O Circo dos Fantasmas
Capítulo 33
Pepitas de ouro. Elas despertavam uma sensação peculiar nos habitantes de Maiden Lane.
Uma vez que o conteúdo da segunda Bíblia Sagrada, cheia de ouro, chegou no Greyhound
e foi depositado no Bank of America em Wall Street, a conta bancária deles era
extraordinária. Mesmo no auge do sucesso, Rillie e Cordelia nunca se sentiram seguras,
sabiam como a vida poderia mudar rapidamente. Mas a não ser que o banco falisse, elas
estavam quase ricas: uma riqueza vinda do solo, enviada de forma despreocupada por
Gwenlliam, dentro de Bíblias Sagradas. Uma fortuna casual quase que para provar a
verdade: a América era a terra dos sonhos e das fortunas.
Já há algumas semanas o fluxo usual de cartas da Srta. Agnes Spark parara de chegar.
Arthur não sabia se deveria se sentir feliz ou triste, mas ele se preocupava com sua família
em Londres, enquanto vigiava as docas.
A primavera chegou a Nova York e Regina não retornou a Maiden Lane. Como sentiam
falta de suas interpretações dramáticas das manchetes e artigos de jornais: outras pessoas
lendo o jornal não era o mesmo. Cordelia e Rillie se revezavam para lerem as manchetes e
os anúncios, mas de alguma forma:
CANCHALÁGUA DA ALEGRIA
Planta californiana de rara ação medicinal para todos os tipos de indisposição:
sucesso instantâneo garantido!
Não tinham o mesmo impacto. Assim como a manchete: IRMÃS FOX VISITAM NOVA
YORK: MARQUEM UM HORÁRIO PARA FALAREM COM ENTES QUERIDOS, que fez
Monsieur Roland jogar o jornal no lixo. Rillie observou os punhos gastos do velho casaco
(pois o novo casaco roxo ainda estava no fundo do armário) e fez um plano para comprar
em breve um casaco para ele usar na visita.
Alfie contou a eles que Regina, na verdade, tinha 75 anos:
— Eu tenho 73! — disse ele. — Então, sei que ela tem 75!
Ele insistiu para que todos fossem a uma festa em honra à irmã que sua família estava
organizando em Washington Square. Então, Arthur Rivers se viu liderando o pequeno
grupo que pegou um ônibus em um domingo e, embora os chapéus batessem nas laterais
e as saias fossem pisadas por outros passageiros, todos chegaram em segurança até a
grande porta da frente em um dos lados da elegante Washington Square, onde altas
árvores floresciam. Rillie e Celine carregavam um grande buquê de flores do campo;
Cordelia levava as cartas de Gwenlliam.
Todos sabiam que Alfie era — como ele mesmo lhes contara — “muito bem de vida”.
No entanto, não imaginaram que ele fosse positiva e imensamente rico. Embora a própria
Maria tenha atendido a porta “Declaro que esperei por vocês na frente desta porta por
umahora!”, estava claro que tinham muitos criados negros e cinco andares de luxo.
Regina não apenas tinha o próprio quarto (no segundo andar para que não tivesse de
subir muitas escadas), mas tinha a própria cisterna de água. Havia tantos sobrinhos,
sobrinhas e primos vindos de outras partes para conhecer esta extraordinária e recém-
descoberta parenta que Regina resolveu seu dilema de lembrar todos os nomes ao chamar
todo mundo de querida .
— O que acham disso, queridos? — perguntou para todos. — A minha própria
cisterna! Eis um verdadeiro milagre!
Eles até podiam viver em uma grande e nobre mansão, mas a festa de aniversário foi
bastante barulhenta. Em certo momento, um frio cavalheiro da casa ao lado em
Washington Square bateu na porta para reclamar. De alguma forma, Alfie o seduziu e lhe
serviu uma grande dose de uísque irlandês. Ao final de um banquete de sopa e peixe, bife
e carne de porco, frango, tortas e ostras, que fizeram com que a própria Celine ficasse
boquiaberta, trouxeram um grande bolo de aniversário. As crianças gritaram de alegria:
tratava-se do maior bolo que já haviam visto e havia 75 velas acesas (as quais Regina
insistiu em apagar sem ajuda de ninguém, embora tenha ficado com o rosto bem
vermelho quando conseguiu).
Então, sentaram-se em uma sala enorme e Cordelia entregou as cartas da Califórnia
para Regina ler. Todos ficaram em silêncio, até mesmo as crianças: receber uma carta de
verdade sobre ouro de verdade era bem diferente do que ler as manchetes dos jornais e
todos adoraram ouvir falar de pepitas de ouro que valem centenas de dólares viajando
pelo cabo Horn dentro de uma Bíblia Sagrada.
— Esta é a América! — exclamavam todos.
— Posso segurar uma? — pediu um dos netos de Alfie. — Pepita de ouro?
— Oh, eu sinto muito — desculpou-se Rillie, em tom bondoso. — Mas tivemos de
guardá-las no banco.
— Não — interveio Cordelia. — Aqui está a pequena pepita com formato engraçado,
encontrada pelo minerador que morreu e dada a Gwenlliam por seu irmão, lembra? Eu a carrego comigo para ter boa sorte, pelo menos, até Gwenlliam voltar para casa. Aqui está.
— E ela exibiu a pequena pepita.
As crianças ficaram a sua volta, com olhos arregalados, tocando-a e a jogando para
cima.
— Parece uma pequena lesma — diziam entre si.
E Cordelia pensou: Então esta foi a jornada desta pepita de ouro: um jovem a encontrou
no leito do rio em Sacramento e morreu por fazer isso. E aqui estão crianças brincando com ela
como se fosse uma bola nesta mansão em Washington Square.
Então, Alfie pediu a Maria para cantar. Sem falsa modéstia, ela foi até o piano.
— Eu vim do Sul — disse. — Temos músicas diferentes por lá, mas Alfie sempre
gostou delas, assim como os criados — e ela começou a cantar.
Nobody knows the trouble I’ve seen
Nobody knows, but Jesus
Nobody knows the trouble I’ve seen
Glory Hallelujah.*
Enquanto cantava, a sala ficou tão silenciosa que era quase possível ouvir um coração
batendo. Os criados começaram a cantar de onde quer que estivessem, acrescentando uma
acompanhamento suave e baixo. Os visitantes, incluindo o vizinho que viera reclamar e
ficara para beber uísque irlandês (sentando-se bem satisfeito ao lado de La Grande Celine
com seu tapa-olho), ficaram impressionados. Maria tinha uma voz muito bonita, como se
fosse uma cantora treinada.
— Eu fui treinada, sim — contou ela, com modéstia, depois. — Cantava em público,
mas isso já faz muito tempo. Agora só canto para Alfie e para a família. — E Alfie parecia
orgulhoso e satisfeito.
— Imagine ouvi-la cantar ao acordar pela manhã — disse ele. — Sou um homem de
sorte! — E sorriu para Maria e ela sorriu de volta.
Então, ele anunciou aos visitantes que as ainda mais famosas Irmãs Fox estavam,
naquele exato momento, a caminho de Nova York.
— E eu vi um telégrafo e elas vão ficar no Howard Hotel. E onde fica o Howard Hotel,
cujo proprietário, creio, seja primo de Phineas Barnum? Apenas a quatro portas de
distância de vocês, em Maiden Lane, na esquina com a Broadway. Agora, quem poderia
ter arranjado melhor as coisas? Elas realizarão quatro dessas coisas, as quais chamam
sessão espírita , por dia, em uma das salas do hotel. As sessões comportam trinta pessoas
de cada vez. Então vamos ver. Podemos ir todos. Não apenas o senhor e eu, monsiê
Roland, mas Cordelia, Rillie e o inspetor. E Maria se recusa a ir.
— Acho isso uma afronta ao Senhor — declarou Maria com voz firme.
— Mas Queenie, é claro, faz questão de ir. E quando fiz as minhas pesquisas,
— Mas Queenie, é claro, faz questão de ir. E quando fiz as minhas pesquisas,
perguntei quanto cobram e eles responderam, chocados (ha!) que não havia qualquer
preço estipulado, mas que as pessoas talvez quisessem fazer uma doação para cobrir as
despesas.
— Ha! — repetiu Monsieur Roland. Regina, conhecendo o ponto de vista do amigo,
tinha separado vários artigos de jornais sobre o assunto, prontos para eles, os quais leu
naquele momento em voz alta com grande contentamento:
Cremos que nenhuma pessoa de respeito estimulará o que não passa de um
violento insulto contra Deus. Essas batidas blasfemas, que elas fingem ser
realizadas por alguma Divindade, devem chegar a um fim, os grupos serem
presos e todos serem enviados para um asilo de loucos.
— E eu digo amém — finalizou Maria.
— E por que será — começou Monsieur Roland — que depois de toda a história de
toda a humanidade, depois de todo o conhecimento dos gregos antigos e de outros
filósofos respeitados por tantas gerações, que sempre debateram essas antigas questões,
por que você acha que a resposta para os mistérios do além-vida seria descoberta na
América, onde a busca por filosofias antigas é bem baixa na lista de prioridades? Para
ganhar dinheiro, é claro!
Mas Regina ainda não acabara.
— O que é o Estige, monsiê? — perguntou ela.
— Dizem que é o rio que separa os vivos dos mortos.
— Foi o que pensei. Ouçam isto: “um telégrafo elétrico cruzando o Estige (antes que
possam atravessar o Atlântico) tornaria a morte uma separação menor dos amigos do que uma
viagem para a Europa!”
— Viu, monsiê! — exclamou Alfie. — Não se pode enganar os nova-iorquinos! Vamos
descobrir por nós mesmos.
— Eles são muito bons, mas eu fico feliz de ter o meu próprio quarto — confidenciou
Regina de forma irritada para Cordelia e Rillie um pouco mais tarde, mostrando a elas a já
citada cisterna, o grande guarda-roupas, a grande cama e todas as flores do campo que
trouxeram e que, como um passe de mágica, apareceram no seu quarto, espalhando o
cheiro de frésias e jacintos. — Às vezes tenho de subir até aqui para descansar e ler
algumas poesias ou o jornal. — Ela olhou para elas. — Sinto falta de vocês — declarou,
envergonhada. Então, começou o maior discurso que jamais a ouviram fazer em todos os
anos que a conheciam: — E tão estranho, sinto muita falta da senhora idosa, pois ficamos
juntas por muitos anos e costumo pensar nela, senhorinha engraçada. E sinto falta da
jovem Gwennie, embora eu nunca tenha dito nada. Ela nunca reclamou de ter de dividir um quarto no sótão com uma velha senhora, e aposto que devo roncar! Mas ela partiu
para fazer a própria vida. Pense naquelas cartas! E estou feliz e desejo boa sorte para ela. Mas é que também gosto de ficar perto de Alfie quando ele está aqui. Não falei sobre a
minha infância por cinquenta anos e agora parece que conversamos sobre isso toda
semana. Não sei por que, mas não é como se tivesse sido fácil. E eu sou útil com uma
coisa: leio para os netos e faço com que aprendam um poema ou dois. São crianças tão
inteligentes, alguns deles. — Ela ficou irritada, novamente. — Mas olhem para esses
armários! — Mexeu nos puxadores adornados das portas. — Eles insistem para eu
comprar roupas e não canso de repetir que não estou interessada em roupas! Já é tarde
demais pra eu me interessar em roupas! — Ela remexeu as mãos e parecia claro que
queria dizer algo mais. — Sinto falta de vocês — repetiu, por fim. — Depois de tudo que
passamos. Mas Alfie realmente quer que eu more com ele e, bem, acho que talvez eu
fique, se estiver tudo bem com vocês. Sei que não estaria aqui se não fosse por vocês.
E Cordelia e Rillie sentiram uma pontada de surpresa e pesar, mas só conseguiram
dar um abraço em Regina e dizer é claro que está tudo bem, e que sentiam também a falta
dela e nunca perderiam contato. Nunca mesmo.
Os aposentos pequenos e cheios em Maiden Lane, onde estabeleceram o seu lar, pareciam
silenciosos e vazios. Sete pessoas se tornaram quatro; o pequeno canário cantava, como
sempre, mas as cadeiras de balanço estavam paradas, e o quarto de Gwenlliam e Regina,
vazio. Rillie queria que Monsieur Roland se mudasse para lá, mas ele disse estar satisfeito
onde estava. Outro verão começava. Mas embora Cordelia fosse à Agência dos Correios
todos os dias, não recebeu mais cartas de Gwenlliam.
Também não havia mais cartas para Arthur Rivers vindas de Londres. Ele escreveu e
perguntou se estava tudo bem, incluindo as remessas de sempre.
— Por que ela parou de escrever? — perguntava Cordelia. Já fazia semanas e a
preocupação crescia com o passar dos dias.
— Ela não deveria estar apostando — declarava Cordelia.
— Disse que as coisas estavam ficando mais violentas e perigosas — lembrava Cordelia.
— Talvez o ouro da Califórnia tenha acabado e ela esteja a caminho de casa! — sugeria
Cordelia, enquanto olhava para o daguerreótipo na parede.
Os outros respondiam de forma otimista. Todo mundo sabia e reclamava sobre como
era irregular o serviço dos correios da Califórnia.
— Eles devem estar voltando para Sacramento — disse Arthur. — Pois a temporada
das chuvas com certeza já passou. Existem muitos motivos para uma carta demorar a
chegar.
Embora as lições de daguerreotipia tivessem terminado, Larry Prince pediu para
Cordelia continuar indo ao estúdio para ajudá-lo três manhãs por semana. É claro que ele
lhe pagaria.
— Você não é ruim nisto, camarada — disse ele. Ela pintava as placas de prata,
— Você não é ruim nisto, camarada — disse ele. Ela pintava as placas de prata,
aprendia sobre elementos químicos e ingredientes secretos, entendia cada vez mais sobre
sombras e luz e capturava rostos, mas o único rosto em sua mente era o da filha.
Nota
* Tradução livre: “Ninguém sabe os problemas que já vi / Ninguém sabe, a não ser Jesus /
Ninguém sabe os problemas que já vi / Glória Aleluia. (N.T.)