O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 31 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 30

 

 

Cordelia correu.

Começara a assombrar o posto dos correios: Alfie dissera que já estava quase na

hora. Primeiro, ela só se permitia ir uma vez a cada dois dias. Por fim, começou a ir

todos os dias, cada vez mais ansiosa. Quando um pacote finalmente chegou da Califórnia,

Gwenlliam já havia partido de Nova York há 221 dias.

Quando Cordelia recebeu o pacote e viu sob ele todos os carimbos e selos, seu nome

escrito com a letra elegante e feminina de Gwenlliam, correu o mais rápido que conseguiu

para casa, desviando-se da multidão e segurando firme o precioso pacote com as mãos

enluvadas. Quando chegou à esquina da Broadway ouviu um assovio, o assovio de

Arthur: ele estava subindo a Maiden Lane pelo outro lado, vindo das docas e a vira.

— Rápido! — gritou ela para ele. — Rápido! — repetiu, com dificuldade de falar.

— Cordelia, qual é o problema? — Ele correu em direção a ela para verificar se estava

sendo seguida.

— Gwenlliam.

— O quê? O que foi, Cordelia? — perguntou ele, sentindo o coração disparar de

repente.

— Uma carta de Gwenlliam. Bem, eu espero que seja uma carta. — Ela tentou se

acalmar. — Pois parece que ela nos enviou um livro.

No sótão, Arthur pegou sua faca, Cordelia a tomou de sua mão; os dedos trêmulos

enquanto cortava o barbante e quebrava a cera, recusando ajuda. E todos se sentaram à

sua volta, Rillie, Monsieur Roland e Arthur Rivers: aquela família reduzida.

Rapidamente, retirou o papel.

Não havia carta alguma. Apenas uma enorme Bíblia Sagrada. Todos trocaram olhares

confusos entre si. BÍBLIA SAGRADA, liam de forma bastante clara. Devagar, Cordelia

abriu o livro. Deparou-se com o capítulo do Gênesis, mas as páginas pareciam estranhas,

meio penduradas. Ela virou as primeiras páginas e, de repente, compreendeu que não

havia mais páginas imaculadas, mas sim um grande buraco no meio delas.

— Oh! — exclamou ela, com voz fraca.

Pois lá, ajustadas dentro do orifício, pepitas de ouro brilhavam para eles.

— Oh! — repetiu Cordelia com a voz bastante fraca.

 

A maior parte das pepitas tinha o tamanho talvez de uma noz ou até mesmo de um

A maior parte das pepitas tinha o tamanho talvez de uma noz ou até mesmo de um

ovo pequeno. A que estava na parte de cima era disforme e encaroçada, não muito maior

do que uma cereja. Parecia uma pequena lesma. E, sob as pepitas, havia uma carta

volumosa.

 

Queridos mamãe e Arthur, Monsieur Roland e Rillie, Regina e Sra. Spoons, tenho a fotografia de vocês ao meu lado enquanto escrevo, imagino todos vocês em Maiden Lane, todas as pessoas mais queridas da minha vida.

Escrevo da Cidade Acampamento — é como a chamamos — ou seja, de um lugar chamado Sacramento, subindo um

rio mais para o interior de São Francisco — onde o Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift não é a única atividade realizada em um espaço coberto por uma lona! Embora algumas construções estejam começando a ser erguidas por aqui (e nós moramos, Peggy e eu, em um hotel de verdade!), aqui realmente é uma Cidade Acampamento. Creio que tudo que vemos só esteja aqui

há alguns poucos meses: os mineradores vivem em tendas, as lojas são abrigadas em tendas, assim como lojas de bebida, casas de refeições, salões de dança e de jogos — até mesmo as tavernas são de lona! Existe até mesmo uma “Tenda Cultural”, onde eles têm um clube e charutos e o único piano de Sacramento fica lá e há quadros bastante rudes como decoração! Estou bem acostumada com essa decoração já que foi nessa “Tenda Cultural” que fizemos as primeiras e bastante estranhas apresentações porque nossa tenda e as carroças e os animais chegaram um pouco depois de nós. Peggy e eu concordamos que não sabemos como descrever tudo: Sacramento não passa de uma cidade de lona e ouro. Possui o próprio jornal — cheio de anúncios de lojas e rumores de ouro e avisos de mineradores querendo comprar ou vender equipamento de mineração e sempre um grande anúncio do INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT! E é uma grande aventura estar aqui — mas, sob tudo isso, não há nada, nem história, nem passado, apenas a busca por ouro — e muitos problemas de saúde e decepções, creio eu.

Mas é — quase — romântico nas noites quando eles acendem os lampiões em todas as tavernas e lojas. Nesse momento, uma luz suave brilha e a música se eleva no ar. E não dá para ver a lama e a sujeira e há um bosque de carvalhos que leva até o rio. E os muitos mineradores voltando do leito do rio — se não estiverem morrendo de disenteria ou de cólera — se amontoam na tenda do circo no início de todas as noites, sempre comemorando e gritando e cuspindo tabaco nas paredes da tenda.

 

Cordelia ergueu o olhar incerto neste ponto.

— Cólera? — murmurou ela. — Será que Gwennie pode pegar cólera do cuspe dos

mineradores? — Mas Arthur tocou seu ombro e indicou a carta.

 

Chegamos a São Francisco em setembro: o barco ancorado no cais ao lado de vários veleiros — completamente vazios — pois, as tripulações, ao que parece, simplesmente os abandonaram e seguiram para a corrida do ouro! Mas nós logo descobrimos que outro circo já tinha aparecido e estava organizando sua parafernália em São Francisco. Vocês podem imaginar a raiva de Silas ao ver um concorrente — zangado, ele nos levou rapidamente para Sacramento, onde parte do trabalho de mineração é centralizada — ele foi, de certa forma, inteligente ao fazer essa aposta maluca, pois se não contarmos os jogos de carta e as tavernas com suas damas (onde os mineradores fazem fila) e a mencionada Tenda Cultural e seu piano, não havia nada mais para os mineradores fazerem depois de voltarem, exaustos, para Sacramento, trazendo consigo o seu ouro. Oh, o ouro, o ouro “amarelo, brilhante, precioso”, mamãe. Então, eles gastam muito do ouro conosco. Na

verdade, eles parecem não guardar dinheiro esses jovens rapazes — eles apenas gastam! Oh, esse lugar é muito louco, selvagem, excitante e extraordinário! (São Francisco parece um lugar mais real do que Sacramento, tendo construções de verdade, mas a maior parte das construções foi elevada rapidamente e elas parecem frágeis, ainda mais com o grande nevoeiro que todos os dias vem do mar.) Os mineradores precisam de entretenimento — qualquer coisa. Na Tenda Cultural, alguém toca “The Last Rose of Summer” e “Whistle and I’ll Come to You” e “O Susanna!” e músicas religiosas e os mineradores cantam e, às vezes, choram. Eles também têm um salão de danças com um clarim e alguns violinos, mas quase nenhuma mulher, embora haja algumas mulheres. Quando vamos até lá, Peggy e eu dançamos sem parar — e é comum se ver mineradores dançando um com o outro. Eles adoram a valsa, a valsa imprópria a qual todos desaprovam e acho que é apenas pretexto para abraçarem alguém. Eles são tão solitários. Talvez sejam as lojas, as tavernas, as tendas de garotas e de jogatina e o circo os que mais se beneficiem desta corrida do ouro...

 

A viagem de Chagres até a cidade do Panamá foi tão terrível quanto ouvimos falar, só que pior: o caminho era úmido e perigoso, subimos o rio em canoas de índios. O principal problema para subirmos o rio foram os cavalos — os charros queriam montá-los e seguir por terra, mas a maior parte do caminho é intransponível, então os cavalos tiveram de nadar ou serem colocados em canoas. Vocês conseguem imaginar aqueles cavalos? Silas compreendeu, então, que deveria ter providenciado para que fossem transportados de navio, que em sua pressa de começar logo a se apresentar com o circo, mesmo que de forma parcial, onde o ouro de verdade estava, ultrapassou o seu bom senso, mas sendo Silas, ele não conseguiu admitir isso e gritou à beça, principalmente quando dois cavalos, por fim, morreram — um quebrou a perna de forma tão

grave que teve de ser sacrificado com um tiro e o outro apenas se deitou em uma manhã e não conseguiu, ou simplesmente não quis, mais se levantar. Os charros ficaram sem falar por vários dias. Havia vapor subindo das águas do rio e todos riram de mim porque eu achei que a água do rio fosse quente. Ainda assim, eu vi tantas coisas incríveis — vi crocodilos com seus olhos estranhos e frios e cobras venenosas, mas também vi flamingos e macacos e palmeiras e bananeiras carregadas de bananas e flores com cores inacreditáveis. Dois dos novos macacos logo desapareceram — é claro que preferiram ser livres — então, os outros tiveram de ser mantidos presos em caixas por todo o caminho e eles são violentos e zangados e têm olhos arregalados; e até mesmo agora, enquanto apresentam seu número para os mineradores, eu os acho bem assustadores. E, então, sim, nós e os cavalos e os cachorros e alguns dos macacos, finalmente, chegamos ao fim do rio. Mas dois dos anões morreram e foi horrível, coitadinhos, era como se não fossem grandes o suficiente, ou fortes o suficiente, para

todas as dificuldades, pois, realmente, enfrentamos muitas dificuldades. Talvez tenha sido a cólera, ou foi o que nos disseram. Fizemos um funeral rápido em Cruces, um lugar horrível na ponta do rio Chagres, os outros anões choraram e se drogaram e xingaram. E ainda tivemos de enfrentar muitos quilômetros de viagem, andando ou a cavalo, através da floresta tropical úmida e trilhas repugnantes e estreitas, passando por cobras e outros animais como grandes morcegos saindo do meio da vegetação escura batendo suas asas bem na frente do nosso rosto. Nem acredito que o restante de nós tenha conseguido sobreviver a travessia pelo istmo até a cidade do Panamá e eu espero nunca, jamais, em momento algum, ter de fazer essa viagem novamente. E quando finalmente chegamos à cidade do Panamá, achamos que nunca conseguiríamos partir: centenas — não, milhares — de homens lutando para entrar em qualquer navio que chegasse ao porto, lutando para chegar à Califórnia. Algumas pessoas já estavam aguardando há meses por navios que nunca chegavam. Éramos

apenas uma pequena parte dessa enorme massa de pessoas em busca de ouro. Quando os navios chegavam, as pessoas pagavam o triplo ou mais por uma passagem, gritavam contra os passageiros estrangeiros, subornavam os capitães. Alguns estavam tão desesperados que se propunham a navegar pela costa do pacífico em canoas artesanais, ou tentavam seguir pelas montanhas. Silas teve de subornar, permutar e implorar para conseguir nos levar e os animais até São Francisco, quem sabe como ele finalmente conseguiu nos colocar a bordo — foi como um milagre de Silas. As pessoas dormiam em todos os lugares no navio, nos deques, nos botes salva-vidas e todos os navios estavam lotados de forma perigosa.

Então, por fim, chegamos à Califórnia de um modo ou de outro. E agora as carroças de Silas P. Swift chegaram a

Sacramento e são uma vaga lembrança do que costumavam ser, os condutores nos disseram que elas quase foram

esmagadas quando cruzaram o Cabo e Silas as enviou para serem pintadas. Mas, pelo menos, agora temos a nossa própria tenda e todos os mastros e cabos acrobáticos e todo o resto.

No entanto — oh, eu fico protelando falar dos animais — o bebê Lucky conseguiu sobreviver às tempestades e às

calmarias do Cabo, mas morreu no segundo dia em Sacramento. Ele apenas se deitou e morreu. Todos choraram, parecia cruel quando ele, na verdade, sobrevivera à viagem. E, agora, a mamãe elefante, Kongo, enlouqueceu e bate com a cabeça nos mastros e nas árvores e fica girando sem parar e balança a cabeça de um lado para o outro. É muito triste de se ver. Lembra-se daquela mulher em Hamford, mamãe, cujos filhos morreram queimados? Isso me faz pensar nela. Dizem que é perigoso demais manter Kongo agora que ela pode ter um rompante repentino e causar danos porque está louca. Silas está muito zangado, disseram a ele que apenas os elefantes africanos eram perigosos e não os indianos. Ouvi dizer que ela será sacrificada hoje — então, toda essa viagem horrorosa e para quê? Ah, lembra, mamãe, como o bebê Lucky parecia sorrir para a gente quando erguíamos a sua pequena tromba e como ele batia as orelhas? E como ele saltitava e nos fazia rir? E agora, não teremos mais elefantes. Silas despediu o treinador, disse que era culpa dele, mas ele nem ligou, disse que, de qualquer modo, preferia ser um minerador e partiu, subindo o rio. O leão e o camelo estão bem abatidos, mas ainda vivos

— como você deve se lembrar, Silas não manteve o urso branco, um dos treinadores disse que aquele urso era o animal mais perigoso do circo, mesmo que as pessoas não acreditem que um urso possa ser mais perigoso do que um leão. O treinador do leão se recusa categoricamente a vestir a toga porque os mineradores riem e assoviam.

 

Os mineradores são rudes (ou talvez tenham se tornado rudes por estarem aqui) e também muito brigões, eu acho, pois o trabalho deles é duro demais e nos disseram que nem todos são bem-sucedidos, embora, como eu já disse, os que são, joguem

seu dinheiro para gente. Silas não consegue acreditar na quantia que recebe todas as noites. Diz que ficaremos ricos em seis meses, mas a temporada das chuvas está para chegar, dizem que em novembro e já estamos em outubro, então, acho que talvez essa seja sua esperança em vez da verdade. Embora esteja ganhando muito dinheiro mesmo, Silas ainda não está com seu olhar astuto de volta. Em vez disso, seus olhos têm um toque — é difícil de descrever, eles têm um brilho de surpresa o tempo todo agora, como se não esperasse que as coisas tivessem saído como saíram. Sabia que os índios nativos aqui sabiam do ouro, mas nunca o tocaram por acreditarem ser “um remédio ruim” que pertencia a um demônio que vivia em um lago? Às vezes, em um dia difícil aqui, quando você vê alguns dos mineradores, é difícil não acreditar que os índios talvez estivessem certos.

Oh. Acabei de ouvir um tiro. Kongo.

 

Os melhores momentos são quando estou de cabeça para baixo no trapézio aguardando nas sombras, ali eu posso estudar o público com calma — não que a Grande Tenda fique calma! Pois os mineradores, em geral, bebem antes de virem para o circo e gritam e comemoram e, como sempre, cospem grandes pedaços de tabaco. Aliás, nunca vi cuspirem como o fazem por aqui. As laterais da tenda estão quase negras, mesmo sendo lavadas toda semana. Continuo sem qualquer poder clarividente (ou talvez eu fosse capaz de informar a data em que voltarei para casa em Maiden Lane e abraçar todos vocês

bem próximos do meu coração), mas Silas não fez mais qualquer exigência nesse sentido e parece satisfeito com o nome e com as minhas acrobacias na escuridão e com a minha varinha de ouro! Mas tenho obtido algum sucesso com o mesmerismo, querido Monsieur Roland, apenas no caso de o senhor achar que agora são só tambores e saltos do trapézio. Obtive sucesso com dores de cabeça e algumas dores reumáticas e, às vezes, sinto que estou ajudando um pouco com a decepção, a tristeza e a solidão. Às vezes — espero que vocês aprovem isto, é quase como — é como se fosse um “mesmerismo coletivo”, se é que posso chamar assim. Por causa da solidão e da decepção de tantos eu tento — bem, tento abranger todos com um grande gesto e — é claro, talvez isso não seja exatamente mesmerismo, mas parece que consigo abraçar a todos, apenas por um momento, e eu desejo a eles esperança ou mágica ou sorte — algo assim. “Tudo ficará bem” é tudo o que digo, mas parece tocar-lhes o coração.

E, apenas por um momento, não há qualquer som. Será que isso faz sentido? Será que isso é mesmerismo? Parece que sim — como se apenas por um momento eu os abraçasse a todos e os ajudasse. Pois a vida deles é extenuante e muitos parecem estar se matando, literalmente, e eu não posso ajudá-los com isso. Milhares de homens tentando ficar ricos de forma rápida. Nos últimos tempos, os mineradores têm trazido amigos doentes para me encontrarem no hotel, para meu horror — eu digo a eles que não sou médica e eles retrucam em tom sombrio, “os médicos daqui também não são”.

Existem oito ou nove médicos por aqui — bem, as placas em suas tendas dizem isso e eles cobram dez dólares por uma

consulta — mas não estou bem certa de que sejam realmente médicos. Alguém na tenda de pôquer me disse na outra noite que alguns deles são mineradores que ficaram doentes por trabalharem demais!

Já ouvi muitas histórias sobre o que os mineradores fazem. Eles ficam fora da cidade por cerca de três semanas de cada

vez, escavando no rio, acampando aos pés das montanhas. Pegam água e terra do fundo do rio e peneiram em círculos até que consigam ver se há qualquer coisa dourada no fundo das peneiras. Mas também há muita escavação pesada: às vezes compensadoras, às vezes, não. Ontem, um minerador voltou e veio ao circo, mas ele passou mal durante a apresentação e chamou pela mãe e estava sofrendo muito. Eu o acalmei, o abracei e conversei com ele até que morresse.

 

O maior teste para a nossa saúde e sanidade são os pequenos insetos picadores, os mosquitos, como os charros os chamam. De todas as pessoas (e isso interessará bastante a La Grande Celine!), Pierre, o Pássaro, é quem mais sofre — os mosquitos o amam e ele os odeia; ele xinga, bate e coça, tudo em francês e insiste que vai abandonar o circo e Silas afirma que o sistema dele vai se tornar imune a eles e lhe compra tequila. Os mosquitos estão em todos os lugares, embora agora com a mudança do tempo, não haja tantos quanto antes, graças a Deus. Alguns transmitem doenças, outros apenas nos picam e sugam

nosso sangue, eu acho, e todos eles zunem nos nossos ouvidos!

 

Há um banco aqui (um banco na Cidade Acampamento!), mas alguns mineradores preferem usar o ouro como moeda — flocos ou pepitas. Silas está cobrando cinco dólares pela entrada (lembra-se de que eram apenas 40 centavos em Hamford, mamãe?) e eles pagam! Há tanto dinheiro por aqui (ou melhor dizendo, ouro — eles o pesam e usam em transações o tempo todo, todos têm balanças, inclusive Silas!). Vinte e oito gramas de ouro que é o que talvez consigam obter em um dia (embora possam conseguir muito mais ou nada) equivalem a 16 dólares, é o que dizem — mas 450 gramas de café

custam quatro dólares! Dá para acreditar? Como você se lembra, mamãe, acordamos que Silas teria de me pagar um grande adiantamento assim que chegássemos aqui. Quando eu o lembrei disso, ele fez questão de me lembrar que eu ainda estou ligada a ele e ao circo por muito tempo. Mas sei que ele já está, como disse, ganhando uma grande quantidade de dinheiro e ele disse recentemente que eu valia o meu peso em ouro (e ele não me pagou tudo isso, mas, como puderam ver, me pagou bastante!). Além disso, aconteceu algo bem estranho ontem à noite. Alguns mineradores insistiram em me dar uma pequena pepita que se parece um pouco com uma lesma. Ela foi encontrada pelo minerador que morreu em meus braços — ainda assim, muitos deles poderiam ter-se beneficiado e ficado com ela. Seu irmão chorou e entregou a pequena pepita para mim e os outros mineradores comemoraram — ainda assim, eles se matam por ouro também... Esses mineradores

chegam de todos os cantos do mundo e são um misto de ganância e generosidade, violência e bondade. De qualquer modo, a pequena pepita na bíblia é a que eles me deram. Eu obriguei Silas a me pagar em ouro de verdade e vocês verão — se esse pacote chegar como rezo para que chegue — que enviei para vocês de uma forma interessante e segura (espero) de enviar com esta carta. Eu pensei muito em como poderia enviar isso de modo seguro e espero que o Senhor me perdoe!

 

Bem, tudo é muito interessante. Peggy e eu muitas vezes olhamos uma para a outra e dizemos “Isso é muito interessante!” se achamos que estamos de mau humor. Já recebemos muitas propostas de casamento, mesmos as damas que trabalham

nas tavernas de jogo e nas casas de bebida são pedidas em casamento, mas elas respondem “podemos ganhar mais dinheiro estando solteiras, obrigada”. Às vezes, quando Peggy e eu estamos caminhando, os mineradores passam e apenas nos encaram; não de um modo assustador, pelos menos eu não sinto medo, eles olham para uma de nós como se dissessem “aquilo é uma mulher. Eu devo ter esquecido com uma mulher se parece”. Coitados, eles conversam o tempo todo sobre voltarem para casa — assim que estiverem ricos.

Você pode escrever para mim e mandar a carta para São Francisco, aos cuidados do Incrível Circo do Sr. Silas P. Swift, como eu disse mamãe, e tenho certeza de que a receberei. (Eu entrei na fila da Agência dos Correios logo no primeiro dia que chegamos a São Francisco, só para o caso de já haver uma carta, mas foi bobagem minha achar que já haveria uma carta de vocês tão rápido.) Eu ficaria muito feliz em receber notícias, pois isso me faria lembrar que a vida não se resume a

tendas e mosquitos! A vida aqui é selvagem, na verdade, não é como nada que eu já tenha visto ou experimentado na vida, mas também é excitante e vocês não precisam se preocupar comigo. Você sabe muito bem, mamãe, que seja o que for que aconteça, eu sei tomar conta de mim mesma!

 

Peggy Walker está comigo, cosendo o figurino dos acrobatas enquanto escrevo e ela manda seus cumprimentos e eu envio meus sonhos e esta bíblia e todo o meu amor. Por favor, querido Monsieur Roland, me avise se o que eu faço é mesmerismo. Abraçar a todos por um momento na tentativa de lhes dar esperança? Parece que sim. Querida mamãe, um abraço bem apertado.

 

Gwenlliam.

 

Então o silêncio: todos ficaram calados, enquanto as pepitas de ouro brilhavam; a bíblia

furada e as páginas da carta sobre a mesa, enquanto Gwenlliam olhava para tudo, com

olhar bondoso, da parede do sótão.

— Sim — respondeu Monsieur Roland. — Aquilo é mesmerismo.

— Sim — concordou Cordelia, devagar, segurando a carta contra o coração. — Sim, no

palco, apenas uma ou duas vezes, acontece isso. Você abraça o público, algo sobre a energia

dos atores e dos espectadores, ambas se unindo por um momento. Você pode sentir. É

como mesmerismo. — E o velho francês concordou.

— Gwenlliam, bondosa e inteligente — disse ele.

 

No dia seguinte, Rillie, acompanhada por Arthur, como sempre, levou as pepitas de ouro

até Wall Street. Estava nevando e eles se uniram contra o frio. Trenós passavam por eles

ao longo de Broadway e a neve conferia uma estranha serenidade nas ruas ainda agitadas.

Dentro do banco, Rillie retirou as luvas e pegou o pacote precioso dentro do manto e

colocou as pepitas sobre o balcão. O bancário assoviou.

— Uau, senhor! — exclamou ele para Arthur. — Terei de pesá-las, elas devem valer um

dólar ou dois! Mas precisarei de algumas explicações. Vou chamar o meu chefe.

— Sou um oficial da polícia — declarou Arthur Rivers, mostrando sua pequena estrela

de cobre, que ele mantinha no bolso do casaco.

A expressão do rosto do bancário relaxou.

— Oh — disse ele. — Um policial. Isso é diferente. Eles depositam todo tipo de coisa.