O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 48 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 47

 

Os quatro caminharam no abafado entardecer: Cordelia, Rillie, Gwenlliam e Alfie

caminharam juntos tentando se sentir despreocupados enquanto subiam pela Broadway

iluminada por belos lampiões a gás. Gwenlliam não conseguia evitar as exclamações de

prazer por ver tudo aquilo novamente: as lojas luxuosas sob as tendas californianas; as

pessoas, os prédios, o brilho e a esperança. Liberdade. As pessoas abriam caminho,

apressadas para atenderem aos negócios urgentes, como sempre na Broadway, mesmo no

calor. Era quase noite quando chegaram à prefeitura, passando pelos jardins com

chafariz. Atrás da prefeitura havia o palácio da justiça, conhecido como mausoléu devido

à arquitetura peculiar; ali ficava a maior parte do departamento de polícia e a prisão

abaixo, mas nem por um momento eles pensaram no Sr. Doveribbon, trancafiado em

algum lugar bem próximo. Os passos deles ecoaram quando chegaram à recepção vazia:

havia um homem e uma mesa de trabalho, algumas cadeiras e um longo banco de madeira

em um dos cantos. Acharam que o homem sentado à mesa era um policial, embora

estivesse lendo um jornal de um centavo e mal tenha erguido os olhos enquanto eles

aguardavam de pé.

— Estamos fechados — declarou ele, indolente, sem se levantar ou lhes dirigir o olhar.

— A guarita fica do lado de fora — informou. — Se os senhores tiverem sido roubados,

mas acho que já deve ter fechado também.

— Procuramos pelo inspetor Rivers — disse Cordelia, firme.

— Bem, eu também — respondeu o policial, ainda virando as páginas do jornal. —

Estamos esperando por ele e seus homens o dia inteiro. Existem muitos relatórios para

serem preenchidos e isso ainda não foi feito; há muitos jornalistas querendo ouvir a

história e ele não está aqui para atendê-los.

O policial ainda não se levantara. As três mulheres agora trocavam olhares

preocupados.

— Ouça bem, camarada — começou Alfie, caminhando diretamente até a mesa e

olhando para o jovem policial. — O inspetor Rivers é um herói depois de suas ações na

noite passada e onde ele está? Ele não está em casa e não está aqui e nós estamos

preocupados com ele e a sua mãe deveria ter lhe ensinado a ficar de pé na presença de

damas.

 

— Estamos na América, camarada! — exclamou o policial. — As regras aqui são

— Estamos na América, camarada! — exclamou o policial. — As regras aqui são

diferentes. — Ele suspirou e, de má vontade, fechou o jornal. — O inspetor, o Sr. puxa-

saco Frankie Fields e os outros puxa-sacos saíram ao alvorecer quando tudo estava

acabado. Não somos seus guardiões! Eles devem ter saído para beber! Não há nada mais

que eu possa lhes dizer.

Os visitantes ficaram surpresos com a rudeza. Arthur não acabara de frustrar um

grande roubo? Eles não se moveram.

— Queremos falar com seu superior. Não sairemos daqui. Esta é a esposa do inspetor

Rivers.

O policial lançou um olhar vago na direção da mulher e, pela primeira vez, olhou para

Alfie com expressão surpresa.

— Ora, ora, ora. Achei que a esposa dele era quem lhe enviava todas aquelas cartas —

disse. — De Londres. — E, malicioso, indicou uma pilha de papéis. — Talvez o Sr.

Bonzinho Rivers tenha duas esposas. Esta tarde decidimos arrombar sua gaveta para

descobrir alguma pista de onde poderia estar. Só encontramos essas cartas.

Foi Rillie quem tentou juntar as páginas rapidamente, mas todos viram as palavras nas

folhas de papel:

 

Venha para casa... O senhor não tem vergonha? ... Elizabeth, em homenagem a sua amada esposa...

 

Estamos bem, papai. Não se preocupe...

 

Como o senhor pôde fazer isso? ... Netos...

 

Estamos bem, papai, quando puder, pai, sinto sua falta, pai.

 

... imensa epidemia ... mulher pomposa... recebemos suas contribuições financeiras.

 

— Ele era muito discreto em relação a elas! — contou o policial em tom alegre.

E, apenas naquele momento, o policial mal-educado olhou para a esposa à sua frente

de maneira adequada. Ela segurava uma das páginas na mão, mas não a lia. Um longo xale

caíra de sua cabeça e envolvia seus ombros. Então, aquele policial se levantou. Viu aquela

mulher (contaria ele posteriormente) e havia algo nela, algo nos cabelos curtos e espetados

com a mecha branca na frente. Havia algo de estranho. Seus olhos pareciam brilhar, contaria

ele depois.

Por fim, Alfie bateu na mesa.

— Qual é o seu problema, camarada? Como pôde arrombar a gaveta e olhar

documentos particulares de alguém? E por que está sendo tão rude quando percebe que

essas damas estão preocupadas?

— O inspetor Rivers não é um herói aqui, senhor. Isso é tudo. — Mas ele estava

desconcertado pelo rosto pálido e os olhos brilhantes.

Naquele momento um policial sem fôlego entrou correndo. Mal podia respirar e fazer

o comunicado. Acabara de chegar uma mensagem: quatro policiais haviam sido levados

para Cherry Street algumas horas antes.

— O quê? — perguntou o policial que os atendera antes que o mensageiro tivesse

chance de terminar.

— Quem? — quis saber Cordelia.

— Por favor, fique fora disto, madame — pediu o policial, assumindo, de repente, um

tom oficial. — Isto não tem nada a ver com a senhora.

— Oh, tem sim! Sou a esposa do inspetor Rivers e parece que ele está desparecido.

— Quem? — perguntou Gwenlliam.

Cordelia viu a expressão no rosto de Gwenlliam.

— O inspetor Rivers é meu marido — disse ela para o mensageiro ainda sem ar. —

Frankie Fields é nosso amigo. Eles não apareceram o dia todo. Estão em Cherry Street?

— Sim! — O mensageiro estava com a respiração pesada. — Meu Deus, como está

calor! Sim, foi o que ouvimos. Sim. Sim. Ambos estão em Cherry Street. Sabíamos que

haveria retaliação depois que o plano para o roubo do ouro foi frustrado. Esperamos o

dia inteiro por algo. Mas já havia acontecido! — Ele lançou um olhar para as mulheres. —

Só que tem mais uma coisa. Estão dizendo que Jem foi assassinado. Jem Clover!

— Jem? Jem foi assassinado? Como você sabe?

— De alguma forma a notícia chegou até nós. Parece que os irlandeses de Bowery os

pegaram hoje de manhã bem cedo, acho que assim que souberam que o roubo do ouro

dera errado. Houve uma briga violenta no parque da cidade e o inspetor Rivers, Frankie,

Jem e Thomas foram levados pelos Garotos do Alvorecer. Vocês deveriam vê-los — disse

ele para os visitantes. — Rapazes mal-encarados com brincos nas orelhas.

Cordelia sentiu o chão vibrar sob seus pés quando o policial que estava sentado à

mesa entrou em ação: ela já estivera em Cherry Street. Eu conheço os rapazes mal-encarados

com brincos nas orelhas. O policial assoprou um apito e gritou algo, enviando o

mensageiro ao capitão com uma mensagem para os conselheiros municipais. Um policial

havia sido morto: aquilo mudava completamente as coisas. Outros policiais apareceram

depois de ouvirem o apito, meio sonolentos enquanto vestiam seus casacos e corriam.

Rillie, Gwenlliam, Cordelia e Alfie foram empurrados para um canto próximo ao banco

de madeira, ninguém lhes deu muita atenção no meio do barulho e da confusão. Rillie

guardou as cartas de Arthur no bolso interno da sua capa.

— Cherry Street — gritou alguém. — Jem Clover foi assassinado. Eles estão com

inspetor Rivers, Frankie e Thomas. É tudo que sabemos. Alguém tem mais alguma informação?

— Os irlandeses de Bowery perderam o juízo — murmurou um dos policiais para um

colega, enquanto se sentavam no banco para calçarem as botas. — Sabem que não

mexemos com eles desde que não mexam conosco. Eles perderam o juízo. Agora, temos

de fazer alguma coisa! E aquela maldita Cherry Street é um inferno à noite. Vamos

esperar. Devemos esperar até que o exército chegue.

E Cordelia que ouvira tudo, de repente, aproximou-se do policial enquanto eles

estavam ali, sentados, com apenas uma bota.

— Como os senhores se atrevem a dizer para “esperarem”, seus covardes! Não se

atrevam a esperar! É o meu marido, inspetor Rivers, que está desaparecido e se os

senhores não o encontrarem eu farei com que toda a força policial de Nova York e seus

bravos homens se envergonhem!

— Sinto muito, madame — desculpou-se um dos policiais, desconcertado, enquanto

se levantava em um salto.

Mas o outro respondeu assim que calçou o outro pé da bota sem erguer o olhar para

Cordelia.

— Se a senhora não se importar que eu diga, senhora, seu marido enfia o nariz onde

não é chamado. E isso é perigoso.

— O senhor verá o que é perigo se não encontrar meu marido! — exclamou Cordelia,

chocando o segundo policial e fazendo com que se levantasse na hora e toda a correria,

todos os chamados dos outros policiais diminuíram por um momento, distraídos pela

onda de raiva que emanava da mulher que procurava o inspetor Rivers, a mulher com o

cabelo curto e estranho e os olhos brilhantes. E Rillie pensou: meu Deus, aí está ela, a

Cordie vigorosa dos velhos tempos! Eu não a via há anos!

Naquele momento, apareceu o capitão Jackson, o responsável pelos policiais. Ele

informou que o sétimo regimento do exército já estava a caminho e qualquer

desobediência foi esquecida. O contingente policial e o sétimo regimento do exército se

encontraram a caminho das docas e marcharam juntos. Havia algumas leis não escritas no

caos e na corrupção que reinavam em Nova York e uma delas era: não matarás policiais.

Cordelia, Alfie, Gwenlliam e Rillie seguiram os homens na escuridão, aproximando-se

cada vez mais da frente.

— Vá para casa Gwennie — pediu Cordelia, de repente, pensando em tudo que havia

acontecido naquele dia. — Você deve voltar para casa. Isso será muito perigoso. —

Cordelia sabia para onde estavam indo. — Não faça isso, Gwennie. Você não entende

como será. Não pode passar por mais isso depois de tudo que aconteceu com você!

Mas Gwenlliam apenas meneou a cabeça na escuridão.

— Eu posso — respondeu ela com firmeza. — Não sou mais criança. Quero encontrar

Arthur e Frankie Fields.

As ruas próximas à região de Cherry Street estavam enganadoramente calmas naquela

noite. E ninguém estava mais calmo agora do que Cordelia Preston, que já estivera ali

antes. Tão silenciosa quanto explosivos antes de serem detonados: Cordelia Preston. Os soldados se moviam em grupos, com lampiões e revólveres em punho, seguindo pela

estranhamente silenciosa Water Street: mesmo nos bares que vendiam bebidas

ilegalmente, a música estava baixa, como se não quisessem chamar a atenção; alguns

soldados arrombaram a porta de uma taverna vazia na esquina onde o vidro cheio de

orelhas humanas ficava atrás do balcão. Saíram e seguiram para Cherry Street, que

também estava estranhamente vazia. Quando chegou ao beco lamacento e estreito,

Cordelia lembrou-se muito bem. Estava bastante próxima dos soldados da frente e algo a

fez olhar para cima. Na noite quente e úmida, havia pessoas no telhado daquele famoso

lugar tentando pegar uma brisa refrescante. Luzes estranhas brilhavam. Eles observavam o

exército e a polícia se aproximarem em um silêncio bizarro e cansado, assim, o único

som que se ouvia era o dos passos nos becos; alguns dos policiais que já tinham ido até

lá olharam para cima, apreensivos. Por fim, o contingente chegou ao portal de entrada: a

placa quebrada anunciava PARADISE BUILDINGS.

— É provável que estejam nos porões, se é que estão aqui — gritou Washington

Jackson para todos os homens que quisessem ouvir. — Mas vamos entrar e ver quem está

no comando desta pequena reunião primeiro, porque não tenho a menor dúvida de que

sabiam que estávamos a caminho e que estão esperando por nós.

Assim, um grupo de policiais e soldados armados entrou em Paradise Buildings.

Aquele cheiro. Ele subia pelo prédio principal vindo das passagens subterrâneas

abaixo: o cheiro fétido, nojento e terrível de fluidos humanos e lixo. Um dos policiais se

virou, com ânsia de vômito, enquanto os lampiões iluminavam todos os cantos.

Irlandeses, negros, italianos, americanos, mexicanos, um chinês com rabo de cavalo,

muitas mulheres e crianças: pessoas dentro e fora de todos os cômodos. Um aglomerado

de corredores aparentemente desconectados, lotados, estreitos que levavam para onde?

Para o andar de cima, pela escada quebrada? Para as passagens subterrâneas que talvez os

levassem até as docas? Quem poderia saber ao certo, a não ser as pessoas que moravam

ali ou alguns deles: nenhum homem são, incluindo policiais e soldados, entraria de boa

vontade naquele lugar, especialmente em uma noite tão escura, quente e carregada quanto

aquela. Aquilo não era uma festa: aquilo (ou como pessoas como o Sr. Charles Dickens

descreveram em livros lidos por todo o mundo) eram animais e não pessoas; ali era o

inferno apenas a algumas ruas de distância da Broadway, com suas lojas, casas chiques,

seus lampiões a gás e plátanos.

Policiais e soldados, suando de forma profusa, avançaram pelos corredores estreitos,

iluminando o caminho e as portas estreitas com seus lampiões, seguindo por todos os

cômodos. Se chutassem uma porta, ela não apenas se abria, como também despencava. Se

um soldado apontasse uma arma não era apenas como aviso, mas sim para matar: já

haviam disparado vários tiros, já havia um corpo no chão imundo, o corpo de algum

idiota que atacara um soldado com uma faca. A multidão de habitantes se agrupava pelos

corredores estreitos e olhava para os estranhos de forma grosseira. Vários policiais

passavam empurrando e passando por cima do corpo, enquanto abriam caminho com

seus lampiões, gritando e acompanhados pelos soldados. Um grupo seguiu até o final do prédio, empurrando as pessoas que obstruíam as passagens; outro grupo subiu as

escadas, tirando os moradores do caminho: lá em cima, suas cabeças foram iluminadas

por raios do luar que entravam pela claraboia. Um nome ecoava pelas escadas, pelos

corredores fétidos e por todos os cantos cheios de lixo:

— ARTHUR RIVERS! ARTHUR RIVERS!

Cordelia e Gwenlliam também avançavam; em algum lugar, uma criança gritou; ratos

enormes saíam de baixo de pilhas de lixo, eram iluminados pelos lampiões e

desapareciam em seguida.

— ARTHUR RIVERS! — gritavam as vozes enquanto uma criança gritava.

Uma outra começou a gritar: mulheres as admoestavam:

— Fiquem quietas! Fiquem quietas!

— ARTHUR RIVERS! — chamavam as vozes.

Gwenlliam piscou os olhos, observando os corredores, passando o olhar pelas

pessoas de forma automática, como faziam sobre a multidão que enchia o circo: de

repente, viu um homem de pé de forma despreocupada, braços cruzados, perto da

escada: este homem está no comando. Mostrou para a mãe que estava ao seu lado, da

mesma forma que faziam quando trabalhavam juntas no circo, mas ela não precisava falar,

porque Cordelia já o vira: o homem no comando era o mesmo jovem que a reconhecera

quando viera encontrar Bridget O’Reilly. Charlie, fora como a mulher de suspensórios o

chamara. Estava de pé, relaxado, onde os corredores se encontravam, ao lado da escada

quebrada. E onde ela estava? A mulher? A mulher conhecida por arrancar a orelha das

pessoas com os dentes? A que perguntou se Cordelia havia se afogado? A que citava

Shakespeare?

Charlie estava de pé um pouco afastado dos demais moradores de Paradise Buildings

que se espalhavam por todos os cantos: ele observava tudo, com um ligeiro sorriso nos

lábios, os brincos de ouro captavam a luz e brilhavam; mascava tabaco e seus braços

estavam cruzados sobre o peito.

— Onde eles estão, Charlie? — perguntou o capitão Washington Jackson também de

braços cruzados. — Você não conseguirá se safar desta. Sabemos que os trouxe para cá.

As armas apontavam para Charlie que continuava a mascar o tabaco, enquanto sorria.

— Não sei do que está falando, camarada.

Cordelia se lembrava da voz jovem e do rosto cruel.

— Que inferno, é Charlie Pack! — sussurrou Alfie quase que para si mesmo e, então

disse para os outros: — Este é um dos líderes dos Garotos do Alvorecer. Trata-se de um

vagabundo maldoso e violento. Não se deixem enganar. Sempre achei que ele era meio

ruim da cabeça. É jovem, mas perigoso.

Os grupos de soldados com lampiões saíram dos cantos escuros e das escadas.

— Nada — murmurou um oficial para Washington Jackson. — Vamos descer para os

banheiros. Que Deus nos proteja.

E eles se afastaram novamente na escuridão da noite, desparecendo nas escadas.

— ARTHUR RIVERS!

E as vozes foram ficando mais fracas:

— ARTHUR RIVERS!

Cordelia teve de lutar contra o pânico que crescia dentro do seu peito. Ele não pode

estar morto! Não pode ter morrido! Olhou para a escada quebrada bem próxima a ela, com

a grande viga sustentando-a, amarrada ao corrimão. Um raio de luar entrava pela claraboia

do telhado, quebrando a escuridão. Havia figuras obscuras na escada: será que ele estaria

em algum lugar lá em cima? Se ela pudesse subir um pouco as escadas, talvez pudesse

olhar para baixo e ver mais luzes dos lampiões da polícia. Seguiu para as escadas escuras

enquanto Charlie encarava os soldados e os policiais, mesmo que as armas apontassem

diretamente para ele.

— Não sei do que estão falando, camaradas — repetiu Charlie.

— ARTHUR RIVERS! — ouviu de algum lugar bem abaixo. Os gritos estavam cada vez

mais distantes. Agora, mais pareciam um lamento distante e seu coração se apertou de

medo. — ARTHUR RIVERS!

Chegou ao primeiro degrau da escada: lembre-se de que ela está meio desmoronada.

Rapidamente, subiu com dificuldade. Só tenho 51 anos e sei como me equilibrar. Testava os

degraus quebrados antes de transferir o peso: uma vez, pisou em um buraco e se

assustou. Segurou-se no corrimão. Ouvia a respiração de pessoas nos degraus, havia

pessoas bem próximas. O raio de luar iluminava o corrimão e um dos degraus quebrados

como se a guiasse mais para cima. A viga estava amarrada no corrimão iluminado pela

lua, a viga que mal sustentava a escada. Seus olhos se acostumavam à escuridão e à luz.

Subiu mais. Sabia que havia pessoas ali, mas continuava subindo. Quando se virou para

olhar para baixo, vislumbrou uma figura pairando em um lugar mais alto e pensou ter

visto a luz da lua iluminado os suspensórios que seguravam a saia: Oh, meu Deus! É ela!

Mas quando olhou de novo a figura havia desaparecido. Cordelia se perguntou se estava

tendo alucinações: olhou para cima de novo, mas não viu ninguém. Virou-se, segurando

o corrimão para se equilibrar. Seu coração batia descompensado no peito, esperando que

uma faca ou uma bala de revólver rasgassem suas costas enquanto se equilibrava na escada

quebrada. Ouvia o som da própria respiração aterrorizada.

A cena que se desdobrava abaixo parecia ter saído de alguma pintura macabra do

mundo dos mortos. O calor se elevava no ar como gases venenosos. Na penumbra dos

lampiões em movimento e da luz da lua acima, conseguia ver pessoas reunidas nas portas

dos quartos: não esboçavam reação nem quando os soldados chutavam as portas, como

se não tivessem energia e não ligassem para o que poderia acontecer. Os soldados estavam

tensos enquanto apontavam suas armas. Os policiais gritavam perguntas às quais ninguém

respondia. Conseguia ver Charlie claramente. Também via Gwenlliam olhando em volta

de si. Ergueu o braço quando a filha olhou em sua direção: o brilho da sua capa clara

atraiu o olhar de Gwenlliam e, por um momento, Gwenlliam apenas olhou para a mãe.

Alguns dos soldados voltaram.

— Eles não estão lá embaixo — disseram.

 

— Como eu disse — declarou Charlie com a voz jovem de que se lembrava. — Será

— Como eu disse — declarou Charlie com a voz jovem de que se lembrava. — Será

que podem nos deixar em paz agora?

— Não — respondeu Washington Jackson. — Não deixaremos vocês em paz, Charlie

Pack, todos nós vamos para as galerias subterrâneas de novo. Você faz seus negócios

sujos nas galerias, não é, Charlie Pack? E não são apenas suas necessidades pessoais, não

é mesmo Charlie Pack?

Então, do ponto de vista vantajoso em que se encontrava — enquanto o lampião dos

policiais iluminava Charlie e ele não se mexia...

M a s é c la r o!

Ela sabia: depressa. De repente, soube que teria de ficar de pé ou se equilibrar para que

a luz da lua iluminasse sua capa. Se conseguisse ficar em pé no corrimão se segurando na

viga, captaria bem a luz. Sou uma acrobata, pelo amor de Deus! E Silas me ensinou tudo sobre

iluminação. Charlie me reconheceu do circo e aquilo o deixara inquieto. Gwenlliam

observava a mãe com atenção: Cordelia indicou Charlie. Gwenlliam viu a mãe enrolar

rapidamente o xale em volta da cabeça e, então, assistiu, perplexa, a mãe se erguer e se

equilibrar precariamente no corrimão e Gwenlliam entendeu. A mãe, sob a luz parcial do

luar, parecia um fantasma.

Gwenlliam deu um passo à frente se afastando dos soldados, em direção do jovem

com brincos e bateu de leve no ombro dele. O ligeiro sorriso desapareceu. Pego de

surpresa, cuspiu o tabaco não em cima dela, mas no chão de madeira quebrada. Sua mão

pousou na faca presa no cinto. Um soldado, incerto, preparou o rifle. Todo mundo

ouviu o som. Gwenlliam simplesmente apontou para cima e voltou para o lado dos

soldados.

— Charlie! — chamou a voz que parecia vir do céu noturno. Desconfiado, ele franziu

as sobrancelhas, segurou a faca e se voltou para o lugar para onde a garota apontara. E viu

o fantasma na escadaria. Não nos degraus, mas pairando sobre eles, iluminado pela lua.

Ficou congelado, apenas observando. Ninguém se moveu: nem os soldados, nem os

policiais. Todos viram a figura acima deles, iluminada pelo luar.

— O que é isto? — sussurrou o jovem com o brinco de ouro. E Cordelia respondeu:

— Olhe para mim, Charlie. — A voz era estranha, baixa e envolvente. O homem não

conseguiu evitar. Olhou para cima, congelado. Como muitos dos homens violentos, mal-

educados e enlouquecidos que moravam em Cherry Street, Charlie Pack era supersticioso:

acreditava em bruxas e em mau-olhado. Conseguia sentir Cordelia: podia senti-la

segurando seu olhar: ele a conhecia, já a tinha visto antes.

— Espere por mim, Charlie.

Aguardou até ter certeza de que tinha a atenção dele, então se afastou da luz da lua.

Não tinha tempo para o medo. Fui treinada para isto! E saltou para a escuridão das

escadas, agarrando o corrimão para se equilibrar. As luzes bruxulearam enquanto os

policiais apontavam seus lampiões para cima. Washington Jackson indicou que seus

homens deveriam ficar quietos, erguendo a mão em aviso. Seus instintos lhe avisaram que algo estava prestes a acontecer. Quase imediatamente, viram a figura de novo sob a luz dos

lampiões, enquanto descia devagar pela escada perigosa.

— Charlie — chamou a voz estranha. A figura com a capa clara e os xales entrava e saía

dos focos de luz, enquanto se aproximava do homem de brinco de ouro. Ele não se

mexeu: a faca brilhava em sua mão. — Charlie — repetiu o fantasma.

— Eu conheço você — afirmou ele, rouco. — Conheço você. — Mas ele não se mexeu.

Não conseguia afastar os olhos dela.

Cordelia aproximou-se de Charlie. Tinha a mesma altura que ele e parou bem à sua

frente com os olhos brilhantes. Sem afastar o olhar, passou as mãos sobre ele, sem tocá-

lo. Ele se mexeu, como que para se defender de um golpe, mas não afastou os olhos dela.

As mãos dela não o tocaram, apenas se moviam sobre e em torno dele, repetidas vezes,

em movimentos profundos e longos. Ele olhava para a senhora-fantasma e ela parecia

brilhar sob a luz dos lampiões. Encarando-a, impressionado, pareceu perder o equilíbrio

e caiu de joelhos, ainda segurando a faca, a centímetros do seio dela. Ainda assim, todos

sem exceção — os soldados, os policiais e a multidão que vivia em Paradise Buildings —

se mantiveram parados, como se estivessem petrificados. A mulher se inclinou sobre o

rapaz de joelhos com a faca não mão. Passava calmamente as mãos por sobre ele, bem

acima da cabeça e abrangendo os ombros também: repetidas vezes em movimentos longos

e contínuos. Respirando. O único som que se ouvia era o da respiração das pessoas: dela

mesma, dos soldados e a respiração insalubre dos moradores que raramente viam a luz

do dia. E a respiração do homem que segurava a faca. Ainda assim, Cordelia movia as

mãos e parecia murmurar algo enquanto se inclinava sobre ele. As pessoas próximas

conseguiam ouvir sua voz, mas não conseguiam identificar as palavras.

Os olhos dele se fecharam. Ainda estava de joelhos.

Cordelia manteve os movimentos repetidos sobre a cabeça do rapaz por mais um

tempo. Os policiais, os soldados e os moradores de Paradise Buildings, que eram

chamados de animais, nunca esqueceram o que viram naquela noite. Sua capa era clara em

meio à escuridão, e a luz dos lampiões dos policiais ora a iluminavam e ora não. Ela

parecia, disseram depois, um fantasma. A faca caiu no chão duro de madeira e Charlie

tombou para a frente.

Imediatamente, os soldados cercaram o homem.

— Meu Deus, madame! — exclamou um deles, enquanto o suor escorria pelo seu

rosto.

— Tirem ele daqui — ordenou ela.

Eles pareceram não entender.

— Existe algum tipo de porta sob os pés dele que leva para baixo, talvez para os

porões, talvez para outro lugar — disse ela. — Uma vez eu o vi subindo por ali, coberto

de água. Meu marido deve estar lá embaixo.

Ele tem de estar. Quero acreditar que esteja.

Ouviram o arfar de uma mulher no meio de um dos grupos de pessoas e o capitão

Washington Jackson compreendeu: a mulher fantasma era inglesa e era a esposa de Arthur Rivers. Ele nunca mencionara uma esposa. Charlie foi arrastado, começando a acordar.

Na penumbra, talvez não tivessem notado caso não soubessem o que estavam

procurando, então um lampião se aproximou do piso de madeira e eles viram uma porta.

— Não, senhora — pediu uma voz urgente. Então, ouviu-se um sussurro alto em um

grupo de pessoas que morava ali. E a dona da voz se afastou das mãos que tentavam

segurá-la e se dirigiu a Cordelia. — Se eu fosse a senhora, num descia lá embaixo não, se

for o seu marido.

Era Bridget O’Reilly.

— O que há lá embaixo? — perguntou Cordelia, com o coração disparado como mil

tambores, enquanto se aproximava de Bridget e agarrava seus ombros. — O que há lá

embaixo? O que vou ver lá?

— Sinto muito.

— O que eu vou encontrar?

Bridget O’Reilly olhou para a mulher que a levara até seu filho e lhe dera uma pepita

de ouro.

— Sinto muito, senhora — repetiu. — O canal leva até o cano de esgoto e, de lá, para o

rio. É onde jogam os corpos.

Foi Gwenlliam, e não Cordelia, quem gritou.

E o grito pareceu, por fim, quebrar o encanto que pairava sobre todos em Paradise

Buildings naquele momento estranho. Os soldados e os policiais se moveram. Charlie

despertou do transe do mesmerismo e pareceu confuso por um momento e depois gritou

como um animal selvagem ao perceber que estava cercado por soldados e policiais e que

havia sido arrastado do seu posto. Agora, eles arrancaram as tábuas que formavam a

porta oculta sobre a qual ele estivera.

Um menino pequeno e corajoso, vendo que o homem de brinco estava dominado,

chamou por Cordelia:

— Ei, Senhora-Fantasma! Posso mostrar o caminho se a senhora me der um dólar!

Foi Rillie quem rapidamente encontrou um dólar no bolso de sua capa e mostrou

para o garoto. Seus olhos brilharam no rosto selvagem, ele ergueu a mão para pegar o

dinheiro, mas Rillie ergueu a mão.

— O caminho primeiro — pediu ela em tom gentil, mas seu rosto estava tenso.

O menino desapareceu pela porta e mergulhou na escuridão abafada. Os soldados, os

policiais, incluindo o capitão, seguiram com os lampiões. Cordelia, de algum modo os

seguiu. Alfie e Rillie não permitiram que Gwenlliam os acompanhasse. Todos

desapareceram em uma construção caseira que parecia prestes a desabar sobre eles a

qualquer momento. A água pútrida corria no fundo. Dentro de Paradise Buildings, os

soldados encaravam a multidão com armas em punho, mas mesmo naquele momento, as

pessoas se mantinham apáticas e sem energia, enquanto observavam o homem com

brinco de ouro cercado pela polícia.

E eles desciam cada vez mais para um local quente como um forno aceso; sem ar,

alguns lampiões se apagaram. Continuaram descendo pela lama e pela sujeira daquela galeria. O cheiro era sufocante e quase insuportável. Os policiais iluminavam o caminho.

Havia uma rachadura na parede de concreto e luzes brilhando. Cordelia rapidamente

olhou e percebeu que estavam em uma galeria separada. Estavam atrás das galerias com a

fileira de banheiros nas quais se podia chegar pelo beco. Caminhavam atrás do garoto,

envolvidos pelo fedor e pela sujeira. Alguém, ao compreender o que era a sujeira,

vomitou. Não foi Cordelia. Um dos soldados desmaiou e caiu sobre a lama, um dos

colegas o ergueu. Mas não foi Cordelia quem desmaiou. O garoto os guiava. Podiam ouvir

algo: água. Conseguiam ouvir claramente o som da água correndo em algum lugar próximo.

Será que estavam perto de algum cano? Ou será que era a água do rio East que ouviam?

Em um canto mais afastado da galeria, havia outra porta oculta, levando ainda mais para

baixo. Era muito pesada para o garoto: quatro soldados a levantaram e iluminaram o

caminho abaixo.

No túnel estreito, pútrido e fétido, havia corpos. Primeiro os oficiais de polícia

reconheceram o corpo de Jem Clover. Ele foi levado para fora. Uma das orelhas havia

sido arrancada. Então, encontraram outro corpo: seguiram adiante: Thomas Duggan,

murmuraram os policiais. Ele também foi levado para fora. Uma das orelhas havia

desaparecido.

— Ela esteve aqui — informou Washington Jackson. — Gallus Mag. — O garoto olhou

para eles. Cordelia continuou o caminho. O som de água correndo estava ficando mais

alto. Os lampiões iluminavam o caminho estreito e escuro. Naquele momento havia

apenas o vazio. Cordelia abriu caminho até a abertura do túnel, passando pelo capitão e

por alguns soldados; ajoelhou na lama e olhou para baixo, dentro do túnel. Só conseguia

ver a escuridão.

— Arthur! — chamou ela em tom angustiado, por cima do som da água, inclinando o

corpo para dentro do túnel. — Arthur! Você pode me ouvir? — Apenas sua voz

desesperada ecoou de volta.

— Não siga adiante — pediu um policial. — A senhora poderia ser arrastada para

baixo. Suas roupas irão levá-la para o fundo. — Ele ergueu o lampião e tentou ver alguma

coisa no breu.

— Arthur! — gritou ela de novo, e uma vez mais, em total desespero: — Arthur!

Achou ter visto algo se movendo na escuridão; o policial com o lampião também viu e

se aproximou.

— ARTHUR!

Não era Arthur, mas sim Frankie Fields que, de alguma forma, rolou de uma curva no

túnel em direção a eles.

— É Frankie!

Naquele momento, os policiais e os soldados a empurraram de forma rude e se

aproximaram da entrada do túnel, um deles encontrou uma tábua grossa de madeira e a

empurrou pelo túnel e testou para ver se ela aguentaria: Frankie conseguiu subir mais um

pouco. Segurou a placa e, bem devagar, com bastante cuidado, os soldados o puxaram.

Frankie estava completamente coberto de lodo e lama, mas lá embaixo, onde tentaram iluminar com os lampiões, acharam que viram olhos. Ele já estava próximo a eles, mas

ainda dentro túnel. Vomitou lama e estava exausto, sem conseguir se mover mais.

— Onde está Arthur? — perguntou Cordelia em direção a Frankie e ele não conseguiu

responder porque mal conseguia respirar.

Ouviam o som do rio.

Cordelia sentiu um lampejo na cabeça, como um golpe. A princípio achou que

alguém a golpeara, então, o lampejo voltou: meu passado bloqueou o meu amor.

Quando conseguiu falar, Frankie estava com a voz abafada pela lama e pela água.

— Ele está lá — disse Frankie, engasgado, além da curva. Vou voltar e ele talvez consiga

agarrar os meus pés.

— Nada disso, camarada! — gritou um soldado. — Você não conseguirá subir. Nunca

conseguiremos tirar dois de uma vez. Você sobe primeiro.

Novamente, tiveram de esperar para que Frankie conseguisse falar.

— Mas eles o amarraram — informou, com a voz sufocada em direção à luz sobre ele.

— Eu não sei. — Ele vomitou de novo. — Não sei se ainda está vivo. — Ouviram-no

engasgar e se esforçar para respirar. — Ele soltou uma das mãos e manteve a minha cabeça

fora da água, mesmo estando amarrado. Eles nos jogaram. Jogaram nós dois aqui um

pouco antes de a mulher chegar. Nós a ouvimos, e ela pegou os outros. — Os soldados

acharam que ele estava delirando. Uma mulher? Mas o capitão entendeu: Gallus Mag.

Cordelia também compreendeu: a mulher que sabia citar Shakespeare. Frankie vomitou

mais lama, cuspiu, mas ainda tentou falar: — Chamem por Arthur. — Talvez ele tenha

ouvido Cordelia, talvez não. — Digam... Digam que ele precisa segurar o meu pé com a

mão livre. Ele tem de fazer isso.

Cordelia se ajoelhou e olhou para a escuridão em direção ao som da água corrente e

gritou, sua voz ultrapassou o corpo de Frankie e ecoou lá embaixo.

— Arthur! Arthur! — Ouviu apenas a própria voz ecoando de volta, além do som de

água. — Arthur! Agarre os pés de Frankie! Ele descerá na sua direção! Você deve segurar os

pés dele!

E bem devagar, Frankie Fields escorregou de volta. Daquela vez, porém, quatro

soldados seguravam a placa de madeira na outra extremidade, descendo-a devagar,

enquanto ele segurava firme na outra ponta. O garoto que lhes mostrara o caminho pelo

túnel, observava a tudo, parado, como que enfeitiçado.

— Essa placa de madeira é usada para empurrar os mortos para baixo — contou ele a

um dos soldados, indicando a tábua. — E não para puxá-los para fora!

Os quatro soldados estavam deitados na sujeira, inclinando-se para dentro do túnel e,

juntos, seguravam a extremidade; quando sentiam a tábua se mexer, seguravam firme,

tentando seguir o movimento para que não se quebrasse. Ela se movia e era puxada e,

ainda assim, eles a mantinham segura. Nada. Um policial tentou iluminar a escuridão do

túnel, mas tudo que conseguiam ver era a tábua coberta de lama estendida nas trevas.

Então, Cordelia e os quatro soldados ouviram um som fraco e extraordinário sobre o

som da água. Ouviram alguém assoviar.

— É Arthur — sussurrou Cordelia. Então ouviram o som mais alto. — O assovio!

Tenho certeza de que é Arthur! Podem puxar agora!

Os soldados puxaram e puxaram. Uma pequena parte da tábua apareceu na entrada do

túnel. Outros soldados se juntaram a eles naquele momento, empurrando Cordelia para

fora do caminho. Eram cinco ou seis soldados puxando, com cuidado, a tábua para cima.

Eles erguiam a tábua, xingavam e puxavam de novo.

— Devagar! Senão vai quebrar!

Então, a parte de cima de Frankie reapareceu e eles viram o lodo, a lama e o branco

dos olhos dele. Os braços erguidos e firmes: era como se Frankie tivesse encontrado uma

força sobrenatural dentro de si para se erguer com a tábua, contra as laterais do túnel

enlameado. E, ali, por fim, segurando firme nos tornozelos de Frankie com o braço livre

e nadando, de alguma forma com o resto do corpo, metade dentro e metade fora da água

imunda e fétida, conseguiram ver uma forma: um corpo amarrado. Os soldados

começaram a puxar mais rápido. Devagar... Com cuidado... Com calma... Atenção. Atenção.

Primeiro Frankie Fields e, depois, o inspetor Rivers foram colocados no chão

lamacento. As cordas que prendiam o inspetor foram desamarradas. Enquanto Arthur

Rivers estava deitado na imundície, viram-no se mover bem devagar. Então, sob a camada

de lama e esgoto, eles acharam que viram dois olhos olhando para cima para a figura com

a capa coberta de lama que se inclinou sobre ele:

— Basta assoviar e irei até você, meu rapaz — sussurrou Cordelia.

 

Carregaram os dois sobreviventes pela galeria e subiram pelo túnel rudimentar, passaram

pelo alçapão e entraram em Paradise Buildings. Colocaram-nos no chão, ao lado dos dois

colegas mortos, preparando-se para carregá-los para fora dali. Todos viram os homens

mortos e os semimortos e a lama preta e imunda. Gwenlliam se ajoelhou rapidamente

entre Arthur e Frankie. Chorava com as mãos pousadas em cada um deles. O garoto abriu

caminho, arrogante, pedindo a Rillie o seu dólar.

O homem com o brinco já estava algemado, depois de ter sido humilhado pela

mulher-fantasma na frente de todos, traído pelo próprio sobrinho, fez um esforço quase

sobre-humano, como Frankie Fields e Arthur Rivers haviam feito não muito antes.

Quando o garoto passou, procurando por Rillie e seu dinheiro, o homem conseguiu se

soltar da polícia, pular para a frente, agarrar o menino entre as algemas e jogá-lo contra

uma das paredes de Paradise Buildings com um grito de raiva.

— Seu viado! — gritou ele.

O garoto bateu na parede e todos ouviram quando caiu. Os soldados amarraram

apertado o homem que se debatia e gritava obscenidades. O garoto não chorou.

Aproximou-se de Rillie, pegou o dólar, enquanto o sangue escorria pelo seu rosto.

Quando lhe entregou o dinheiro, Rillie tentou confortar o menino por um momento.

— Vou ajudar você — disse ela em tom gentil.

Ele agarrou o dinheiro, socou o seu braço e saiu correndo, gritando.

— Vai se foder, sua cara de boceta velha. Vai se foder, sua velha bunduda... — As

palavras ecoavam na escuridão abafada e imunda ao longo do beco que levara a Cherry

Street, onde George Washington dançara.

Para ser substituído por outra voz, ecoando da escuridão bem abaixo deles, vinda no

alçapão ainda aberto.

— Cordelia!

Cordelia congelou: reconheceu a voz profunda e rouca na hora. Assim como

Washington Jackson. Rapidamente, ele se aproximou do alçapão, puxou a arma e atirou.

Uma bala saiu imediatamente da escuridão, atingindo o ombro do capitão. Ele se afastou,

segurando, em choque, o braço ferido e ensanguentado com a mão.

— Cordelia! — chamou a voz novamente. E foi Alfie quem rapidamente a afastou do

alçapão e a puxou para as sombras. Mas não foi uma bala de revólver que saiu de lá, mas

sim uma voz vinda da escuridão insalubre.

 

Ouve-me, biltre! Toma tua paga.

Cinco dias te damos, para possas contra os

males do mundo premunir-te; ao sexto

voltarás o dorso odioso a todo o nosso reino;

e se no décimo esse corpo banido for

achado dentro de nossas terras,

esse instante será tua morte.*

 

As palavras ecoavam, mas estavam desaparecendo nos recessos da galeria escura e imunda

que levava a alçapões, passagens, canos e, por fim, ao rio.

 

Bem próximo dali, na Broadway, as casas bonitas estavam acesas e brilhavam depois da

ópera italiana em Astor Place, com música sublime e emocionante.

Nota

 

 

* Shakespeare, Rei Lear. Ato I, Cena I. (N.T.)