O Circo dos Fantasmas
Capítulo 15
Marylebone
Londres
Estimado Arthur,
Continuamos preocupados com o surto de cólera. Os seus oito netos — sim, Arthur, vou repetir uma vez mais, para o caso de ter esquecido de que são oito agora — continuam crescendo e eu agradeço à misericórdia divina nesta cidade infestada de
doenças. Eles têm muitas necessidades. Mas escrevo novamente em tão pouco tempo porque preciso fazê-lo compreender que o casamento de sua filha Faith está passando por muitos problemas. Ela carrega uma cruz e precisa das orientações do pai, pois não aceita as minhas. É com grande pesar que devo informar que Fred desapareceu (pelo que devemos ser gratos), mas a sua filha aceitou um trabalho remunerado! Pronto! Essas são as consequências de ter um pai do outro lado do oceano. E nem ao menos foi um emprego de governanta ou algum trabalho delicado como de bordadeira. Ela está trabalhando — e não consigo acreditar que esteja escrevendo estas palavras — em uma fábrica de conservas em Paddington. Cebolas são
transformadas em tempero. Millie toma conta das sobrinhas e do sobrinho. Nada mais direi na esperança de que essa notícia, por fim, o traga de volta à razão.
O príncipe alemão conseguiu o que queria — todos os tipos de planos estão sendo oferecidos e analisados para a construção de um edifício em Hyde Park para a Grande Exposição que, creio, será realizada em menos de dois anos. Os jornais só escrevem sobre isso. Não sei como nossa querida rainha consegue lidar com o assunto, embora tal exposição seja, conforme os jornais nos informaram, um modo de tornar a Grã-Bretanha ainda mais notável. Isso nós veremos, se o Senhor tiver misericórdia de
nós.
Continuo, como sempre, sua zelosa cunhada,
Agnes Spark (Srta.)
Recebemos sua ajuda financeira. Sexta parcela.
Querido pai, nenhum de nós mostra qualquer sinal de cólera Querido pai, nenhum de nós mostra qualquer sinal de cólera
e estamos ajudando Faith. Fred já tem problemas com a bebida
há anos. O querido Charlie diz que sair para trabalhar
proporcionou uma mudança para melhor em Faith, mas o
senhor sabe como ele é brincalhão. Ela fica cansada, mas está
tudo bem, pai. Fred é um caso perdido, constantes recaídas.
Nunca podemos contar com ele, mas tomamos conta de todas as
crianças e estamos nos arranjando e, se Fred desaparecer para
sempre, Charlie diz que vamos convidar Faith e as crianças
para morar conosco (só esperamos que isso não inclua tia
Agnes.) Ai, meu Deus, mais um bilhete inadequado, com
amor, de sua princesa Millie. PS: Todos mandam lembranças.
Um dia o senhor verá todas as crianças, as minhas e as de
Faith e tenho certeza de que ficará orgulhoso delas e o querido
Charlie sempre me diz que o senhor encontrará em mim uma
filha melhor do que a que deixou. E o pequeno Arthur de
Faith não o esqueceu, não importa o que tia Agnes diga, ele
guarda todos os seus desenhos. Dia desses, ele o desenhou em
um navio! Ele copiou o navio de um de seus desenhos e eu
fiquei muito orgulhosa! Mas, pai, nesse meio-tempo, não se
preocupe. Prometo que avisaremos se realmente estivermos com
dificuldades. Beijos.
O inspetor Rivers leu as duas cartas duas vezes e, com determinação, assoviou “Lavender
Blue”, enquanto caminhava do posto dos correios, voltando para o rio East sob a luz do
sol. Sua Cordelia estava de volta. No entanto, embora as flores de maio brilhassem nas
cercas e nos jardins e mesmo nos buracos do pavimento das ruas que levavam às docas,
ele não as viu. Havia ainda mais rumores sobre um departamento de polícia adequado
para o rio estar sendo desenvolvido: então, ele poderia viajar, talvez para Londres, onde
obviamente também era necessário.
Lavender blue, dilly dilly
Lavender green
Ele assoviava.
Mas essa foi a última vez que assoviou em muito tempo, fosse com determinação ou
felicidade: naquela noite seu rosto foi esmagado com uma pedra da pavimentação da rua e
sua clavícula e seu braço foram quebrados.
Quando as pessoas falavam sobre o acontecido mal podiam acreditar no motivo da
revolta: uma multidão de homens se juntou dentro e fora da Astor Place Opera House,
lutando, de forma violenta, sobre quem era o melhor ator para a peça shakespeariana
Macbeth: um ator americano ou um inglês. Dentro do teatro, membros violentos e
debochados da plateia interromperam a apresentação. Do lado de fora, a polícia não
conseguiu conter a multidão que arrancava pedras do pavimento e as jogava contra o
teatro. O exército foi chamado com suas armas e vinte e três pessoas foram mortas,
muitas por balas de revólveres. Casas e prédios na parte mais respeitável da cidade
também foram danificados. Os garotos que vendiam jornais gritavam “REVOLTA NA
BROADWAY.”
Cordelia, recém-chegada da turnê com o circo não via o marido há quase dois dias,
nenhum garoto viera com uma mensagem; ela e Gwenlliam não encontravam ninguém que
pudesse responder às suas perguntas no comando da polícia que estava sendo protegido
por soldados; o público era mantido afastado de Astor Place por um cordão de
isolamento. Cordelia olhava para as grandes manchetes dos jornais: VINTE E TRÊS
MORTOS, as quais Regina não lia em voz alta. Cordelia esfregava o chão do lado de fora
da porta de entrada.
— Onde ele está? — perguntava ela repetidas vezes para o chão.
— Cordie, ouça isto! Venha ouvir isto! — Mas Cordelia continuava a esfregar. —
Cordie, é William Macready! — Chamou Rillie novamente, sem acreditar. — Tudo isso
aconteceu por causa dele! — William Macready era um ator de Londres com quem
trabalharam há muito tempo. — As pessoas estavam se matando por causa de William
Macready. Se ele é melhor do que um ator americano chamado Edwin Forrest! — Ela
continuava olhando para os artigos de jornal, admirada.
Cordelia pegou o jornal e o descartou rapidamente.
— Onde está Arthur? Ele sempre manda uma mensagem se não for voltar para casa e
nós o estamos esperando. Ele ainda faz isso?
— Claro que sim — respondeu Rillie.
— Então, onde ele está? Por que as pessoas estão se matando por causa de William
Macready?
Quando Arthur Rivers, por fim, retornou à Maiden Lane com braços, mãos e cabeça
enfaixados e sangue seco no rosto, Cordelia apenas olhou para ele. E, então, chorou de
alívio, surpreendendo a todos, inclusive a si mesma. Enquanto se dirigiam à sala de estar
do sótão e Celine apareceu com tortas e cerveja, a Sra. Spoons se levantou de repente da
cadeira de balanço, fazendo pequenos sons de sofrimento. Talvez visse apenas um homem enfaixado, mas alisou o braço do policial com a pequena luva amarela e ele sorriu
segurando sua mão e dizendo ter a sorte de conhecê-la. Monsieur Roland, também
aliviado pelo retorno do amigo, observou a Sra. Spoons, perguntando-se como era
possível ela não conhecer o inspetor Rivers que vivia com eles e, ainda assim, demonstrar
tanto carinho.
A polícia foi castigada; cartas em todos os jornais falavam de “nova-iorquinos
respeitáveis impossibilitados de dormirem tranquilos em suas camas”.
— A multidão estava organizada — repetia Arthur diversas vezes. — Digo a vocês que a
confusão não foi sobre atores. Devia haver pelo menos dez mil pessoas lá. — E
Gwenlliam, sentada ao lado dele, teve de se controlar para não chorar: seu amado
padrasto tão ferido, pálido e enfaixado. — Reconheci muitos deles — continuou ele. —
Havia gangues lá. Centenas de Bowery com seus chapéus e calças chamativas. Edwin
Forrest é um herói de Bowery. Eles lutavam como animais selvagens, com facas e pregos,
botas e pedras. Também havia gangues de Five Points, arrancando o pavimento.
Ele não disse que também tinha visto membros da gangue Garotos do Alvorecer que
agiam na região do rio. Também não disse que acreditava que ele e Frankie Fields, seu
sargento mais confiável, foram o alvo específico de alguns homens violentos e que
escaparam de ferimentos mais graves quando o exército chegou armado com espingardas.
E, sobretudo, não disse que não tinha certeza se fora verdade ou alucinação: quando os
soldados armados chegaram e o arrastaram para um local seguro, pensou ter visto uma
mulher alta, descabelada, gritando impropérios para ele no meio da multidão que
continuava lutando. Ele se lembrou de ter tocado a orelha antes de perder a consciência.
— Aqui está o vinho do Porto — disse Cordelia e ele tomou, desajeitado, mas
continuou falando.
— Alguém ou várias pessoas, eu não entendo bem os meandros da América, mas
certamente há alguém por trás disso. Há pessoas instigando a confusão, usando Forrest e
Macready como desculpa!
Monsieur Roland olhou atentamente para as bandagens do amigo e, de forma gentil,
trocou a do ombro.
— Uma vez eu representei o papel de empregada de Macready — contou Rillie,
pensativa. — Goldsmith.
— E eu, uma vez, fui sua amada — acrescentou Cordelia. — Sheridan.
— Será que ele está seguro? — perguntou Rillie.
— Ele saiu pelos fundos e, se tiver bom senso, já terá deixado Nova York. Deve ter tido
ajuda para fugir, pois tem muitos amigos poderosos na “Sociedade de Nova York”, como
começaram a ser chamados, ou “Nova-Iorquinos antigos”. Foram eles que insistiram que
atuasse mesmo quando estava claro que os ânimos estavam exaltados. Eles simplesmente
não compreendem a energia oculta nas ruas não muito longe de onde pensam estar tão
seguros. A Bowery e a Broadway se encontram em Astor Place. Pelo amor de Deus! Qual é
o problema dessas pessoas que parecem não enxergar? Milhares de jovens desesperados e
insatisfeitos com demasiada energia, vivendo como animais. É claro que isso é receita para confusão! Será que a “Sociedade de Nova York” não lê os jornais da cidade? Será que não
sabem da onda de ódio que irrompeu na França, na Alemanha e na Inglaterra? As docas
estão cheias de gente chegando, pessoas zangadas de todas as partes do mundo! Nova York
vai explodir e o resultado será pior do que o daquele dia!
— Ouçam isto — interrompeu Regina, começando a ler um artigo no jornal:
A revolta deixa para trás uma sensação até então desconhecida nesta
sociedade: a oposição de classes, os ricos e os pobres. Na verdade, para falar de
forma direta, uma sensação de que há, agora, neste país, na cidade de Nova
York, e que até então todos os bons patriotas sentiam ser seu dever negar: uma
classe alta e uma baixa.
— É exatamente o que quero dizer! — exclamou Arthur.
— Ouçam este outro — disse Regina.
A rapidez com que as autoridades chamaram as forças armadas e a firmeza
inabalável com que os cidadãos obedeceram a ordem de atirar contra os
revoltosos é uma propaganda excelente para os capitalistas do velho mundo.
Tão boa que talvez eles enviem seus bens para Nova York na certeza de que
estarão seguros...
— Seguros! — indignou-se Arthur.
...contra as garras de republicanos vermelhos ou do cartismo ou de qualquer
tipo de movimento comunista.
O detetive das docas ouviu a leitura dramática de Regina sem conseguir acreditar.
— Os membros da gangue Garotos do Alvorecer vão adorar isso! — declarou ele. —
Embora eu não possa dizer que “comunistas” signifique “gangues do rio”. — Dizendo
isso, o inspetor Rivers levou a cabeça enfaixada às mãos igualmente enfaixadas.