O Circo dos Fantasmas
Capítulo 5
— Pai, fiz algumas investigações sobre a tarefa que tenho em mãos e, francamente, creio
que ainda preciso de mais informações. E, talvez, mais dinheiro.
Os senhores Doveribbon pai e filho tiveram um jantar de despedida no clube do pai
na Strand Street e, agora, encontravam-se sentados em poltronas no salão, tomando vinho
do Porto e fumando charutos. Falavam em voz baixa sob o burburinho das conversas dos
demais cavalheiros. É claro que o Sr. Doveribbon não era membro de um dos clubes
mais exclusivos de Londres. Entretanto, aquele respeitável estabelecimento de advogados e
médicos bem relacionados possuía exclusividade e jamais concederia título de sócio a
comerciantes ou, digamos, atores. A Sra. Doveribbon, infelizmente, era morta. Assim, pai
e filho costumavam frequentar bastante o local, embora tivessem contratado uma
cozinheira e uma criada para a casa, que ficava em uma rua lateral à Wigmore, e elas
realizassem a maior parte das tarefas antes destinadas à Sra. Doveribbon. Talvez até todas.
— Já lhe dei todas as informações de que dispunha, James: meretriz, messalina, atriz
etc. etc. Você leu os jornais da época. Ela não cometeu o assassinato, é certo, mas
obviamente era uma meretriz e, o mais importante, alegava ser mesmerista, com todo o
engodo que isso significa. — Sr. Doveribbon pai tinha as costas largas. Mexeu-se na
poltrona de couro para ficar mais confortável e ouviu-se um som abafado, como se o
assento reclamasse. — Também lhe dei mais dinheiro do que um homem próspero
ganharia em dois anos. E Boston fica a pouco mais de duas semanas daqui! E, quando
encontrar Cordelia Preston, ela nos levará à joia que nos tornará homens riquíssimos!
Por um momento, ambos recordaram as palavras mágicas: dez mil libras.
— Tem certeza de que o duque cumprirá sua parte no trato?
O Sr. Doveribbon deu um sorriso e levou o dedo ao lado do nariz.
— Não sou advogado à toa. Eu mesmo redigi os documentos. Entregamos a garota a
ele junto com as informações do “sumiço” — ele insistiu nessas cláusulas —, e ele nos
entrega o dinheiro.
— E se falharmos?
— Como poderemos falhar? Você partirá de Liverpool amanhã, seguindo diretamente
para Boston, viajando de primeira classe em um confiável e conhecido navio a vapor. Em
Boston, começará a investigar os circos. Em cada circo, indagará sobre Cordelia Preston.
É bem provável, meu caro, que o pessoal do circo se conheça entre si. Se ela não estiver em Boston, você deverá partir para Nova York. A viagem não é longa. Se ela não estiver em
Nova York, você seguirá para Washington, que também não é longe. Afinal, não estamos
falando de uma missão difícil. Poderemos estar aqui tomando vinho do Porto juntos
novamente em pouco mais de um mês.
Sr. Doveribbon filho podia até ser considerado tolo por sua propensão por botas da
moda, festas elegantes e transações financeiras duvidosas apoiadas por sua posição
respeitável como sucessor do pai. Porém, como mencionado antes, não era burro. Havia
se preparado para a missão que tinha em mãos, deixando, inclusive, detalhes das
negociações imobiliárias em andamento com um conhecido de sua confiança. Visitou
diversos circos nos arredores de Londres. Era um cavalheiro bastante distinto e atraente e
não tivera a menor dificuldade em conversar educadamente com a trupe dos circos que
encontrara e conseguir informações com eles. Estava certo de que poderia falar de homem
para homem também com as trupes da América. Era um jovem muito confiante.
Acreditava que já tinha visto acrobatas e palhaços o suficiente e macacos adestrados para
saber no que estava se metendo. Já guardara na memória o cheiro estranho, forte e acre
do esterco de animais selvagens e exóticos. Entretanto, apesar da confiança que depositava
em si mesmo, estava ansioso.
— Pai, precisamos discutir mais a questão do... hã... sumiço.
Essa era a palavra que sempre usavam para se referir a Cordelia Preston, mesmo que
estivessem sozinhos: fazia com que a tarefa soasse menos cruel. Afinal, o que uma atriz,
messalina e meretriz com cabelo branco e preto significava para eles?
A cadeira de couro rangeu novamente.
— É claro que não deve tentar nada sozinho. Na verdade, você não deve ter
absolutamente nada a ver com o assunto. Não temos nada a ver com isso: colocaremos
apenas as engrenagens para funcionar. Você encontrará pessoas na América que ficarão
muito satisfeitas em ajudá-lo. Sabemos que se trata de um lugar selvagem e livre. Creio
que foi o Sr. Charles Dickens que disse que se pode comprar e vender qualquer coisa na
América se o preço for adequado. Em cada lugar para onde for, deverá se hospedar em
um bom hotel e começar suas investigações. Uma vez que encontrar a pessoa que
procura, e a joia, sua investigação deverá incluir a busca por pessoas dispostas a fazer
alguém sumir. Cada uma dessas três cidades que visitará conta com um porto. Dizem que
se pode encontrar todo tipo de gente nesses locais.
O Sr. Doveribbon pai parecia ter uma visão meio confusa acerca da América e dos
portos em geral, mas o filho não era insensato.
— A meu ver, pai, o senhor talvez esteja subestimando as dificuldades. Ao que sei,
mesmo a viagem marítima é repleta de perigos. Isso sem contar a busca por pessoas
dispostas a fazer o que precisamos em uma cidade estranha. — O jovem James
Doveribbon baixou o tom da voz, mesmo no salão barulhento. — Creio que eu precise de
uma arma.
Sr. Doveribbon lançou um olhar descrente ao ouvir a temeridade do pedido do filho.
— Você não deve, repito, não deve se envolver no sumiço!
— Estou falando de proteção para mim e não do sumiço em si.
Sr. Doveribbon pai, como mencionado antes, nunca se envolvia nos detalhes físicos e
obscuros. Sentia-se desconfortável com eles.
— James, você é um advogado respeitável e será o seu jeito agradável e, de fato,
charmoso que, acima de tudo, vai ajudá-lo, e não uma arma.
— Sou jovem, pai. O senhor está me enviando para um país bárbaro e sou inteligente
o suficiente para saber que não chegamos simplesmente nos portos e começamos a
perguntar sobre pessoas dispostas a dar sumiço em alguém. Eu deveria carregar comigo
algum tipo de arma. Encontrei uma adaga discreta, bem-feita, de excelente qualidade, além
de fácil de carregar.
— Você não deve ferir a garota!
— Não estou falando da garota. Ela não será de nenhuma serventia se eu não a trouxer
de volta sã e salva. Sei disso.
Sr. Doveribbon pai pensou um pouco.
— Quanto?
James Doveribbon pensou rápido. Ainda precisava de dinheiro para os detalhes de
negócios em Edgware Road.
— Trata-se de uma adaga extraordinária. Vinte guinéus.
A cadeira do pai rangeu em alarme.
— Vinte guinéus!
— Trata-se de lindo punhal que pode ser facilmente escondido nas minhas roupas.
Sr. Doveribbon pai não acreditava existir punhal no mundo que pudesse custar vinte
guinéus. Todavia, James era seu filho e herdeiro e estava prestes a embarcar em uma
viagem importante e lucrativa. Concordou com a cabeça.
O filho sorriu.
— Darei o melhor de mim para cumprir nossas obrigações nesta questão — disse ele.
E as palavras mágicas pairaram no ar uma vez mais: dez mil libras.
— E James. — Sr. Doveribbon pai olhou para o filho. — Nunca... Como posso dizer
isso de forma precisa? Nunca subestime a atração que exerce sobre as mulheres. Você
pode conseguir... hã... ainda mais do que esperamos com a herdeira de grande parte de
Gales... Na verdade, creio que nossos planos talvez requeiram champanhe! — E fez sinal
para o garçom.
Sr. Doveribbon filho parecia convenientemente simples ali no clube do pai na sua
última noite em Londres, mas tinha nos lábios um sorriso convencido enquanto o
garçom trazia o líquido borbulhante e dourado para celebrarem. A poltrona do pai
rangeu uma vez mais, antes deste se acomodar e suspirar.