O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 43 de 52

Páginas do PDF

O Circo dos Fantasmas

Capítulo 42

 

Toda vez que um navio deixava a Califórnia, dizia-se que milhares — talvez milhões! — de

dólares em ouro estavam sendo transportados. De certo, o carregamento consistindo de

caixas grandes e contêineres foi embarcado no clíper Sea Bullet, além de grande

quantidade de correspondências, tripulação, alguns passageiros, água, comida e animais

vivos para serem abatidos durante a viagem. No convés e nas cabines do Sea Bullet,

rumores, mentiras e sonhos sobre o conteúdo da carga se espalhavam: talvez estejamos

carregando uma grande fortuna em ouro, sim, aposto que estamos carregando muito ouro. E o

Sea Bullet partiu do porto de São Francisco e desapareceu na bruma. Os passageiros mais

afortunados, é claro, também traziam ouro em sua bagagem.

Rumores ainda mais excitantes se espalhavam pelo convés e pelas cabines quando o

Sea Bullet partiu do Panamá algumas semanas depois, pois a partida teve um toque

dramático. A ancoragem no Panamá era a única parada programada: o clíper seguiria,

então, direto para Nova York sem escalas adicionais. No entanto, por razões que não

ficaram claras para ninguém, a não ser para o capitão do clíper, o Sea Bullet não poderia

partir do Panamá antes que o Moe’uhane chegasse, e o pequeno barco (pois nem

embarcações grandes nem pequenas podiam prever o tempo) sofreu um atraso de um dia

e meio. O capitão estava furioso e, assim que viu o Moe’uhane se aproximando, de forma

dramática, gritou ordens para que o Sea Bullet levantasse as velas. Inconsciente, Gwenlliam

foi carregada discretamente a bordo do Sea Bullet: os passageiros e a tripulação apenas

vislumbraram a jovem pálida e inconsciente sendo levada a bordo em plena luz do dia, na

mesma hora em que o clíper partira.

De alguma forma, quando Gwenlliam acordou uma vez mais do sono carregado pelos

mesmos cavalos silenciosos que a levavam pelos campos de sonho, estava em uma

pequena cabine particular (para impedir qualquer comunicação com as outras

passageiras, muitas das quais compartilhavam o mesmo dormitório). De alguma forma,

daquela vez o Sr. Doveribbon tinha a chave (então, ela realmente se tornara uma

prisioneira). De alguma forma, alguém lhe trouxera roupas e linho.

Sr. Doveribbon, no entanto, não conseguiu que tudo fosse feito do modo que

desejava. Apesar dos negócios mutuamente vantajosos com o capitão feitos há muito

tempo na taverna Broadwalk, o Sea Bullet não era uma embarcação na qual o Sr.

Doveribbon poderia mandar e desmandar conforme lhe conviesse: havia pessoas ali que viram a forma dramática como subiram a bordo, e, em particular, o auxílio e a

preocupação do médico do navio deixou o Sr. Doveribbon profundamente

desconfortável. Pois apesar dos modos calmos e agradáveis que demonstrou a bordo do

Moe’uhane, não confiava em Gwenlliam nessa situação mais pública e, por isso, perigosa.

Estranhava o fato de ela não perguntar mais nada acerca de sua fortuna e de seu futuro. O

médico, intrigado, ofereceu seus serviços na mesma hora: mas quem poderia dizer se

Gwenlliam não confiaria a ele os detalhes de sua situação? Muito sério, o Sr. Doveribbon

pediu que a garota fosse deixada sozinha: a “prima” sofrera um terrível trauma, e passava

por violentos episódios de insanidade. Precisava de paz. (Não queria que o médico

sentisse o odor ou qualquer sinal de clorofórmio. No entanto, o auxílio do médico seria

necessário, pois queria láudano para a paciente: havia comprado uma pequena

quantidade, mas já a utilizara e percebeu que precisaria de suprimentos regulares para

mantê-la o mais calma possível durante o tempo em que ficariam naquele navio junto com

outros passageiros, em uma viagem tão longa.) Então, surgiu um novo boato no navio em

quinze minutos: havia uma louca a bordo, possivelmente drogada.

Uma das criadas banhou a moça pálida e bela e a vestiu com roupas novas enquanto

Gwenlliam permanecia sonolenta.

— Que navio é este? — murmurou Gwenlliam. — Onde estamos?

— Ora, este é o clíper Sea Bullet, senhorita — informou a criada. — Deixamos o

Panamá hoje ao meio-dia. Nossa, como estamos orgulhosos. Chegaremos em apenas

alguns meses a Nova York, menos de três, se tivermos sorte.

Três meses! Como sobreviverei por três meses? Esforçou-se para se concentrar em seus

pensamentos, pediu água e tentou se sentar.

— Qual será a próxima parada?

— Não faremos nenhuma parada, senhorita. Seguiremos direto para Nova York. E a

senhorita está em uma cabine de primeira classe. Ao lado da do capitão de um lado e da

do seu primo do outro. Então, a senhorita está bastante segura.

Ainda sonolenta, tentando se manter acordada e adormecendo de novo, a única coisa

que pensou em dizer foi:

— Alguém a bordo do Sea Bullet joga pôquer?

— Oh, todos os cavalheiros jogam — respondeu a criada. — Para passar o tempo. E

eles já estão brigando, e só deixamos São Francisco há algumas semanas! Algumas vezes

eles brigam feio por causa do dinheiro. Muitos estão voltando da Califórnia com dinheiro

das minas de ouro!

— Bom — murmurou a agora limpa passageira, e caiu no sono novamente.

— Ela não é tão louca assim! — exclamou a criada, gentil, para o Sr. Doveribbon. —

Lavarei as roupas dela e as devolverei o mais rápido possível, para que possa se vestir de

maneira adequada. Só conseguimos nossas próprias roupas para dar a ela e são grandes

demais, não fazendo justiça a uma moça tão bonita.

— Queime as roupas dela imediatamente! — ordenou o Sr. Doveribbon e, na mesma

hora, arrumou uma nova criada para substituir a primeira: o que Gwenlliam poderia ter-lhe dito?

Então, uma segunda criada trazia as refeições e o Sr. Doveribbon sempre a

acompanhava. Às vezes ela comia, outras, não.

— Preciso de ar puro — pediu.

O Sr. Doveribbon apontou para a pequena escotilha, que a criada abrira. Podiam ver o

oceano Pacífico. Ele saiu novamente, trancando a porta atrás de si.

 

Depois do Panamá, a grande diferença para Gwenlliam era a raiva que sentia. No

Moe’uhane, ela se sentia bastante calma porque sabia que seria capaz de retornar do

Panamá para São Francisco, ainda mais com os ganhos extras no pôquer; consolava-se

por saber que, em breve, estaria de volta ao circo. Naquele momento, porém, estava a

bordo de um navio que contornaria as Américas sem paradas, gostasse ela ou não. De

alguma forma, sabia que ele havia lhe dado láudano além do clorofórmio. Conhecia bem

o láudano, feito da essência de ópio: os anões também tomavam aquela substância, assim

como o cacique e vários palhaços. Gwenlliam experimentara: alto-baixo era como os anões

chamavam o láudano, que os deixava alegres em um momento e, depois, os faziam

adormecer. Sua raiva não era apenas por ter sido sequestrada e por não ter mais

esperanças de escapar, mas também porque seu sequestrador lhe drogava de forma

perigosa. Como ele se atreve a usar o clorofórmio pela segunda vez e agora acrescentar outros

sedativos? Falarei com o capitão, disseram que ele fica na cabine ao lado. Ele poderá deter o Sr.

Doveribbon e largá-lo na costa de algum lugar, de preferência, bem violento.

Gwenlliam tinha, como Monsieur Roland notara há tanto tempo, um coração

bondoso. Sua vida esquisita — sequestrada pela nobreza quando tinha apenas 6 anos —

poderia tê-la tornado uma pessoa cruel, mas isso não aconteceu. A vida tumultuada no

circo — e as apostas e os experimentos com óxido nitroso que faziam parte daquilo —

poderia ter feito com que se tornasse uma pessoa má, mas isso também não aconteceu.

Pensava o melhor das pessoas, possuía paz de espírito e era bondosa. Mas uma lasca de

aço se enterrou em seu coração depois que partiu do Panamá. No passado, a odiosa

família galesa do pai mudara sua vida: não permitiria que a destruíssem uma segunda vez.

Ela era, de fato, a filha de sua mãe.

Quando o médico finalmente foi autorizado a entrar na cabine, trazendo mais

láudano, escutou o Sr. Doveribbon murmurando: ainda com os olhos fechados, se

esforçando para ouvir o que ele dizia.

— Devemos dar láudano a ela agora mesmo. Ela tem tido delírios e ataques de raiva e

insanidade. O senhor não deve acreditar em nada que ela lhe disser.

O médico se aproximou, ficou tão próximo que ela conseguia sentir o cheiro de creme

do cabelo dele. Escutou quando colocou o frasco de láudano ao lado da cama.

— O que a atormenta tanto assim?

— Ela perdeu o irmão e a irmã.

 

Gwenlliam ficou tão furiosa por essa distorção de suas dores pessoais, que sentou-se

Gwenlliam ficou tão furiosa por essa distorção de suas dores pessoais, que sentou-se

ereta em um pulo: não conseguiu se conter. Mas, então, viu o rosto alarmado do médico,

enquanto ele se inclinava em sua direção, e viu o Sr. Doveribbon. Sentiu uma tonteira

muito forte. Devagar, voltou a se deitar e parecia ter adormecido por um momento.

Inspirava e expirava de forma profunda e lenta.

— O senhor viu isso?! — exclamou triunfante o Sr. Doveribbon. — O senhor viu por

si mesmo como ela está profundamente perturbada. Creio que o melhor que eu posso

fazer é continuar dando láudano a ela regularmente, até entregá-la à família na Grã-

Bretanha.

— Entendo — disse o médico. — Histeria. Isso é bastante comum nas mulheres. Elas

são tão fracas, em tantos sentidos. — Sua voz era pomposa e carregava um sotaque inglês.

Estava muito satisfeito consigo mesmo: sem dúvida ele e o Sr. Doveribbon se mereciam. A

garota inspirava e expirava, bem devagar. — Existem vários tratamentos. Banhos quentes.

Esponjas frias. Massagem vibratória. No entanto, um pouco de exercício e ar fresco

quando ela acordar não fará mal algum. Nunca subestimo as qualidades estimulantes do

ar do oceano. — Gwenlliam emitiu um pequeno som e abriu os olhos de novo, bem

devagar.

— Eu gostaria muito de tomar um pouco de ar fresco, doutor — declarou ela com voz

gentil como a chuva fina.

— Exatamente o que eu estava sugerindo — concordou o médico. — Um pouco de ar

fresco e uma caminhada diária. Não é nada bom para a senhorita ficar deitada o dia

inteiro, minha jovem! Isso não é nem um pouco saudável. Sinto muito por sua triste

inquietação, mas a senhorita deve tomar o láudano quando retornar.

— É claro — concordou Gwenlliam, e, dessa vez, levantou-se com bastante calma.

— Esperem um pouco! — contrapôs-se o Sr. Doveribbon naquele momento. — É

melhor não apressarmos as coisas.

— Sinto que realmente preciso de um pouco de ar, Sr. Doveribbon — disse

Gwenlliam, com doçura e humildade. — Talvez um dos cavalheiros possa me oferecer o

braço, pois sinto que precisarei de apoio. — E deu um sorriso amoroso aos dois. E

como Gwenlliam era uma moça tão linda, tocou o coração do médico. — Será que eu

poderia apenas lavar o meu rosto e me encontrar com os senhores no convés?

— Vamos, velho amigo — chamou o médico pomposo.

— Veja bem... — começou Sr. Doveribbon.

— Uma dama precisa de alguns momentos de privacidade, e ela me parece bastante

sensata, embora extremamente pálida.

— O láudano — apressou-se o Sr. Doveribbon a dizer, se virando para o frasco ao

lado da cama. — Talvez seja melhor...

— Pode deixar comigo — afirmou Gwenlliam, depressa, pegando o frasco e levando-o

ao peito como se fosse o objeto mais valioso de sua vida. — Vou tomar um pouco assim

que eu retornar. Na verdade, ficarei muito satisfeita em tomá-lo. — Sr. Doveribbon não poderia tentar lhe tomar o frasco que estava junto ao seu seio na frente do médico. De má

vontade, permitiu que o médico o acompanhasse até o deque.

Rapidamente, Gwenlliam esvaziou o frasco no balde. Em seguida, levantou a saia,

sentou-se no balde e cobriu o láudano com outro líquido (imaginava que o Sr.

Doveribbon seria fresco demais para investigar o balde contendo suas necessidades).

Lavou o rosto com água da tigela. O frasco de láudano era verde-escuro e não a entregaria:

encheu o frasco com água de uma garrafa que fora deixada pela criada na prateleira.

Recolocou o frasco na mesa ao lado da cama. Só então percebeu como estava vestida. As

roupas estavam limpas, o que era importante, mas pareciam bastante inadequadas e eram

grandes demais. Sinto-me como uma órfã! Mas logo reformulou a frase. Não sou órfã, e,

naquele momento, foi tomada por uma tremenda saudade da mãe, um sentimento tão

forte que a fez arfar. Ela se curvou e colocou os braços em torno de si. Eu logo a verei.

Tudo vai ficar bem no final. Afinal, estou voltando para Maiden Lane. Levantou-se e tentou

amarrar e dobrar as roupas da melhor forma que podia. Não havia nenhum espelho na

cabine e Gwenlliam não fazia ideia de como estava. Não se importou. Por fim, saiu da

cabine.

No convés, respirou bem fundo, deixando o vento soprar e levar tudo embora

enquanto permaneceu ali parada. Não havia nada à vista: nem terra, nem outro navio. O

vento enchia as velas do belo e lustroso navio enquanto o levava através das ondas e sobre

o oceano. Ela se deu conta de que estava a bordo de um daqueles navios rápidos que

tanto admirava, a maneira mais rápida de se viajar de navio. Então, Gwenlliam começou a

observar tudo ao seu redor: o tamanho do navio, os demais passageiros: por certo eles a

ajudariam quando ouvissem sua história — onde estaria o capitão? — mas seus modos e

seu comportamento estavam impecáveis. Sr. Doveribbon relaxou um pouco. Ela deu o

braço para o médico; Sr. Doveribbon manteve-se ao lado, caminhando altivo e saudando

os outros passageiros que olhavam para Gwenlliam (ela mesma notou) com grande

interesse. Creio que talvez tenham ouvido dizer que sou louca! O médico começou uma

conversa fazendo perguntas; ela permaneceu em silêncio. Sr. Doveribbon respondeu pelos

dois:

— Eu sou seu primo. Ela está doente. — Não havia qualquer sinal do capitão. Depois

de algumas voltas em torno do convés, sentindo o balanço do navio, o médico disse:

— Creio que seja o suficiente para o primeiro dia, minha jovem.

Sentiu um aperto no coração, mas, com modéstia, pediu:

— Será que o senhor poderia me acompanhar novamente amanhã, doutor? Sinto-me

um pouco melhor depois de respirar o ar fresco.

— Com prazer — respondeu o médico, erguendo o chapéu em despedida. — Veja

bem, senhor, sua prima já está com o rosto mais corado. No entanto, é muito importante

que tome o láudano agora, minha jovem, e mantenha a calma.

— Obrigada, doutor — agradeceu Gwenlliam uma vez mais, exibindo um sorriso

amável.

 

— Não perca seu tempo planejando nada nesses seus passeios pelo convés, Srta.

— Não perca seu tempo planejando nada nesses seus passeios pelo convés, Srta.

Preston — avisou Sr. Doveribbon quando chegaram à cabine.

Ela se manteve em pé ao lado da mesa de cabeceira: não queria que ele investigasse o

frasco de láudano. Mas Gwenlliam percebeu que ele — tolo que era — estava tranquilo e

trazia um leve sorriso no rosto: as coisas tinham saído melhores do que poderia esperar;

havia, inclusive, algo de triunfante em seu sorriso. — Devo informá-la de que há muitas

conversas a seu respeito e ninguém acreditará em nada que disser. E espero que tenha

observado bem suas roupas, Srta. Preston. A senhorita pode ter sido uma princesinha em

Sacramento e São Francisco, mas isso mudou agora! Um navio é um excelente lugar para

boatos se espalharem bem rápido, e todos nesse navio sabem que há uma jovem que

sofre episódios de loucura a bordo, incluindo o capitão, então, não espere ser levada a

sério por ninguém. — Ela baixou o olhar para que ele não visse a raiva em seus olhos.

Respirou fundo: talvez ele tenha pensado que fosse um suspiro. Gwenlliam pegou o

frasco de láudano da mesa e o segurou com ela.

— Sr. Doveribbon — começou com frieza. — O senhor me sequestrou. Fiz exatamente

tudo o que mandou desde que deixamos São Francisco, posto que não tenho outra

opção. Nunca o perdoarei por ter me obrigado a inalar clorofórmio, substância essa que

eu creio conhecer bem melhor do que o senhor. No entanto, dizem que este navio seguirá

direto para Nova York, sem paradas. Não planejo pular no oceano. Pretendo, sim, tomar

este láudano, pois não conseguiria dormir de outra forma depois de tudo que aconteceu

comigo. O mínimo que o senhor poderia fazer, como um cavalheiro, é me deixar um

pouco sozinha agora, e também, enquanto estivermos a bordo desse navio, permitir que

eu ande e fale livremente. E ele a viu tomar um gole bem grande de láudano direto do

frasco, recolocando-o na cabeceira, retornando a sua cama e fechando os olhos. Por fim,

ele ficou satisfeito, e a deixou, trancando a porta após sair.

Gwenlliam escutou o barulho da tranca e reabriu os olhos na hora. A pequena

escotilha e o oceano Pacífico pareceram bem convidativos: ela de fato considerou, por

alguns instantes, em se jogar para fora.

 

Vários dias se passaram: o médico vinha todos os dias, o láudano era fornecido quando

necessário; Gwenlliam esvaziava os vidros no balde de dejetos que a criada levava embora

diariamente, e bebia do frasco escuro todas as noites, para a satisfação do Sr. Doveribbon.

As roupas de Gwenlliam haviam desaparecido, e nenhuma pergunta as trouxe de volta.

Não fez alarde, comia na cabine e olhava pela escotilha enquanto o oceano azul se

ondulava. Tenho de ser forte. Eu preciso. Não estou exatamente em perigo, a não ser pelo

clorofórmio. O capitão do navio vai me ajudar quando compreender a verdade. Estou na

cabine ao lado da dele. Talvez eu possa bater na parede quando ouvi-lo lá dentro. Prestava

atenção com calma. Às vezes a porta de alguma cabine batia. Fora isso não escutava nada.

Certa vez, bateu várias vezes na parede, provocando um som obscuro e abafado. Mas não

obteve resposta.

Todas as tardes, os três passeavam pelo convés, a jovem acompanhada de perto pelo

Sr. Doveribbon e pelo médico. As pessoas lançavam olhares discretos para a moça de

roupas esquisitas e seus companheiros. No quinto dia, aproximaram-se do capitão pela

primeira vez: parecia um homem intimidador e um pouco desagradável, enquanto gritava

com algum membro da tripulação, mas Gwenlliam decidiu arriscar. Fugiu dos dois

homens e correu em direção a ele com suas roupas largas e estranhas.

— Capitão, o senhor precisa me ajudar! — exclamou ela. — Eu sou mantida

prisioneira na cabine ao lado da sua, contra minha vontade. — Outra pessoa que andava

pelo convés parou e a encarou. — Eu sou uma prisioneira! — gritou ela, quase agarrando o

casaco do capitão. Como poderia fazê-lo entender?

— Sim, sim — respondeu o capitão enojado, afastando-a de si. — Escutei tudo sobre a

senhorita. Agora seja uma boa menina. — E fez um sinal impaciente para que o Sr.

Doveribbon a levasse.

Aquele pequeno erro de cálculo significava que a história circularia pelo navio em

pouco tempo: agora todos acreditariam que ela era, de fato, louca. Sentiu um nó no

estômago, como se a raiva lhe apertasse por dentro. Nem se levantou para ir ao convés no

dia seguinte: quando finalmente voltou a caminhar com o médico, não repetiu o mesmo

erro. O Sea Bullet continuava seu caminho. Os ombros de Gwenlliam estavam arqueados

enquanto andava, mesmo que não percebesse: em suas roupas largas, parecia uma figura

triste.

 

— Gwen! — Os três passageiros que caminhavam por ali pararam de forma repentina por

causa da voz tão alta. — Gwen, o que está fazendo aqui? Por que não nos encontramos

antes? Deixamos o Panamá há uma semana. Achei que já conhecia todos a bordo, e aqui

está você, andando com o cavalheiro mais bonito do navio! Oh, meu Deus, não pode ser.

Você não é a moça que dizem ser totalmente louca, não é mesmo?

Ela reconheceu a voz de imediato e seu coração disparou quando se virou e viu a dona

da voz.

— Colleen! — Ela se dirigiu para os cavalheiros que a acompanhavam, quase cega de

alívio ao ver o rosto espantado do Sr. Doveribbon. — Deixe-me apresentá-los à Sra. Ray,

do Royal Theatre, Nova Zelândia! Sr. Doveribbon e dr. Barker. — Os cavalheiros a

cumprimentaram, impressionados com a cor dos cabelos da Sra. Ray, quase tão

vermelhos quanto os de La Grande Celine, e os seios da Sra. Ray já haviam feito homens

fortes tremerem. Os olhos dela logo abandonaram o médico, mas demoraram-se no

atraente Sr. Doveribbon. Ela sorriu.

— Já vi o senhor caminhando sozinho pelo convés — disse ela dirigindo-se a ele. —

Quem poderia esquecer visão tão romântica! — A mente de Gwenlliam fluiu como o vento

nas velas acima dela: qual a melhor coisa a se fazer agora? Colleen aguardou com expectativa

por mais alguma explicação, tentando entender a estranha vestimenta.

 

— Estou doente — disse Gwenlliam antes que o Sr. Doveribbon pudesse apressá-la em Já haviam passado por Valparaíso, ou assim diziam, por Santiago, ilhas, arquipélagos (que

— Estou doente — disse Gwenlliam antes que o Sr. Doveribbon pudesse apressá-la em

ir embora. — Estou melhor agora e a caminho da Grã-Bretanha.

— Bem, aleluia! — exclamou Colleen. — Por você estar melhor, é claro, mas também

por podermos jogar um pouco de pôquer para que essas horas tediosas passem mais

depressa! Estou indo para Baltimore reencenar a peça “The Bandit Chief”. Os demais

atores seguiram antes, eu me atrasei... por amour. — Ela suspirou, seus lindos seios se

elevaram, e o médico teve um leve frisson ao lado dela; até mesmo o Sr. Doveribbon,

profundamente chocado pela infeliz situação como estava, não ficou indiferente.

— Colleen e eu costumávamos jogar pôquer em Sacramento — explicou Gwenlliam

aos cavalheiros. — Que tal, talvez, jogarmos nós quatro? Valendo dinheiro, é claro —

acrescentou com um sorriso doce nos lábios. Ignorou o rosto assustado do Sr.

Doveribbon e se virou para o enamorado dr. Barker. — Sinto que uma partida de pôquer

me faria imensamente bem.

— Isso pode ser muito estressante, minha jovem — advertiu ele, mas seus olhos

brilhavam enquanto sorria para a Sra. Ray.

— Oh, doutor! — interveio a Sra. Ray, pousando a mão no braço do médico. — Gwen

era a jogadora de pôquer mais calma de Sacramento, por isso sempre vencia. — Sorriu de

forma graciosa de volta ao médico, e ele se perdeu.

— De certa forma, ficar trancada na cabine o tempo todo pode causar a tendência à

histeria — informou o médico de maneira prodigiosa, e a paciente poderia abraçá-lo;

então, dr. Barker, sorrindo para a Sra. Ray, insistiu mais uma vez com o Sr. Doveribbon,

na frente dos outros passageiros, que um interesse em algo que não fosse si mesma, era

um bom sinal.

Sr. Doveribbon concordou de má vontade.

Então, eles jogavam, os quatro, em um canto silencioso, quase todas as noites.

Gwenlliam poderia ser louca, como diziam os rumores, mas era a melhor jogadora: ela e

Colleen jogavam melhor do que os homens, e os ganhos de Gwenlliam eram os maiores.

E, mesmo quando puxava as apostas para si, tenho de ganhar o máximo de dinheiro que

conseguir, mantinha o rosto impassível: o cacique Great Rainbow ficaria orgulhoso. Todas

as noites o Sr. Doveribbon consultava o relógio e pegava no braço de Gwenlliam, e assim,

a diversão chegava ao fim.

Trancafiada uma vez mais na cabine, porém renovada por causa da comunicação

humana e pelos seus ganhos, Gwenlliam ponderou: será que eu não poderia mesmerizar

o Sr. Doveribbon para que se afastasse um pouco de sua constante presença e pudesse

explicar as coisas à Colleen? Mas Monsieur Roland sempre deixava claro: nossos pacientes

devem estar dispostos a ser mesmerizados, apenas pessoas exaltadas e histéricas podem ser

mesmerizadas contra a vontade. E o Sr. Doveribbon nunca estaria disposto. E apesar de

achar que ele era um criminoso, com certeza histérico ele não era.

 

***

só escutavam falar, mas dificilmente viam), antes que Gwenlliam tivesse uma chance de

conversar com Colleen de forma adequada, pois o Sr. Doveribbon nunca, nunca mesmo,

saía do lado dela, a não ser quando ficava trancada na cabine. Permanecia trancada lá uma

boa parte do dia; não havia nada com que pudesse escrever uma carta explicativa para

escondê-la consigo até o momento certo durante a partida de pôquer.

Mas à medida que o clíper se aproximava do estreito de Magalhães, finalmente a

providência divina interveio: ventos os atingiram e os arremessaram várias vezes; no final,

o Sea Bullet teve de se afastar do estreito e, com esforço, contornar o cabo Horn, onde o

clima estava quase tão perigoso. E o Sr. Doveribbon ficou mal: de fato, para satisfação de

Gwenlliam, ele vomitou não apenas no convés, mas também nas cabines, nem sempre

conseguindo trancá-la em segurança antes de recorrer aos baldes de dejetos: por alguns

dias, ele pensou que estivesse morrendo. Gwenlliam, que não sofria de enjoo marítimo,

estava tão alegre pela enfermidade de seu captor, tão alegre em poder caminhar com

liberdade, que fez uma pequena dança no convés durante a forte ventania, só para provar

para qualquer passageiro ousado o quão louca era de fato. Sra. Colleen Ray, a

encontrando lá como combinado, aplaudiu.

— Ah, agora sim. Essa é a Gwen que eu conheço! — exclamou ela.

Apenas algumas almas mais corajosas se aventuravam no convés. De maneira breve,

por fim, com as duas mulheres de pé segurando-se na murada do navio enquanto este

subia e descia junto com as ondas do mar pela forte e impetuosa ventania que soprava na

popa, Gwenlliam explicou tudo. As palavras eram arrancadas de seus lábios pelo vento

quase no momento imediato em que as pronunciava, o que de fato aconteceu. Colleen

ficou boquiaberta de espanto.

— Bem, por que você não me falou isso no começo, sua boba? — gritou ela sobre o

som do vento e das velas. — Eu achava que você precisava ficar na cabine porque estava

doente!

— Eu não estou doente!

— Você mesma me disse que estava! Disse isso no primeiro dia em que a vi no

convés! E vi essa pobre figura sendo carregada a bordo!

— Eu não estou doente de forma alguma! Não mesmo! Ele roubou minhas roupas! E

me sequestrou colocando clorofórmio no meu rosto!

— O quê?

— Clorofórmio! — O vento levou as palavras embora.

— Você disse clorofórmio?

— Disse!

— Que canalha!

— Exatamente!

As palavras dançavam, gritavam e, então, desapareciam.

— Eu realmente achei que você estava muito estranha com essas roupas; mas parece a

mesma, e ainda pode jogar pôquer. Oh, Gwen, pobrezinha! Por que ele quer que você se vista assim? E por que correu o risco de sequestrá-la e mantê-la em público para levá-la à

Inglaterra? — E então gargalhou pela tempestade. — Ele está louco de amor por você, não

é isso?

— É claro que não! Ele acha que sou uma herdeira. E parece que precisa me

apresentar em pessoa em Londres.

Colleen riu novamente em uma mistura de prazer e fúria, seus cabelos dançavam ao

vento.

— Aqui é a América! — exclamou ela, como se ainda estivessem no país. — Não se

pode sequestrar herdeiras por aqui. Devemos alertar o capitão. “Algeme este belo

cavalheiro!”, vamos dizer. Então, eu poderei visitá-lo à noite e enlouquecê-lo até que

confesse toda sua culpa!

— Isso não é motivo de piadas, Colleen! Eu tentei alertar o capitão, mas o Sr.

Doveribbon já havia dito que eu sou doente e maluca.

— Ele disse isso para mim também.

— Isso, ele disse a mesma coisa para todos a bordo! E você mesma disse que eu pareço

estranha!

— Bem, vamos desmentir toda aquela história e contar a verdade! Agora eu sei de

tudo! — O Sea Bullet de repente foi bem alto e, então, desceu novamente ao oceano; ondas

cada vez maiores passavam de surpresa por cima da grade de proteção, surpreendendo-as,

banhando-as com a água do mar, o que as fazia arfar e gritar, engolir e cuspir, em uma

mistura de susto e alegria. Naquele momento, não havia mais ninguém no convés. Elas se

seguraram com força nas cordas e grades.

— Vão acreditar em uma atriz e uma acrobata ou em um cavalheiro inglês? — gritou

Gwenlliam. — E o doutor vai confirmar que ele estava me dando láudano suficiente para

tranquilizar um elefante!

— Você também está tomando láudano?

— Não! Eu jogo o conteúdo nos baldes de dejetos.

— Não faça isso! Dê para mim! Eu amo essa substância!

Mais uma vez uma onda enorme bateu de encontro ao convés.

— Oh meu Deus, estou ensopada! Segure bem firme, Gwen; essas águas geladas seriam

nosso fim!

— Estou bem, sou acrobata! — respondeu Gwenlliam, balançando com as cordas. —

Mas o médico acha que eu tenho tomado, por vontade própria, grandes quantidades de

láudano por semanas. Ele deve achar que tenho algum tipo louco de vício. E você já ouviu

o capitão? Ele grita com a tripulação o tempo todo! Tentei falar com ele, mas fui

dispensada sem que escutasse uma só palavra. Não é provável que ele escute dessa vez

também, mesmo com você ao meu lado.

— Verdade. Ele é um valentão, a tripulação não gosta nem um pouco dele. — Uma

onda se ergueu; Colleen se segurou com desespero em uma das cordas das velas e

agarrou-se novamente à grade do convés. Ela se virou em direção ao leme e, com coragem, soltou uma das mãos e acenou para onde estava o capitão e o timoneiro, que puxava o

leme.

— Devo seduzi-lo?

— O capitão ou o Sr. Doveribbon?

— O que você achar melhor. Os homens costumam me achar irresistível. Digo com

certeza que aquele timoneiro, olhe para ele, concorda com isso. Aposto cinco preciosos

dólares com você que me encontrarei com o rapaz sem demora em um dos botes salva-

vidas durante uma noite. — Não se importando consigo mesma e nem com as

perigosíssimas ondas que levantavam o convés, Gwenlliam riu. Acima, o capitão acenava

loucamente em direção a elas.

— Sabia que essa foi a primeira vez que eu sorri desde São Francisco? Oh, Colleen,

estou tão feliz por você estar neste navio. Aleluia, aleluia!

— Aleluia, sem dúvida! Nós vamos ser mais espertas do que ele, vou ajudá-la a ficar

em segurança neste navio e a fugir dele quando chegarmos a Nova York. Vou gritar,

histérica, pelas docas, atrizes possuem habilidades bem úteis, e vamos garantir que ele

seja preso! Que canalha! Mas preste atenção, eu não tenho dinheiro, caso tenhamos de

nos aventurar por aí. Eu subi a bordo apenas trazendo comigo dinheiro suficiente para ir

de Nova York até Baltimore, ainda que o pôquer tenha ajudado. Mon amour pagou minha

passagem e eu não quis contar a ele que não possuía nenhum dinheiro comigo quando

nos separamos.

— Eu também não tenho muita coisa! Mas também ganhei bastante no pôquer.

— Eu sei, vejo muito bem!

— Vamos dividir tudo. Apenas continue ganhando! — E com suas roupas ensopadas

coladas em seus corpos e segurando firme às grades e cordas, uma mão após a outra, elas

escorregaram e deslizaram debilmente pelo convés molhado, fazendo o perigoso, porém

divertido, caminho de volta para a porta. Um pálido Sr. Doveribbon procurava por

Gwenlliam de maneira frenética.

— Mas meu querido Sr. Doveribbon, foi culpa minha, não percebi que seria tão

perigoso, eu pensei que a forte ventania pudesse fazer bem a ela, para tirar o mofo!

Tranque-a no quarto novamente, e eu o acompanharei de volta à sua cabine, o senhor

parece péssimo; terrivelmente pálido e atraente.

E trancada de volta em sua cabine, com a escotilha também fechada e o mar furioso do

lado de fora, Gwenlliam pensava em sua felicidade pela Sra. Colleen Ray não ter, em

nenhum momento, mesmo quando falavam de sua miséria, sugerido que ser uma

herdeira valia a perda da liberdade.

 

Os dias passaram bem devagar. O tédio a bordo era inacreditável: para todos, e para

Gwenlliam em particular, quase sempre trancafiada em sua cabine. Mas os dias tinham de

passar de alguma forma. Logo estarei em casa, repetia para si mesma todos os dias. Ela

contava e recontava os ganhos do pôquer repetidas vezes. Contava os minutos para sua caminhada diária. Contava quantos segundos faltavam para que sua porta fosse

destrancada e pudesse, então, jogar pôquer. Em desespero, começou a bordar: toalhas de

mesa, guardanapos, agulhas e fios de algodão ficavam disponíveis para as damas: os

produtos terminados, diziam, seriam usados nas mesas de jantar do Sea Bullet. Então,

Gwenlliam bordou flores, como aprendera com nobres senhoras há muito tempo;

sentava-se sempre ao lado da pequena escotilha, observando o céu e o mar. No convés,

avistava alguns pássaros estranhos; às vezes, observava como eles mergulhavam,

aparecendo do nada entre as velas; ali, trancada na cabine, ela via apenas como eles

levantavam voo de volta ao céu azul e distante, para onde será que vão? Pela escotilha,

conseguia ver golfinhos, brincando, pulando e parecendo sorrir. Via como o céu mudava

de cor: azul, amarelo, cinza, vermelho, laranja: certa vez, viu a lua cheia tão abaixo do

horizonte que sentiu que, se esticasse as mãos, poderia quase alcançá-la.

 

***

 

— Será que não posso fazer uma visita rápida à Gwen? — pediu Colleen de forma

encantadora ao Sr. Doveribbon, encostando-se de leve contra ele enquanto o vento matinal

soprava. — O senhor parece que a tranca por muito tempo. Será que isso é bom para ela?

— Ela está bem doente — respondeu ele, com suavidade. — De certo, não é mais a

garota que a senhora conheceu em Sacramento.

Colleen não respondeu. E ele a olhou com atenção.

— Se, por ventura, ela disse algo diferente, não acredite. Eles se tornam muito

dissimulados.

— Quem, Sr. Doveribbon?

— Os histéricos, Sra. Ray. Viciados em drogas. Converse com o médico, ele explicará

melhor à senhora. — Colleen pensava (enquanto dava um sorriso como se estivesse

concordando e seus belos seios subiam e desciam junto a ele) em como aquele belo inglês

se tornara nem um pouco atraente para ela. Mas estavam cercados de água por todos os

lados: não via como poderia mudar as coisas com o passar dos dias. Viviam em um

mundinho de oceano onde o capitão era o rei. Mas a Sra. Colleen Ray vira Gwen

equilibrando-se em fios altos e mesmerizando mineradores. Gwen era valente e

destemida: teriam de desembarcar em Nova York e, então, ela se asseguraria de que amiga

escapasse. Colleen se inclinou mais em direção ao Sr. Doveribbon, pegou seu braço e

sorriu mais uma vez.

 

Por longas e intermináveis horas, Gwenlliam manejava a agulha com a mesma habilidade

de qualquer dama respeitável e observava o oceano enquanto pensava em sua excêntrica

família.

Pensava bastante na mãe corajosa e amada: que já sofrera muito por causa da

destrutiva família de seu pai. Pensava em Arthur, o padrasto a quem tanto amava: já que

não pularia do Sea Bullet, pensava, enquanto a água batia no casco do navio, que seria o

detetive Arthur Rivers a encontrá-la. Arthur saberá o que fazer. Arthur. Sua mãe ficava leve

e radiante com Arthur. Gwenlliam sabia que ela escondia do marido algo sobre seu

passado: algo sobre sua história e sua dor. Algumas vezes, o olhar de Arthur ficava

encoberto pela perda.

Gwenlliam mantinha o olhar para fora por um longo tempo, fitando o oceano cinza-

azulado: vira a imagem de sua mãe radiante de amor e alegria.

Imaginava o rosto pálido e envelhecido, porém bonito, do querido Monsieur Roland;

pensava em Rillie, querida e gentil, a melhor amiga de sua mãe. E também em Regina, forte

e bondosa, e no quarto que dividiam em Maiden Lane; “Vou contar uma história,

menina”, ela costumava dizer para fazer Gwenlliam dormir. E pensava também na Sra.

Spoons, querida e esquecida, e, algumas vezes, sozinha em sua cabine, cantava para si

mesma a música que a idosa se lembrava:

 

O whistle and I’ll come to ye, my lad,

O whistle and I’ll come to ye, my lad,

Though father and mother and a’ should gae mad

Thy Jeannie will venture, wi’ thee, my lad.

 

E, em algumas ocasiões, ela também se permitia sonhar acordada com um policial alto,

loiro, chamado Frankie Fields, que se igualara a ela no pôquer e, por vezes, aparecia em

seus sonhos à noite.

 

Passaram-se dias e semanas. Navegavam agora pela costa sul do Atlântico, passaram por

Montevidéu, Rio de Janeiro — nomes românticos, mas longe do alcance dos olhos. Os

passageiros estavam cada vez mais entediados e mal-humorados. Várias pessoas dividiam

cabines: discutiam com os companheiros de viagem e tornavam-se briguentos como

crianças por um simples pedaço de sabão. De nada adiantava dizer-lhes da sorte que

tinham por estarem navegando em um clíper, passando pelas águas da costa leste da

América do Sul: a viagem podia ser uma das mais rápidas, mas também era interminável.

Os passageiros simularam produções teatrais amadoras as quais a Sra. Ray estrelou com

muito sucesso. E, então, tendo sido estimulados pela atriz, alguns passageiros nojentos

começaram a insistir em ingressarem nas aulas de pôquer da noite; o canto silencioso

tornou-se mais barulhento; nas noites, Gwenlliam e Colleen ganhavam muitas rodadas de

pôquer dos homens da Califórnia com dinheiro nos bolsos.

— Bom — sussurrava Gwenlliam.

E assim os dias se passavam. Apenas algumas vezes, trancada na cabine durante tanto

tempo, Gwenlliam se perguntava, com o coração apertado, se, de fato, enlouqueceria e

tornaria verdadeiras as histórias do Sr. Doveribbon. E, trancafiada na cabine solitária,

bordava.

Pensando na família, soube como era peculiar a forma como pensava sobre o irmão e

a irmã mortos e sobre si mesma: nunca imaginou no que eles se tornaram depois de

terem sido sequestrados e jogados em um novo mundo odioso, cruel e frio: pensava

neles apenas como crianças, quando a bela mãe deles acenava do campo com as flores

dançantes e os chamava para casa ao anoitecer, de onde brincavam por horas na extensa

faixa de areia. Porque a época depois daquilo era muito dolorosa para se recordar.

Uma vez, porém, em um dia ruim, trancada na cabine com o mar cinzento e nada no

horizonte, a não ser o céu também cinzento, as terríveis memórias venceram: Gwenlliam

pensou em Manon chorando desesperadamente, andando em círculos em um dos

grandes quartos com sua camisola (a linda camisola para a linda nova vida). Eu ODEIO

estar casada, ninguém me disse que seria tão horrível, Gwennie, tão horrível e asqueroso — ele

tenta fazer coisas nojentas comigo, ele me machuca e depois ri — nunca se case, nunca mesmo,

é uma cilada! E, depois, ácido de potássio que queimava o estômago, e o vestido de noiva.

E Morgan, o amado irmão e suas dores de cabeça, fazendo bagunça, roubando suas joias

e fazendo pinturas violentas e raivosas. Mas quando tinha 15 anos, Morgan pintara

também um lindo quadro de três belas crianças louras à distância em uma grande praia;

estavam agachadas catando conchas, algas marinhas e madeiras flutuantes podiam ser

vistas ao longe. Gwenlliam sabia que aquele quadro maravilhoso estava trancado em um

dos velhos baús de viagem da mãe. Mesmo violento e incontrolável, Morgan ainda

mantivera suas lembranças: eu sei que Morgan não vira aquela praia de Gwyr desde os 5 anos

de idade, mas ele a pintou simplesmente usando sua memória. E, de repente, as lágrimas

escorreram pelo rosto de Gwenlliam, o bordado caiu no chão, enquanto chorava

copiosamente trancada na cabine. Os anos de infelicidade passavam por sua cabeça: o

pérfido pai, que tentava sorrir, a madrasta fria e o avô intimidador e bêbado. Chorou sem

parar: desesperada, colocou a cabeça para fora da escotilha; o vento bateu e chicoteou seu

rosto e queimou sua pele, mas ela não se moveu. Não se moveria até que a crise

incontrolável de choro cessasse. Mesmo assim, não se moveu: respirava fundo o ar que

vinha do mar. Apenas a antiga canção a tranquilizava: when that I was and a little tiny boy,

with a heigh ho, the wind and the rain, e dois pequenos fantasmas pareciam pairar ali, no

céu cinzento, nublado e sem fim.

Shshshshshshshshshsh chamava o mar ao lado de fora da escotilha naquela noite

enquanto o clíper navegava. Shshshshshshshshshsh chamava o mar em seus sonhos.

 

Alguém começou um jornal no navio, entrevistando os passageiros. Os americanos

simpáticos e curiosos fizeram todo tipo de pergunta pessoal ao belo Sr. Doveribbon:

sobre sua viagem, a garota louca, se ele era rico, deixando-o extremamente irritado e desconfortável. Uma garota simples que viajava com a mãe se apaixonou por ele e o seguia

para onde quer que fosse, deixando-o ainda mais irritado. Quando ela chorara e declarara

seu amor, ele foi quase cruel. Àquela altura, os passageiros entediados apostavam em

tudo, não só no carteado: na quantidade de ouro que era levada na carga; na data em que

o clíper chegaria a Nova York; em que comida desagradável seria servida no jantar, já que

as refeições tornaram-se menos variadas conforme o tempo de viagem passava. Se peixes

frescos fossem pescados, a ocasião era comemorada por todos os passageiros, que

compartilhavam a iguaria: apostava-se muito dinheiro no peso da pesca. O auge do tédio

foi alcançado quando apostaram grande soma de dinheiro em quem conseguiria prender

a respiração por mais tempo: um homem que fora dono de uma loja de tecidos em São

Francisco, fazendo fortuna, e de quem ninguém gostava por cobrar preços ainda mais

caros do que os já praticados na Califórnia, prendeu a respiração, teve um ataque

cardíaco e morreu. Isso, pelo menos, animou um pouco as coisas. Envolveram o corpo

do defunto em lona e o sepultaram no mar, em algum lugar no imenso oceano Atlântico,

e o capitão pediu que Deus tivesse misericórdia da alma do homem. Gwenlliam, trancada

na cabine, não compartilhou de nenhuma daquelas atividades. A Sra. Colleen lhe contava

fragmentos dessas histórias durante as aulas de pôquer.

E o Sea Bullet seguia adiante: passavam por ilhas, outros lugares com nomes

românticos que, novamente, não conseguiam vislumbrar: passaram por Martinica,

disseram; Guadalupe.

 

Aproximavam-se da América do Norte: Gwenlliam e Colleen, nos raros momentos em

que o Sr. Doveribbon não estava presente, conversavam e planejavam da melhor forma

que conseguiam.

— Se ao menos esse navio fizesse alguma parada em algum lugar! — murmurou

Gwenlliam entre os dentes, enquanto passavam um tempo precioso durante a tarde

caminhando juntas junto à grade do convés, tendo atrás de si o Sr. Doveribbon, que

mantinha os olhos nelas enquanto discutia com o médico assuntos de Londres.

— Eu sou acrobata! Poderia agarrar uma corda, balançar sobre o píer e fugir! É o meu

trabalho! É o que eu faço! — Ainda assim, mantinha a voz baixa e o rosto inexpressivo o

tempo todo. Elas achavam, mas não tinham certeza, que a família de Gwenlliam, de

alguma forma, já soubesse o que acontecera com ela: Gwenlliam confiava que Peggy

Walker tivesse, de algum modo, enviado uma carta pela rota mais rápida possível, ou seja,

pelo istmo. Era possível ainda, comentou ela, que seu padrasto talvez estivesse, naquele

exato momento, embarcando todos os tipos de navios com reforços policiais (talvez —

embora não tenha dito isso a Colleen — Frankie Fields, o policial alto que se equiparava a

ela no pôquer e se intrometia em seus sonhos, estivesse com ele).

— Mas eles não têm como saber em que navio estou. Como vão me encontrar?

— Talvez você possa apenas saltar pelo píer, como disse que poderia fazer, assim que

chegarmos a Nova York!

— É claro que planejo fazer isso. Enquanto você grita e simula ataques histéricos! Mas,

enquanto eu estiver trancada na cabine ele pode fazer o que quiser comigo. Oh, Colleen,

ele não pode ter a chance de usar clorofórmio em mim de novo.

— Ele tem mais clorofórmio? Canalha!

— Eu não sei! E isso é o que mais me preocupa. Mas como posso entrar na cabine

dele enquanto ele me tranca na minha?

— Deixe isso comigo. Descreva para mim como é o clorofórmio.

Gwenlliam começou a explicar, mas o Sr. Doveribbon se aproximou. Por sorte, o

capitão o chamou, e ele retornou à ponte de comando.

— Você já cheirou clorofórmio? — apressou-se Gwenlliam a perguntar.

— Não!

— É um cheiro um tanto adocicado, não desagradável e o líquido é transparente.

Lembro-me de que vimos no hospital um frasco com uma tampa. — Gwenlliam mantinha

os olhos nos dois homens que conversavam acima delas. — Mas quem pode saber como

o Sr. Doveribbon o transporta ou onde ele guarda.

Acima delas as velas brancas se curvavam ao sabor do vento, e um marinheiro estava

em um dos mastros desatando uma corda emaranhada.

— Estamos procurando, então, algo parecido com uma garrafa de água?

— Sim, uma garrafa de água com um cheiro adocicado. E eu me lembro de que o

cirurgião no hospital tirou o clorofórmio de um armário escuro. Os anões me disseram

que algumas dessas substâncias devem ser armazenadas no escuro.

Naquele momento, o Sr. Doveribbon desceu os degraus da ponte, com um leve

sorriso nos lábios.

— Pode deixar comigo — assegurou mais uma vez Colleen, também com um leve

sorriso nos lábios.

Naquela mesma tarde ela abraçou um belo camareiro em um corredor escuro e pediu-

lhe um favor, prometendo outro em troca. O camareiro usou sua chave-mestra para

entrar na cabine do Sr. Doveribbon enquanto o jogo de pôquer acontecia no andar de

cima. O líquido doce e incolor foi encontrado e derramado nas águas escuras do oceano;

o conteúdo do frasco foi substituído por água. Cumprida a tarefa, o camareiro passou

pela sala de pôquer e fez um sinal com a cabeça: naquela mesma noite, recebeu o favor

prometido em retorno, e o belo camareiro contou a Colleen que encontrara uma outra

coisa na cabine: uma bolsa com cabelos, cabelos de mulher.

— Não toquei naquilo — dissera ele. — Parecia um pouco fantasmagórico.

Essa informação pareceu desanimar a própria Colleen, que decidiu não mencioná-la

para Gwenlliam.

 

Alguns dias depois, o Sr. Doveribbon reclamou em alto e bom som (pois checara o

clorofórmio para o próximo desembarque) que sua cabine fora invadida e que objetos

particulares lhe foram roubados. Quando, porém, o belo camareiro lhe perguntara, em tom preocupado, o que havia perdido, o Sr. Doveribbon não especificou. É claro que

suspeitou de Gwenlliam, mas ela estava com ele o tempo todo quando não estava trancada

na cabine. Ele se perguntou: será que o clorofórmio poderia se transformar em água se

fosse sacolejado por uma tempestade, já que ele mesmo sofrera os efeitos da mesma? Ou

será que a Sra. Ray poderia ter entrado em sua cabine e revistado sua bagagem? Passou a

olhar todos a bordo com muita desconfiança e malícia; aquele homem traiçoeiro cogitava

histórias de traição cometida por outras pessoas.

No entanto, para Gwenlliam, parecia que o pior havia passado: não havia mais

clorofórmio! Abraçou a Sra. Colleen Ray: seus olhos começaram a recuperar o antigo

brilho. Costumava baixar o olhar de forma discreta quando pensava que logo estaria com

sua amada família: será que teria de esperar muito tempo mais para revê-los? Imaginava

todos esperando por ela no Battersea Gardens, ou nas docas do rio East.

E Gwen e Colleen tinham, pelo menos, um plano a prova de falhas se todo o resto

falhasse: Sr. Doveribbon não tinha autoridade sobre a Sra. Colleen Ray, do Royal Theatre,

Nova Zelândia, e nem a chave para sua cabine. Assim, quando o Sea Bullet, por fim,

aportasse, seguiria imediatamente para Maiden Lane antes de se reunir ao elenco de “The

Bandit Chief” em Baltimore.

No entanto, as conversas entre o capitão e o Sr. Doveribbon, que começaram há muito

tempo, na taverna Broadwalk, naquele momento, se aproximavam do clímax mutuamente

vantajoso. E seus planos não incluíam a Sra. Colleen Ray, do Royal Theatre, Nova

Zelândia.