O Circo dos Fantasmas
Capítulo 39
Uma vez que Gwenlliam tomara sua decisão, tornou-se completamente submissa ao Sr.
Doveribbon e parecia acatar os planos dele sem qualquer objeção, como ele previra.
Afinal, estavam lidando com muito dinheiro. É claro que não confiaria totalmente nela,
mas quem neste mundo jogaria fora a chance de receber uma enorme fortuna? (Como era
tolo o Sr. Doveribbon, que a conhecia tão pouco.)
— Clorofórmio, administrado da forma errada, pode causar uma parada cardíaca —
dissera ela. Gwenlliam notou o desconforto dele ao ouvir as palavras. Talvez fosse por ela
ter percebido tão rápido que ele havia usado clorofórmio, e ter demonstrado um
inesperado conhecimento sobre tal anestésico. — Conte-me, Sr. Doveribbon, qual foi a
proposta do meu... — Ela fez uma pausa, odiando ter de proferir a palavra, mas forçando-
se a dizer: — ... avô para que o senhor arriscasse tudo ao me sequestrar e me levar neste
barco ao Panamá?
Uma vez mais, notou o desconforto dele: não gostava da palavra sequestro. Além disso,
como descobrira tão rápido para onde o barco estava indo? Ela permanecera inconsciente
por um bom tempo: ele a carregara pela escuridão de um dos menores cais de São
Francisco e a colocara na escuna (previamente arranjada) apenas quinze minutos depois
de ter coberto seu rosto com clorofórmio. Dissera à tripulação que ela era uma prima e
que estava muito doente, como se qualquer pessoa desse a mínima para isso. Afinal, São
Francisco era uma cidade violenta. Agora que estavam seguros, falava mais com irritação
do que qualquer outro sentimento mais forte: sentia-se relaxado naquele momento, mas
ela lhe causara muitos problemas; achava difícil perdoá-la pela longa, tediosa e
tempestuosa jornada pelo mar que tivera de empreender por causa dela. Também sabia
que era um homem muito bonito: estava acostumado a ver jovens senhoritas se jogarem
aos seus pés, sem a necessidade de recorrer ao sequestro.
— Se a senhorita tivesse se comportado como qualquer jovem sensata, eu não
precisaria ter lançado mão desse — pronunciou a palavra com desgosto — subterfúgio.
Estou fazendo isso pela senhorita. Pediram-me apenas que a levasse de volta à Grã-
Bretanha, para seu grande benefício.
— Eu não sou um pacote, Sr. Doveribbon. — Mas disse isso com um leve sorriso nos
lábios. — Que grande benefício seria esse exatamente?
— A maior parte de Gales — respondeu ele de imediato.
— Ele não é proprietário da “maior parte de Gales”, Sr. Doveribbon — afirmou ela
— Ele não é proprietário da “maior parte de Gales”, Sr. Doveribbon — afirmou ela
com tranquilidade.
— Ele possui uma grande parte. Como eu lhe disse de forma bastante clara em São
Francisco, ele objeta veementemente que um primo de segundo grau receba tudo que
pertence a ele. A senhorita deve se lembrar de que é neta dele, e que esse laço de sangue
traz uma recompensa, embora carregue consigo também algumas obrigações.
Gwenlliam lhe lançou um olhar tão forte que lhe causou certo constrangimento.
Pensou que não gostaria que ela descobrisse o que havia acontecido com a mãe.
Seu objetivo, porém, fora cumprido e estavam a caminho não de Nova York, mas de
Londres. Encontrara a joia. Dez mil libras.
Eram os únicos passageiros. Alugara a pequena escuna e pagara pela discrição da
tripulação: usava o dinheiro do pai até que recebesse o pagamento do duque, mas esse
custo seria zero no final. Sorriu para a garota pálida deitada no catre da minúscula cabine.
— Apesar dos fatos infelizes que cercam o seu nascimento, a senhorita ainda é a única
filha viva do filho do duque, e ele deseja modificar a lei em seu benefício. Ele é um senhor
idoso e não muito saudável. É um dos homens mais ricos da Grã-Bretanha e insiste em
vê-la antes de assinar a complexa documentação. Assim, todo esse assunto se tornou
urgente e necessário. — Sorriu de novo para ela. — Eu digo isso para seu benefício, Srta.
Preston. E também para o meu. — Ele conhecia seus atributos físicos: nenhuma mulher
que conheceu jamais resistiu aos seus encantos. (Como era tolo esse Sr. Doveribbon: não
sabia que o pérfido pai de Gwenlliam também fora avassaladoramente bonito?)
— Presumo que eu possa caminhar pelo convés?
— Comigo ao seu lado, pode ir a qualquer lugar. A tripulação é composta por quatro
homens e o capitão, mas você vai escutar muito pouco inglês.
— Eles são espanhóis? — perguntou, tentando se mostrar esperançosa; ele não tinha
como saber que sua longa amizade com os charros mexicanos lhe ensinara o básico de
espanhol.
— Não são espanhóis. São das ilhas Sandwich e possuem um idioma estranho só
deles. Apenas o capitão fala inglês, e eu lhe expliquei que minha prima apresentava alguns
momentos de insanidade, assim creio que ele não acreditará em nada que diga. Também
tenho mais clorofórmio à minha disposição. — Ele estava bastante satisfeito consigo
mesmo e não demonstrava qualquer sinal de desconforto naquele momento.
— Você compreende, eu espero, os perigos do mau uso do clorofórmio.
— Eu não tenho feito mau uso, Srta. Preston.
Aquele foi o único momento em que ela quase perdeu a compostura. Não fez mau uso?
Colocar clorofórmio sobre o meu rosto e me sequestrar. Arrancar-me da minha vida pela
segunda vezpor causa daquele velho monstruoso e odioso. Lembrou-se de como o cacique
Great Rainbow lhe ensinara a esconder as emoções: inspirou profundamente algumas
vezes. O céu azul parecia mover-se através da diminuta janela acima, ouviu o som do mar
e o vento soprando nas velas.
— Joga pôquer, Sr. Doveribbon?
Ele pareceu se divertir com a pergunta.
— É claro. E percebi que a senhorita também se interessa por esse jogo.
— Talvez nós possamos jogar para passar o tempo. Apostando dinheiro. — Precisarei
de dinheiro para minha passagem de volta, só Deus sabe o quanto, já que há muita gente
esperando por uma passagem no Panamá, ainda atrás de ouro.
— A senhorita tem dinheiro consigo?
— Não tanto quanto deveria ter se soubesse da minha viagem. A menos que — fez uma
pausa — eu tenha sido roubada, tenho sim dinheiro comigo.
Ele sentiu-se ofendido.
— Não sou um ladrão!
— Além disso, de acordo com o que o senhor me disse, logo receberei uma grande
quantia de dinheiro, então se eu perder muito feio, sinta-se à vontade em me bancar — Ela
sorriu de novo. — Então, talvez, possamos caminhar pelo convés e, mais tarde, jogar uma
partida ou duas para passar o tempo.
Ele não poderia estar mais impressionado pelo poder de recuperação e a calma que
ela demonstrava. Ele assentiu. Ela se levantou devagar da cama de baixo do beliche. Sentiu-
se tonta e enjoada, mas não deixou transparecer isso para o seu sequestrador.
— Posso lavar meu rosto?
Ele assentiu de novo, totalmente relaxado dessa vez. Ela não sabia que parecia frágil e
pálida (mas as aparências costumam enganar).
— Vou me retirar e esperarei a senhorita no convés — declarou ele. — Nem mesmo a
senhorita, creio eu, seria tão tola a ponto de se atirar ao mar.
— Acho que o senhor pode contar com isso.
Assim que ele saiu, ela vomitou em um balde. Depois, sentiu-se melhor, mas gostaria
de ter roupas limpas. Havia água em uma tigela. Lavou o rosto várias vezes. Também havia
uma garrafa de água e, sedenta, bebeu, esperando pelo melhor. Por fim, ainda um pouco
oscilante, subiu a pequena escada até o ar fresco primaveril da Baixa Califórnia e do
oceano Pacífico.
Quase poderia ter aproveitado a viagem. Pelo menos podia contar com a própria cabine e
a chave para ela. Ao que tudo indicava, o Sr. Doveribbon não planejava lhe causar
nenhum mal. Passaram pela península meridional da Califórnia: o sol quase sempre
brilhava, um dos membros da tripulação pescou um peixe para comerem, o ar era fresco.
— Onde são as ilhas Sandwich? — perguntou ela ao capitão. Ele apontou para o oeste.
— Hawai’i — respondeu ele. — Chamamos minha terra de Hawai’i.
Apurou que o barco se chamava Moe’uhane; o capitão de pele amarronzada que só lhe
dirigia a palavra quando o Sr. Doveribbon estava presente, contou que a palavra significava
sonho, e Gwenlliam sorriu para ele, com seus próprios sonhos de retornar logo ao circo
de São Francisco.
Muitos navios passavam por eles, indo e voltando; uma vez o vento os tirou da rota e
Muitos navios passavam por eles, indo e voltando; uma vez o vento os tirou da rota e
os homens da pequena tripulação subiram e desceram dos mastros, puxando as velas, e
soltando-as novamente. Depois de mais de duas semanas sem poder trocar de roupa,
Gwenlliam, para dizer de forma educada, fedia. Até aquele momento já havia ganhado
catorze dólares do Sr. Doveribbon para somar aos vinte dólares que ainda estavam no
fundo do bolso de sua capa. Tentava fazer com que ele sempre jogasse com ela. Precisarei
de dinheiro.
— Quando chegaremos ao Panamá? — indagou ela ao capitão certo dia, enquanto um belo
clíper passava a oeste deles como um pássaro veloz, e, a leste, havia nuvens, ou terra,
calmos como um sonho.
— Deixe esses detalhes comigo — respondeu o Sr. Doveribbon, afastando-a do leme,
também observando o clíper com atenção. Na verdade, ele ergueu a mão em
cumprimento.
— Bonitos barcos, não? — perguntou ele. — Parecem pássaros, como a senhorita me
disse logo que nos conhecemos.
Ela olhou novamente para as velas brancas à distância e, com atenção, observou a
costa distante que se tornara visível naquele dia; supôs que estavam passando pelo
México: os charros haviam lhe mostrado, com orgulho, o México no caminho para a
Califórnia. Estavam próximos ao Panamá. Pela primeira vez ela o provocou:
— Preciso de roupas — declarou ela. — E linho. Coisas necessárias para as mulheres.
Preciso arranjá-las no Panamá. Isto é nojento.
Ele ficou envergonhado.
— Faça uma lista — orientou ele. Na mesma hora ela ficou alerta. Fazer uma lista? Para
quem? Não é certo que pararemos no Panamá? — Faça uma lista — repetiu ele de forma
categórica.
— Eu mesma gostaria de comprar essas coisas.
— Isso não será possível.
— Nós vamos trocar de barco no Panamá?
— Deixe esses detalhes comigo — respondeu o Sr. Doveribbon.
— Como uma pessoa sequestrada — começou ela com firmeza —, preciso saber se
viajarei de volta pelo istmo. Eu já fiz essa viagem uma vez, e o senhor não: deparei-me
com crocodilos, indígenas, cobras e o rio fumegante. Seria aconselhável me ouvir sobre
certos quesitos. E posso garantir ao senhor que lhe causarei muitos problemas se não
permitir que eu compre as roupas de que tanto preciso. Não acho necessário que eu exale
mau cheiro.
— Faça uma lista — repetiu ele pela terceira vez. — Mas posso lhe garantir que tenho
grande aversão por cobras. E não nos encontraremos com crocodilos. — Sem crocodilos.
Isso significava que não passariam pelo istmo. Por certo, ele não tinha coragem para
atravessar as selvas mexicanas com ela e já haviam deixado as montanhas para trás. Isso significava que planejava seguir por navio. Esse pequeno barco nunca contornaria o cabo
Horn ou o estreito de Magalhães, sobre o qual ouvira falar muitas vezes nas conversas dos
viajantes quando trocavam histórias de suas jornadas em manhãs ensolaradas e poeirentas
de Sacramento. De alguma forma ela tinha de escapar do Moe’uhane com seus 34 dólares e
fugir do Sr. Doveribbon: estarei pronta, apenas saltarei para o cais e correrei. Mas na mesma
hora ela se lembrou. Havia uma barreira do lado de fora da Cidade do Panamá: a maré e
as pedras tornavam o lugar muito perigoso para barcos se aproximarem: os navios
deveriam ancorar afastados da praia e os passageiros eram levados e trazidos por
pequenas balsas. Será que o Moe’uhane era pequeno o suficiente para passar pelas ondas e
pedras até a costa? Ou será que teria de ancorar? Qual era o plano? Algumas vezes, tentava
escutar as conversas dele com o capitão do Moe’uhane; mas eles paravam de falar assim
que ela se aproximava.
Gwenlliam traçou os próprios planos. Obrigou-se a lembrar de tudo que sabia sobre
o Panamá: havia muitos navios no porto e as balsas iam e voltavam da barreira o tempo
todo, transportando passageiros, mercadorias e animais. Muito bem. De alguma forma,
mesmo se tivesse de pular (afinal de contas, era uma acrobata), teria de ser transportada
também, se o Moe’uhane ancorasse na barreira. Ficava sempre alerta: à noite, trancava a
porta da cabine e também colocava um banco debaixo da maçaneta. Assim, ele não
conseguiria entrar sem que ela soubesse. Estava sempre alerta.
Mas não alerta o bastante. Sentia-se segura no convés, certa de que ele não lhe atacaria
na frente dos havaianos. Ela estava, na verdade, se inclinando pela grade do convés em
uma manhã ensolarada e clara na qual conseguia ver ao longe algumas das antigas
construções espanholas da Cidade do Panamá se aproximando, quando, de repente, foi
surpreendida com o cheiro estranho e doce e foi engolfada pela escuridão.