O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 16 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 15

 

Marylebone

 

Londres

Estimado Arthur,

Continuamos preocupados com o surto de cólera. Os seus oito netos — sim, Arthur, vou repetir uma vez mais, para o caso de ter esquecido de que são oito agora — continuam crescendo e eu agradeço à misericórdia divina nesta cidade infestada de

doenças. Eles têm muitas necessidades. Mas escrevo novamente em tão pouco tempo porque preciso fazê-lo compreender que o casamento de sua filha Faith está passando por muitos problemas. Ela carrega uma cruz e precisa das orientações do pai, pois não aceita as minhas. É com grande pesar que devo informar que Fred desapareceu (pelo que devemos ser gratos), mas a sua filha aceitou um trabalho remunerado! Pronto! Essas são as consequências de ter um pai do outro lado do oceano. E nem ao menos foi um emprego de governanta ou algum trabalho delicado como de bordadeira. Ela está trabalhando — e não consigo acreditar que esteja escrevendo estas palavras — em uma fábrica de conservas em Paddington. Cebolas são

transformadas em tempero. Millie toma conta das sobrinhas e do sobrinho. Nada mais direi na esperança de que essa notícia, por fim, o traga de volta à razão.

O príncipe alemão conseguiu o que queria — todos os tipos de planos estão sendo oferecidos e analisados para a construção de um edifício em Hyde Park para a Grande Exposição que, creio, será realizada em menos de dois anos. Os jornais só escrevem sobre isso. Não sei como nossa querida rainha consegue lidar com o assunto, embora tal exposição seja, conforme os jornais nos informaram, um modo de tornar a Grã-Bretanha ainda mais notável. Isso nós veremos, se o Senhor tiver misericórdia de

nós.

Continuo, como sempre, sua zelosa cunhada,

Agnes Spark (Srta.)

 

Recebemos sua ajuda financeira. Sexta parcela.

 

Querido pai, nenhum de nós mostra qualquer sinal de cólera Querido pai, nenhum de nós mostra qualquer sinal de cólera

e estamos ajudando Faith. Fred já tem problemas com a bebida

há anos. O querido Charlie diz que sair para trabalhar

proporcionou uma mudança para melhor em Faith, mas o

senhor sabe como ele é brincalhão. Ela fica cansada, mas está

tudo bem, pai. Fred é um caso perdido, constantes recaídas.

Nunca podemos contar com ele, mas tomamos conta de todas as

crianças e estamos nos arranjando e, se Fred desaparecer para

sempre, Charlie diz que vamos convidar Faith e as crianças

para morar conosco (só esperamos que isso não inclua tia

Agnes.) Ai, meu Deus, mais um bilhete inadequado, com

amor, de sua princesa Millie. PS: Todos mandam lembranças.

Um dia o senhor verá todas as crianças, as minhas e as de

Faith e tenho certeza de que ficará orgulhoso delas e o querido

Charlie sempre me diz que o senhor encontrará em mim uma

filha melhor do que a que deixou. E o pequeno Arthur de

Faith não o esqueceu, não importa o que tia Agnes diga, ele

guarda todos os seus desenhos. Dia desses, ele o desenhou em

um navio! Ele copiou o navio de um de seus desenhos e eu

fiquei muito orgulhosa! Mas, pai, nesse meio-tempo, não se

preocupe. Prometo que avisaremos se realmente estivermos com

dificuldades. Beijos.

 

O inspetor Rivers leu as duas cartas duas vezes e, com determinação, assoviou “Lavender

Blue”, enquanto caminhava do posto dos correios, voltando para o rio East sob a luz do

sol. Sua Cordelia estava de volta. No entanto, embora as flores de maio brilhassem nas

cercas e nos jardins e mesmo nos buracos do pavimento das ruas que levavam às docas,

ele não as viu. Havia ainda mais rumores sobre um departamento de polícia adequado

para o rio estar sendo desenvolvido: então, ele poderia viajar, talvez para Londres, onde

obviamente também era necessário.

 

Lavender blue, dilly dilly

Lavender green

Ele assoviava.

Mas essa foi a última vez que assoviou em muito tempo, fosse com determinação ou

felicidade: naquela noite seu rosto foi esmagado com uma pedra da pavimentação da rua e

sua clavícula e seu braço foram quebrados.

 

Quando as pessoas falavam sobre o acontecido mal podiam acreditar no motivo da

revolta: uma multidão de homens se juntou dentro e fora da Astor Place Opera House,

lutando, de forma violenta, sobre quem era o melhor ator para a peça shakespeariana

Macbeth: um ator americano ou um inglês. Dentro do teatro, membros violentos e

debochados da plateia interromperam a apresentação. Do lado de fora, a polícia não

conseguiu conter a multidão que arrancava pedras do pavimento e as jogava contra o

teatro. O exército foi chamado com suas armas e vinte e três pessoas foram mortas,

muitas por balas de revólveres. Casas e prédios na parte mais respeitável da cidade

também foram danificados. Os garotos que vendiam jornais gritavam “REVOLTA NA

BROADWAY.”

Cordelia, recém-chegada da turnê com o circo não via o marido há quase dois dias,

nenhum garoto viera com uma mensagem; ela e Gwenlliam não encontravam ninguém que

pudesse responder às suas perguntas no comando da polícia que estava sendo protegido

por soldados; o público era mantido afastado de Astor Place por um cordão de

isolamento. Cordelia olhava para as grandes manchetes dos jornais: VINTE E TRÊS

MORTOS, as quais Regina não lia em voz alta. Cordelia esfregava o chão do lado de fora

da porta de entrada.

— Onde ele está? — perguntava ela repetidas vezes para o chão.

— Cordie, ouça isto! Venha ouvir isto! — Mas Cordelia continuava a esfregar. —

Cordie, é William Macready! — Chamou Rillie novamente, sem acreditar. — Tudo isso

aconteceu por causa dele! — William Macready era um ator de Londres com quem

trabalharam há muito tempo. — As pessoas estavam se matando por causa de William

Macready. Se ele é melhor do que um ator americano chamado Edwin Forrest! — Ela

continuava olhando para os artigos de jornal, admirada.

Cordelia pegou o jornal e o descartou rapidamente.

— Onde está Arthur? Ele sempre manda uma mensagem se não for voltar para casa e

nós o estamos esperando. Ele ainda faz isso?

— Claro que sim — respondeu Rillie.

— Então, onde ele está? Por que as pessoas estão se matando por causa de William

Macready?

Quando Arthur Rivers, por fim, retornou à Maiden Lane com braços, mãos e cabeça

enfaixados e sangue seco no rosto, Cordelia apenas olhou para ele. E, então, chorou de

alívio, surpreendendo a todos, inclusive a si mesma. Enquanto se dirigiam à sala de estar

do sótão e Celine apareceu com tortas e cerveja, a Sra. Spoons se levantou de repente da

cadeira de balanço, fazendo pequenos sons de sofrimento. Talvez visse apenas um homem enfaixado, mas alisou o braço do policial com a pequena luva amarela e ele sorriu

segurando sua mão e dizendo ter a sorte de conhecê-la. Monsieur Roland, também

aliviado pelo retorno do amigo, observou a Sra. Spoons, perguntando-se como era

possível ela não conhecer o inspetor Rivers que vivia com eles e, ainda assim, demonstrar

tanto carinho.

A polícia foi castigada; cartas em todos os jornais falavam de “nova-iorquinos

respeitáveis impossibilitados de dormirem tranquilos em suas camas”.

— A multidão estava organizada — repetia Arthur diversas vezes. — Digo a vocês que a

confusão não foi sobre atores. Devia haver pelo menos dez mil pessoas lá. — E

Gwenlliam, sentada ao lado dele, teve de se controlar para não chorar: seu amado

padrasto tão ferido, pálido e enfaixado. — Reconheci muitos deles — continuou ele. —

Havia gangues lá. Centenas de Bowery com seus chapéus e calças chamativas. Edwin

Forrest é um herói de Bowery. Eles lutavam como animais selvagens, com facas e pregos,

botas e pedras. Também havia gangues de Five Points, arrancando o pavimento.

Ele não disse que também tinha visto membros da gangue Garotos do Alvorecer que

agiam na região do rio. Também não disse que acreditava que ele e Frankie Fields, seu

sargento mais confiável, foram o alvo específico de alguns homens violentos e que

escaparam de ferimentos mais graves quando o exército chegou armado com espingardas.

E, sobretudo, não disse que não tinha certeza se fora verdade ou alucinação: quando os

soldados armados chegaram e o arrastaram para um local seguro, pensou ter visto uma

mulher alta, descabelada, gritando impropérios para ele no meio da multidão que

continuava lutando. Ele se lembrou de ter tocado a orelha antes de perder a consciência.

— Aqui está o vinho do Porto — disse Cordelia e ele tomou, desajeitado, mas

continuou falando.

— Alguém ou várias pessoas, eu não entendo bem os meandros da América, mas

certamente há alguém por trás disso. Há pessoas instigando a confusão, usando Forrest e

Macready como desculpa!

Monsieur Roland olhou atentamente para as bandagens do amigo e, de forma gentil,

trocou a do ombro.

— Uma vez eu representei o papel de empregada de Macready — contou Rillie,

pensativa. — Goldsmith.

— E eu, uma vez, fui sua amada — acrescentou Cordelia. — Sheridan.

— Será que ele está seguro? — perguntou Rillie.

— Ele saiu pelos fundos e, se tiver bom senso, já terá deixado Nova York. Deve ter tido

ajuda para fugir, pois tem muitos amigos poderosos na “Sociedade de Nova York”, como

começaram a ser chamados, ou “Nova-Iorquinos antigos”. Foram eles que insistiram que

atuasse mesmo quando estava claro que os ânimos estavam exaltados. Eles simplesmente

não compreendem a energia oculta nas ruas não muito longe de onde pensam estar tão

seguros. A Bowery e a Broadway se encontram em Astor Place. Pelo amor de Deus! Qual é

o problema dessas pessoas que parecem não enxergar? Milhares de jovens desesperados e

insatisfeitos com demasiada energia, vivendo como animais. É claro que isso é receita para confusão! Será que a “Sociedade de Nova York” não lê os jornais da cidade? Será que não

sabem da onda de ódio que irrompeu na França, na Alemanha e na Inglaterra? As docas

estão cheias de gente chegando, pessoas zangadas de todas as partes do mundo! Nova York

vai explodir e o resultado será pior do que o daquele dia!

— Ouçam isto — interrompeu Regina, começando a ler um artigo no jornal:

 

A revolta deixa para trás uma sensação até então desconhecida nesta

sociedade: a oposição de classes, os ricos e os pobres. Na verdade, para falar de

forma direta, uma sensação de que há, agora, neste país, na cidade de Nova

York, e que até então todos os bons patriotas sentiam ser seu dever negar: uma

classe alta e uma baixa.

 

— É exatamente o que quero dizer! — exclamou Arthur.

— Ouçam este outro — disse Regina.

 

A rapidez com que as autoridades chamaram as forças armadas e a firmeza

inabalável com que os cidadãos obedeceram a ordem de atirar contra os

revoltosos é uma propaganda excelente para os capitalistas do velho mundo.

Tão boa que talvez eles enviem seus bens para Nova York na certeza de que

estarão seguros...

 

— Seguros! — indignou-se Arthur.

 

...contra as garras de republicanos vermelhos ou do cartismo ou de qualquer

tipo de movimento comunista.

 

O detetive das docas ouviu a leitura dramática de Regina sem conseguir acreditar.

— Os membros da gangue Garotos do Alvorecer vão adorar isso! — declarou ele. —

Embora eu não possa dizer que “comunistas” signifique “gangues do rio”. — Dizendo

isso, o inspetor Rivers levou a cabeça enfaixada às mãos igualmente enfaixadas.