O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 14 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 13

 

O Sr. James Doveribbon deveria estar muito confortável no American Hotel na Broadway:

água encanada e fartura. Mas o local também estava cheio de americanos que o engajavam

em conversas, o enchiam de perguntas durante o dia inteiro, e o chamavam de Jimmy.

Estava horrorizado. Em Boston, até mesmo acrobatas e treinadores de animais o

chamaram de Jimmy e se comportaram com uma familiaridade que considerava muito

desagradável.

Sempre lhe perguntavam “O que acha do nosso lindo país?” E a verdade era que ele

achava o país barulhento, vulgar e com total ausência de respeito a um cavalheiro inglês.

 

Entrou em contato com cinco circos em Boston e arredores, mas nenhum deles ouvira

falar de Cordelia Preston, até que, por fim, um palhaço irritante sem nada para fazer

bateu com o dedo ao lado do grande nariz vermelho acima da boca pintada e perguntou

de forma desagradável e insinuante:

— Mas para que você precisa dela, Jimmy?

(Já que o plano do Sr. Doveribbon para Cordelia Preston era algo muito mais sinistro

do que as insinuações do palhaço, sua reação contrariada foi um tanto injustificável.)

Então, o palhaço acrescentou:

— Se conseguir encontrar o Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift talvez a encontre.

E o coração do Sr. Doveribbon saltou no peito, até compreender que tal circo estava

em turnê pela selvagem América, a qual não tinha a menor intenção de visitar: a analogia

“agulha no palheiro” era bem apropriada, já que ouvira falar que não havia nada além de

grãos no país. No entanto, seguiu para Nova York, onde se hospedou no American Hotel

e pediu um caro champanhe como consolo.

Ouvira dizer que um homem chamado Phineas Barnum também era empresário.

Dirigiu-se, então, para o American Museum do Sr. Phineas Barnum, na Broadway, onde

viu um homem-leão, uma sereia-humana e um interessante anão. Também assistiu a um

melodrama, o que lhe despertou desejo imediato por uma bebida, mas não havia bares

no museu, apesar de haver cerca de vinte tavernas no mesmo quarteirão. Tentou

encontrar o Sr. Phineas Barnum para lhe fazer algumas perguntas, mas ele não foi

encontrado. Finalmente, teve uma conversa longa e cortês com general Tom Thumb, o interessante anão (desejoso de estudar os trejeitos de um inglês) que convidou o Sr.

Doveribbon para ir a um bar nos arredores e lhe pagou mariscos e cervejas, sempre o

chamando de Sr. Doveribbon. (James Doveribbon se sentiu um tanto estranho na

companhia de um anão, pensando que as pessoas poderiam olhar para ele, mas ninguém

prestava atenção ao inglês: estavam interessados apenas no seu companheiro.) No entanto,

sobre Silas P. Swift, o general Tom sabia tanto quanto o Sr. Doveribbon: seu circo estava

em turnê pela América.

Em outro dia, o Sr. Doveribbon saiu do hotel e seguiu (de mau-humor, pois não

conseguira encontrar uma carruagem livre naquela cidade, onde todos se empurravam, se

acotovelavam e se apressavam) para as docas do rio East, onde os gurupés dos veleiros

alcançavam as ruas, as cordas se enroscavam nas rodas das carroças e o som do tráfego,

das fábricas, dos vendedores, dos sinos de navios e os gritos dos irlandeses

descarregando as cargas nos navios eram difíceis de suportar. Enquanto observava as

docas barulhentas, também era observado. Um cavalheiro se aproximou e tirou o chapéu.

— Bom dia — cumprimentou o cavalheiro em tom bastante respeitoso.

— Bom dia — respondeu o Sr. Doveribbon, cauteloso, evitando que as próximas

perguntas fossem “Como se chama?”, “Quantos anos tem?”, “O senhor é casado?”, “Em

que trabalha?”, “Quanto ganha?”, “Onde está hospedado?” e “O que acha do nosso lindo

país?”.

Porém o cavalheiro ao seu lado apenas agia com cordialidade e logo estava

acompanhado de outro cavalheiro, que, gentilmente, o tiraram do caminho de uma

grande carroça que passava. E, logo depois, apertaram sua mão de forma jovial e seguiram

seus caminhos. Mais tarde, o inglês percebeu que, de alguma forma, seu relógio de bolso

havia sido roubado.

Ficou tão furioso que atravessou as docas à procura deles com o novo punhal em

mãos. Como se atrevem a me fazer de idiota? Todavia, os agradáveis cavalheiros haviam

desaparecido e, quando deu por si, estava cercado por marinheiros e estivadores de todas

as cores e sotaques que trabalhavam nas docas e esbarravam nele de forma rude. Segurou

firme o afiado punhal, pronto para usá-lo. Dirigiu-se para o posto de vigília do lado de

fora da delegacia de polícia, mas eles apenas riram e lhe disseram para prestar mais

atenção.

— Não há nenhuma chance de encontrar seu relógio de novo, camarada —

informaram eles. — Já deve ter sido vendido para algum judeu!

No entanto, sua sorte mudou naquele mesmo dia. Em um quadro de avisos público

leu:

URSO-POLAR BRANCO À VENDA. TODAS AS OFERTAS SERÃO CONSIDERADAS.

TAMBÉM PRECISAMOS DE MACACOS PERFORMÁTICOS.

SILAS P SWIFT.

PEARL STREET PRÓXIMO À PINE STREET.