O Circo dos Fantasmas
Capítulo 4
— Vou direto ao ponto — declarou o Sr. Silas P. Swift.
Não foi apenas a descoberta do éter que afetou a sorte do mesmerismo. Aquela nova
América, sempre dinâmica, estava repleta de novidades: novas descobertas, novas
invenções, novas sensações. O novo sistema telegráfico do Sr. Morse provou que tudo era
possível. As pessoas falavam sobre ocultismo, sobre prever o futuro, sobre leituras
psíquicas, sobre sessões espíritas e conversas com entes queridos já falecidos: por que
não? Se mensagens podiam ser enviadas por fios elétricos em vida, por que não poderiam
ser enviadas por fios psíquicos depois da morte? O mesmerismo por si só não era mais
suficiente, nem fascinante ou exótico o bastante, e o passado escandaloso de Cordelia
Preston foi logo esquecido, sobrepujado por outros dramas mais recentes: o público da
Grande Tenda começou a decair.
Então, veio o pior: em Nova York, assim como em Londres, a Igreja, alarmada com as
novas ideias, começou não apenas a denunciar teatros (comportamento imoral e
decadente em público) e circos (mulheres e homens vestidos de forma indecente se
jogando uns nos braços dos outros pelo ar) — essas censuras eram antigas —, mas
passaram também a vociferar contra os supostos milagres que o mesmerismo e a
hipnose, o ocultismo e os sonhos psíquicos professavam realizar. Milagres, explicava a
Igreja com firmeza, vinham apenas de Deus. As igrejas americanas sensatas e práticas
enviavam não apenas pregadores para a porta dos principais teatros das cidades grandes,
mas também providenciavam para que ficassem ao lado da barraca de vendas de entradas,
lançando olhares reprovadores às pessoas que ali se encontravam, denunciando os
acrobatas pelados e, em especial, o mesmerismo, como afronta ao Senhor. Todas as
artistas do sexo feminino, incluindo Cordelia e a filha, passaram a ser consideradas não
apenas imorais e vulgares (elas sempre foram vistas assim), mas também perigosas. As
srtas. Cordelia e Gwenlliam Preston, devido à sua história, eram alvo de mais insultos e,
sob o novo ar de moral, tinham seus nomes associados a charlatanismo diabólico em vez
de trabalho filantrópico; Silas P. Swift providenciou para que o nome de Cordelia fosse
trocado nos cartazes para SRA. Preston, para lhe conferir pelo menos um toque de
respeitabilidade, mas já era tarde demais.
Os jornais agora vociferavam: enquanto a vida das pessoas cujo objetivo é nos entreter for
marcada, com raras exceções, por um estado de moral humilhante à natureza humana, iremos nos afastar delas.
Cordelia e Gwenlliam apenas riram. Ganhavam muito dinheiro e já estavam
acostumadas com os jornais: afinal, eram as histórias publicadas que faziam lotar a
Grande Tenda.
Entretanto, a Grande Tenda não lotava mais quanto antes.
Um dia, Silas P. Swift foi ao American Hotel, onde elas viviam suntuosamente, para
visitar a Estrela do espetáculo e sua filha. Esperava que nenhum membro da sua louca
família estivesse presente: velhas senhoras e oficiais de polícia não eram sua companhia
favorita. Ficou aliviado por ver apenas uma pessoa, embora se tratasse de um sujeito
traiçoeiro: o mesmerista Monsieur Alexander Roland, amigo e professor de ambas. O chá
foi servido.
— Vou direto ao ponto — declarou Silas P. Swift, desprezando o chá. — A
respeitabilidade e a Igreja, de repente, se tornaram uma grande nuvem negra pairando
sobre Nova York. Teatros e circos estão fechando em toda a cidade e também em todo o
país, pelo que ouvi. Se Phineas Barnum* está temeroso e buscando trazer um pouco de
respeitabilidade e fazer mudanças em seu American Museum e fechar todos os bares que
vendem bebidas alcóolicas no prédio e apresentar... — Bom Deus, não consigo acreditar
que éramos os empresários mais bem-sucedidos da América! — Se Phineas Barnum está
promovendo apresentações de melodramas no seu American Museum, então o Incrível
Circo do Sr. Silas P. Swift também tem de mudar. Já planejei tudo. Vamos viajar para
longe e nos apresentarmos de forma bem diferente. Nunca pensei que veria o dia em que
aventuras londrinas e envolvimento em assassinato deixassem de ser adequados para um
pôster de circo americano, mas esse dia chegou. Os pôsteres terão de ser alterados,
viajaremos para onde conseguirmos trabalhar e os salários terão de ser cortados pela
metade ou pior. Tive de despedir alguns palhaços, além de alguns acrobatas. Mas não
você, Gwen. Tenho planos para você. E quanto a você, Cordelia — lançou um olhar azedo
para o francês; ele era persistente, como Silas P. Swift descobrira no passado. Mas, a Silas
P. Swift, nunca faltavam novos planos e entusiasmo. — Já fizemos algumas reservas e
conseguimos alguns novos números de circos que já fecharam as portas pagando um
bom preço. E aquele elefante africano estava ficando cada vez mais perigoso e imprevisível.
Ele tentou me atacar! Elefantes são seres bastante traiçoeiros. Então, atirei nele e o vendi
para o taxidermista. Comprei outro que acabou de chegar na carga de um navio com
artigos indianos. Os elefantes indianos são menores, com trombas e orelhas menores.
Sinto muito por isso, mas ouvi dizer que são mais fáceis de treinar. Mantive o antigo
treinador e lhe disse para fazer o trabalho. Também comprei um cacique pele vermelha
com toda sua parafernália; ele será uma atração extra e dizem que realiza verdadeiros
milagres com os cavalos. Também consegui um urso dançarino. Branco. Baratinho.
— Achei que apenas ursos marrons pudessem dançar — disse Cordelia. Esse foi o seu
primeiro comentário desde que ele começara a falar.
— Bem, esse é branco e dançou. E o treinador do leão passará a usar uma toga e
sandálias romanas.
Gwenlliam soltou uma gargalhada. O treinador de leão tinha apenas um braço: tentou
Gwenlliam soltou uma gargalhada. O treinador de leão tinha apenas um braço: tentou
imaginá-lo de toga.
— Por quê, Silas?
— Ora, para que eu possa dizer que ele veio do Coliseu, é claro! — respondeu Silas. —
Um remanescente do Império Romano! E Gwen, você está prestes a se tornar a principal
acrobata e equilibrista. Você realizará novos números para os novos clientes.
Precisaremos de truques mais modernos e vou lhe conseguir uma pequena coroa e
passarei a chamá-la de princesa, isso vai atraí-los para cá. Queremos um pouco de
polêmica. Eles odeiam a realeza, mas amarão você se eu conseguir a fantasia certa. Agora,
Cordelia, você é boa. Sempre foi boa, mas o mesmerismo não é mais suficiente por si só.
Seu número ainda será o principal e você continuará como minha estrela, é claro, mas
precisamos... aprimorá-lo.
— Aprimorá-lo — repetiu ela.
— Vamos colocar da seguinte forma: outros circos irão à falência e nós... Bem, nós
apenas faremos algumas mudanças, isso é tudo. O que precisa no seu número é de um
pouco mais de extravagância. Não basta mais que você surja das sombras como fazemos
agora. Isso não é empolgante o suficiente. Decidi que você pode aparecer e desaparecer de
forma misteriosa usando as barras e os cabos de acrobacia.
— Silas! Pelo amor de Deus, não seja ridículo! Não sou acrobata! Gwenlliam é quem é
acrobata e mesmerista!
— Mas eu não sou você, mamãe — murmurou Gwenlliam, e Silas concordou com a
cabeça.
— Confie em mim, Cordelia. Vou transformá-la em acrobata também! Basta subir um
pouco e balançar. E muitos tambores ajudarão também. — Cordelia apenas olhava para
ele, incrédula. — Pensei em tocar uma música suave como “Home, Sweet Home” quando
o voluntário entrar em transe para engrandecer o número. E usar um novo nome.
MESMERISTA perdeu o glamour. Então, agora que você balançará em trapézios saindo das
sombras para fazer o seu número, passaremos a chamá-la de FANTASMA ACROBATA.
Isso lhe dará mais poderes: saber coisas que apenas os fantasmas sabem, ver o passado,
prever o futuro, esse tipo de coisa. — Ele estava bem satisfeito com o novo nome e o
repetiu, orgulhoso: — FANTASMA ACROBATA. Soa bem. E você aparecerá de forma
misteriosa, como se viesse dos céus. Vamos fazer parecer mágica.
Monsieur Roland, que sempre se esforçava para permanecer em segundo plano nas
conversas com Silas P. Swift, embora tanto Cordelia quanto Gwenlliam fossem suas
pupilas, levantou de repente e confrontou o empresário usando o tom cortês e
cavalheiresco que lhe era peculiar.
— Monsieur Swift. Pardonnez-moi. O senhor já tem muitos acrobatas em seu estimado
circo. Devo avisá-lo que Cordelia Preston é, como o senhor bem sabe, uma mesmerista
de renome internacional e com grandes habilidades. E o senhor tem muita, mas muita
sorte mesmo de tê-la em seu circo. Entretanto, mesmerismo não é mágica, muito menos
uma questão de poderes paranormais: o mesmerismo nada mais é do que a transferência de energia de um praticante para outra pessoa com fins benéficos. Isso é tudo. Mágica não
existe. E o mesmerismo não tem nada a ver com fantasmas. Ninguém finge prever o futuro
ou ver o passado ou visitar o mundo dos mortos e o nome que o senhor sugere é
totalmente enganoso.
Sr. Silas P. Swift tirou o chapéu e o atirou no chão do saguão do hotel na frente de
todos.
— Ouça bem, senhor... hã... Roland. Eu faço mágica! Cordelia é a Estrela do meu
Circo. Como bem sabes, eu a trouxe da Inglaterra, quando ela estava coberta por um
manto de escândalo. E com o meu dinheiro, como o senhor também sabe. Eu a pago
muito bem e a trato, e a todos vocês, muito bem. — E ele indicou o salão suntuoso que
os cercava. — Ela sempre fala do senhor de forma respeitosa, como professor e membro
da família etc. etc. Entretanto, os gostos mudam, as pessoas se esquecem. Ela não é mais o
chamariz que costumava ser. Todos já esqueceram sua história. Houve centenas de
assassinatos desde então e o mesmerismo não é mais a novidade que costumava ser.
Todos se cansaram dele. Afinal, o que é o mesmerismo quando se podem enviar
telegramas por fios elétricos e inalar éter? Pessoas em todos os lugares fazem
mesmerismo em troca de centavos. — Silas P. Swift fez uma pausa. — Eu sei que Cordelia
tem algo especial... Sim, ela faz com que os cabelos do pescoço se ericem e que as pessoas
não consigam esquecê-la depois de vê-la, não nego. Entretanto, Sr. Roland, e o mais
importante de tudo é que o meu circo começou a perder dinheiro. Não temos escolha,
mas começar um tour. E eu não poderei pagar o que vinha pagando. Podemos ficar uma
semana aqui, outra acolá. Escolher povoados grandes como Buffalo, Rochester, Syracuse,
ver o que podemos fazer para nos mantermos acima da respeitabilidade e do senhor. E se
não conseguirmos mais encontrar esses lugares... Bem, teremos de viajar mais para o
interior e fazer apresentações de apenas uma noite! E diminuirmos a Grande Tenda,
embora isso me despedace o coração! Mas é como as coisas são, Sr. Roland. E preciso
transformar Cordelia em algo mais. Chamá-la de FANTASMA ACROBATA e colocá-la em
trapézios e usar jogos de luz para lhe conferir um ar fantasmagórico é o que faremos e
fingiremos que a mágica existe, porque eu faço mágica, esse é o meu trabalho!
Cordelia tocou o braço de Monsieur Roland de forma gentil. Ele fez uma leve
saudação com a cabeça e se virou e saiu: quando voltou mais tarde, demonstrou não estar
zangado e compreendeu as exigências do negócio do entretenimento, mas que não queria
discutir tal assunto.
Os preparativos foram feitos para que partissem de Nova York. Gwenlliam
aperfeiçoava truques acrobáticos cada vez mais sofisticados enquanto Cordelia ensaiava
estoicamente manobras básicas de acrobacia: Não sou velha, repetia sempre para si,
ensaiando por horas a fio, escorregando do mastro e amarrando pequenas almofadas nos
joelhos a fim de protegê-los. Vários dos palhaços também eram mais velhos. Os que não
haviam sido despedidos — ainda — aceitavam as grandes reduções salariais e pintavam,
frenéticos, os sorrisos vermelhos nos rostos enrugados, noite após noite para as últimas
apresentações em Nova York, temerosos de perder o emprego. Bebiam bem mais do que costumavam e Cordelia percebia o medo deles. Não é de estranhar que bebam. Ela pediu
grandes taças de vinho do Porto no American Hotel. Não é de estranhar que todos bebamos.
Aprendera a se segurar em uma corda e meio que escalar e meio que se içar para cima.
Balançava no trapézio, para a frente e para trás (mas não muito alto): muitos dos efeitos
foram obtidos graças à iluminação inteligente de Silas. Conseguira ficar em pé na
extremidade de uma barra horizontal nas sombras, desde que tivesse algo em que se
segurar. No fim, conseguira aperfeiçoar seu número, mas, às vezes, chegava ao final da
noite tão cansada que parecia que as pernas não a sustentariam. Abolira o espartilho
depois que a peça lhe cortara a pele (porém o uso de diversos xales e lenços esvoaçantes
ocultava muitas coisas). Nos novos pôsteres do circo passou a ser chamada,
respeitosamente, de Sra. Cordelia Preston: FANTASMA ACROBATA. Não havia qualquer
menção a assassinato.
Todavia, o Sr. Silas P. Swift era um sagaz homem de negócios; sem a sua Estrela, era
muito provável que o circo quebrasse, passasse a ser como todos os outros. Então,
embora os salários tivessem sofrido uma redução e embora ele mesmo se contentasse em
viajar à noite junto com o circo, decretou que a Estrela do espetáculo e sua filha deveriam
sempre se hospedar em um hotel local e dormir confortavelmente por algumas horas e
seguir viagem apenas na manhã seguinte, antes do alvorecer.
— Obrigada — agradeceu Cordelia, pesarosa.
Passaram as últimas noites no glamoroso American Hotel em Nova York com água
corrente e todos os privilégios, mas ela e Gwenlliam eram gratas por ainda estarem
trabalhando para sustentarem a si e à família. Para Monsieur Roland, ela dissera e ele
acreditara:
— O senhor sabe que sempre trataremos o mesmerismo com respeito.
Na última noite antes que o circo deixasse Nova York, Cordelia e Gwenlliam sentaram-
se com as pessoas que chamavam de família na grande sala de estar do American Hotel:
detetive-inspetor Rivers, marido de Cordelia; Monsieur Alexander Roland; duas velhas
senhoras; e a amiga mais próxima e antiga de Cordelia, Rillie Spoons, que os mantinha
todos juntos e administrava o dinheiro. Todos beberam o vinho do Porto. Cordelia e
Rillie encheram as taças e discutiram os planos para a mudança.
— Sinto muito que tenhamos de nos mudar daqui — declarou Cordelia com pesar.
— Nós vamos arrumar tudo, não se preocupe — respondeu Rillie Spoons. —
Enviaremos mensagens para onde quer que o circo esteja e as coisas podem mudar
novamente e vocês estarão de volta em um piscar de olhos! Todos sabemos como Silas é!
Enquanto estavam sentados ali conversando, receberam uma notícia exultante: Temos
um bebê elefante indiano! Ninguém sabia que a elefanta estava prenha, nem o comprador,
nem o vendedor. Silas P. Swift apenas riu, maravilhado, e disse que a boa sorte sempre o
seguia: o seu circo ficaria ainda melhor com essa atração adicional e o bebê elefante
recebeu o nome de Lucky.**
O detetive-inspetor Arthur Rivers manteve a esposa nos braços aquela noite: não
discutiram se eram afortunados ou não; também não falaram sobre quanto tempo ou
quão afastada dele ela talvez tivesse de ficar; todas essas coisas pairaram entre eles, sem
serem ditas, como tantas outras coisas.
Notas
* Empresário norte-americano, fundador do circo que viria a se tornar o Ringling Bros.
and Barnum & Bailey Circus. (N.T.)
** Lucky: sortudo em inglês. (N.T.)