O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 12 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 11

 

Marylebone

 

Londres

Estimado Arthur,

Espero que esteja bem. Não posso dizer que tudo esteja bem aqui. O senhor não ouviu sobre a previsão de uma epidemia de cólera em Londres? Será que eles não ligam para essas coisas nesse país de republicanos? Será que o senhor não está se

preparando para a ira divina? A próxima carta pode facilmente trazer a notícia de que o Senhor levou uma de suas filhas ou um de seus netos (que praticamente não o conhecem). Ou até mesmo eu.

O senhor agora tem oito netos. Essas almas inocentes continuarão crescendo, jovens demais para saber que o avô materno decidiu abandoná-los em busca dos seus próprios prazeres. A saúde do pequeno Arthur é preocupante desde que nasceu, como se seu próprio nome carregasse consigo a desolação de ter um bêbado como pai e um desertor como avô — ele já o esqueceu agora, é claro.

Millie e Faith levam, obedientes, a vida de casadas, cumprindo seus deveres

conjugais, mas sem o apoio amoroso do pai.

 

A outra notícia que devo contar diz respeito ao marido de Faith, Fred, que agora está desempregado. A escola decidiu que ele não deveria mais lecionar. Não digo nada sobre os motivos, mas já comentei sobre a tendência dele às bebidas alcoólicas. É claro que estamos todos rezando fervorosamente para que ele encontre outro emprego.

A última ideia do príncipe alemão é uma Grande Exposição para demonstrar a grandeza da Grã-Bretanha. Notei que a Rainha Vitória está inclinada a realizar os desejos dele, então, não tenho dúvida de que Londres logo será inundada por todos os tipos de forasteiros, incluindo, sem dúvida, nativos escuros do vasto Império.

Ainda assim, comandamos um magnífico império e entristece a mim e às suas filhas que o senhor viva em um país que não julgou conveniente fazer parte dele. O fato de o senhor viver entre selvagens democráticos é um fardo para aqueles a quem deixou para trás a fim de buscar o próprio prazer; aqueles que rezam todos os dias pelo seu retorno.

Continuo, como sempre,

sua zelosa cunhada,

Agnes Spark (Srta.)

PS: recebemos sua contribuição financeira. Vigésima primeira parcela.

 

Querido pai,

Faith costuma postar as cartas da tia Agnes, mas como ela teve

problemas em casa hoje, nossa tia me incumbiu da missão. E,

bem, eu a li! E não me envergonho disto. Pai, não sou boa em

escrever cartas, mas gostaria de ter escrito antes se este é o tipo

de carta que o senhor tem recebido! Ela nos diz que escreve em

nome de todos nós, mas estou envergonhada do que ela

escreveu, é mesquinho demais. A cólera não passa de um

rumor, não um fato, e nós seremos muito cuidadosos, o senhor

não precisa se preocupar com coisas que talvez nunca

aconteçam! E o querido Charlie sempre pergunta por que meu

pai não pode viver a vida dele? E eu percebi que só achava

que o senhor deveria viver para nós porque é nosso pai, mas o

querido Charlie me fez pensar melhor. O pai dele um dia

disse: “eu pegaria o primeiro navio para a América se fosse

mais jovem”. O senhor se lembra dele, pai? Do pai de Charlie?

Um sujeito alegre e gentil comigo e com as crianças, mesmo

tendo apenas uma perna depois daquele acidente com a

carruagem. Então, pensei em escrever esta carta imprópria sem

que tia Agnes ficasse espiando por sobre meu ombro, pois

aprendi muito com o querido Charlie e embora sinta muita

saudade, querido pai, estou feliz pelo fato de o senhor também

ter uma vida porque o querido Charlie me faz rir e me faz

feliz. Bem, é melhor eu postar esta carta junto com a carta da

nossa tia. Com amor da sua princesa, Millie. Beijos.

 

O inspetor Rivers assoviava “Lavender Blue”, enquanto caminhava pelas docas com as

duas cartas no bolso do paletó.

— Eu gosto da música, inspetor, deveríamos ter mais policiais que assoviam! —

comentou seu melhor assistente, Frankie Fields; Arthur Rivers riu e logo ambos estavam rindo enquanto observavam os homens das docas levantarem um grande contêiner com

quadros e joias antigos e o colocarem, com segurança, em terra firme, chegando a salvo

em Nova York. E o comerciante pegando pessoalmente a entrega com um aceno alegre.

 

Lavender blue, dilly dilly

Lavender green

When I am King dilly dilly

You’ll be my Queen*

 

Essa era a música que ele costumava cantar para as filhas quando eram pequeninas; “dilly

dilly” cantavam elas, felizes, “dilly dilly”.

— Faith pode ser a rainha, pai — dizia Millie, com firmeza. — Eu não ligo, prefiro

muito mais ser uma linda princesa.

Nota

 

* Tradução livre: “Alfazema azulzinha, dilly dilly / Alfazema verdinha / Quando eu for rei,

dilly dilly / Tu serás a minha rainha”. (N.T.)