O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 27 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 26

 

Noites de verão quentes, úmidas, pegajosas; janelas abertas no pequeno sótão quente;

barulho, odores, insetos e calor, tudo entrando pela janela.

Alfie se tornou um visitante regular em Maiden Lane quando seu trabalho o trazia de

volta a Nova York. Ele sempre se sentava e falava primeiro com a irmã, mas, depois, era

comum ser visto em discussões profundas com Arthur, as cabeças próximas em um

canto da pequena sala enquanto discutiam os problemas no rio East. Ou ele diria a Rillie

onde comprar carnes e legumes de melhor qualidade pelo menor preço. Ou calcularia a

distância e contaria os dias e confortaria Cordelia enquanto sua mente criava imagens

horríveis de naufrágios, selvagens, cólera e morte.

Obviamente, Alfie percebeu que o cabelo de Cordelia estava diferente: contaram a ele o

que acontecera.

— Alguém foi pago para fazer isso — declarou ele, alarmado. — Vocês têm alguma

ideia do motivo?

— Não importa, Alfie — respondeu Cordelia, rápido, e algo em seu tom de voz

impediu que Alfie fizesse mais perguntas naquele momento. Em vez disso, em tom

sensato, ele aconselhou:

— Bem, você deve andar com um grande bastão agora, querida, como os policiais.

Mas Cordelia retrucou:

— Quando eu era menina, sempre me mandavam brincar na praça Bloomsbury à noite

porque tia Hester, que também era mesmerista... — Lançou um breve olhar para

Monsieur Roland. — ... tinha clientes e minha mãe tinha... — Fez uma pausa de um

segundo. — ... clientes também. Então, me mandavam para a praça Bloomsbury com um

centavo para comprar um muffin e um antigo ferro de passar roupa no bolso do meu

manto para me defender! Costumava pesar muito quando eu tentava subir em árvores. E,

agora, encontrei esse ferro. Eu o trouxe comigo para Nova York. Olhem! — E ela o

mostrou antigo ferro de passar roupa. — Como é engraçado e pesado! Fico feliz de saber

que agora temos ferros mais modernos.

— Eu me lembro dessa velharia! — exclamou Rillie.

— Ora, Queenie — disse Alfie. — Nossa mãe tinha um igual a esse! Olhe!

— E eu vou passar a carregá-lo no bolso novamente — informou Cordelia e, por

algum motivo, todos riram, mesmo preocupados com sua segurança.

Ela se manteve fiel à promessa que fizera: estava sempre alerta e preparada, mas

Ela se manteve fiel à promessa que fizera: estava sempre alerta e preparada, mas

ninguém se aproximou. Seu cabelo começou a crescer de forma lenta e desigual e Rillie

tinha de continuar cortando-o. Cordelia os escondia sob o lindo chapéu. Por fim,

conseguiu conter a raiva violenta e incontrolável; sorriu para Arthur como um pedido de

desculpas. Quase sempre, alguém do grupo conseguia um motivo para passear com ela:

compreendia a bondade deles, mas desejava sair sozinha, como costumava. Carregava o

antigo ferro de passar roupa consigo, mas recusava se sentir intimidada: acreditava que os

homens que a atacaram haviam conseguido o que queriam e achavam que estivesse morta.

(O que não sabia é que não apenas seus atacantes achavam que tinham feito o trabalho, e

foram pagos por isso, mas também que o capitão de um clíper chamado Sea Bullet levava

consigo todo seu cabelo arrumado em uma pequena bolsa: a prova para o duque de

Llannefydd de que se afogara e que não seria mais problema para ele.)

Algumas vezes, porém, ela não conseguia comer nem dormir, tão forte era o medo

que sentia de perder Gwenlliam nas florestas do Panamá ou no oceano Atlântico ou na

Califórnia: será que tomara a decisão errada? Será que deveria ter partido com ela? Graças a

Deus ela estava fora do caminho. Não parava de pensar sobre isso à medida que as semanas

e meses se passavam e não recebia notícias ou informações. Era como se Gwenlliam

tivesse desaparecido nos céus.

— Esta é Gwenlliam — diria Cordelia para Alfie uma vez mais, mostrando novamente

o novo daguerreótipo na parede do sótão. — Eu escrevo bastante para ela — continuaria.

— Para que quando chegue, haja um grande número de cartas seguindo-a pela América!

E, na visita seguinte, Alfie calcularia de novo. Às vezes levava consigo mapas que

conseguia por meio de seus diversos contatos. Juntos, estudavam os mapas, marcando as

possíveis datas e distâncias.

— Mas ainda levará muito tempo, minha querida, até que ela chegue a São Francisco, e

um tempo ainda maior antes que uma carta chegue até você. Não adianta esperar cartas

agora.

Alfie ficou particularmente fascinado pelas ideias de Monsieur Roland e sempre fazia

perguntas sobre o mesmerismo.

— Quando essas irmãs Fox, que o deixam tão furioso com suas batidas nas mesas,

vierem a Nova York, monsiê, como tenho certeza de que virão, nós vamos vê-las. O

senhor e eu. Seremos um bom par para avaliá-las.

— Oui, Monsieur Alfie. Gostaria muito disso. Se conseguir me conter! O senhor disse

que, no seu trabalho, usa o novo telégrafo, que também envolve batidas, e eu presumo

que essas jovens senhoritas tenham lido sobre isso e transformado o conceito em algo

diferente em suas mentes jovens, férteis e criativas. O senhor sabe como esse novo

telégrafo transmite as mensagens? Estou falando do telégrafo elétrico é claro, e não das

batidas na mesa!

— Bem, não sou nenhum cientista, monsiê, e tudo tem a ver com a eletricidade. Mas,

pelo que entendo, os sons feitos pelos toques sibilam como loucos ao longo dos cabos

elevados. O Sr. Morse teve de colocar cabos entre Washington e Baltimore antes que conseguisse enviar a primeira mensagem, então isso significou 64 quilômetros de cabos,

só para começar.

— E qual era a mensagem? — perguntou Regina.

— QUE DEUS SEJA LOUVADO? — respondeu Alfie, e ele e Regina começaram a rir

quando disseram ao mesmo tempo: — Números, capítulo 23. — Para a surpresa de todos

os presentes. — Nosso pai nos fez aprender a Bíblia, como contei a vocês — explicou

Alfie. — Podemos fazer citações por horas a fio!

— O Sr. Morse apenas colocou os cabos ao longo das linhas de trem e bateu as

palavras? — perguntou Monsieur Roland.

— Nada disso! Foram muitas conferências, mas aquele Sr. Morse estava determinado.

Sabia que ele, na verdade, é um pintor e não um cientista? Sempre achei que esses artistas

fossem sujeitos sonhadores, mas não esse Sr. Samuel Morse! No início, ele colocou cabos

de cobre dentro de canos embaixo da terra, mas algo deu errado com os canos, acho que

ficaram isolados. De qualquer modo, eles tentaram, então, colocar os cabos no alto.

Então, as árvores danificaram os cabos e eles caíram. Mas, agora, conseguiram colocá-los

de maneira organizada, como o senhor disse, e podemos ver os cabos nos postes de

telégrafo ao longo das vias férreas onde conseguirem colocar e, atualmente, podemos

enviar notícias de Nova Orleans para Washington! Existem toques curtos e longos e a

combinação de toques resulta em palavras. Todos que transmitem e recebem mensagem

têm o alfabeto de Morse à sua frente. Se bem me lembro, um toque curto significa E. Dois

toques, um curto e um longo, resultam em A. Três toques curtos dão um R e assim por

diante. E os toques sibilam ao longo dos cabos.

— Isso é incrível, Alfie! — exclamou Regina.

— E muito útil para os negócios, Queenie: CARROÇA DE ALGODÃO PARTIU QUA,

10H. E, um dia, eles colocarão um cabo sob o oceano Atlântico, monsiê. Imagine se

conseguíssemos enviar uma mensagem rápida para Londres!

— Imaginem se conseguíssemos enviar uma mensagem rápida para a Califórnia! —

disse Cordelia.

— Agora que penso nisso, há muita coisa no mundo que tem a ver com energia, não

é? — perguntou Alfie e Monsieur Roland concordou com a cabeça, sorrindo para o

homem vigoroso. — Energia humana para o seu mesmerismo, energia elétrica para o

telégrafo e, acho que podemos dizer, energia a vapor para os navios! O que mais hão de

inventar, eu me pergunto.

— Bem, Monsieur Alfie — respondeu Monsieur Roland, limpando a garganta de um

modo nervoso que lhe era pouco característico. — Eu mesmo estou tentando inventar

algo novo. E seria muito grato de receber conselhos de um homem de negócios como

senhor.

Alfie pareceu bastante interessando. Monsieur Roland ficou em silêncio.

— Então, pode falar, monsiê.

Monsieur Roland parecia constrangido.

 

— Bem... Ah, mon Dieu... É sobre anúncios. Esse é um novo campo para mim, esse

— Bem... Ah, mon Dieu... É sobre anúncios. Esse é um novo campo para mim, esse

modo americano. Minhas salas na rua Nassau são cercadas por anúncios pintados em

pôsteres, paredes e portas, janelas e árvores. Até em telhados. Em cores bastante fortes.

Eu já contei: Pernas e Braços de Madeira à Venda, Tortas de Ostra do Oliver, Passarinhos,

Documentos, Remédios para Mulheres, Extrações Dentárias Baratas, Remédios para

Homens, Restauradores de Cabelos, Daguerreótipos Agora Coloridos... E eu poderia

continuar por um bom tempo, Alfie. Minhas salas são pequenas, assim como a placa que

anuncia meu negócio. Cordelia e eu estamos prestes a começar um empreendimento

diferente. Como eu posso anunciá-lo, sem parecer...

— Vulgar, é o que o senhor quer dizer, não é?

— Sei que mal sou notado na rua Nassau — declarou o francês. — Mas a mim me

parece ofensiva a ideia de pintar MESMERISTAS em letras enormes, cores fortes e

chamativas na porta. Ainda assim, percebo que isso não passa de um melindre tolo de

minha parte. Essa falta de discrição está em tudo que é feito aqui em Nova York, e aqui

estou eu, por fim, querendo propor novas ideias e, de alguma forma, tenho de... de usar

a palavra que acho tão difícil... Eu tenho de divulgar. E chamá-lo de outra coisa. Criar um

novo nome.

— O senhor sempre nos contou que o dr. Mesmer usava ternos roxos para chamar

atenção para si — declarou Rillie. — Ele não era tão avesso à publicidade!

— Você está sugerindo que eu use ternos roxos e chame minhas novas ideias de

Rolandismo e distribua anúncios coloridos por aí? — perguntou ele em tom suave, e todos

riram. O casaco arroxeado que La Grande Celine lhe dera de presente fora guardado no

armário: Monsieur Roland era muito apegado ao seu casaco velho, muito bem cuidado, e

não o trocaria. Rillie sempre cerzia os punhos quando ficavam muito puídos. — Não paro

de pensar que essa nova ideia precisa de algo diferente — continuou ele. — Que precisa de

uma palavra completamente nova. Existe uma palavra grega para a cura: THERAPEIA. Sinto

que quero descrever o que faremos como Therapeia Mesmérica. Ou Therapeia Hipnótica.

Mas não de forma espalhafatosa.

Regina interveio:

— Bem, esse tipo de linguagem não vai atrair as pessoas de jeito nenhum! E, se o

senhor não se importar que eu diga poderia colocar alguns quadros para animar um

pouco o ambiente.

— Que tal: Cura Mesmérica? — sugeriu Rillie.

Agora, Cordelia fez uma careta.

— Fica parecendo aqueles novos anúncios que as igrejas estão usando. JESUS CURA:

ENTRE AGORA. Quem poderia imaginar que a religião começaria a divulgar e fazer

anúncios?

Mas tanto Monsieur Roland quanto Alfie riram.

— A Igreja inventou a divulgação e os anúncios — declarou Alfie.

— A Igreja sempre se divulgou de forma brilhante, minha querida Cordelia! —

concordou Monsieur Roland. — O que você acha que são aquelas grandes catedrais espalhadas por toda a Europa? Mas, oh, mon Dieu, não é de se estranhar que eu não

consiga decidir como divulgar essas novas ideias quando nem ao menos as compreendo.

Talvez, Monsieur Alfie, o senhor possa me ajudar, sendo um homem de negócios.

— Mas o que foi que o senhor inventou, monsiê? O senhor ainda não me deu nem

uma ideia do que seja! O que precisa anunciar e divulgar?

Monsieur Roland explicou que ele e Cordelia planejavam sobre como modificariam o

seu trabalho e o levariam em outra direção; queriam que os pacientes talvez falassem

mais, se pudessem, sobre si e o que os angustiava. E queriam começar um novo

experimento. Alfie ouviu tudo com atenção, fez uma ou duas perguntas como fazia

quando ouvia outras pessoas e, então, se levantou, olhou para todos como faria em uma

reunião; esfregou os bigodes e ficou de pé com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de

cor vibrante.

— Agora, estamos no meu território. Aqui, eu posso ajudar. O senhor quer clientes,

certo?

Monsieur Roland concordou com a cabeça.

— Certo. Agora, o senhor e Cordelia querem que as pessoas falem mais antes de curá-

las. E, para ser franco, isso faz sentido. O que quero dizer é: quem poderia explicar

melhor do que a própria pessoa que sofre de alguma angústia? Os médicos se acham

deuses e mal deixam você abrir a boca! — Ele espantou com a mão uma mariposa que

passou na frente de seu rosto, atraída pela luz dos lampiões. — Certo. Sabe do que mais,

Monsieur Roland? Fico feliz que o senhor esteja começando a compreender Nova York!

Vi a sua pequena placa na rua Nassau. Eu já havia passado por lá umas vinte vezes e nunca

havia notado até que Queenie me contou. É claro que aqui usamos palavras que se

sobressaem e cores que chamam a atenção, esta é a América. Agora, não entendo por que

o senhor não pode anunciar esse novo modo usando a vulgaridade (de qualquer forma, o

que o senhor chama de vulgaridade por não ser americano). Eu tenho sorte, porque fui

londrino antes: Queenie e eu, nós já éramos um pouco vulgares logo no início. Bem, acho

que o senhor deverá ceder um pouco. Concordo com Queenie que o senhor não deva

soar esnobe, pois isso afasta as pessoas, mas quer chamar atenção para si, não é mesmo?

Então não pode ser inglês demais, desculpe a franqueza; caso contrário, não terá clientes

porque, no fim das contas, eles são clientes, não é? Clientes com problemas, o senhor

poderia dizer.

Monsieur Roland concordou com a cabeça.

— O senhor quer que eles falem, certo? Então, tem de dizer isso a eles. E é melhor ter

cuidado, porque pode se deparar com alguém como eu que vai falar até a sua cabeça

explodir! — E todos riram, mas ele ergueu a mão. — Não, o que quero dizer é, por que

não apenas dizer isso em vez de ficar dando voltas? Por que não colocar uma placa bem

maior na porta, grande o suficiente para atrair as pessoas, mas sem usar cores vulgares,

pois isso não combinaria com um cavalheiro tão refinado quanto o senhor, e dar a

mensagem de forma o mais simples possível: poderia estar escrito — disse ele, erguendo a

mão como se escrevesse no ar. — PROBLEMAS? FALE COM UM MESMERISTA.

Ouviram Arthur subindo as escadas, então, quando ele entrou na sala, Alfie repetiu

com o mesmo floreio:

— PROBLEMAS? FALE COM O MESMERISTA!

— Problemas causando dores? — disse Arthur. Havia algo na voz dele, um tom talvez,

que fez com que Cordelia, de repente, lhe lançasse um olhar severo, mas ele estava se

dirigindo a Alfie e Monsieur Roland.

 

Então, aconteceu que uma placa bem diferente foi colocada em uma porta, outrora

imperceptível, da rua Nassau, embora sem cores chamativas: uma grande placa branca

com letras pretas dispostas por Alfie em um artesão:

 

PROBLEMAS CAUSANDO DOR?

FALE COM O MESMERISTA.

Monsieur Roland

Sra. Preston

 

Alfie queria que a frase FALE COM O MESMERISTA fosse seguida por vários pontos

de exclamação; mas não conseguiu convencer Monsieur Roland.

— Ainda assim, não sei bem o que acontecerá — disse Cordelia para ele, nervosa, no

dia em que a placa foi colocada.

— Tampouco eu — concordou o velho homem. — Mas se recebermos qualquer

visitante inesperado que queira cortar o seu cabelo novamente, bata imediatamente na

parede!

— Não, não. Eu não estou nervosa por causa disso — retrucou Cordelia. — O que

quero dizer é que estou nervosa porque isso é algo novo e não sabemos qual será a

reação das pessoas.

— Bem, eu também estou nervoso — declarou ele, gentil. — Mas temos de ser

corajosos o suficiente para começar. É mesmerismo acompanhado por uma conversa.