O Circo dos Fantasmas
Capítulo 21
O Sr. Doveribbon poderia ter esfaqueado Silas P. Swift com alegria usando a nova arma
que comprara em Londres enquanto se arrastava e espirrava pelo American Hotel: de fato,
havia planejado retornar ao circo o quanto antes e fazer exatamente isso. Mas tinha
consciência de que esse ato, apesar de lhe aliviar o orgulho ferido e o terno arruinado,
não traria nenhum avanço à sua missão. Como o dono do circo havia se comportado de
maneira suspeita (e tentado lhe matar afogado! Aquele criminoso!), sem dúvida deveria
ficar bem próximo de sua presa: tudo que tinha de fazer era seguir o circo.
O que ajudaria sua missão seria, no dia seguinte, passar um tempo nos arredores do
escritório de Silas P. Swift em Pearl Street (tentaria ser o mais discreto possível: queria
evitar mais violência — mas se fosse agredido de novo, daria o troco no mesmo nível). O
local estava fervilhando de atividade — barulho, entrega e coleta de malas, caixas e jaulas.
Havia algo realmente grande por trás daquilo. Havia um pátio na parte de trás: o Sr.
Doveribbon não havia percebido na primeira visita: via agora uma jaula onde macacos
histéricos, os quais ouvira na visita anterior, tentavam escapar, desesperados. No pátio,
cavalos eram colocados no curral por rapazes de pele escura e roupas coloridas: parecia
que os jovens iriam cavalgar até algum lugar e falavam com os animais com suavidade. Por
fim, o Sr. Doveribbon encontrou uma posição bastante vantajosa. Uma das centenas de
tavernas da região das docas ficava bem do outro lado da Pearl Street; daquele local não
conseguia ver tudo o que se passava, mas era possível observar se algo chegasse ou saísse
do local. Primeiro, porém, foi cuidadoso com sua segurança: Nova York certamente era
um lugar selvagem. Mas aquela taverna não parecia tão perigosa e violenta quanto as
outras que visitara na cidade; naquela, havia mesas de madeira polida. Comeu ostras e
cerveja, já que era o que os clientes costumavam pedir. Depois de um tempo, os jovens
estrangeiros e exibidos retornaram com os cavalos: certamente haviam exercitado os
animais. Parecia que o circo se preparava para se apresentar em algum lugar; com certeza,
Cordelia e Gwenlliam Preston estavam próximas, embora o Sr. Doveribbon se
perguntasse se a mãe permitiria a filha se aproximar dos arredores de um circo: a filha do
duque de Llannefydd! É claro que não! Havia anões lá, nenhum tão bonito quanto o
general Tom; chegavam homens e mulheres que poderiam muito bem ser palhaços ou
acrobatas; algumas vezes se ouviam gritos, outras, gargalhadas; certa vez, alguém explodiu
em lágrimas. Mas Cordelia Preston deveria ser uma dama mais madura e a única senhora de idade que apareceu pediu a ajuda de Silas sobre o que fazer a respeito — e ele deve ter
ouvido errado — de calças de cetim em uma voz americana bem alta.
Sr. Doveribbon tirou vantagem da amizade e da informalidade das pessoas que o
rodeavam. Broadwalk era o nome da taverna, por alguma razão desconhecida. Também
fingiu ser uma pessoa amistosa, jogou todo seu charme nessa atmosfera de camaradagem
entre homens fora do serviço. Naquele primeiro dia e no seguinte, conheceu homens de
negócio, capitães de navios, estivadores e comerciantes, todos misturados entre si de
forma bastante livre, notou; ele se sentou com eles em um grupo discreto, porém com
carteiras cheias. Comportou-se de maneira agradável com os novos companheiros, falou
com todos, pagou-lhes drinques, e ainda fez piadas sobre ser inglês:
— Estou viajando pelo mundo! — contou a eles. — E amo a América!
— Bom para você, camarada! — disseram batendo em suas costas; avistou facas e, às
vezes, até revólveres, usados de forma casual; ouviu histórias sobre lutas, brigas com
punhos, mulheres e dinheiro. E, durante todo tempo, observava as idas e vindas do
Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift.
O capitão de um dos novos e rápidos veleiros, chamados clíper, gabava-se das novas
velocidades alcançadas, contou sobre o ouro na Califórnia, a viagem ao outro lado da
América e as violentas tempestades que castigavam o cabo Horn, através do estreito de
Magalhães: Sr. Doveribbon tremia só de pensar naquilo. Os estivadores se vangloriavam a
respeito da riqueza do porto de Nova York. Todos pareciam abertos e amigáveis, não
como seus desonestos conhecidos de Londres, e podiam falar por horas a fio sobre um
assunto. Irlandeses baderneiros que mal conseguiam segurar suas bebidas se amontoavam
em um canto e gritavam; o barulho da taverna aumentou de forma gradativa, mas tudo
servia como um disfarce para o Sr. Doveribbon, sentado no meio do salão, protegido
pelos novos colegas, enquanto observava as atividades no outro lado da rua: Silas P. Swift
berrava ordens, quase arrancando os cabelos e o bigode de tanta agonia e impaciência,
evidentemente, para deixar tudo pronto.
Sr. Doveribbon agia com cautela — suas habilidades de detetive estavam bem melhores
— também não bebia demais naquela taverna volátil; mantinha a bebida que considerava
adequada no American Hotel, onde, ao menos, se sentia entre pessoas de sua classe. No
Broadwalk , não mencionara que estava vigiando o circo do outro lado da rua. Disse a eles
que seu nome era Frederick e, logo, chamaram-lhe Freddie, implicaram com o belo terno
cinza e ele riu e bebeu cerveja, contou mentiras e, algumas vezes, se comportou como um
bom camarada. Mantinha-se atento também para contratar um homem que pudesse “dar
um sumiço” em alguém; parecia haver vários candidatos prováveis: por certo, estava
cercado de trapaceiros e oportunistas, assim como (ou talvez incluindo) capitães de navios
e estivadores. Estava no local certo para fechar negócios de todos os tipos.
Na terceira manhã, porém, quando chegou à taverna, encontrou o pátio e o escritório
de Silas P. Swift vazio e com os portões trancados.
— Onde estão eles? — vociferou com raiva. — Onde está o circo? — Não acreditou que
poderiam ter viajado à noite. Seus companheiros de bebida lançaram olhares surpresos.
— Por que se importa com o circo, Freddie?
— Eu tenho... Um amigo que esperava encontrar antes que partissem. Para onde
foram?
— Ora, para a Califórnia, camarada. Seu amigo não lhe contou? Partiram ao
amanhecer levando tudo para as docas!
Sr. Doveribbon partiu, descendo correndo pela margem do rio East, como se estivesse
possuído, suando e quase chorando. E, enquanto corria, o mesmo pensamento passava
repetidas vezes em sua cabeça: Ca lifór nia ! O outro lado do mundo! Tenho de impedi-la e
nem sei como é seu rosto! Como vou achar Cordelia Preston e impedir que parta se nem ao
menos sei como ela é?