O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 13 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 12

 

Quando mais jovem, Amaryllis Spoons, conhecida como Rillie, dava gritinhos de pura

alegria quando algo a agradava muito. Agora, com 50 anos, gritinhos ainda escapavam de

seus lábios porque Nova York a alegrava demais.

Naquela época, enquanto as flores de abril dançavam, Rillie era vista quase todos os

dias, de manhã cedo, saindo da Casa de Celine, onde viviam, carregando sua cesta de

compras, seguindo para a esquina da Maiden Lane com a Broadway, onde o padeiro

alemão vendia pão fresco e uma italiana vendia verduras frescas. Também se podia

comprar ostras, moluscos e caranguejos e tortas frescas. Em praticamente todos os

lugares, as pessoas ganhavam dinheiro de todas as formas imagináveis: em todas as

esquinas, mulheres vendiam verduras e flores em cestos; sucateiros vendiam objetos

usados em seus carrinhos batendo latas para anunciar sua chegada; leilões de móveis

improvisados nos quais cadeiras de madeira eram sacudidas no ar; havia barracas que

vendiam ostras recém-retiradas do mar; havia grandes anúncios por todos os lugares:

muros, árvores e telhados. Propaganda para venda de pernas e dentes falsos, sapatos e

medicamentos. Em todos os lugares, novos prédios eram erguidos: o som de marteladas,

gritos, escavação e de transporte de madeira. Nova York era uma nova cidade: nova

energia, novos edifícios; lama e poeira, sim, porém uma esperança mais clara e límpida e,

em todos os lugares, tremulando sobre todo o resto, tão orgulhosa e republicana, a

bandeira de listras vermelhas e brancas e quadrado azul com estrelas brancas: a bandeira

americana.

No meio de todo aquele barulho, Rillie podia ouvir novas palavras, gírias, como

falavam e ela aprendia as palavras com alegria: pomposo, cambalacho, vagabundo,

almofadinha, camarada, adeusinho!

As ruas estavam entupidas até ficarem paradas com carroças e carruagens puxadas por

cavalos; a maior parte das pessoas se apressava a pé: até mesmo crianças passavam

apressadas com seus livros e sacolas — educação gratuita para as crianças de Nova York,

tanto para meninos quanto para meninas — correndo, gritando, acenando e esbarrando

em Rillie, já andando apressados como os pais. E os pais passavam rápido por Rillie,

ávidos para ganharem dinheiro: americanos, irlandeses, escoceses, alemães, italianos,

suecos, negros, homens e mulheres, todos correndo de um lado para o outro. Rillie

imaginava o que iriam fazer: contar, empacotar, escrever, comer, investir, pegar fogo, beber, serrar, pescar, costurar, cortar árvores, gritar ordens, receber ordens; estivadores,

ferreiros, vendedores de velas; escritórios, lojas, oficinas, fábricas, lojas pequenas e

grandes lojas de departamento. Meninos corriam por Rillie e entregavam papéis em suas

mãos — mais propaganda: cardápios de restaurantes, mais membros e dentes falsos,

daguerreótipos, caixões, sorvete; um zunido era como Rillie chamava isso tudo, toda essa

energia: o zunido de Nova York, acima de tudo, o som do dinheiro. E ninguém era mais

realista do que Rillie no que dizia respeito à importância do som do dinheiro, enquanto

ela pesquisava cuidadosamente os preços naquela manhã agradável de primavera e fazia

compras.

Descendo um pouco mais pela Broadway passou por uma placa em que se lia SR. L.

PRINCE: DAGUERREOTIPISTA e se inclinou um pouco, apenas para ver as imagens

mágicas e reais das pessoas pela janela. Na primeira semana depois que chegaram da

Inglaterra, enquanto passeava pela Broadway com aquele mesmo entusiasmo, a atenção de

Rillie foi atraída por uma criança morta em um cesto: algo sobre a cor de cera no rosto,

as expressões tristes e as roupas escuras dos pais. Por mais estranho que pareça, o

pequeno grupo entrara no novo estúdio de daguerreotipia: a criança morta e os pais

foram recebidos respeitosamente na porta e acompanhados para dentro, saindo do sol

forte do verão. Curiosa, Rillie lera o grande anúncio:

 

SR. L. PRINCE: DAGUERREOTIPISTA

IMAGENS TIRADAS: PREÇOS DE $1,50 A $5.

TEMPO DE ESPERA REDUZIDO COM NOSSO NOVO PROCESSO

RETRATOS

GRUPOS

MEMORIAIS

A LUA

 

A Rillie parecera uma lista estranha e extraordinária: “retratos, grupos, memoriais, a lua.”

Compreendera, então, que os pais queriam um retrato da criança falecida e vira,

novamente, os semblantes tristes. Então, correra para casa e contara o que vira aos outros

e, por sua insistência, a família estranha e recém-chegada realmente se “agrupou” naquela

primeira semana na América.

Na recepção no andar de baixo da galeria do Sr. Prince, todos observaram os tapetes

macios e as imagens de pessoas pareciam observá-los de seus lugares nas paredes. Foram

convidados a subir e o Sr. Prince os colocara bem juntos, até chegar à posição que

desejava no seu estúdio, banhado pela luz do dia através de uma claraboia. Posicionara as

duas senhoras idosas no centro da composição, uma robusta e bem falante e a outra

frágil: ambas com a cabeça imobilizada por um apoio de ferro. Ele explicara que, apesar da promessa de tempo de espera reduzido, o processo exigia imobilidade, concentração,

apoios de ferro, composição e luz. Bem atrás das senhoras, ficaram as duas outras

mulheres de idade incerta, com seus vestidos e chapéus alegres da última moda. Os olhos

do Sr. Prince sempre eram atraídos por uma das mulheres de beleza estranha e

perturbadora. Aos pés das duas senhoras idosas, sentou-se uma jovem bonita com cerca

de dezessete anos de idade: Gwenlliam ouvira-os dizer, quando ela rira, feliz com aquela

nova experiência com o daguerreótipo. — Você não deve nem sorrir, Gwenlliam!

— Que nome engraçado — comentara o daguerreotipista. — Gwenlliam.

— É galês, Sr. Prince — explicara a menina.

E, em cada ponta da composição, um cavalheiro. Um mais velho, ereto, com cabelos

brancos e, obviamente, estrangeiro (algo em suas roupas demonstrara isso, mesmo antes

que falasse); e um cavalheiro sério do outro lado, que fora apresentado como detetive-

inspetor Rivers. O Sr. Prince tinha pouco tempo para a polícia de Nova York, mas aquele

policial, com certeza, era inglês (não que tivesse tempo para ingleses também) e

demonstrava muito mais interesse no processo do que os outros, perguntando sobre

tempo, placas de cobre e nitrato de prata.

— Em um primeiro momento, achamos que esse tipo de imagens seria de grande

interesse para o departamento de polícia de Londres — declarara. — Mas entendo que não

se possam fazer cópias de um daguerreótipo e as cópias é que seriam muito úteis. Talvez

o senhor devesse cruzar o Atlântico, Sr. Prince. Acredito que um novo processo

fotográfico esteja sendo desenvolvido na Inglaterra.

— É claro, camarada! — O Sr. Prince soou indignado. — Estou ciente disso, é claro

que estou! Sou um homem de negócios! Não dormimos no ponto por aqui, amigo! E a

minha passagem para Londres já está reservada para o próximo mês exatamente por esse

motivo! Cópias são necessárias, então, elas devem ser feitas. Olha só, ficarei feliz em

aconselhar os senhores, policiais, quanto às minhas novas habilidades, assim que eu

aprendê-las. Pode ter certeza de que entrarei em contato. Larry Prince é o meu nome.

Larry Prince! Sou americano.

(E o inspetor Rivers trocara um olhar com Monsieur Roland: quando chegaram à

América, espantaram-se com a energia e o empreendedorismo daqueles americanos que

não achavam nada de mais em viajar longas distâncias, experimentar novas ideias,

conversar com recém-conhecidos como se fossem velhos amigos. Nada no mundo era

problema para eles desde que ganhassem dinheiro.)

O Sr. Prince movera o espelho de reflexão cuidadosamente, de um lado para o outro

até que, por fim, este captasse a luz desejada.

— É isso! — exclamara ele. — Agora, senhoras e senhores, precisamos de quinze a

vinte segundos. Peço que olhem pra mim e mantenham essa exata posição, que fiquem

totalmente parados e, por favor, eu imploro, não pisquem, não sorriam, porque um

sorriso não aguenta vinte segundos

Seu aparelho quadrado, como uma caixa, estava sobre um apoio e ele olhara através de

um vidro. A senhora frágil, porém, com a cabeça presa ao apoio, parecia cada vez mais agitada; começara a alisar a saia, ansiosa, tentando mover a cabeça. O Sr. Prince pedira

licença e desaparecera, por um breve momento, no cômodo contíguo, reaparecendo

rapidamente com um pássaro de cores vivas pousado no ombro, como se a velha senhora

fosse uma criança.

— Agora, veja aqui, querida senhora, veja este pequeno pássaro e tente ficar parada.

Será que ela entende? — perguntara ele para Rillie Spoons, ansioso e em voz alta. Estava

claro que aquela senhora era a mãe de Rillie. Mas ele não precisava ter se preocupado: a

Sra. Spoons observara, fascinada e surpresa, o pássaro em seu ombro.

— Então vamos lá — dissera o daguerreotipista.

Nesse momento, o daguerreótipo ocupava um lugar de honra no novo lar em Maiden

Lane e, naquele mesmo dia, na primeira semana da família em Nova York, Monsieur

Roland comprara para a Sra. Spoons um canário amarelo em uma gaiola que viajava com

eles de hotel para hotel e que, agora, estava em Maiden Lane como parte da família.

 

***

 

Então, Rillie acenou para o Sr. Prince naquela manhã ensolarada de abril, enquanto ele

acompanhava alguns clientes para dentro e, com as compras concluídas, pegou as duas

senhoras da família, a Sra. Spoons e Regina, no novo lar no sótão, e as levou para o

passeio diário. Naquele dia, desceram pela Broadway até Battery Park e Castle Garden,

onde salgueiros chorões se inclinavam ao lado dos píeres do rio Hudson. Todos os nova-

iorquinos gostavam do espaço aberto e fresco de Battery Park e do antigo castelo fortaleza,

onde, às vezes, havia concertos. À noite, casais de namorados caminhavam por entre os

plátanos, enquanto a luz do luar banhava os barcos brancos nas águas do rio.

Em um dos píeres, viram grupos de homens empurrando e se esforçando para entrar

a bordo de um velho navio que parecia ter visto dias melhores. Os homens falavam em

voz alta e confiante sobre o ouro. Um índio nativo, enrolado em um cobertor vermelho,

com marcas estranhas no rosto, observava, impassível, o navio zarpar, já partindo com

suas velas e seguindo para o mar aberto. De um navio a vapor desembarcavam imigrantes,

tocando, por fim (exatamente como Cordelia e Rillie e sua família), a terra com a qual

tanto sonharam: aquela Eldorado, a América. Rostos irlandeses magros e cinzentos

pareciam perplexos, vindos diretamente de Liverpool. Os agentes de imigração, com olhos

frios e calculistas, davam as boas-vindas e os guiavam para um lugar onde dormiriam e

comeriam. Homens confiantes se comprimiam e se acotovelavam para tentar enganar os

ingênuos.

De repente, a velha senhora Regina gritou, zangada e em tom bem alto, “Meu Deus!”

Um dos imigrantes pálidos, tendo chegado tão longe, desabou no chão do píer com uma

pequena sacola e as pessoas apenas passaram por cima dele, apressados para tratar de

suas vidas. Regina não era muito sentimental, mas ficou bastante comovida. Também não era muito religiosa, mas tinha uma relação histórica e forte com as publicações cristãs.

Então, enquanto Rillie se ajoelhava ao lado do homem, Regina ficou de pé ao lado dele

como uma sentinela e começou a cantar:

 

The Lord’s my Shepherd, I’ll not want

He makes me down to lie

In pastures green feedeth me

The quiet waters by.*

 

E embora ela fosse grisalha e enrugada e usasse um vestido preto e largo, sua voz era

agradável e ela usava um chapéu respeitável e ainda mantinha a postura ereta. Então, as

pessoas pararam para ouvi-la e viram o homem deitado no píer. Logo, apareceram agentes

da imigração e levaram o corpo do pobre irlandês embora.

Dois estivadores empurrando enormes carros de malas pararam por um momento

para um descanso da pesada carga e, ao final do terceiro verso, Regina parou de cantar e

fez a pergunta inevitável:

— Será que vocês, por acaso, conhecem meu irmão, Alfie Tyrone? Ele veio de Londres

como marujo em um dos navios há muitos anos atrás. — Ela esperava que alguém

reconhecesse o nome. — Alfie Tyrone — repetiu.

— Não conheço — responderam os estivadores, enquanto pegavam a carga e seguiam o

caminho.

Muitos dos marinheiros e estivadores já conheciam a velha senhora de vista.

— Regina! — chamavam eles sempre que a viam no meio de descarregamentos e

gaivotas, da multidão e do lixo. — Cante uma música.

Regina era uma pessoa peculiar e, às vezes, cantava, outras não. Naquele dia, como

sempre, não tivera notícias do irmão que sempre esperava encontrar, e decidiu não

cantar, apenas cantarolou baixinho sob o sol primaveril.

A senhora idosa apoiada no outro braço de Rillie, a Sra. Spoons, mãe de Rillie, com

seu rosto enrugado e doce, falava pouco, mas costumava sorrir para tudo que via e, só as

pessoas atentas talvez notassem seu olhar vazio que demonstrava que não estava talvez —

totalmente — no presente. Naquele dia, no píer, ela viu uma luva amarela: pegou-a das

gretas de madeira, embora as pessoas já tivessem passado por cima dela várias vezes, e

não a soltou mais. Então, ao segurar a luva, começou a dar novos sinais de ansiedade que

Rillie começara a notar: o lamento era novo, o olhar de sofrimento também, um tipo de

pânico que cortava o coração amoroso de Rillie enquanto observava o rosto pálido da

mãe. A Sra. Spoons já estava esclerosada há muito tempo, mas, até recentemente, não

parecia sofrer ou demonstrar ansiedade por causa daquilo. Rillie lhe deu um abraço

apertado.

 

— Não fique assim, mamãe — pediu Rillie. — Eu estou aqui, assim como Regina, e nós

— Não fique assim, mamãe — pediu Rillie. — Eu estou aqui, assim como Regina, e nós

vamos para casa agora.

E o trio se afastou do rio. Andaram lentamente através da confusão e da correria,

ainda de braços dados, seguindo para a casa de Celine em Maiden Lane, abrindo caminho

para carregadores, ferradores, estivadores, comerciantes, vendedores e carroças de bebida

e fardos de algodão, que pediam passagem e as ultrapassavam, apressados. No caminho

de volta, compraram dois jornais que meninos vendiam por todos os lugares: sempre

compravam um mais sério para saberem as notícias, mas também, em deferência à

carreira literária de muito tempo atrás de Regina, um dos jornais de um centavo mais

escandalosos.

No sótão, Rillie acomodou as senhoras de volta nas cadeiras de balanço compradas

para elas e colocadas ao lado das janelas que davam para a sempre barulhenta, ressoante e

lotada Maiden Lane. Serviu-lhes uma xícara de chá e sentou-se com a própria xícara à

pequena escrivaninha.

Regina pegou os jornais, primeiro o escandaloso, e procurou notícias interessantes.

Desde que se lembravam, Regina sempre lia os jornais para eles; em voz alta todos os

dias. “Ouçam isto”, diria ela. Sua fascinação por jornais se manteve firme desde a

juventude quando trabalhara para um dos jornais populares vendidos nas ruas de

Londres. Ela demonstrara tanta alegria com as palavras que os editores costumavam

deixar que escrevesse manchetes chamativas, CORPO ENSANGUENTADO ENTERRADO

NO CESTO DO AÇOUGUEIRO , e ainda recitava um de seus pequenos poemas ou

músicas que eram cantados, ou gritados, com grande entusiasmo, pelos vendedores de

jornal, enquanto vendiam suas mercadorias:

 

Pelas pernas os adoráveis gêmeos foram agarrados

Na cama, adormecidos.

Dissera o pai desgraçado:

Agora, com sua mãe, vocês logo terão partido.

Agarrou-os pelas pequenas pernas

E ao chão os lançou.

E logo a delicada vida se esvaiu

Ai de mim! Vida não havia mais ali.

 

— Ah, os dias de glória! — exclamaria Regina, com um misto de orgulho e saudade,

sempre que recitava os poemas do passado.

Naquele dia, lia em voz alta sobre um escândalo de Nova York com seu estilo poético,

cheio de floreios, embora atualmente tivesse de segurar o jornal mais próximo dos olhos.

ASSASSINATO NA RUA DO CANAL, CORAÇÃO ARRANCADO COM SERROTE. A

Sra. Spoons deu um sorriso vago, ainda agarrada à luva amarela imunda, a qual se recusava a soltar. Rillie estava debruçada sobre as contas da família, somando e

subtraindo da pilha de dinheiro que ficava na gaveta: o dinheiro que Cordelia e

Gwenlliam ganhavam no circo, o dinheiro que Arthur Rivers deixava com ela e os ganhos

meticulosos de Monsieur Roland. O que sobrava no final do mês, se é que sobrasse,

depois que fizesse a contabilidade e retirasse o dinheiro necessário para manter a casa,

seria levado ao novo Bank of America que ficava em Wall Street. Não se permitia que

mulheres gerenciassem uma conta bancária própria, nem mesmo na nova América

(embora houvesse muitas cartas aos jornais sobre esse assunto), então, era Arthur Rivers

quem sempre a acompanhava até Wall Street e assinava todos os papéis. Mas quem

cuidava do dinheiro era Rillie. Ela franziu o cenho enquanto olhava o dinheiro. Nunca

sentia que eles estivessem garantidos. Nunca. O circo estava pagando bem menos do que

costumava pagar logo que chegaram. Agora, depois de somar e subtrair os números,

contou, atentamente, o dinheiro do aluguel para La Grande Celine e o necessário para as

despesas diárias.

— Ouçam isto — disse Regina.

 

D ESCASCAD O R ES D O KENT UCKY

Briga em Maysville, Kentucky, no dia 20. Um Sr. Coulster foi esfaqueado e

está morto; um Sr. Gibson foi bastante feridocom uma faca; um Sr. Faro foi

gravemente ferido na cabeça e um outro, com o mesmo nome, no quadril;

um Sr. Shoemaker foi espancado e vários outros, feridos de diversas formas.

Esse foi o resultado de uma brincadeira para descascar milho quando todos,

sem dúvida, estavam alteradospelo consumo de bom uísque.

 

— Ouçam — disse ela novamente. — OURO RELUZENTE PARA TODOS NA

CALIFÓRNIA: MAIS MINAS DE OURO ABERTAS. — Então, ela abriu o jornal sério e

leu: — NAVIOS PARTINDO PARA CALIFÓRNIA TODOS OS DIAS: MAIS MINAS DE

OURO ABERTAS.

E, acima de todas as manchetes lidas por Regina e do som do tráfego do lado de fora,

Rillie ouviu os sinos de Trinity Church e da St. Paul’s Chapel tocarem de forma não tão

simultânea, e uma carroça dos bombeiros passou tocando o próprio sino e, em sua

gaiola, o canário amarelo, de repente, se juntou ao barulho, assoviando, alegre.

Rillie pensou em Monsieur Roland, praticando sua arte delicada com todo o barulho

de Nova York como pano de fundo, pois as salas de trabalho de Monsieur Roland ficavam

apenas a algumas ruas de distância. Uma pequena placa na janela dizia de forma simples:

Monsieur Roland: mesmerista. Embora ele quase nunca trabalhasse em hospitais, de

alguma forma, era conhecido na região como alguém que podia curar certos tipos de

doenças físicas ou acalmar almas atormentadas: aquelas almas que, naquela cidade grande,

excitante e cheia de gente, não conseguiam lidar com a nova vida ou com suas dores particulares. Antes de vir para a América, costumava morar sozinho em seu pequeno

quarto, meticulosamente arrumado, em Londres, na Elephant com a Castle e Rillie sabia

que a vida comunitária que levavam devia ser difícil para ele. Mas toda semana depositava

seus módicos ganhos; além disso, com infinita indulgência, erguia os olhos dos livros

que estava lendo para conversar com as duas senhoras idosas. Em algumas ocasiões,

jogava pôquer com Regina: às vezes, conversava com paciência por um longo tempo com a

Sra. Spoons para ver se encontrava sinais da própria Sra. Spoons dentro daquele pequeno

corpo frágil e ansioso, pois ele, Rillie, Regina e Arthur, todos notaram a mudança. A Sra.

Spoons apresentava um novo olhar perdido, pois agora não se lembrava de mais nada:

nem de si, nem de qualquer pessoa que já conhecera.

Rillie trancou as finanças na gaveta e olhou para o outro lado de Maiden Lane, para os

cômodos do outro lado da rua, onde, sem dúvida, haveria pessoas contando dinheiro

também. Rillie adorava a primavera, o ar ficava diferente e, agora, por fim, moravam em

um lugar que parecia um lar. E, no final do mês, Cordelia e Gwenlliam estariam de volta a

Nova York, e Arthur, que estava trabalhando longas jornadas (e bastante insatisfeito,

pensava) para a polícia de Nova York, estaria com elas sempre que possível, e sua pequena

e unida família, nas novas acomodações na pensão, estaria, enfim, completa. Esses eram

os melhores momentos.

Ergueu olhar em direção ao daguerreótipo da família pouco usual pendurado na

parede. Olhou atentamente para a querida amiga, Cordelia Preston. Ela e Cordelia se

conheciam e trabalhavam juntas há tanto tempo que se entendiam sem a necessidade de

palavras. Certa vez, Rillie dissera a Cordelia:

— Eu sou seu espelho.

E Cordelia perguntara:

— O que quer dizer com isso?

— Todos precisam de um espelho. Alguém que os conheça melhor do que eles

mesmos. Se você não tem um espelho, você não se vê e isso é ruim para as pessoas.

Rillie enxergava Cordelia e a amava muito — e percebia as diferenças. Como foram

alegres um dia: como riam do sucesso inesperado com o negócio arriscado e audacioso

do mesmerismo que planejaram montar; como bebiam vinho do Porto e se maravilhavam

com o fato de terem ficado a um passo de morarem em um abrigo para pobres e como

haviam escapado; como eram alegres e exuberantes. Rillie desejava que aquela Cordelia

pudesse voltar, mesmo depois de tudo que acontecera. (Essa era a única maneira que

Rillie conseguia explicar para si mesma: volte Cordelia.) Mas Rillie estivera lá, naquelas

poucas semanas terríveis do julgamento de assassinato, quando os filhos de Cordelia

haviam partido, assim como seu trabalho e reputação.

Talvez ninguém conseguisse voltar de uma coisa como aquela.

Nota

 

* Tradução livre: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará / Deitar-me faz em verdes

pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.” (N.T.)