O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 22 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 21

 

 

O Sr. Doveribbon poderia ter esfaqueado Silas P. Swift com alegria usando a nova arma

que comprara em Londres enquanto se arrastava e espirrava pelo American Hotel: de fato,

havia planejado retornar ao circo o quanto antes e fazer exatamente isso. Mas tinha

consciência de que esse ato, apesar de lhe aliviar o orgulho ferido e o terno arruinado,

não traria nenhum avanço à sua missão. Como o dono do circo havia se comportado de

maneira suspeita (e tentado lhe matar afogado! Aquele criminoso!), sem dúvida deveria

ficar bem próximo de sua presa: tudo que tinha de fazer era seguir o circo.

O que ajudaria sua missão seria, no dia seguinte, passar um tempo nos arredores do

escritório de Silas P. Swift em Pearl Street (tentaria ser o mais discreto possível: queria

evitar mais violência — mas se fosse agredido de novo, daria o troco no mesmo nível). O

local estava fervilhando de atividade — barulho, entrega e coleta de malas, caixas e jaulas.

Havia algo realmente grande por trás daquilo. Havia um pátio na parte de trás: o Sr.

Doveribbon não havia percebido na primeira visita: via agora uma jaula onde macacos

histéricos, os quais ouvira na visita anterior, tentavam escapar, desesperados. No pátio,

cavalos eram colocados no curral por rapazes de pele escura e roupas coloridas: parecia

que os jovens iriam cavalgar até algum lugar e falavam com os animais com suavidade. Por

fim, o Sr. Doveribbon encontrou uma posição bastante vantajosa. Uma das centenas de

tavernas da região das docas ficava bem do outro lado da Pearl Street; daquele local não

conseguia ver tudo o que se passava, mas era possível observar se algo chegasse ou saísse

do local. Primeiro, porém, foi cuidadoso com sua segurança: Nova York certamente era

um lugar selvagem. Mas aquela taverna não parecia tão perigosa e violenta quanto as

outras que visitara na cidade; naquela, havia mesas de madeira polida. Comeu ostras e

cerveja, já que era o que os clientes costumavam pedir. Depois de um tempo, os jovens

estrangeiros e exibidos retornaram com os cavalos: certamente haviam exercitado os

animais. Parecia que o circo se preparava para se apresentar em algum lugar; com certeza,

Cordelia e Gwenlliam Preston estavam próximas, embora o Sr. Doveribbon se

perguntasse se a mãe permitiria a filha se aproximar dos arredores de um circo: a filha do

duque de Llannefydd! É claro que não! Havia anões lá, nenhum tão bonito quanto o

general Tom; chegavam homens e mulheres que poderiam muito bem ser palhaços ou

acrobatas; algumas vezes se ouviam gritos, outras, gargalhadas; certa vez, alguém explodiu

em lágrimas. Mas Cordelia Preston deveria ser uma dama mais madura e a única senhora de idade que apareceu pediu a ajuda de Silas sobre o que fazer a respeito — e ele deve ter

ouvido errado — de calças de cetim em uma voz americana bem alta.

Sr. Doveribbon tirou vantagem da amizade e da informalidade das pessoas que o

rodeavam. Broadwalk era o nome da taverna, por alguma razão desconhecida. Também

fingiu ser uma pessoa amistosa, jogou todo seu charme nessa atmosfera de camaradagem

entre homens fora do serviço. Naquele primeiro dia e no seguinte, conheceu homens de

negócio, capitães de navios, estivadores e comerciantes, todos misturados entre si de

forma bastante livre, notou; ele se sentou com eles em um grupo discreto, porém com

carteiras cheias. Comportou-se de maneira agradável com os novos companheiros, falou

com todos, pagou-lhes drinques, e ainda fez piadas sobre ser inglês:

— Estou viajando pelo mundo! — contou a eles. — E amo a América!

— Bom para você, camarada! — disseram batendo em suas costas; avistou facas e, às

vezes, até revólveres, usados de forma casual; ouviu histórias sobre lutas, brigas com

punhos, mulheres e dinheiro. E, durante todo tempo, observava as idas e vindas do

Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift.

O capitão de um dos novos e rápidos veleiros, chamados clíper, gabava-se das novas

velocidades alcançadas, contou sobre o ouro na Califórnia, a viagem ao outro lado da

América e as violentas tempestades que castigavam o cabo Horn, através do estreito de

Magalhães: Sr. Doveribbon tremia só de pensar naquilo. Os estivadores se vangloriavam a

respeito da riqueza do porto de Nova York. Todos pareciam abertos e amigáveis, não

como seus desonestos conhecidos de Londres, e podiam falar por horas a fio sobre um

assunto. Irlandeses baderneiros que mal conseguiam segurar suas bebidas se amontoavam

em um canto e gritavam; o barulho da taverna aumentou de forma gradativa, mas tudo

servia como um disfarce para o Sr. Doveribbon, sentado no meio do salão, protegido

pelos novos colegas, enquanto observava as atividades no outro lado da rua: Silas P. Swift

berrava ordens, quase arrancando os cabelos e o bigode de tanta agonia e impaciência,

evidentemente, para deixar tudo pronto.

Sr. Doveribbon agia com cautela — suas habilidades de detetive estavam bem melhores

— também não bebia demais naquela taverna volátil; mantinha a bebida que considerava

adequada no American Hotel, onde, ao menos, se sentia entre pessoas de sua classe. No

Broadwalk , não mencionara que estava vigiando o circo do outro lado da rua. Disse a eles

que seu nome era Frederick e, logo, chamaram-lhe Freddie, implicaram com o belo terno

cinza e ele riu e bebeu cerveja, contou mentiras e, algumas vezes, se comportou como um

bom camarada. Mantinha-se atento também para contratar um homem que pudesse “dar

um sumiço” em alguém; parecia haver vários candidatos prováveis: por certo, estava

cercado de trapaceiros e oportunistas, assim como (ou talvez incluindo) capitães de navios

e estivadores. Estava no local certo para fechar negócios de todos os tipos.

Na terceira manhã, porém, quando chegou à taverna, encontrou o pátio e o escritório

de Silas P. Swift vazio e com os portões trancados.

— Onde estão eles? — vociferou com raiva. — Onde está o circo? — Não acreditou que

poderiam ter viajado à noite. Seus companheiros de bebida lançaram olhares surpresos.

— Por que se importa com o circo, Freddie?

— Eu tenho... Um amigo que esperava encontrar antes que partissem. Para onde

foram?

— Ora, para a Califórnia, camarada. Seu amigo não lhe contou? Partiram ao

amanhecer levando tudo para as docas!

Sr. Doveribbon partiu, descendo correndo pela margem do rio East, como se estivesse

possuído, suando e quase chorando. E, enquanto corria, o mesmo pensamento passava

repetidas vezes em sua cabeça: Ca lifór nia ! O outro lado do mundo! Tenho de impedi-la e

nem sei como é seu rosto! Como vou achar Cordelia Preston e impedir que parta se nem ao

menos sei como ela é?