O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 23 de 52

Páginas do PDF

O Circo dos Fantasmas

Capítulo 22

 

 

A família ficou ali em Battery Park numa linda manhã no início de julho, todos eles,

incluindo a Sra. Spoons e, por vontade própria, La Grande Celine, que comprara para

Monsieur Roland um paletó novo para a ocasião (em um tom de roxo, pois ouvira dizer

que o dr. Franz Mesmer costumava vestir a cor), o qual, por bondade, ele usava naquele

momento. Cordelia usava o elegante chapéu cinza e a dor em seus olhos escondida de

quase todos pelo véu. Já era verão: Silas P. Swift parecia transtornado, sabendo que

deviam chegar às minas de ouro a tempo de ganhar dinheiro, antes da temporada de

chuvas.

Todos choraram. Gwenlliam chorara ao encher os baús com suas roupas, xales e as

sapatilhas cor-de-rosa para caminhar na corda bamba e as botas, velas e seu REMÉDIO

INDÍGENA DO DOUTOR WRIGHT e muitas barras de sabão, mas nada podia esconder

sua animação para começar a tremenda aventura, mesmo enquanto lágrimas lhe escorriam

pelo rosto. Ela implorara repetidas vezes pelo daguerreótipo que ficava pendurado na

parede; Cordelia a levara de novo ao estúdio e tirara um retrato da menina para substituir

o da família na parede.

— Olá novamente! — cumprimentou o Sr. L. Prince.

Cordelia observara tudo com atenção: vira como o Sr. Prince movia o espelho,

inclinava a luz para, em seguida, desaparecer por apenas dez minutos e voltar com um

retrato de Gwenlliam já emoldurado, conforme solicitado. Ele captara sua expressão — a

jovem sensata e espirituosa — com exatidão. Enquanto Gwenlliam guardava o retrato da

família no baú, Cordelia pendurava o de Gwenlliam na parede de Maiden Lane.

 

***

 

O veleiro Beauty, com destino a Chagres, no istmo do Panamá, fora carregado nas docas

do rio East. O bagageiro ficou lotado com exóticas malas. Embora os elefantes, o leão, o

camelo, as carroças pintadas com os dizeres O INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P.

SWIFT cheias de tábuas de madeira para servirem de bancos tenham partido para a

Califórnia havia mais de uma semana, junto com a Grande Tenda dobrada em um grande pacote — ainda assim, havia muito a ser transportado. Algumas das barras acrobáticas; as

caixas de figurinos de Peggy Walker; a enorme sacola contendo os sapatos grandes e

pretos dos palhaços, suas bolas saltitantes e os narizes de borracha; cavalos; cachorros:

tudo aquilo foi levado a bordo do Beauty e os novos macacos dentro de suas jaulas, os

quais berravam sem parar. Os cavalos, agrupados por assovios e gritos dos charros

mexicanos, pisoteavam, nervosos, as próprias fezes, enquanto eram levados dentro das

grandes jaulas, o branco de seus olhos aparecia enquanto jogavam a cabeça de um lado

para o outro e o cacique, sem o penacho, tentava acalmá-los com encantamentos e música.

Os cães latiam sem parar, enlouquecidos dentro de suas caixas, para não serem

confundidos com porcos que seriam servidos como alimento. Grandes barris de água

foram carregados também para consumo dos passageiros. Silas P. Swift estava fora de si,

gritando instruções enquanto as caixas com cachorros balançavam e batiam nas jaulas dos

cavalos e a água vazava dos grandes barris e se espalhava pelo convés. Por fim, soltaram as

amarras e o navio partiu do píer.

A cacofonia selvagem emanando do Beauty que desaparecia no horizonte deixou claro

para o homem de terno cinza, esbaforido e suado que acabara de chegar correndo ao rio

East que o circo estava a bordo daquele navio em particular. No entanto, entendeu pelos

gritos à sua volta que o Beauty com suas velas ainda a meio mastro estava dando a volta,

com a ajuda de uma balsa, para seguir até Battery no rio Hudson para o embarque dos

passageiros. Então, o Sr. Doveribbon continuou correndo e não conseguia encontrar um

carro de aluguel nas ruas lotadas, por isso, continuou correndo por Manhattan, chegando

a Battery para ver que os passageiros já haviam entrado a bordo do Beauty e acenavam as

últimas despedidas. Parou e dobrou o corpo, tentando recuperar o fôlego: estava tão

zangado, frustrado e afogueado pela corrida que vomitou no píer sobre as próprias botas:

sentiu um aperto no peito e achou que talvez estivesse sofrendo um ataque do coração.

O Beauty era uma embarcação sólida, com uma história também sólida, o que era

muito. A família ali reunida viu, com horror, alguns navios velhos e acabados que ainda

transportavam passageiros: as pessoas não ligavam como chegariam às minas de ouro

desde que chegassem logo. Havia brigas no cais e passagens sendo sacudidas para entrar a

bordo de embarcações de aparência arriscada. Então, Cordelia, Rillie, Regina, o inspetor

Rivers e Monsieur Roland — e, certamente a Sra. Spoons, se ainda tivesse suas faculdades

mentais — agradeceram a quaisquer deuses que pudessem estar ouvindo o fato de

Gwenlliam estar a bordo de um veleiro muito melhor. Tudo fora explicado diversas vezes:

o circo desembarcaria em Chagres e cruzaria o istmo do Panamá em canoas nativas e,

depois, a pé, em mulas ou em seus próprios cavalos. Silas P. Swift acreditava não apenas

que aquele era o modo mais rápido, mas também o melhor jeito de transportar os

animais. Arthur Rivers, tentando se animar, pois se apegara bastante à adorável enteada,

imaginou Silas P. Swift navegando calmamente pelo rio em uma canoa nativa, com

macacos berrando e cachorros enlouquecidos, com tudo sob controle. Ele se virou para

dividir os pensamentos com Cordelia, mas percebeu que ela apenas observava o navio

que partia.

Um pouco antes, La Grande Celine de repente avançou alguns passos e bateu no

Um pouco antes, La Grande Celine de repente avançou alguns passos e bateu no

ombro de Pierre l’Oiseau, Pierre, o Pássaro, que se despedia da imensa família: em um

primeiro momento, ele apenas a observou com surpresa e, depois, com prazer. Ele a

pegou no colo por um momento (e ela não era uma mulher pequena) e a jogou para cima

e a pegou de novo, antes de se juntar aos outros passageiros enquanto eles lotavam o

passadiço em resposta ao sino do navio. La Grande Celine corou. Todos subiram a

bordo com olhares para trás: o mestre de cerimônia, os palhaços, os membros da banda

carregando cornetas e tambores, os anões e os engolidores de fogo, Peggy e Gwenlliam e o

restante dos acrobatas, Silas P. Swift e suas listas. Sem mencionar todos os jovens

esperançosos seguindo para a Califórnia e que não sabiam estar viajando com um circo. O

barulho de cavalos aterrorizados, cães latindo e macacos berrando vinham do fundo do

navio e todos ouviram.

— Oh, coitadinhos! — exclamou Rillie, mas foi Regina quem respondeu a ela:

— Em geral, são seres humanos trancados lá embaixo, Rillie. Você sabe muito bem

disso.

E Rillie acenou com a cabeça, lembrando-se da primeira viagem e da sorte que tiveram

ao partirem de primeira classe da Inglaterra, graças ao Sr. Silas P. Swift.

Pierre, o Pássaro, acenou para a família e para Celine, que ainda parecia corada; um

dos anões vira Cordelia no cais e estava sendo erguido por um dos palhaços para acenar.

Cordelia ergueu a mão de forma automática, como se fosse uma figura de madeira sem

vida. E o Sr. Doveribbon, esbaforido e ofegante, tentava se aproximar dos passageiros que

partiam, apesar de ter vomitado nas próprias botas, mas parou ao se deparar com o rosto

pálido e extraordinariamente belo quase ao lado dele, embora não conseguisse ver os

olhos.

As velas do Beauty se abriram totalmente e foram erguidas enquanto o navio era

puxado por uma balsa e deixava Battery, sendo levado pelo vento. Arthur viu a expressão

no rosto de Cordelia, o pequeno véu no elegante chapéu não escondia nada dele. Pegou o

braço dela e o colocou sobre o dele. Sentiu sua pele gelada. E disse as palavras que foram

ouvidas (com grande surpresa) pelo homem ofegante de terno cinza:

— Querida Cordelia, em apenas dois anos Gwennie estará de volta, sã e salva.

Rillie viu o rosto abatido de Monsieur Roland e também pegou o seu braço. La

Grande Celine, já recuperada, pegou o outro. Todos acenaram várias vezes; a Sra. Spoons

vendo todos acenarem, copiou o gesto e também acenou. A banda do circo começou a

tocar “O Susanna!” no convés do navio. E agora todos conheciam a nova letra cantada

pelos mineradores:

 

I soon shall be in Francisco, and then I’ll look around,

And when I see the gold lumps there I’ll pick them off the ground,

I’ll scrape the mountains clean my boys, I’ll drain the rivers dry,

A pocket full of rocks bring home, so brother don’t you cry!*

Todos cantavam O Susanna! O Don’t you cry for me! E Regina cantava o O de O Susanna!

quando viu um homem velho. Ele usava um chapéu estranho, como uma cartola achatada

e paletó de cor forte e falava animadamente, gesticulando com os braços, com dois outros

homens, e todos estavam prestes a entrar a bordo de um veleiro bem menor.

Então, enquanto o Beauty partia do porto de Nova York e embora a mão de Regina

estivesse erguida em um aceno e a boca aberta formando um O!, seu rosto se voltou para

o veleiro menor, na direção do homem de chapéu.

O Susanna! cantou Regina, com assombro. E então:

— Alfie? — perguntou Regina, quase para si mesma. E então, ela gritou, muito alto,

muito alto mesmo. — Pequeno Alfie!

Nota

 

 

* Tradução livre: “Logo estarei em São Francisco e olharei em volta / E quando vir pepitas

de ouro eu as pegarei do chão / Limparei as montanhas, meninos, eu secarei os rios / E

trarei os bolsos cheios de pedras, então não chores!” (N.T.)