O Circo dos Fantasmas
Capítulo 41
O inspetor Rivers estava nas docas. Monsieur Roland estava nas docas. Rillie e Regina
estavam nas docas. Cordelia dissera que se encontraria com todos lá. La Grande Celine
estava na cozinha ajudando Maybelle, enquanto Blossom cuidava de Danny. Então,
Cordelia foi sozinha para Cherry Street.
Caminhou pela rua onde George Washington dançara (segundo Arthur lhe contara).
Caminhou em direção a um beco escuro entre duas construções: ela não sabia, nem teria
acreditado, que a passagem estreita e suja se chamava Paradise Alley. Caminhou sobre o
lixo. Não sabia que costumavam jogar cinzas quentes sobre estranhos, que, depois,
tinham todos os pertences roubados. Sua capa clara se destacava e se ocultava conforme
passava por trechos ora iluminados ora sombrios até chegar a um bloco enorme e
decrépito com janelas quebradas e penduradas de forma precária. Viu uma abertura onde
outrora existira uma porta. PARADISE BUILDINGS, dizia a placa quebrada. Arthur lhe
contara muitas coisas sobre a cidade: talvez ele tenha lhe contado algo sobre Paradise
Buildings? Será que esse era o prédio em que todos os banheiros ficavam no porão?
Recusava-se a sentir medo. Por que eu deveria estar com medo? Trata-se apenas de um prédio
residencial. Pessoas moram aqui e eu estou procurando por Bridget O’Reilly. Recusava-se a
pensar em qualquer coisa que não fosse curar Danny O’Reilly para que ele pudesse pensar
de forma coerente e clara sobre a Cidade do Panamá. Como não vira Gwenlliam lá, que
outro tipo de informação o rapaz poderia lhe dar? Será que estou ficando louca? Não. Estou
fazendo isso por Gwennie. Ela avançou em seu caminho. Na porta, viu que poderia seguir
em frente ou descer escadas que a levariam para porões escuros e fétidos.
Pessoas nas janelas mais altas olhavam, surpresas, enquanto a mulher solitária entrava
pela porta escura. Foi o cheiro que a atingiu primeiro: um odor fétido e nojento de
corpos, fezes, comida estragada e decadência: parecia subir por entre as tábuas do piso,
vindo diretamente do porão. Sentiu ânsia de vômito. Viu uma fileira de portas, passagens
estreitas tão escuras quanto o céu à meia-noite. Estava ciente do som da respiração de
pessoas na escuridão. A única claridade vinha da capa que usava enquanto se movia na
penumbra e adentrava o prédio, tentando encontrar alguém, qualquer pessoa.
— Olá — chamou ela, mas a voz ficou presa na garganta e não conseguia afastar a
sensação de que iria vomitar. Por fim, levou a luva ao nariz.
O coração batia, descompensado. Uma luz brilhou na escuridão: ouviu vozes
O coração batia, descompensado. Uma luz brilhou na escuridão: ouviu vozes
gritando, crianças chorando. Seguiu em frente e viu uma pequena escada para o andar
superior. O corrimão estava quebrado e pendia precariamente, uma viga comprida parecia
sustentar a escada. A luz do sol entrava por um tipo de claraboia e iluminava os degraus.
Sentiu algo correr sobre seus pés e soltou um grito abafado. Uma vez mais, sentiu a
respiração de alguém bem próximo a ela, mas oculto nas sombras. Talvez aqui seja o lugar
onde cortam a orelha das pessoas. Como pude pensar em vir até aqui sozinha?
— Olá — chamou ela, novamente, mas a voz demonstrava que estava aterrorizada.
Por fim, alguns homens lhe barraram o caminho. Ela arfou. Poderia jurar que um
deles simplesmente se materializara a sua frente, como que surgindo do chão: sob a luz
que brilhava acima da escada quebrada, ele pareceu emergir das tábuas do chão, saindo da
escuridão, com lama e água escorrendo da pele, como se fosse um grande peixe. Seus
olhos se ajustaram à penumbra e o feixe de luz que vinha do telhado iluminou os rostos
que a encaravam. Rostos sujos, zangados e jovens. Respiração. Perigo. O brilho dos
brincos. O som da água. O fedor. Mas ela respirou fundo para acalmar as batidas do
coração.
— Procuro por Bridget O’Reilly ou Kenny O’Reilly.
Os homens estreitaram o olhar.
— Por quê? — perguntou um deles.
— É aqui que moram? Fui informada de que vivem por aqui.
— Por quê? — repetiu outra voz.
— Trago uma mensagem para eles. — Engoliu em seco. — Uma mensagem para Bridget
O’Reilly do seu filho.
— Nome?
— Danny. — Engoliu em seco de novo. — E Johnny.
Naquele momento, um dos homens deu um passo à frente, aquele que emergira do
chão. Lama e água ainda escorriam por suas roupas.
— Onde eles estão? — perguntou.
Parecia ser o líder. O feixe de luz revelou um rosto cruel. O brilho dourado do brinco
que usava na orelha parecia ameaçador. Ainda assim, ele não passava de um jovem, não
muito mais velho do que Danny O’Reilly, e sua voz era de garoto.
— Preciso conversar com a mãe deles.
— A senhora é uma mulher pomposa que acha que pode ir entrando em nossa casa,
madame. A senhora nos vê entrando na sua?
— Oh, sim. Sim. Eu sei disso. Sinto muito. Danny está muito doente e precisa ver a
mãe. Prometi a ele que viria até aqui para encontrá-la e levá-la até ele.
Sentiu que eles a analisavam. Talvez tenha vislumbrado o brilho de uma faca. Naquele
momento, percebeu que cometera um terrível erro, terrível. Talvez o mais terrível de toda
sua vida. Então, aquele jovem que parecia ser o líder deu mais um passo para a frente e a
olhou com mais atenção. Ele a encarava: algo, algo em seu rosto, no seu olhar, ela
percebeu um brilho de reconhecimento: será que eles têm como saber que sou a esposa de um policial? Os pensamentos pareciam gritar dentro de sua cabeça. Como eu imaginei que
poderia fazer algo desse tipo? O homem ainda a encarava.
— Eu já a vi antes — declarou ele, devagar. E repetiu as palavras, demonstrando certo
desassossego. — Eu já a vi antes. — Ele a olhou na penumbra. — A senhora não
trabalhava naquele circo?
Uma voz estranha, de repente, soou na escuridão:
— Charlie!
Então, uma figura alta se materializou atrás deles.
— Inglesa, não?
— Sim. — A figura alta cuspiu e um perdigoto respingou no braço de Cordelia.
— Eu sou o único rosto inglês aceitável em Paradise Buildings. — A voz era profunda,
rouca e estalava como fogo. E a voz começou a declamar uma série de impropérios
imundos sobre a Inglaterra e os homens riram e ouviram. A declamação terminou assim:
— Onde você mora, inglesa do circo?
E Cordelia ouviu o clique de uma arma: o homem ia atirar nela.
Algum instinto despertado pelo terror e pelo senso de preservação não apenas pela
sua segurança, mas também pela dos demais, a fez dizer:
— Cheguei da Califórnia. Danny O’Reilly está doente e quase morreu. Prometi que
traria uma mensagem. — Sentia o suor escorrendo pelo corpo: Tenho de sair daqui. —
Peço desculpas pela invasão. Por favor, diga à mãe dele, ou ao seu irmão, que eu os
aguardarei no Bowling Green Park, próximo ao chafariz.
— Perto da estátua quebrada de George, aquela que usamos para fazer as balas que
mataram seus soldados!
— Sim. Ali. Meu nome é Cordelia.
— Cordelia? — A figura alta nas sombras a olhava com cuidado e demonstrando
surpresa. — A senhora se afogou alguma vez?
Cordelia sentiu os cabelos da nuca se eriçarem e o coração disparar no peito. Mas
algo, algum instinto instantâneo a fez responder:
— Não. Não. Quem se afogou foi Ofélia.
A figura alta e selvagem riu de maneira muito estranha.
— Ora, ora, ora. Uma lady que conhece Shakespeare. — E sem qualquer pausa a voz
rouca declamou:
Creio vos conhecer e, assim, a este homem,
mas em dúvida me acho, pois ignoro
de todo onde me encontro, sem que possa
lembrar-me destas vestes.
De igual modo não sei onde passei a última noite.
Oh! Não riais de mim! Porque tão certo como eu
ser homem, quer afigurar-me que esta dama
é Cordelia, minha filha.*
Ao que Cordelia sem perder o ritmo, respondeu:
Sou ela mesma, meu senhor, sou ela.
E a figura alta riu de novo e deu um passo em direção ao feixe de luz. Cordelia ouviu um
som de metal e, naquele momento, percebeu que falava com uma mulher: o rosto era
frio, duro e selvagem; suspensórios se esticavam sobre os seios para segurar sua saia.
Uma mulher. E ela tinha uma pistola na mão e várias facas na cintura.
— Salva pelo poeta, Cordelia! — exclamou a mulher. — Mas só desta vez. Agora suma
daqui.
— Obrigada — murmurou Cordelia, virou-se e caminhou pela passagem estreita,
comprida e escura, sem saber se realmente fora salva por saber algumas falas de Rei Lear
de Shakespeare ou se uma bala ou uma faca lhe arrebentariam as costas. Conseguia ver a
luz do dia mais adiante, através da abertura da porta e se conseguisse chegar até ali, se não
caísse, nem desmaiasse de medo. Continuou caminhando, não se permitiu correr.
Chegou à porta; ainda estava viva. Ao longo do caminho lamacento próximo à porta e nas
sombras do beco entre os prédios, continuou andando, ainda sem se permitir correr.
Seguiu pela Cherry Street. Não se atrevia a procurar Arthur. Certamente estava sendo
seguida. Também não se atrevia a voltar para Maiden Lane. Enquanto o sol a iluminava,
Cordelia Preston apenas caminhou sem rumo. Por fim, se encontrou em Pearl Street,
onde parou e comprou uma bebida em uma loja. Chegou ao início da Broadway, passou
pelos trilhos de ferro e entrou no Bowling Green, onde realmente havia apenas a base da
estátua de George III. Sentou-se em um banco de ferro sob a sombra abençoada de uma
árvore e chorou por muito tempo, mas os soluços eram de alívio. Então, abriu a garrafa e
bebeu tudo.
Então, aguardou.
Eles vieram quando o sol já se punha. Ela os viu assim que se aproximaram: uma senhora
idosa (que deveria ser mais jovem do que Cordelia) mancava em um caminhar apressado,
quase uma corrida em direção a ela e o homem era jovem, como Danny. Cordelia ficou
de pé e ergueu o braço.
— Foi a senhora que veio nos procurar?
— Sim. Meu nome é Cordelia.
O homem disse de forma rude:
— Bem. Onde eles estão?
— Silêncio, Kenny. — Mas ela ergueu o olhar para Cordelia e repetiu a pergunta: —
Onde eles estão? — Ela parecia ansiosa. — Onde estão os meus meninos?
Cordelia estava tão cansada por falta de sono, pelo medo e pela bebida que tomara;
além de estar zangada consigo mesma pelo papel ridículo e idiota de se envolver em tudo
isso quando deveria estar nas docas junto com os outros, que tudo que queria era apenas
acompanhá-los até Maiden Lane e sair de novo. Olhou, porém, para o rosto da mulher,
tão maltratado pelo tempo, e se lembrou do que o filho dela fizera por ela e sabia que não
poderia fazer aquilo.
— Por favor — começou ela. — Bridget e Kenny, sentem-se aqui e permitam que
explique o que aconteceu.
Eles se sentaram, um pouco desconfiados. Da forma mais clara que podia, contou a
eles a história. Tentou ser bem gentil ao contar que Johnny morrera meses antes, nas
minas de ouro de Sacramento. A mãe urrou como um animal e fez o sinal da cruz,
lamentando-se. As pessoas que estavam nos jardins olharam para ela.
— Mas Danny está vivo, Bridget! E ele precisa de você. — Explicou que Danny voltara
para Nova York e que estava muito doente, mas que já estava melhorando e que ela os
levaria até ele. Contou que estava ali porque Danny lhe trouxera uma carta muito
importante com notícias de sua filha na Califórnia. Não revelou o conteúdo da carta.
Lembrou-se novamente da sujeira e da sordidez de Paradise Buildings. — As pessoas que
estão tomando conta de Danny estão felizes em fazê-lo. Mas ele precisa de vocês dois.
— Então, vamos — disse Kenny, levantando-se. O rosto da mãe estava sombrio. Ela
não disse nada.
— Eu contei a vocês a história de Danny — continuou Cordelia — porque acho que
não é nada fácil para ele falar sobre essas coisas.
E, em silêncio, caminharam até Maiden Lane.
— Uma negra! — exclamou Kenny quando viu Blossom.
— Mamãe! — sussurrou Danny quando viu Bridget O’Reilly.
— Contei a eles o que aconteceu, Danny — informou Cordelia, enquanto liberava
Blossom para sair do pequeno quarto e fechava a porta para dar privacidade à família.
Celine estava no salão de jantar. Cordelia deu uma explicação rápida sobre a família de
Danny e sobre Paradise Buildings.
— Tenho de voltar para as docas — disse Cordelia. — Alguma novidade?
— Nada de novo — respondeu Celine. — Você parece uma morta-viva, Cordelia! Pelo
menos, tome um pouco de café antes de ir. Você também, Blossom. Você e Maybelle
tomaram conta de Danny e fizeram um ótimo trabalho.
— Nós fez o que qualquer um faria — disse Blossom, encolhendo os ombros. —
Mesmo para um irlandês imundo. — E abriu um meio sorriso. — Vou chamar Maybelle.
— E ela desceu as escadas até a cozinha no porão.
Cordelia fechou os olhos. Quando os abriu, sobressaltada, achou que a mulher com a
saia presa por suspensórios estava ali. Mas era apenas Celine, com uma caneca de café.
— Eu adormeci?
— Adormeceu sim. Apenas por cinco minutos, mas estava tendo um pesadelo!
Cordelia Preston, você foi sozinha a Paradise Buildings?
Cordelia confirmou com a cabeça.
— Eu sei, sei que devo estar louca. Fiquei aterrorizada.
— Nem mesmo policiais vão até lá sozinhos, Cord!
— Nem eu, posso assegurar a você. Nunca mais. Não conte a Arthur.
Um pequeno grupo apareceu na porta: Bridget e Kenny, cada um segurando um braço
de Danny. Kenny carregava a pequena bolsa arrebentada de Danny com as pepitas.
La Grande Celine voltou-se para eles. Cordelia viu como Bridget e Kenny olharam
para o tapa-olho.
— Oh, por favor, deixem que fique mais um pouco. Ficaremos felizes em continuar
olhando por ele — ofereceu Celine.
Danny deu um meio sorriso.
— Quero ir para casa com a minha mãe — declarou. Ele olhou em volta da sala. — E
diga para aquelas duendes pequenas e engraçadas que tomaram conta de mim que eu farei
uma oração para Santa Maria por elas.
Cordelia caminhou até Danny e lhe deu um beijo no rosto.
— Obrigada por sua coragem e bravura e pela rapidez com que me trouxe a carta —
agradeceu ela.
— Eu tinha de fazer isso pelo anjo — disse ele. — Também rezarei por ela. — Ele se
apoiava no braço de Kenny. — Tentei me lembrar de mais coisas sobre o Panamá,
senhora, mas estou tentando esquecer de tudo. Nós ficamos lá por alguns dias. — Ele
lançou um olhar rápido para a mãe. — Como eu já disse. A cidade estava cheia de gente,
todos brigando para partirem por uma ou por outra rota. Conhecemos pessoas a
caminho das minas de ouro, todas com aquele olhar esperançoso. Pobres coitados.
Ficamos felizes de partir, a cidade do Panamá enlouquece as pessoas. Nós
enlouquecemos. A única beleza que vimos por lá... A senhora sabe que os grandes navios
têm de ancorar fora das docas por causa da barreira? Então, a única coisa bonita que
vimos foi um clíper grande e branco, ancorado bem na barreira, aguardando para voltar
para casa.
— Um clíper?
— Sabíamos que viria para casa porque conversamos sobre tentar seguir nele, já que
era rápido e tudo e eu tinha de trazer a carta, mas é claro que eles transportam cargas,
assim como passageiros, e não havia lugar.
— Um clíper?
— Lindo. Veleja como a neve à distância.
— Será que esse clíper tinha um nome? — perguntou Cordelia em voz baixa.
— Claro e nós tínhamos olhos de telescópio! — exclamou Danny. Sua mãe estava ao
seu lado segurando firme o braço do filho. O rosto dele estava corado. Caminharam
lentamente até a grande porta da frente.
— Esperem! — pediu Cordelia, que também estava corada. Ela retirou a pepita em
forma de lesma do bolso. Caminhou até a mãe.
— Bridget O’Reilly.
— Partiremos para casa agora, senhora.
Mas Cordelia segurou a outra mão da mulher.
— Aqui Bridget. — E ela colocou a pequena pepita na mão da mulher, uma mão que
poderia ser mais jovem do que a de Cordelia, mas que estava marcada pelo sofrimento e
pela idade. As unhas tinham pontas pretas e estavam quebradas. — Danny lhe contará a
história dessa pepita de ouro. Ela pertenceu a Johnny. Eu gostaria que ficasse com ela. Se
minha filha for encontrada será graças ao seu filho, Bridget O’Reilly.
— Eu acabei de lembrar, senhora — disse Danny, enquanto a mãe chorava, segurando
a pepita. — O clíper que admirávamos, acho que se chamava Sea Bullet. Gostamos do
nome. Sea Bullet.
E Cordelia partiu em direção às docas.
— Existe... Como será que chamam isso? Será que existe uma tabela de navios? Um
cronograma de partidas e chegadas? — perguntou Monsieur Roland, no cais do rio East
com Alfie, Arthur e Cordelia com suas notícias. Seus olhos agora pareciam brilhar no
rosto pálido. — Uma tabela que pudesse nos dar mais informações sobre os clíperes?
— Programação de embarques — disse Alfie, que conhecia bem esse meio. —
Programação de embarques servem apenas como guias, é claro, mas esses clíperes
costumam trazer cargas valiosas. Não são grandes carregamentos, sabe? Mas cargas
valiosas para nós: temperos, joias, chá. E, certamente, ouro da Califórnia. Então,
acompanhamos o seu caminho da melhor fora que conseguimos. E, é claro, todos ficam
muito orgulhosos da velocidade dessas embarcações, então estão sempre comparando os
recordes. — Como sempre, Alfie retirou vários documentos de sua bolsa. — Acabei de
verificar mais uma vez a história de Danny. Sabemos que há um clíper para chegar, ele traz
passageiros e carga. Estamos quase certos de que se trata do Sea Bullet, mas não sabemos
quando, pois ainda não passou por Washington ou teríamos recebido um telegrama. —
Alfie falou como se fosse o proprietário dos negócios marítimos de Nova York.
Arthur disse:
— Li outra vez a carta de Peggy Walker. Se pudéssemos pensar como o Sr.
Doveribbon, e é claro que podemos, afinal, somos ingleses! Então, acho que ele é o tipo
de homem que, com certeza, procuraria saber quando um clíper partiria de São Francisco
para conseguir fazer uma viagem mais rápida. Assim, ele teria como planejar a época certa
de sequestrar Gwenlliam. Seria arriscado demais subir a bordo de um navio em São
Francisco quando todos estariam procurando por ela. Mas, se ele tivesse conseguido
deixar São Francisco em um barco menor bem antes e cronometrado bem as coisas, eles
poderiam pegar o clíper no Panamá. Danny disse que o Sea Bullet ficou ancorado. Então,
ele deve ter parado para pegar passageiros ou suprimentos, mas poderia ter pegado esses suprimentos em São Francisco. De acordo com Peggy Walker, o Sr. Doveribbon reclamara
sobre a duração da viagem, mas dissera que não atravessaria florestas tropicais. A boa e
velha Peggy. Ela nos contou mais na carta do que imaginava. Ou talvez tenha imaginado.
— Mas também temos de verificar os navios vindos de Chagres — interveio Cordelia.
— Não podemos supor nada.
— É claro. Mas, Cordelia, podemos presumir que o Sr. Doveribbon esteja bastante
preocupado com o bem-estar de Gwenlliam e acho que você deve se segurar nessa certeza.
Arthur vinha para casa por breves instantes no início de cada noite para que todos
trocassem as notícias. E era apenas nesses momentos que o viam se não o encontrassem
nas docas. Embora ele estivesse alojado na Delegacia de Polícia, sabiam que não dormia
há dias: se não estivesse sempre atento, Gwenlliam poderia estar perdida para sempre. Seu
rosto estava pálido e sulcado.
— Temos de torcer e rezar para que Gwennie esteja viajando naquele navio — disse
Arthur e ele viu o rosto pálido e os olhos brilhantes da esposa. Cordelia não contou a
eles sobre a mulher selvagem que perguntara se ela não havia se afogado. — Estaremos
aqui para ela, Cordelia. Se ela estiver a bordo do Sea Bullet, nós a encontraremos. — Ele
suspirou, por fim, enquanto o cansaço e a preocupação pareciam tomar conta dele. —
Bem, se ela não estiver a bordo do Sea Bullet, então, teremos de verificar todas as
chegadas.
Eles planejavam tudo sem contar com a garota sensata e corajosa que procuravam e
sem o apoio inventivo da Sra. Ray, a estrela de “The Bandit Chief”, do Royal Theatre, Nova
Zelândia.
Nota
* Shakespeare, Rei Lear. Ato IV, Cena VII. (N.T.)