O Circo dos Fantasmas
Capítulo 16
Silas P. Swift era desconfiado por natureza. Não se tornara um bem-sucedido empresário
circense sem aprender muitas coisas: poderia ser malicioso, assim como desconfiado, se
assim lhe conviesse. Detestava que o questionassem quando não entendia os motivos para
isso. Felizmente, acabara de vender o urso branco comedor de gente e ninguém lhe fez
perguntas. Quando um daqueles pedantes (palavra que havia aprendido com os caubóis
mexicanos — junto com seu rude significado) cavalheiros ingleses apareceu em seu
escritório, sem bater, e majestosamente perguntou o paradeiro de Cordelia Preston, sem
mais explicações, Silas o encarou em silêncio.
Sr. Doveribbon olhou à sua volta. O “escritório” consistia, na verdade, em uma grande
confusão de jaulas, caixas, papéis, lixo, com um homem grande de bigode sentado atrás
de uma bizarra mesa, feita com caixas e latão, abarrotada de coisas, a qual ficava no centro
do aposento. Sr. Doveribbon podia ouvir alguns macacos guinchando, mas não conseguiu
vê-los.
— O senhor é Silas P. Swift?
— O urso já foi vendido. — informou Silas.
— Não desejo comprar um urso, e também não possuo macacos performáticos.
— Já comprei os macacos.
Os macacos continuaram guinchando em algum lugar confirmando a informação.
— Minha missão é outra. Estou à procura de Cordelia Preston.
— É mesmo?
— Sim.
Silêncio.
— Eu trago notícias... Notícias vantajosas para ela.
— Então, é só me dizer do que se trata e tentarei fazer com que as notícias cheguem até
ela assim que encontrá-la.
— Não, não, o senhor não entendeu, Sr. Swift. Presumo que seja o Sr. Swift ou será
que estou perdendo o tempo de ambos? — Silas apenas o fitou. — É urgente, tenho
informações para a filha dela. O senhor talvez não saiba, mas ela tem uma filha. Tenho
notícias maravilhosas para a garota, muito vantajosas.
Os pelos do pescoço de Silas Swift se eriçaram em alarme. Certamente não queria, a
essa altura, que ninguém fornecesse informações para Cordelia e Gwenlliam a não ser ele mesmo: planejava visitá-las naquele dia mesmo para lhes explicar sobre a próxima
apresentação delas no circo. Aquele indivíduo não devia saber muito sobre elas já que
não sabia que Gwenlliam também trabalhava no circo.
— Não tenho ideia de onde elas possam estar, camarada.
— Cordelia Preston fez uma turnê com seu circo e notei que o senhor agora não está
apenas vendendo animais, mas também comprando novos, o que me leva a crer que o
senhor tem planos futuros.
— Não sei seu nome, camarada.
— Doveribbon, Sr. James Doveribbon. — E o inglês fez uma inesperada e pedante
(palavra de Silas) reverência.
— Bem, Jimmy, deixe uma mensagem e eu tentarei fazer com que a recebam. É o
máximo que posso fazer pelo senhor.
— Elas estão em Nova York?
— Não, não, elas já partiram.
— Para onde?
— Eu não sou dono delas, Jimmy. Posso ser dono de ursos e de elefantes também.
Agora também de macacos, se conseguir suportar esses cruéis sodomitas. Mas não dono
de mulheres.
Sr. Doveribbon compreendeu que estava sendo enganado, mas percebeu que não
conseguiria mais nada àquela altura. Silas P. Swift, porém, não escaparia agora que
encontrara a sede de seus negócios.
— Eu tive o cuidado de escrever uma carta — disse ele em tom suave. — Talvez o
senhor possa fazer a gentileza de entregá-la para mim. — E colocou a carta selada sobre a
mesa abarrotada de coisas com ar de desgosto.
— Tenha um bom dia, senhor.
Assim que o inglês partiu, Silas abriu a carta.
Prezada Sra. Preston,
Trago excelentes notícias. A presença imediata de sua filha se faz necessária em Londres para receber um benefício financeiro. Preciso encontrar-me com a senhora
urgentemente. No momento, estou hospedado no American Hotel, na Broadway. Permaneço seu respeitoso criado,
James Doveribbon, (Ilmo.)
— Somente sobre o meu cadáver — declarou Silas, rasgando a carta em pedacinhos e
os espalhando pelas jaulas e caixas. Um macaco que havia acabado de fugir defecou sobre
o envelope: quando Silas o capturou, o animal furioso tentou morder seu rosto.