas viviam suntuosamente, para

visitar a Estrela do espetáculo e sua filha. Esperava que nenhum membro da sua louca

família estivesse presente: velhas senhoras e oficiais de polícia não eram sua companhia

favorita. Ficou aliviado por ver apenas uma pessoa, embora se tratasse de um sujeito

traiçoeiro: o mesmerista Monsieur Alexander Roland, amigo e professor de ambas. O chá

foi servido.

— Vou direto ao ponto — declarou Silas P. Swift, desprezando o chá. — A

respeitabilidade e a Igreja, de repente, se tornaram uma grande nuvem negra pairando

sobre Nova York. Teatros e circos estão fechando em toda a cidade e também em todo o

país, pelo que ouvi. Se Phineas Barnum* está temeroso e buscando trazer um pouco de

respeitabilidade e fazer mudanças em seu American Museum e fechar todos os bares que

vendem bebidas alcóolicas no prédio e apresentar... — Bom Deus, não consigo acreditar

que éramos os empresários mais bem-sucedidos da América! — Se Phineas Barnum está

promovendo apresentações de melodramas no seu American Museum, então o Incrível

Circo do Sr. Silas P. Swift também tem de mudar. Já planejei tudo. Vamos viajar para

longe e nos apresentarmos de forma bem diferente. Nunca pensei que veria o dia em que

aventuras londrinas e envolvimento em assassinato deixassem de ser adequados para um

pôster de circo americano, mas esse dia chegou. Os pôsteres terão de ser alterados,

viajaremos para onde conseguirmos trabalhar e os salários terão de ser cortados pela

metade ou pior. Tive de despedir alguns palhaços, além de alguns acrobatas. Mas não

você, Gwen. Tenho planos para você. E quanto a você, Cordelia — lançou um olhar azedo

para o francês; ele era persistente, como Silas P. Swift descobrira no passado. Mas, a Silas

P. Swift, nunca faltavam novos planos e entusiasmo. — Já fizemos algumas reservas e

conseguimos alguns novos números de circos que já fecharam as portas pagando um

bom preço. E aquele elefante africano estava ficando cada vez mais perigoso e imprevisível.

Ele tentou me atacar! Elefantes são seres bastante traiçoeiros. Então, atirei nele e o vendi

para o taxidermista. Comprei outro que acabou de chegar na carga de um navio com

artigos indianos. Os elefantes indianos são menores, com trombas e orelhas menores.

Sinto muito por isso, mas ouvi dizer que são mais fáceis de treinar. Mantive o antigo

treinador e lhe disse para fazer o trabalho. Também comprei um cacique pele vermelha

com toda sua parafernália; ele será uma atração extra e dizem que realiza verdadeiros

milagres com os cavalos. Também consegui um urso dançarino. Branco. Baratinho.

— Achei que apenas ursos marrons pudessem dançar — disse Cordelia. Esse foi o seu

primeiro comentário desde que ele começara a falar.

— Bem, esse é branco e dançou. E o treinador do leão passará a usar uma toga e

sandálias romanas.

Gwenlliam soltou uma gargalhada. O treinador de leão tinha apenas um braço: tentou

Gwenlliam soltou uma gargalhada. O treinador de leão tinha apenas um braço: tentou

imaginá-lo de toga.

— Por quê, Silas?

— Ora, para que eu possa dizer que ele veio do Coliseu, é claro! — respondeu Silas. —

Um remanescente do Império Romano! E Gwen, você está prestes a se tornar a principal

acrobata e equilibrista. Você realizará novos números para os novos clientes.

Precisaremos de truques mais modernos e vou lhe conseguir uma pequena coroa e

passarei a chamá-la de princesa, isso vai atraí-los para cá. Queremos um pouco de

polêmica. Eles odeiam a realeza, mas amarão você se eu conseguir a fantasia certa. Agora,

Cordelia, você é boa. Sempre foi boa, mas o mesmerismo não é mais suficiente por si só.

Seu número ainda será o principal e você continuará como minha estrela, é claro, mas

precisamos... aprimorá-lo.

— Aprimorá-lo — repetiu ela.

— Vamos colocar da seguinte forma: outros circos irão à falência e nós... Bem, nós

apenas faremos algumas mudanças, isso é tudo. O que precisa no seu número é de um

pouco mais de extravagância. Não basta mais que você surja das sombras como fazemos

agora. Isso não é empolgante o suficiente. Decidi que você pode aparecer e desaparecer de

forma misteriosa usando as barras e os cabos de acrobacia.

— Silas! Pelo amor de Deus, não seja ridículo! Não sou acrobata! Gwenlliam é quem é

acrobata e mesmerista!

— Mas eu não sou você, mamãe — murmurou Gwenlliam, e Silas concordou com a

cabeça.

— Confie em mim, Cordelia. Vou transformá-la em acrobata também! Basta subir um

pouco e balançar. E muitos tambores ajudarão também. — Cordelia apenas olhava para

ele, incrédula. — Pensei em tocar uma música suave como “Home, Sweet Home” quando

o voluntário entrar em transe para engrandecer o número. E usar um novo nome.

MESMERISTA perdeu o glamour. Então, agora que você balançará em trapézios saindo das

sombras para fazer o seu número, passaremos a chamá-la de FANTASMA ACROBATA.

Isso lhe dará mais poderes: saber coisas que apenas os fantasmas sabem, ver o passado,

prever o futuro, esse tipo de coisa. — Ele estava bem satisfeito com o novo nome e o

repetiu, orgulhoso: — FANTASMA ACROBATA. Soa bem. E você aparecerá de forma

misteriosa, como se viesse dos céus. Vamos fazer parecer mágica.

Monsieur Roland, que sempre se esforçava para permanecer em segundo plano nas

conversas com Silas P. Swift, embora tanto Cordelia quanto Gwenlliam fossem suas

pupilas, levantou de repente e confrontou o empresário usando o tom cortês e

cavalheiresco que lhe era peculiar.

— Monsieur Swift. Pardonnez-moi. O senhor já tem muitos acrobatas em seu estimado

circo. Devo avisá-lo que Cordelia Preston é, como o senhor bem sabe, uma mesmerista

de renome internacional e com grandes habilidades. E o senhor tem muita, mas muita

sorte mesmo de tê-la em seu circo. Entretanto, mesmerismo não é mágica, muito menos

uma questão de poderes paranormais: o mesmerismo nada mais é do que a transferência de energia de um praticante para outra pessoa com fins benéficos. Isso é tudo. Mágica não

existe. E o mesmerismo não tem nada a ver com fantasmas. Ninguém finge prever o futuro

ou ver o passado ou visitar o mundo dos mortos e o nome que o senhor sugere é

totalmente enganoso.

Sr. Silas P. Swift tirou o chapéu e o atirou no chão do saguão do hotel na frente de

todos.

— Ouça bem, senhor... hã... Roland. Eu faço mágica! Cordelia é a Estrela do meu

Circo. Como bem sabes, eu a trouxe da Inglaterra, quando ela estava coberta por um

manto de escândalo. E com o meu dinheiro, como o senhor também sabe. Eu a pago

muito bem e a trato, e a todos vocês, muito bem. — E ele indicou o salão suntuoso que

os cercava. — Ela sempre fala do senhor de forma respeitosa, como professor e membro

da família etc. etc. Entretanto, os gostos mudam, as pessoas se esquecem. Ela não é mais o

chamariz que costumava ser. Todos já esqueceram sua história. Houve centenas de

assassinatos desde então e o mesmerismo não é mais a novidade que costumava ser.

Todos se cansaram dele. Afinal, o que é o mesmerismo quando se podem enviar

telegramas por fios elétricos e inalar éter? Pessoas em todos os lugares fazem

mesmerismo em troca de centavos. — Silas P. Swift fez uma pausa. — Eu sei que Cordelia

tem algo especial... Sim, ela faz com que os cabelos do pescoço se ericem e que as pessoas

não consigam esquecê-la depois de vê-la, não nego. Entretanto, Sr. Roland, e o mais

importante de tudo é que o meu circo começou a perder dinheiro. Não temos escolha,

mas começar um tour. E eu não poderei pagar o que vinha pagando. Podemos ficar uma

semana aqui, outra acolá. Escolher povoados grandes como Buffalo, Rochester, Syracuse,

ver o que podemos fazer para nos mantermos acima da respeitabilidade e do senhor. E se

não conseguirmos mais encontrar esses lugares... Bem, teremos de viajar mais para o

interior e fazer apresentações de apenas uma noite! E diminuirmos a Grande Tenda,

embora isso me despedace o coração! Mas é como as coisas são, Sr. Roland. E preciso

transformar Cordelia em algo mais. Chamá-la de FANTASMA ACROBATA e colocá-la em

trapézios e usar jogos de luz para lhe conferir um ar fantasmagórico é o que faremos e

fingiremos que a mágica existe, porque eu faço mágica, esse é o meu trabalho!

Cordelia tocou o braço de Monsieur Roland de forma gentil. Ele fez uma leve

saudação com a cabeça e se virou e saiu: quando voltou mais tarde, demonstrou não estar

zangado e compreendeu as exigências do negócio do entretenimento, mas que não queria

discutir tal assunto.

Os preparativos foram feitos para que partissem de Nova York. Gwenlliam

aperfeiçoava truques acrobáticos cada vez mais sofisticados enquanto Cordelia ensaiava

estoicamente manobras básicas de acrobacia: Não sou velha, repetia sempre para si,

ensaiando por horas a fio, escorregando do mastro e amarrando pequenas almofadas nos

joelhos a fim de protegê-los. Vários dos palhaços também eram mais velhos. Os que não

haviam sido despedidos — ainda — aceitavam as grandes reduções salariais e pintavam,

frenéticos, os sorrisos vermelhos nos rostos enrugados, noite após noite para as últimas

apresentações em Nova York, temerosos de perder o emprego. Bebiam bem mais do que costumavam e Cordelia percebia o medo deles. Não é de estranhar que bebam. Ela pediu

grandes taças de vinho do Porto no American Hotel. Não é de estranhar que todos bebamos.

Aprendera a se segurar em uma corda e meio que escalar e meio que se içar para cima.

Balançava no trapézio, para a frente e para trás (mas não muito alto): muitos dos efeitos

foram obtidos graças à iluminação inteligente de Silas. Conseguira ficar em pé na

extremidade de uma barra horizontal nas sombras, desde que tivesse algo em que se

segurar. No fim, conseguira aperfeiçoar seu número, mas, às vezes, chegava ao final da

noite tão cansada que parecia que as pernas não a sustentariam. Abolira o espartilho

depois que a peça lhe cortara a pele (porém o uso de diversos xales e lenços esvoaçantes

ocultava muitas coisas). Nos novos pôsteres do circo passou a ser chamada,

respeitosamente, de Sra. Cordelia Preston: FANTASMA ACROBATA. Não havia qualquer

menção a assassinato.

Todavia, o Sr. Silas P. Swift era um sagaz homem de negócios; sem a sua Estrela, era

muito provável que o circo quebrasse, passasse a ser como todos os outros. Então,

embora os salários tivessem sofrido uma redução e embora ele mesmo se contentasse em

viajar à noite junto com o circo, decretou que a Estrela do espetáculo e sua filha deveriam

sempre se hospedar em um hotel local e dormir confortavelmente por algumas horas e

seguir viagem apenas na manhã seguinte, antes do alvorecer.

— Obrigada — agradeceu Cordelia, pesarosa.

Passaram as últimas noites no glamoroso American Hotel em Nova York com água

corrente e todos os privilégios, mas ela e Gwenlliam eram gratas por ainda estarem

trabalhando para sustentarem a si e à família. Para Monsieur Roland, ela dissera e ele

acreditara:

— O senhor sabe que sempre trataremos o mesmerismo com respeito.

Na última noite antes que o circo deixasse Nova York, Cordelia e Gwenlliam sentaram-

se com as pessoas que chamavam de família na grande sala de estar do American Hotel:

detetive-inspetor Rivers, marido de Cordelia; Monsieur Alexander Roland; duas velhas

senhoras; e a amiga mais próxima e antiga de Cordelia, Rillie Spoons, que os mantinha

todos juntos e administrava o dinheiro. Todos beberam o vinho do Porto. Cordelia e

Rillie encheram as taças e discutiram os planos para a mudança.

— Sinto muito que tenhamos de nos mudar daqui — declarou Cordelia com pesar.

— Nós vamos arrumar tudo, não se preocupe — respondeu Rillie Spoons. —

Enviaremos mensagens para onde quer que o circo esteja e as coisas podem mudar

novamente e vocês estarão de volta em um piscar de olhos! Todos sabemos como Silas é!

Enquanto estavam sentados ali conversando, receberam uma notícia exultante: Temos

um bebê elefante indiano! Ninguém sabia que a elefanta estava prenha, nem o comprador,

nem o vendedor. Silas P. Swift apenas riu, maravilhado, e disse que a boa sorte sempre o

seguia: o seu circo ficaria ainda melhor com essa atração adicional e o bebê elefante

recebeu o nome de Lucky.**

O detetive-inspetor Arthur Rivers manteve a esposa nos braços aquela noite: não

discutiram se eram afortunados ou não; também não falaram sobre quanto tempo ou

quão afastada dele ela talvez tivesse de ficar; todas essas coisas pairaram entre eles, sem

serem ditas, como tantas outras coisas.

Notas

 

* Empresário norte-americano, fundador do circo que viria a se tornar o Ringling Bros.

and Barnum & Bailey Circus. (N.T.)

 

** Lucky: sortudo em inglês. (N.T.)