O Circo dos Fantasmas
Capítulo 32
Queridos mamãe e Arthur, Rillie e Monsieur Roland e Regina e Sra. Spoons e La Grande Celine e Alfie Tyrone (ou George Macmillan), se estiver por perto, e Frankie Fields, se ele também estiver de passagem vindo da delegacia de polícia.
Recebi mais cartas. Agora sei que estão planejando com Celine um jantar para Alfie e sua família. Oh, Regina, eu gostaria de estar aí e conhecer todos. Bem, voltarei um dia. Também quero muito saber como o FALE COM O MESMERISTA está indo; isso talvez mude o mundo! Vocês não sabem o que as cartas significam para mim; as de todos vocês e as suas, querida mamãe.
Estou em São Francisco agora e escrevo apenas uma carta rápida porque um dos novos clíperes partirá esta noite e quero enviar algo em outra Bíblia Sagrada! Dizem que esses navios podem contornar o cabo Horn e seguir até Nova York em menos de cem dias se os ventos forem favoráveis! É mais rápido do que os navios a vapor! Que navio lindo é este Greyhound, parece um pássaro com suas velas, eu estava agora no cais olhando para ele e parte de mim deseja voar com ele para vocês, junto com essa carta... “Silas”, eu digo — assim como muitos outros, principalmente Pierre, o Pássaro, que odeia este lugar — “vamos voltar para casa agora, todos ganhamos dinheiro e as coisas estão mudando por aqui”, mas Silas diz: “Logo,
logo, mas ainda não...” Eu já disse para vocês quantas pessoas chegam aqui todos os meses e ainda chegam aos milhares em resposta ao chamado do ouro. Quinhentas “damas de tavernas” chegaram ontem, diretamente da Austrália.
— Pierre, o Pássaro? Ele quer voltar para casa? — e a voz de Celine estremeceu um pouco
enquanto interrompia a leitura.
Olhou para Cordelia em busca de confirmação. Cordelia confirmou com a cabeça
rapidamente:
— Foi o que ela disse.
E prosseguiu com a leitura.
E aqui novamente está o meu ouro. Espero que o Senhor não se importe que eu envie o ouro deste modo. Todo mundo sabe que milhares, provavelmente milhões, de dólares saem da Califórnia — ainda dizemos entre nós que é o dinheiro das lojas de bebida e dos salões de jogos! —; esperamos que os mineradores também enviem bastante dinheiro para suas famílias já que estão fazendo um trabalho difícil e perigoso. O prédio do banco ficou enorme nesse tempo que ficamos aqui.
As chuvas chegaram, conforme esperado, e quando chegaram não pararam mais. Silas, porém, estava preparado e nós e os animais e a Grande Tenda estávamos em uma balsa descendo de Sacramento para São Francisco antes que tivéssemos tempo para pensar. Parece que o nosso circo é melhor do que o outro e nós também estamos indo bem em São Francisco! Mas faz muito frio aqui nesta época do ano e estamos felizes de estarmos hospedadas, Peggy e eu, em um grande hotel. São Francisco mudou muito nos poucos meses desde que chegamos: mais ruas, mais casas, mais hotéis — e tavernas e lojas de bebida, é claro! E muitos dos grandes veleiros — barcos de carvão e de pesca — que estavam abandonados no cais logo que chegamos porque as tripulações queriam participar da corrida ao ouro — foram comprados por pessoas de bom senso — que os usam para pegar passageiros e mercadorias no Panamá — não apenas porque ainda há muitas pessoas e cargas
aguardando no Panamá, mas porque alguns dos primeiros mineradores estão partindo agora, voltando para casa com o ouro que conseguiram, pois não gostam do que está acontecendo por aqui e eu não os culpo. Muitos americanos já chegaram vindos de todas as partes deste enorme país e agora há um sentimento ruim contra os “estrangeiros” — mesmo que a Califórnia fosse, até pouco tempo atrás, um território mexicano... Agora eles estão cobrando impostos dos mineradores estrangeiros, dizendo que o ouro pertence apenas aos americanos, mas metade dos mineradores é formada por mexicanos, chilenos, peruanos, brasileiros, ingleses e franceses e pessoas de muitas outras nacionalidades... Nossos charros estão inquietos, dois deles abandonaram o circo. E os recém-chegados matam índios (que costumavam ajudar no início) como se eles fossem animais. O cacique Great Rainbow quase não fala agora, nem joga muito pôquer. Costumo vê-lo depois do show, sentado sozinho na escuridão, fumando tabaco e acho que o que ele viu aqui o desiludiu. E há muitas brigas e muita
violência. Para ser sincera, não acho mais as coisas por aqui excitantes como logo que cheguei — mas, sim, cada vez mais difíceis e perigosas e não há mais tantas risadas quanto antes. Mesmo quando nós chegamos, as pessoas já diziam “Oh, vocês não pegaram a melhor época” — mesmo que ainda houvesse muito ouro a ser descoberto, e agora somos nós que meneamos a cabeça como os mais antigos e dizemos “ah, os melhores dias se foram” — mesmo que ainda haja ouro! Lembra-se de quando aqueles mineradores pegaram a pequena pepita parecida com uma lesma que enviei? — é isso que quero dizer: não consigo imaginar algo como aquilo acontecendo agora, não temos mais aquela atmosfera.
Embora muitas pessoas ainda venham ao circo, Silas teve de diminuir o preço das entradas para 2,50 dólares (2,50 por uma entrada! Ainda é uma fortuna, não é?) porque agora os mineradores não estão recebendo e a riqueza da cidade se baseia totalmente na chegada deles com ouro. Várias vezes, alguns deles tentaram voltar a Sacramento, mas a cidade está inundada pela água das chuvas de inverno. Pequenos barcos sobem pela rua principal, é o que nos dizem. Tudo o que as pessoas fazem é olhar para o céu à espera da primavera.
Mas ele — Silas — me pagou novamente e, portanto, aqui estão as pepitas dentro da bíblia e tenho certeza de que logo
receberei uma carta dizendo que este “ouro sagrado” chegou em segurança — principalmente, tendo partido no lindo clíper que aguarda esta carta que escrevo e que será enviada em um dia com muita neblina e ventos.
Envio todo meu amor. Penso sempre em vocês todos. Mamãe, para você, um abraço apertado.
Gwenlliam.