O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 50 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 49

 

 

Em todos os lugares de Londres eram publicadas rapsódias poéticas gratuitas.

 

Que Mercado! Que atração! Que acordos valiosos!

Que excêntrica multidão, e que produtos preciosos!

Oh, que exuberantes tesouros vindos de terras distantes

Neste Palácio Industrial, os júbilos devem ser abundantes!

O dever da lealdade à Britânia até a morte

Pelo leste e pelo oeste, pelo sul e pelo norte;

Nações reunidas para testemunhar tal dádiva

De ordem e ostentação, nesta ilha cálida!

Onde negociantes aos milhares vêm do além-mar,

Para mostrar seus produtos nesse poderoso Bazar!

 

Foi previsto em certos círculos que a Ira de Deus certamente atingiria aquela construção

ousada, arrogante, provocante, insolente e atraente feita de vidro que se erguia, como um

milagre brilhante, em Hyde Park, Londres. Entretanto, Deus deve ter segurado a mão, pois

a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de todas as Nações foi inaugurada,

conforme o planejado, em 1º de maio de 1851.

 

Vejam! Chegaram à nossa afortunada terra pelo mar

Nações adventícias peregrinam e põem-se a se espalhar,

Dispostos a insurgência, prontos para prestar auxílio

E ensinar John Bull a arte da barricada, grande utensílio

Vire-se e perceba quantos trajes estranhos surgem de repente.

Que figuras extravagantes alegram nossos olhos indolentes:

Turcos, persas, russos — se um bom leitor fores

Examine a frente da quadrilha de Jullien e suas cores:

E, então, contemple, turbantes, saiotes, túnicas;

E melhor ainda, sem uma imundície nativa única.

 

O PALÁCIO DE CRISTAL era como todos chamavam a construção (embora, conforme

já mencionado, ela tivesse sido feita de vidro. Também não era um palácio, apenas um

salão de exposições). Tratava-se de um projeto maravilhosamente belo: as pessoas arfavam

quando entravam e viam ulmeiros se erguendo para o teto, flores se abrindo, palmeiras

inclinadas, fontes jorrando água e luzes iluminando os 293.655 painéis de vidro.

Infelizmente, os pardais também acharam a construção bonita (e quente) e entraram

no vasto espaço antes de o teto ser finalizado. Apesar da valiosa sugestão do duque de

Wellington de usarem gaviões, algumas das exposições foram, de alguma forma, atingidas

pela sujeira. Então, houve muita limpeza e polimento de centenas e centenas de ofertas

britânicas e estrangeiras que foram colocadas na construção imensa, brilhante e iluminada

antes que Sua Majestade Rainha Vitória e seu séquito real chegassem à abertura oficial.

Enfrentaram uma dificuldade particular com o relógio despertador silencioso: a cama que

acordava a pessoa ao se inclinar para o lado; foi necessária uma limpeza especial do

aparelho para que a invenção funcionasse da forma espetacular que fora anunciada.

Também foi um azar que a exposição russa não estivesse pronta para a abertura: o navio

em que estavam sendo transportados ficou preso no gelo em algum lugar ao norte da

Inglaterra durante semanas (embora dissessem que ele já estava a caminho, trazendo, entre

outras peças um manto de pele de raposa prateada do próprio czar). Era verdade que

havia incontáveis estátuas de mármore que precisavam ser expostas, e a Rainha Vitória teve

de erguer a cabeça muitas vezes, não só para ver tais estátuas, mas também numerosos

jarros, chaleiras e tapeçarias. Por fim, porém, durante a manhã, a prensa do London

Illustrated News podia ser vista bem ali, dentro do Palácio de Cristal, imprimindo cinco

mil exemplares por hora, e tudo estava pronto — as maravilhosas máquinas a vapor,

estátuas, joias e a réplica das docas de Liverpool com todos os navios, e a máquina para

virar páginas de música, porcelanas, candelabros, mapas, banheiras portáteis, o edredom

de cetim vermelho feito com penas de êider da Heals, a mostarda Colman’s, a goma

Reckitt’s, o escafandro, as caixinhas de rapé, os pianos grandes e pequenos, com e sem

decoração (incluindo um piano dobrável).

E graças à atenção do detetive-inspetor Arthur Rivers e de seus colegas, o grande

diamante Koh-i-Noor da Índia estava exposto em segurança, dentro de uma grande gaiola

de ouro: o plano de alguns visitantes, descritos nos jornais como “agentes estrangeiros”,

para roubá-lo foi frustrado bem na hora pela Scotland Yard.

Mas as bandeiras de todas as nações tremulavam nos mastros e das fontes dentro do

Palácio de Cristal jorravam jatos de água (confundindo os peixinhos dourados nas

piscinas abaixo); órgãos ecoavam de forma magnífica em diferentes partes da estrutura;

grandes corais cantavam; árvores, flores e plantas tropicais floresciam no calor da

espantosa estufa; bandas tocavam; e, aguardando pela rainha no dia da abertura, a

multidão (que diziam chegar a um milhão de pessoas) estava em frenesi.

Alfie Tyrone, dentro do Palácio de Cristal, aguardando com todos os visitantes

animados, riu.

— Que exposição maluca! — exclamou ele para o detetive-inspetor Arthur Rivers e seu

novo assistente em Londres, o sargento Frankie Fields. — Você viu aquela cama que joga

as pessoas para fora? E o piano dobrável? E aquele famoso diamante? Imagino que os

Garotos do Alvorecer fariam aqui! — Mas Arthur apenas indicou todos os policiais

ingleses uniformizados (havia um contingente extra de seis mil homens) espalhados por

todos os lugares e informou a Alfie que Londres também estava cercada por soldados

para entrarem em ação em caso de confusão e eles, sem dúvida, seriam capazes de deter

até mesmo os Garotos do Alvorecer (se estivessem interessados). Então, ouviram uma

saudação ruidosa de canhões. Os painéis de vidro não se quebraram com o som para

transformar uma centena de jovens damas em carne moída (como fora previsto e

anunciado pelo jornal The Times) e o glorioso séquito real adentrou o Palácio de Cristal,

e as pessoas ovacionaram, e aquele velho republicano Alfie Tyrone olhou em torno de si e

sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto por estar lá, mesmo que apenas para uma visita,

diante de toda pompa e circunstância da sua cidade natal, a qual vira pela última vez havia

mais de cinquenta anos. Oh, meu lar! Oh, Londres!

 

As duas filhas de Arthur Rivers, Millie e Faith, estavam extasiadas por terem o pai,

finalmente, de volta, mas também estavam bastante nervosas com o reencontro com a

madrasta, a Srta. Cordelia Preston. Faith teve um ataque de soluço que não conseguiram

curar e Millie derramou geleia de framboesa (feita para o recheio dos bolinhos) sobre o

vestido assim que os visitantes chegaram, o que fez parecer que estava sangrando de forma

bastante grosseira. Na pequena sala da casa em Marylebone onde todos viviam agora, os

quadros de borboletas alfinetadas que haviam partido o coração de Arthur, embora

Agnes tenha lhe dito que se tratava de uma ocupação bastante delicada para jovens damas,

ainda enfeitavam as paredes. Tia Agnes inclinou a cabeça uma vez e seguiu para o piano

onde tocou músicas religiosas com raiva.

Mas Arthur, tendo passado muitas horas alegres com a família e com os netos que

não conhecera antes (você deve achar que estou sendo tendencioso, mas os meus netos são

muito inteligentes!, repetia ele para Cordelia), agora estava confiante de que tudo se

resolveria. E ele tinha várias armas secretas para aquele encontro. Em primeiro lugar,

como acontecia com todos que conheciam Monsieur Roland, as três mulheres que

moravam em Marylebone estavam hipnotizadas por ele, que se inclinou sobre as mãos

delas e lhes falou com aquele sotaque estranho e charmoso, além de curar o soluço de

Faith em três minutos. O canto de tia Agnes falhou quando viu o senhor idoso, frágil e

belo sentando em sua poltrona. Gwenlliam, a meia-irmã que nunca haviam conhecido,

estava ensaiando com o circo (recebida de volta nos braços de seus colegas, sem

mencionar as exclamações de alegria do Sr. Silas P. Swift), mas Rillie Spoons, sempre gentil

e calorosa, distribuiu entradas para o circo para todos, incluindo os netos e, como que por milagre, tinha um avental que ficou lindo sobre o vestido manchado de geleia de

Millie.

— Eles estão ensaiando um novo número acrobático para a temporada de Londres! —

contou Rillie para todos. — Pierre, o Pássaro, é o parceiro de acrobacias de Gwenlliam e

está tentando lançá-la o mais alto possível! Não é o mesmo que jogá-la para baixo, pois

requer um tipo diferente de força. Eu pergunto se isso não é muito perigoso, mas

Gwennie apenas ri e diz que é mágico! Eles sempre quiseram fazer isso. Então, Silas teve

uma ideia para a iluminação e agora eles acham que conseguem! Ele não a joga muito alto,

diz ela, mas parece alto demais.

Todos, não apenas as crianças, ouviam as palavras de Rillie com os olhos arregalados.

Para tia Agnes, tudo aquilo soava como o mais alto grau de imoralidade.

— Pierre, o Pássaro, consegue fazer isso! — exclamou La Grande Celine (outra arma

secreta de Arthur) com o olho brilhante. — Ele tem força para jogá-la até o telhado! Eu me

encontrei com ele novamente de forma bastante fortuita e interessante e posso afirmar que

não perdeu a força. — Ela riu e sacudiu os cabelos cor de fogo e os netos de Arthur

Rivers olharam para a dama que usava tapa-olho pensando que era a pessoa mais incrível

que já tinham visto.

Talvez, porém, Regina fosse a arma secreta mais estranha de todas. Ao ouvir tia Agnes

tocando o piano de forma séria e pesada, Regina, com seu amado e velho chapéu

comemorativo enfeitado com uma pena, postou-se ao lado do instrumento e cantava

qualquer hino religioso que fosse tocado. Ela poderia ter uma aparência bastante

estranha, mas sabia cantar e não importava qual música tia Agnes tocasse, Regina conhecia

a letra e tia Agnes, quase sem querer, por fim, juntou-se a ela:

 

Amazing Grace, how sweet the sound

That saved a wretch like me!

I once was lost, but now am found

Was blind, but now I see.*

 

Cantaram em uníssono e, na verdade, pareciam melancólicas, mas soavam muito bem

aos ouvidos.

E, por fim, Millie e Faith viram que a Srta. Cordelia Preston ainda era bonita, com o

rosto fascinante, translúcido e estranho e um corte de cabelo peculiar com a mecha

branca, e os grandes olhos. De alguma forma, fez com que o coração delas disparasse ao

olhar para ela, como se não existisse. Entretanto, Cordelia sorriu para elas, como uma

pessoa real, e lhes presenteou com um lindo daguerreótipo do pai delas na América.

Ambas choraram e abraçaram o pai novamente.

Então, Millie olhou com mais cuidado.

 

— É muito bonito — declarou ela. — A luz e as sombras no rosto do papai. Esta é

— É muito bonito — declarou ela. — A luz e as sombras no rosto do papai. Esta é

uma fotografia muito melhor do que qualquer outra que eu já tenha visto. As pessoas são

muito inteligentes na América.

— Foi Cordelia quem tirou essa fotografia — informou Arthur.

Millie olhou para a Srta. Preston com assombro e, depois, voltou o olhar para o

daguerreótipo.

— Como a senhora aprendeu? — perguntou, por fim, envergonhada. — Não há nada

neste mundo que eu queira mais do que aprender a tirar fotografias como esta.

— Muito bem, então. Acontece que eu gostaria muito de ensinar a você — disse

Cordelia com um sorriso no rosto. Ela olhou para as outras pessoas na sala com os

olhos brilhantes e, então, disse para Millie e Faith: — Temos um plano audacioso. E

gostaríamos muito que vocês tomassem parte dele, se tiverem interesse.

— A senhora também, garota — disse Regina para tia Agnes. — Precisamos de todo

mundo. E há muito tempo que não vejo alguém tocar piano tão bem. — Ninguém

chamava tia Agnes de garota há mais de quarenta anos.

 

Em Oxford Street, as bandeiras tremulavam em boas-vindas aos visitantes, principalmente

sobre os restaurantes. Eles pensaram muito em relação às bandeiras: francesa e inglesa,

com certeza, mas também a americana; todas balançado juntas sobre Londres.

CASA LONDRINA DE REFEIÇÕES DA CELINE dizia o letreiro pintado de forma

chamativa (Alfie fora o responsável pela vivacidade da placa; quando chegara

acompanhado pela irmã e pela esposa à sua terra natal, uma semana antes da inauguração

da Exposição, insistiu que a placa tinha de ser não apenas maior, mas também vermelha).

A esposa de Alfie, Maria, que nunca estivera em Londres antes, estava boquiaberta

com as construções antigas, a história e a idade de Londres.

— É a Antiguidade! — repetia ela sem parar. — Declaro que, na América, não

conhecemos o significado dessa palavra! Antiguidade!

— Pode até ser antiga, mas esta cidade velha é maçante comparada a Nova York —

declarou Alfie, abrupto. — E aqui está, cheia de estrangeiros. Todos aqui para a Exposição

e essa não é a hora para as delicadezas dos restaurantes ingleses! A Exposição só durará

seis meses e, então, todos os estrangeiros voltarão para casa e se você quiser ficar, Celine,

poderá ficar a mais respeitável possível para os britânicos. Mas, por ora, estou dizendo

para você, anuncie! Anuncie! — E seu conselho provou-se admirável: a CASA LONDRINA

DE REFEIÇÕES DA CELINE ficava cheia desde a manhã até a noite, com visitantes de

diferentes regiões: contavam com as mesmas mesas comunais de Nova York e os pratos

ficavam no meio: a comida era boa e o serviço, rápido. Todos os membros daquela

família estranha e agora estendida foram convidados a ajudar. A anfitriã nada usual e

encantadora era ninguém menos do que a esposa de Alfie, Maria, com seu leque

esvoaçante e sotaque do sul dos Estados Unidos: os clientes ficavam encantados ao serem

acompanhados até seus lugares por uma mulher tão fascinante (que falava francês, conforme necessário). E, então — que lugar interessante!, diziam as pessoas —, havia

também a gerente de cabelos ruivos e tapa-olho que parecia uma linda pirata. Celine e

Rillie se revezavam no caixa que ficava ao centro, supervisionando os procedimentos.

Quando não estavam no caixa, estavam na cozinha ou servindo as mesas. Empregaram

duas cozinheiras e, para servir os clientes, contavam com Millie e Faith, contentes, depois

da timidez inicial, com o novo emprego e a nova família. Faith, que não conseguira

manter o emprego na fábrica de picles (pobre Faith, cujo marido bêbado desaparecera,

pobre Faith, a mãe do falecido pequeno Arthur) e que aprendera que damas nunca

deveriam ter um emprego, nunca poderia imaginar que um trabalho remunerado poderia

ser agradável. Enquanto servia as mesas, conversava, pela primeira vez, com pessoas de

diversos países, com estrangeiros, mesmo pessoas negras e mulatas: rindo e até flertando

um pouco. Clientes de todas as partes do mundo não a olhavam com superioridade

enquanto ela os servia: eles gostavam dela, compreendeu, depois de um tempo.

Principalmente os americanos, que falavam com ela como uma igual, riam com ela ao

contar suas aventuras na Grande Exposição.

— A Exposição é tão divertida! — diziam os visitantes, contando a Faith sobre o

relógio despertador silencioso, o escafandro, a réplica das docas de Liverpool e todas as

estátuas de mármore. — Mesmo que não seja para outra coisa, além da diversão! — E lá

estava: muito riso e comilança dos bolos de milho e tortas de ostras de Celine. E, em

geral, visitantes com dinheiro deixavam três centavos extras.

Havia dois grandes anúncios no salão do restaurante.

 

CELEBRE

SUA VISITA A LONDRES

DESÇA A RUA E, DEPOIS DE QUATRO PORTAS,

 

LINDOS DAGUERREÓTIPOS

DE CORDELIA

ENQUANTO ESPERA — apenas 10,6.

Grupos 1 guinéu

 

CELEBRE

SUA VISITA A LONDRES

INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT

 

LEÕES SELVAGENS, ENGOLIDORES DE FOGO, CAVALOS DANÇARINOS E A

LEÕES SELVAGENS, ENGOLIDORES DE FOGO, CAVALOS DANÇARINOS E A

FANTASMA CLARIVIDENTE.

E

A ESCRAVA GREGA EM PESSOA

HYDE PARK, PRÓXIMO À OXFORD STREET.

ADULTOS: DOIS XELINS

CRIANÇAS: SEIS CENTAVOS

 

Millie só trabalhava para Celine à noite. Durante o dia, quatro portas abaixo na Oxford

Street, no andar superior, ela e Monsieur Roland ajudavam Cordelia a gerenciar o estúdio

de daguerreotipia.

— A senhora acha que eu conseguiria aprender corretamente? — perguntou Millie,

com timidez, assim que percebeu que Cordelia sabia tudo, não apenas a tirar o retrato,

mas também revelar o filme em um pequeno quarto escuro no estúdio. — Eu vi algumas

das fotografias inglesas modernas, mas acho os daguerreótipos bem mais bonitos. Parece

que eles têm mais ambiente. — Millie estava confusa e tentava descobrir a diferença.

— Eu ensinarei tudo o que sei, pois realmente preciso de você! Preciso que seja minha

assistente! — E elas uniam as cabeças sobre as placas de fotografia, prata, mercúrio,

brometo e iodo.

— A senhora entende a iluminação — disse Millie certo dia olhando para novos

retratos. — Luz, então, com menos luz, as coisas ficam mais bonitas. Como aprendeu

isso?

— Acho que aprendi sobre iluminação no Incrível Circo do Silas P. Swift — contou

Cordelia rindo. — Silas entende muito de iluminação. Ele consegue mudar a aparência de

tudo com a luz.

E ela mostrou a Millie como usar o espelho para direcionar a luz para iluminar o

olhar dos clientes.

E, na entrada do estúdio, quem deveria ficar sentado a uma pequena mesa e se levantar

graciosamente para dar boas-vindas aos clientes era Monsieur Roland. Ele usava seu

charme francês antiquado para conquistar os clientes que lotavam o lugar, lhes mostrava

onde deixar os chapéus e capas e onde estavam os espelhos para que pudessem se

arrumar para encarar a câmera. E ele cobrava os dez xelins e seis centavos quando os

daguerreótipos ficavam prontos; um guinéu para fotografias de família. Eles ganhavam

cada vez mais dinheiro. Era uma loucura: os daguerreótipos faziam parte da loucura da

época, do dinheiro que circulava em todos os lugares de Londres; eles poderiam ter feito

mais daguerreótipos do que as horas do dia permitiam. Parecia que todo mundo queria

uma fotografia para comemorar aquela época, aquele ano, aquela cidade e a Grande

Exposição.

Monsieur Roland ria diante da nova carreira temporária.

 

— Considerarei meu envolvimento como assistente de daguerreotipia como uma das

— Considerarei meu envolvimento como assistente de daguerreotipia como uma das

experiências mais interessantes da minha longa vida — disse ele a Rillie. — Pois, nos meus

áureos tempos, nunca imaginei que acabaria vendendo fotografias em Oxford Street! E

Cordelia me chama de gerente, me paga muito bem e estou ganhando mais dinheiro do

que já ganhei na vida! — E ele entregava a maior parte para Rillie. — Eu preciso de muito

pouco — afirmou quando ela não quis aceitar. — Não preciso de dinheiro. Fique com ele

até que a minha renda caia novamente! — Ainda assim, alguns dos seus clientes antigos

acharam, de alguma forma Monsieur Roland: um membro do governo; um médico

renomado. O mesmerismo pode ter se tornado antiquado, mas sempre haveria clientes

para as habilidades específicas de cura de Monsieur Roland. E Rillie sabia que, acima de

tudo, o velho senhor ficaria muito feliz quando a Exposição chegasse ao fim e pudesse

voltar para seus livros e artigos e para as questões relativas à memória. Ele já depositara

um dos seus manuscritos concisos modestamente no Museu Britânico: esperava que um

dia houvesse mais conhecimento e que outra pessoa interessada no estudo da memória

encontrasse utilidade em seus artigos.

— E o senhor não se casará com Celine? — provocou Rillie.

— Não creio que seja a pessoa adequada para Celine — respondeu ele, sério, mas seus

olhos brilharam. — E você sabe que ela encontrou alguém bem mais adequado. Agradeço

aos céus por isso! Mas continuo admirando-a e sou mais grato a Celine do ela jamais

poderá imaginar, pois foi devido aos seus planos entusiasmados, ideias e energia que

acabamos aqui, em casa e em segurança.

Apenas uma vez Celine confidenciou-se com Rillie. Seu único olho era franco: a pérola

no tapa-olho preto refletiu a luz do lampião.

— Sei que me apaixono com frequência. Jeremiah diz que é uma falha de caráter. E, é

claro, eu já me apaixonei por Pierre l’Oiseau anos atrás! E... — Ela deu sua risada alta e

contagiante. — É verdade. Eu esperava que Pierre viesse para Londres com o circo quando

eu tive essas ideias grandiosas sobre nossa contribuição para a Grande Exposição! — Por

um momento, ela ficou séria. — Quando conheci Monsieur Roland, pensei em tudo o que

ele poderia fazer por mim, pela minha felicidade, pois era isso que estar apaixonada

significava para mim. Ainda não tinha me dado conta do quanto poderia fazer por ele. E

não estou falando apenas do casaco roxo para que ele se parecesse com o dr. Mesmer. —

Deu um pequeno suspiro, mas, então, jogou o cabelo ruivo para trás e riu. — Sou uma

pessoa bem melhor. Até mesmo Pierre l’Oiseau diz isso! Eu não trocaria ter conhecido

Monsieur Roland por nada deste mundo.

Além disso, quem costumava trabalhar na cozinha da CASA LONDRINA DE

REFEIÇÕES DA CELINE era Regina, que adorava descascar batatas enquanto cantava — às

vezes o salmo 23, às vezes as músicas rudes e antigas dos jornais populares de tantos anos

antes, às vezes cantava Whistle and I’ll Come to Ye, my lad, que a fazia se lembrar de sua

antiga amiga, a Sra. Spoons e da época em que viveram em Londres. Às vezes, Alfie

chegava de manhã e descascava batatas com ela (depois, costumava desaparecer para

resolver negócios misteriosos nas docas das índias orientais) e a voz dos irmãos se erguia até onde as mesas iam sendo postas para o dia de trabalho, conforme cantavam canções

da infância. Quando os quilos e mais quilos de batatas necessários estavam preparados,

Regina se levantava, suas juntas estalavam e ela seguia para o restaurante, sempre cheio,

onde a maior parte dos empregados estava a pleno vapor. Regina havia conseguido, de

alguma forma, convencer a cunhada de Arthur, tia Agnes, a tocar piano no restaurante. E

era a tia Agnes que, em determinados horários, sentava-se no banco especial e tocava

canções durante horas. Os clientes costumavam se juntar a ela. O Susanna!, cantariam os

franceses e alemães, Não chores por mim!

E, às vezes, tarde da noite, a esposa de Alfie, Maria, sentava ao lado do piano e cantava

“The Last Rose of Summer”. E o silêncio desceria sobre a Casa de Celine em Oxford Street

e os clientes às vezes choravam (de modo confortável e sentimental) e se divertiam.

Por fim, havia o que Rillie chamava de “esquema das crianças”.

— Precisamos da mãe delas — dizia ela com firmeza. — Então temos de ajudar. É um

esquema temporário.

Millie tinha quatro filhos e Faith, depois da morte do pequeno Arthur, três. Todos

agora moravam na casa de Arthur Rivers em Marylebone com as borboletas enquadradas

e o pequeno jardim dos fundos. Então, de alguma forma, alguém precisava cuidar das

crianças. O marido de Millie, Charlie, que entretinha a todos com histórias maliciosas da

Companhia de Águas de Londres e sua responsabilidade pela epidemia, trabalhava por

muitas horas, mas tomava conta das crianças sempre que podia. E seu pai idoso, frágil e

de uma perna só, costumava sentar com ele e contar piadas antigas. As crianças

alternavam entre boazinhas ou travessas, barulhentas ou silenciosas, impetuosas ou

grudentas, gentis ou grosseiras, como a maior parte das crianças. Celine tinha sua vez e

contava a elas histórias de quando era engolidora de fogo e trabalhava no circo e elas

sempre achavam que ela era uma pirata por que usava um tapa-olho e gritavam, animadas.

Arthur Rivers tentava arranjar algumas poucas horas de folga na Scotland Yard naquela

época frenética para passar algum tempo com os netos inteligentes. Rillie lhes contava

histórias sobre Nova York; retirou os quadros horríveis e empoeirados das borboletas

espetadas sem pedir permissão a ninguém e os substituiu pelo daguerreótipo do avô

bonito que tinham. Cordelia fez para elas câmeras de papelão e prometeu que um dia

faria um daguerreótipo de todos para pendurarem na parede. Monsieur Roland tinha um

estranho controle sobre as crianças: para ele, eram as crianças mais bem-comportadas e

lhes levava desenhos que elas mesmas faziam com giz dado por Rillie.

Todos eles, sem exceção, trabalhavam muito e muito duro, sem nunca conseguir

dormir o suficiente; estavam exaustos, mas também exultantes: todos sabiam que era

temporário. A Exposição terminaria em outubro. Naquele momento, porém, um número

cada vez maior de daguerreótipos era encomendado por dia; cada vez mais pessoas iam ao

circo; mais gente comia e elogiava a excelente música, o serviço e a comida da CASA

LONDRINA DE REFEIÇÕES DA CELINE.

— Tudo do que precisavam era o meu letreiro vermelho para começarem! —

exclamava Alfie, animado. Estavam ganhando muito dinheiro, como muitas pessoas em Londres com a Grande Exposição.

Celine recebia relatórios regulares da sua Casa de Refeições em Maiden Lane, Nova

York, escritos por Blossom (que aprendera a ler e a escrever na escola da igreja), mas

ditados por Jeremiah, o ex-halterofilista do circo. Os negócios iam bem; Pearl, Ruby,

Maybelle e Blossom estavam ajudando, mas quando ela voltaria?

— Ainda estou pensando — informou La Grande Celine de forma grandiosa para os

outros. — Acho que talvez eu deva abrir a CASA PARISIENSE DE REFEIÇÕES DA

CELINE antes de voltar para casa. O senhor não acha, querido Monsieur Roland? Tenho

discutido sobre isso todos os dias com Pierre l’Oiseau. — E Monsieur Roland lhe lançava

um olhar seriamente divertido.

 

O Sr. Silas P. Swift também estava fazendo ótimos negócios em sua pequena esquina de

Hyde Park, próximo à Oxford Street que ele conseguira, de alguma forma, alugar (depois

de muitas negociações e dificuldades e cartas exaltadas para o The Times) pelo período de

duração da Exposição: até outubro. O Palácio de Cristal era sempre fechado e trancado ao

anoitecer e que melhor lugar para terminar um dia maravilhoso do que o circo? A

Grande Tenda erguia-se com sua bandeira tremulando no teto: O INCRÍVEL CIRCO DO

SR. SILAS P. SWIFT , e as luzes e sombras estranhas, excitantes e brilhantes dentro da

Grande Tenda atraíam o público como uma sereia quando a noite caía sobre Londres.

Silas P. Swift se superara para a visita a Londres. Contratara acrobatas extras, mais

cavalos e uma bebê orangotango bastante charmosa, mas, na verdade, profundamente

desorientada (ela grudara em Manuel, um dos charros, e chorava e mordia as pessoas se

fosse separada dele). Silas, em especial, estimulava Gwenlliam e Pierre, o Pássaro, em seu

novo número que já virara sensação: jogar a acrobata nas alturas. Percebia como tudo

pareceria mágico, auxiliava com efeitos inteligentes de iluminação, espelhos e fumaça. Silas

também contratara um encantador de cobras indiano que tinha uma cobra comprida e de

aparência perigosa em um vaso decorado: ele tocava a flauta e a cobra se erguia, estalando

a língua horripilante, enquanto subia e balançava ao ritmo da música. Todas as damas do

circo que, às vezes, colocavam a mão no leão quase morriam de medo ao ver a cobra, até

que o indiano lhes assegurasse de que todos os sacos de veneno haviam sido retirados.

Então, as damas ficavam mais calmas e, por fim, deixavam que a cobra se enroscasse em

seus braços enquanto gritavam.

A exposição mais popular — embora não seja necessário dizer que se tratava da de

mais bom gosto — na Grande Exposição Industrial do Príncipe Albert no Palácio de

Cristal não foi o escafandro, nem a réplica das docas de Liverpool ou as máquinas a

vapor, nem mesmo o grande diamante sem brilho Koh-i-Noor, mas, sem sombra de

dúvida, na seção americana, uma estátua excitante, provocante e drapejada, mas nua,

chamada A Escrava Grega. As pessoas se amontavam em frente àquela peça específica

desde manhã até à noite: ainda bem que sir Joshua Reynolds, o primeiro presidente da

Royal Academy, havia morrido fazia tempo. Ele enaltecia a escultura e dizem que a última palavra que disse foi Michelangelo . A representação bastante vulgar (para ser sincero) da

nudez de uma mulher acorrentada o teria ofendido sobremaneira. Certamente, porém,

não ofendeu os visitantes da Exposição: ao contrário, ela parecia excitá-los (embora o The

Times tenha recebido muitas cartas de reclamação). Assim, Silas P. Swift se superou ainda

mais. Percebeu o frisson causado pela Escrava Grega no Palácio de Cristal e, assim,

inventou a sua própria para ser exposta sob a Grande Tenda. Uma figura voluptuosa,

escassamente envolta em tecido drapeado na exata pose da estátua exposta um pouco mais

adiante em Hyde Park (um triunfo que apenas uma atriz conseguiria), aparecia dentro de

uma jaula dourada puxada para o picadeiro do circo por quatro cavalos. A multidão

explodia enquanto a estátua ficava lá. A escrava grega, intocável, desconhecida: uma

escultura, assim como no Palácio de Cristal — exceto talvez por ser um pouco mais

madura e ter um pouco mais de cor (principalmente o cabelo que era um pouco

vermelho). Mas — será que o peito se mexeu um pouco? Será que o olho se mexeu? — A

multidão agitava-se para ver aquele fenômeno e a Sra. Colleen Ray, do Royal Theatre, Nova

Zelândia, e estrela de “The Bandit Chief” (pois era ela), se tornou a segunda artista mais

bem paga do circo.

E a Sra. Colleen Ray foi muito bem-vinda em Londres e na família de Gwenlliam. Que

boa sorte ela estar em Londres naquela época, a convite de um príncipe menos

importante, que lhe oferecera um pequeno palácio.

— Não é o meu trabalho usual — explicou ela sobre seu último trabalho com o Sr.

Silas P. Swift, mas Gwenlliam e sua família não se importavam com o que Colleen Ray

fazia: ela era a heroína deles e, Alfie Tyrone disse:

— Não acredite nos nobres ingleses, querida. Venha trabalhar comigo no escritório de

Nova York.

— Isso depende do meu pequeno príncipe — respondeu ela, rindo.

Celine e ela compararam a cor dos cabelos de fogo e dividiram seus segredos para

mantê-los sempre assim.

 

E Gwenlliam floresceu porque, por fim, estava de volta ao seio da amada família e ao circo

amado e porque estava apaixonada.

No navio a vapor voltando para a Inglaterra, ela e Frankie Fields costumavam se apoiar

na murada do convés sob o luar. Ela contou a ele sobre outros conveses em noites

enluaradas. Ele contou a ela sobre quando foi jogado no cano do esgoto que levava até o

rio e sobre ter ouvido Gallus Mag e os gritos dos colegas. E, depois, o som da voz de

Cordelia ecoando no túnel fétido e escuro, quando já tinha perdido todas as esperanças.

E como Arthur, mesmo amarrado salvara a vida de Frankie ao mantê-lo mais ao fundo do

túnel, antes que Gallus Mag pudesse pegá-lo, como fizera com os colegas deles e, depois,

de alguma forma, manteve a cabeça de Frankie acima da água fétida e como ele, Frankie,

talvez tenha retornado o favor ao puxar Arthur para cima de novo.

 

— Obrigada, Frankie — agradeceu Gwenlliam com brilho nos olhos. — Obrigada.

— Obrigada, Frankie — agradeceu Gwenlliam com brilho nos olhos. — Obrigada.

Obrigada. Obrigada!

Então, por vários dias o clima do Atlântico ficou tempestuoso e perigoso: Frankie e

Gwenlliam tinham de se segurar na murada e riam. Ela lhe contou sobre outras vezes em

que teve de se segurar em outras muradas junto com Colleen, enquanto faziam planos e,

certa vez, lhe contou sobre como se lembrava do irmão e da irmã e que colocava a cabeça

para fora da escotilha. E, enquanto lhe contava essa parte, Frankie colocou seu braço

gentilmente nos ombros dela para confortá-la e suas lágrimas foram levadas para o céu do

Atlântico. Então, ela contou a ele sobre a pior parte de todas: ver o cabelo da mãe naquela

noite a bordo do Scorpion e quando lhe contou aquilo, soluçou convulsivamente e ele a

abraçou bem apertado enquanto o navio cortava as ondas e o vento soprava.

— Ela está viva — disse ele. — Gwen, querida.

— Eu sei. Eu sei, mas é que foi um choque e agora estou tão feliz. — Então, se deu

conta de que estava falando tolices, que Frankie Fields a abraçava apertado, que as ondas

quebravam sobre o casco no navio e ela ergueu o rosto e o beijou vigorosamente. Então,

Frankie Fields disse a Gwenlliam Preston sobre o som do mar que embora continuasse

tentando vencê-la no pôquer, ele a amava muito. Então, por fim, ela admitiu que, em

outros navios, em outros oceanos, sonhara com ele. E, naquele navio, naquele oceano, o

Atlântico perigoso e tempestuoso, ficaram juntos, de pé sobre o convés, abraçados.

 

Frankie simplesmente adorava trabalhar na Scotland Yard, onde as regras da polícia e os

policiais eram tão diferentes de tudo com o que estava acostumado. Tinha orgulho do seu

uniforme. Costumava ir ao circo sempre que o trabalho permitia, mesmo que tivesse de

ir de uniforme. Sentava-se na plateia e assistia à sua amada com um misto de ansiedade e

orgulho. Às vezes, no início da noite, se estivesse livre, caminhariam juntos pela Oxford

Street até Hyde Park, enquanto a multidão se encaminhava, animada, em direção à Grande

Tenda.

 

Tolo Sr. James Doveribbon, tolo, tolo demais de mostrar o rosto de novo em qualquer

lugar próximo ao INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT. Na verdade, ele mesmo

achou o plano extremamente imprudente, mas seu pai não quis ouvir, pois o Sr.

Doveribbon pai, o advogado bem conhecido em Londres, que costumava trabalhar para a

nobreza resolvendo vários assuntos particulares, sempre pensando na satisfação do

cliente, estava prestes a ser declarado — o escândalo era grande demais para considerar —

falido.

Cada vez mais doente, o duque de Llannefydd prometera abrir a carteira: todas as

despesas pagas. Honorários altos. Mas a carteira permanecera fechada, porque, não importava

o que dissessem sobre os esforços caros, eles não lhe trouxeram a neta.

 

— Eu disse que pagaria se os senhores trouxessem o sangue do meu sangue. A minha

— Eu disse que pagaria se os senhores trouxessem o sangue do meu sangue. A minha

neta. E eu a vejo aqui, diante de mim? Não! — E tomava uísque, respingando a bebida e

sorvendo-a de forma ruidosa. — Não, tudo que vejo aqui é o cabelo da messalina e nada

mais. Como posso ter certeza de que este é o cabelo dela? Poderia ser o cabelo de

qualquer pessoa! — Mas sabia que era dela e não o tocou, pois isso o deixava nervoso, a

mecha branca da qual se lembrava tão bem dos dias do julgamento, quando Cordelia

quase fora condenada pelo assassinato do filho. Não conseguia aguentar agora que estava

tão próximo a ele: algo maligno e úmido, preto e branco. — Tirem isso de perto de mim!

— exclamou, sentindo frio. — Quero que a minha neta tome conta de mim — lastimou-se

ele. — É o dever dela. Depois disso, ela terá Gales. Sei que o filho do meu desprezível

primo de segundo grau assombra os corredores e espera a minha morte. O duque ficava

na mansão em Mayfair que fedia como uma cervejaria, intimidando os empregados. O

cabelo de Cordelia ficou lá, dentro de uma bolsa, no canto da sala onde ela nunca fora

bem-vinda tantos anos antes. O duque se recusava a assinar qualquer documento ou pagar

qualquer despesa prometida, a não ser que a neta aparecesse diante dele. Sr. Doveribbon

pai estava fora de si: só a quantia necessária para subornar a polícia de Nova York, libertar

o filho da prisão e retirar a bolsa com o cabelo de Cordelia do cofre da polícia — pois era

verdade, é claro, que qualquer coisa podia ser comprada ou vendida em Nova York se o

preço fosse adequado —, por fim, deixara a família à beira do precipício financeiro, na

penúria e em absoluta desgraça social.

O médico do duque foi direto.

— Dou a ele apenas uma semana de vida e não mais. Ele parou de comer e apenas

bebe uísque, sendo que a maior parte da bebida nem chega aos seus lábios. — A boca do

médico se contorceu de nojo num gesto nada profissional. — Devo insistir para que os

senhores advogados parem de importuná-lo ao virem à casa com tanta frequência. (O

médico receberia o pagamento de uma grande quantia por seus serviços prestados: aquele

documento já fora assinado, e ele não queria a interferência de ninguém.)

Então, o Sr. Doveribbon filho descobriu — como não poderia, considerando a grande

publicidade feita pelo Sr. Silas P. Swift — que o INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P.

SWIFT viera para a cidade.

— Acho que talvez seja possível que ela tenha voltado para a trupe — disse ele,

relutante, ao pai. — Estão anunciando uma Fantasma Clarividente. Talvez seja ela. —

Estava bastante insatisfeito de ter qualquer outro envolvimento com aquilo, mas ainda

mais insatisfeito de se encontrar falido e acordava à noite, suando, enquanto uma vida

sem dinheiro pairava sobre ele e problemas de gerenciamento em Edgware Road

prometiam ainda mais dívidas.

O Sr. Doveribbon pai tomou a decisão de imediato. Estava em pânico: por mais

desagradável que parecesse, deveriam ir imediatamente a um espetáculo do circo. O filho

o acompanharia para alertá-lo se a herdeira estava presente; então, ele (o Sr. Doveribbon

pai) se apresentaria, assim como suas credenciais, e, de forma simples e educada, convidaria a menina a ir com ele até Mayfair. Afinal, seria bastante simples: bastaria

alugarem um cabriolé e não precisariam recorrer a nada tão vulgar quanto um sequestro.

— Não acredito que exista, neste mundo, uma pessoa que seja imune às riquezas.

Afinal, apesar dos laços de sangue que possui, ela não passa de uma reles acrobata. Você

simplesmente abordou o problema de forma atrapalhada. Vamos, vamos logo. Não

podemos esperar mais um dia. Temos de conseguir hoje o que você falhou em conseguir

antes, caso contrário, para colocar de forma direta, estaremos completamente arruinados!

— A mão do Sr. Doveribbon pai tremeu enquanto ajeitava a gravata.

Para o azar dos Doveribbon, porém, estavam comprando as entradas para o circo

enquanto Frankie e Gwenlliam corriam pela Oxford Street. Pela primeira vez, estavam

atrasados (porque não notaram a hora quando ele a pedira em casamento na Cavendish

Square e ela aceitara, enquanto uma ovelha pastava, solitária, ao lado deles). Os jornaleiros

sempre gritavam enquanto mostravam sua mercadoria. Anunciavam a notícia e, por um

segundo, Gwenlliam diminuiu o passo quando ouviu:

— ODUQUE SE FOI PARA O CRIADOR! APENAS UM CENTAVO! O DUQUE SE

FOI PARA O CRIADOR!

Ela parou e pegou um centavo do bolso de sua capa. Então, Gwenlliam ficou sabendo

da notícia que os Doveribbon não sabiam ainda: o duque de Llannefydd estava morto.

Por um momento, não se moveu, ficou ali, estática, entre as pessoas que se

apressavam pela Oxford Street. Atrasaram-se ainda mais; no entanto, ela nada disse e nem

se moveu na direção de Hyde Park. Gwenlliam Preston tinha apenas um pedaço de aço em

seu coração gentil e amoroso. Por fim disse:

— Estou feliz, Frankie. — E ele viu que os olhos dela tinham um brilho frio, enquanto

jogava o jornal em uma lata de lixo.

Peggy Walker segurava a roupa da fantasma clarividente nos braços, enquanto seus

olhos buscavam, ansiosos, um sinal de Gwenlliam na multidão. Estava em pé sobre o

degrau da carroça de figurinos. Por fim a viu, correndo junto com Frankie Fields.

— Gwen! Onde estava? Você não é assim! Só estávamos esperando você para a banda

começar. Venha, rápido! — Gwenlliam parou ao lado da carroça e tentou recuperar o

fôlego. — Venha logo, camarada — reclamou Peggy. — Você não se atrasa desde que

desapareceu em São Francisco! Eu estava muito preocupada.

Naquele momento, Gwenlliam só teve tempo de abraçar Peggy Walker enquanto vestia

a fantasia. Desapareceu nas sombras dos bastidores da Grande Tenda, enquanto a banda,

por fim, começava a tocar e a multidão, que agora contava com a presença de Frankie

Fields, com seu uniforme policial, gritava com animação e cuspia tabaco.

Foi o cacique Great Rainbow quem viu o Sr. Doveribbon primeiro: ele se sentara com

o pai na última fileira da plateia, bem no fundo. (James Doveribbon, na verdade, escolhera

o lugar com cuidado — um lugar onde achou que não seria notado pelos artistas do circo

— bem no fundo da Grande Tenda, onde havia pouca luz, para o caso de precisar sair

rapidamente.) O cacique a meio galope com todos os cavalos: exóticos, estrangeiros; o

penacho grande e o rosto pintado. Mas, para o cacique, o público em Hyde Park era estranho e exótico também: as roupas, as vozes, os chapéus das damas; a elegância. Nada

daquilo poderia ser mais diferente da plateia violenta e assassina da Califórnia. Seu rosto

impassível de jogador de pôquer — os olhos de águia, alertas, o olhar de uma tribo antiga

e observadora, olhava para todos enquanto o observavam no centro do picadeiro: é claro

que viu o Sr. Doveribbon. Lembrava-se bem do homem que passara tanto tempo no circo

de São Francisco, fazendo a corte à menina dele e depois, levando-a embora. Emitiu um

grito de guerra — alertando a todos os artistas do circo de que havia algo ou alguém de

interesse na sua linha de visão. Os charros mexicanos ouviram e trocaram informações

com o cacique Great Rainbow, passando-as adiante enquanto galopavam em volta do

picadeiro. O domador do leão levou as informações para os acrobatas, o encantador de

cobras e a Escrava Grega nas sombras. CR ACK! Soou o chicote, enquanto os charros

galopavam cada vez mais rápido. Em questão de minutos, todos os artistas do circo,

incluindo a Fantasma Clarividente, que estava começando a subir para tomar sua posição

no alto e no escuro, sabiam que o sequestrador de Gwenlliam estava sentado,

calmamente, na última fileira, à direita, da Grande Tenda. Frankie Fields, observando sua

garota, Gwenlliam, não era um policial treinado por Arthur Rivers à toa: mesmo sentado

junto com o público, notou um frisson de excitação entre os artistas. Havia algo de errado:

e ele olhou para cima, apreensivo. Se não estivesse tão feliz por ela ter aceitado se casar

com ele; se não estivesse tão animado, ainda assim sempre tão ansioso com as aventuras

de sua garota no ar, também teria visto o homem que deixara inconsciente com uma barra

de ferro a bordo do SS Scorpion, em Sandy Hook. Ao lado de Frankie, dividindo cerveja de

gengibre com ele, estavam a filha de Arthur Rivers, Millie, e seu marido, Charlie: havia

conhecido, por fim, a meia-irmã, e aquela era a terceira vez que iam ao circo.

Os palhaços sussurraram a notícia entre si, enquanto riam por baixo dos grandes

sorrisos pintados no rosto: havia palhaços mais jovens agora: três dos mais velhos foram

demitidos em São Francisco ( sinto muito, rapazes, dissera Silas com firmeza, dando a eles

vinte dólares a mais pela lealdade de tantos anos). Mas os palhaços mais novos também

conheciam a história de Gwenlliam. Corriam ao redor do picadeiro, dançando e

tropeçando, rindo e gargalhando; o público gritava e comemorava e as crianças riam e

gritavam ao verem os sapatos enormes e os narizes vermelhos. Um dos palhaços estava

sobre uma rede elástica sendo jogado para cima e para baixo, e a banda começou a tocar

uma marcha britânica, e o leão rugiu, enquanto o treinador (de volta com sua toga)

estalava o chicote contra a grade da jaula; e as mulheres gritavam, e o encantador de

cobras corria com sua flauta e a serpente enrolada.

E, lá no alto, nas sombras, com o aço em seu coração, a Fantasma Clarividente

balançava para a frente e para trás, no escuro, aguardando.

Naquele momento, leão e treinador terminaram seu número, o treinador entrara na

jaula e saíra rapidamente, depois que um rapaz gritara (como sempre) “Devore ele, garoto!”

para o leão. Os anões faziam malabarismo e os macacos audaciosos balançavam em

barras. Os acrobatas levantaram voo e o bebê orangotango encantara a todos (embora o

caubói mexicano, Manuel, estivesse exausto: não podia ir a nenhum lugar, nem fazer nada, sem que o pequeno orangotango estivesse pendurado nele: estoy enfermo!, reclamava

Manuel, mas não conseguia deixar de consolar o bebê exigente e neurótico). Os

engolidores de fogo entraram no picadeiro, cuspindo labaredas; os charros fizeram a

pirâmide humana sobre os cavalos, enquanto continuavam a trocar mensagens entre si e

com o cacique, depois que terminaram de contornar o picadeiro coberto de serragem.

— SENHORAS E SENHORES! — gritou o mestre de cerimônias com sua casaca

vermelha. — APRESENTAMOS DIRETAMENTE DA GRANDE EXPOSIÇÃO: A ESTÁTUA

DA ESCRAVA GREGA! — E o chicote estalou novamente, CR ACK! CR ACK! E a jaula

dourada apareceu saída das sombras. A tuba e a trombeta tocavam uma música especial

quando a Escrava Grega aparecera. Era uma música composta pelo maestro da banda (que

estava louco pela Sra. Colleen Ray). No início, a melodia parecia digna e adequada à figura

delicada e triste, mas, ao fundo, a tuba tocava um oomp-pa-pa como se estivesse rindo com

malícia, atrás da banda: essa composição fora aprovada por Silas P. Swift.

A multidão arfou à medida que o conteúdo da jaula dourada se aproximava da luz e,

então, rugiram, literalmente, em aprovação. Imóvel, trágica (apesar de definitivamente com

um toque de vulgaridade, como a original), a estátua não se movia enquanto a jaula era

puxada ao redor do picadeiro, até parar no meio. As mãos acorrentadas (o cabelo

estranhamente vermelho e talvez com a aparência um pouco mais madura), o olhar

submisso e ligeiramente inclinado: parada como uma pedra, diante de todos. E a estátua

estava tão nua quanto a original da Grande Exposição (bem, apenas um fino tecido

drapeado teve de ser feito). Como sempre, a multidão olhava, sussurrava e se cutucava:

Olhem!, sussurrou um homem para outro. Olhem! O peito! Parece que está respirando!

Então, no silêncio excitado, quebrado por sussurros, de repente, quebrando todas as

regras de decoro (e, sem dúvida, de legalidade), a escrava grega não apenas se mexeu, mas

também falou.

Ergueu um braço bonito e elegante e exclamou:

— Eu o conhecia! Eu o vejo! — Apontou o dedo acusatório diante de todo o circo: Sr.

James Doveribbon, que estava sentado ao lado do pai, pensando na vida (poder-se-ia

dizer) na extremidade de uma fileira no fundo da plateia.

A multidão, chocada, virou-se e tentou ver o homem assustado que se levantara: Sr.

Doveribbon (que, no momento em que ouvira a voz, percebera se tratar da Sra. Colleen

Ray). Então, os olhos da plateia se voltaram para o picadeiro sem entender: será que

tinham imaginado aquilo? , pois lá estava a Escrava Grega de seios fartos, imóvel e

impassível. Mas o cacique já estava galopando por entre os degraus do corredor central e

capturou um Sr. Doveribbon filho aterrorizado diante da companhia horrorizada do pai

como se estivessem em guerra no Oeste selvagem da América. Que susto e emoção

despertaram na plateia (e mais ainda em James Doveribbon) quando o cavalo se ergueu

sobre as patas traseiras sob o comando do cavaleiro. Então, delicadamente, eles desceram

as escadas de madeira até chegarem ao picadeiro, onde o cacique Great Rainbow colocou

o Sr. Doveribbon diretamente na rede dos palhaços que, animados, jogaram o Sr.

Doveribbon, que gritava sem parar, para cima e para baixo. Toda ação foi executada de forma tão habilidosa que a plateia — que equitação maravilhosa! — acreditou que tudo

aquilo fizesse parte do show. Então aplaudiram e os tambores rufaram de forma

diferente.

De repente, A FANTASMA CLARIVIDENTE podia ser vista, aparecendo de forma

difusa no ar obscuro e enfumaçado acima. Ela voava como um pássaro branco de trapézio

em trapézio, cada vez mais baixo, até chegar ao mais baixo, bem próximo ao Sr.

Doveribbon, mas ainda nas sombras devido à iluminação inteligente de Silas P. Swift com

os lampiões para a primeira aparição dela. Gwenlliam balançou para a frente e para trás

por um momento silencioso e assustador. Os tambores rufaram.

Tenho uma aversão particular por cobras, contara o Sr. Doveribbon enquanto navegavam

para o Panamá.

Ela saltou lá de cima, caindo nos braços de Pierre, o Pássaro: B R AVO ! B R AVO !

Como a plateia gritou de novo e como Millie e Charlie bateram palmas e gritaram

aliviados, como a multidão batia os pés com animação (como Frankie Fields, com seu

uniforme policial, se erguera de repente, pronto para soar o apito — pois não fora ele

quem derrubara o Sr. Doveribbon no porto de Nova York?). Em questão de minutos, o

Sr. Doveribbon estaria cercado por policiais, pois Hyde Park era o lugar mais policiado na

Europa naquele período.

Mas a Fantasma Clarividente, balançava nos ombros do enorme acrobata francês,

ergueu a mão: Frankie viu. Eles ainda não haviam terminado. A fantasma se virou para o

encantador de cobras e fez um sinal: o som lastimoso, estranho e assustador de sua flauta

soou e a cobra começou a se desenrolar saindo do jarro de cerâmica, subindo cada vez

mais, hipnotizada pela música, em direção ao Sr. Doveribbon, preso na rede dos

palhaços, enquanto sua língua estalava para dentro e para fora. O Sr. Doveribbon gritou

diversas vezes, aterrorizado, conforme a cobra se aproximava cada vez mais. E Gwenlliam

pensou com frieza: parece um idiota de terno e gravata e medroso. Aquele inglês arrogante

que passou por vários navios, carregando clorofórmio e chaves, escondendo o cabelo de

sua mãe. Ela observou, impassível, enquanto a cobra se aproximava dele e ele berrava.

Então, se virou.

O duque de Llannefydd não poderia mais lhe fazer mal. Isso era suficiente. Ao sinal da

Fantasma Clarividente, os palhaços simplesmente viraram a rede. O Sr. Doveribbon caiu,

tropeçou e correu (e a Sra. Colleen Ray, nua em sua pose dentro da jaula dourada, de

repente, lembrou-se de Gwenlliam tropeçando e correndo na escuridão das docas de

Norfolk e dos homens agarrando-a com força e suas preciosas moedas ganhas na mesa de

pôquer caindo dos seus bolsos e escorregando por entre as frestas das tábuas de madeira

das docas e no mar). Naquela noite, era o Sr. Doveribbon quem tropeçava e corria: direto

para os braços do sargento Frankie Fields. Eles partiram. O número acabara.

B R AVO ! B R AVO ! B R AVO ! gritou Pierre, o Pássaro, segurando os punhos da

Fantasma Clarividente; os tambores rufaram, as luzes diminuíram e gritou para ele:

AGORA!

 

E, de alguma forma, a Fantasma Clarividente alçou um voo alto até as sombras

E, de alguma forma, a Fantasma Clarividente alçou um voo alto até as sombras

obscuras e pareceu mágica: mágica de verdade. A Fantasma Clarividente voou para cima,

como um pássaro-fantasma: aquilo ia contra todas as leis da natureza e da gravidade, mas

lá estava ela, subindo cada vez mais alto. Então, agarrou um trapézio escuro com uma das

mãos. Balançou para a frente e para trás e ficou ali, em um leve balanço, e a plateia não

conseguia tirar os olhos dela. Então, de forma bem lenta, ficou de pé com os braços

esticados como se segurasse o público com algum tipo de magia.

— Ouçam — pediu a Fantasma Clarividente sobre eles. E ninguém emitiu nenhum

som: ainda assim ouviram o som de lágrimas enquanto ela abraçava a todos. — Era uma

vez — (e a plateia se inclinou para a frente para ouvir as palavras como se ela estivesse lhes

contando um conto de fadas e, na verdade, era exatamente isso que estava fazendo.) — Era

uma vez, em uma praia muito, muito comprida, onde a maré baixava até onde os olhos

conseguiam enxergar, havia fantasmas de crianças que nunca conseguiam partir:

shshshshshshshshshshs. — E a plateia, em silêncio, presa nos braços dela, achou que ouvia o

som do mar. E o Sr. Doveribbon pai, que não se atrevera a sair do lugar que ocupava na

Grande Tenda também ouviu, por menos que quisesse: ouviu o som do mar. — E, nesta

noite, nesta noite especial, aqueles pequenos fantasmas foram libertados. — E a figura

sombria segurou o público por mais um momento nos braços, imóvel. Então,

acrescentou com voz suave, como se as lágrimas que ouviram tivessem sido do fantasma,

ainda assim todos ouviram: — E tudo ficará bem.

Então, de alguma forma, ela se balançou, para a escuridão — e desapareceu.

O maestro, que estivera paralisado como todos os outros, se recuperou e fez a banda

começar a tocar “DEUS SALVE A RAINHA” e a multidão, se recuperando também,

começou a cantar para a querida monarca. Ainda assim, compreenderam que algo havia

acontecido: alguma coisa. E enquanto os artistas do circo faziam o desfile em torno do

picadeiro, as pessoas aplaudiam, sorriam e olhavam para o alto da Grande Tenda. Mas

não havia ninguém ali. E a multidão, por fim, saiu da tenda do circo para a noite em um

tipo de perplexidade animada, respirando o ar de verão em Hyde Park, mais felizes, mas

sem saber direito o porquê. Eles não tinham muita certeza de como explicar, mas algo

tocara seus corações. Aquilo tudo fora tão eletrizante. O circo. E não pensaram, em

nenhum momento, no homem que ficara preso na rede e que fora levado por um

policial.

 

Na casa da Great Titchfield Street, próxima à Oxford Street, que Cordelia e Rillie

encontraram e alugaram logo que chegaram a Londres, havia espaço para todos. O

daguerreótipo de todos eles em Nova York estava pendurado na parede e, ao lado dele,

uma linda pintura de três crianças brincando perto do mar. Todos se encontravam na

casa de Great Titchfield Street tarde da noite, depois das variadas atividades, sempre

exaustos e cheios de histórias sobre estrangeiros, comida, negócios, a Grande Exposição, e Cordelia e Rillie serviam taças de vinho do Porto para todos, como faziam antigamente,

e Regina retomara o hábito de ler em voz alta os jornais como fizera no passado.

— Percebo que os ingleses ainda se acham os melhores — declarou ela em tom seco.

Ouçam isto:

 

Quanto mais reflito, mais minh’alma inflama!

Breve deixaremos o Tâmisa sob chamas!

Oh! Qual a idade das Pirâmides do Egito,

E tal colosso, que pelos turcos fora vendido

Ou a maravilhosa Roma com seu incrível Coliseu

Como nosso Palácio de Cristal, resistira a seu apogeu?

Tornaram-se ruínas — breve deixarão a existência;

Rápida será a queda, e indiferente a decadência!

Outrora foram lendas — mas agora perderam a vez

Extinguidos pelo brilho eterno do cristal inglês!

 

Então, Gwenlliam, a Sra. Colleen Ray e Frankie Fields entraram pela porta.

— O duque de Llannefydd está morto, os jornaleiros estão gritando por aí — contou

Gwenlliam sem rodeios, embora a voz tenha tremido de forma inesperada. E ouviram

apenas um som: Cordelia deixou a garrafa de vinho cair no chão. A garrafa não quebrou,

apenas o conteúdo escorreu pelo chão enquanto rolava até parar debaixo da mesa.

Cordelia olhou para filha.

— E esta noite pegamos o Sr. Doveribbon na rede dos palhaços durante a

apresentação.

Suas palavras soaram tão improváveis e ridículas que todos, surpresos, começaram a

rir: uma risada de surpresa e, então, tiveram de explicar tudo, embora a própria

Gwenlliam não tenha dito nada, deixando a cargo dos demais recontar os eventos daquela

noite. Porém, sempre prática, inclinou-se debaixo da mesa e pegou a garrafa com o pouco

que havia sobrado, serviu uma taça e entregou para a mãe. E ela e Cordelia trocaram um

olhar. Enfim, estava tudo acabado.

Frankie descreveu a contribuição do cacique, da Escrava Grega e do encantador de

cobras. Colleen descreveu como a fantasma clarividente enfeitiçou a plateia. E Cordelia e

Monsieur Roland viram a expressão no rosto de Gwenlliam, enquanto ela sorria para

Frankie Fields: seus olhos brilhavam de felicidade enquanto olhava para ele e havia algo

mais nos olhos dela também: algo perdido que havia sido encontrado.

— Pierre, o Pássaro, disse que esperaria no endereço de sempre — informou a Sra.

Colleen Ray para Celine. E as duas mulheres com seus cabelos de fogo riram; Celine

acenou e desapareceu.

 

Mas Celine primeiro entregou os bolos de milho de sua Casa de Refeições: havia

Mas Celine primeiro entregou os bolos de milho de sua Casa de Refeições: havia

comida, vinho, conversa e riso. Gwenlliam, enquanto Frankie ainda falava, ele está

trancafiado esta noite, senhor, pode acreditar! (mas deixando as notícias para uma outra

noite), arrumou a mesa de pôquer com Alfie e Rillie. Monsieur Roland estava sentado em

sua mesa em um canto cercado por livros e papéis. Maria se abanava no calor,

aproveitando toda a animação, com os pés apoiados no sofá. Regina lia o jornal.

— Ouçam isto — disse ela, apontando para o The Times.

 

Por que há falta de banheiros públicos para os estrangeiros visitando Londres?

Eles não são nem um pouco exigentes quanto ao lugar onde a livia m

determinados chamados da natureza.

 

A Sra. Colleen Ray também tinha um compromisso e nem tirara a capa. Tinha de

encontrar o seu príncipe menor perto do Arco de Mármore.

— Ele ficará aborrecido porque estou atrasada, mas tinha de vir e ajudar a contar a

história que aquele canalha... Oh, vê-lo quicar na rede para cima e para baixo me deu

muito prazer!

— Espere — pediu Arthur. — Vamos com você. — E ele sussurrou algo no ouvido de

Cordelia que nada dissera. — Venha para um passeio em Hyde Park, quero lhe mostrar

algo.

E Cordelia vestiu sua capa. Um pouco antes de sair, envolveu a filha em um abraço

apertado e disse:

— O pesadelo chegou ao fim.

Os três caminharam pela Great Titchfield sob o luar, Colleen ainda recontando os

eventos com animação. Passaram por um jornaleiro e ele gritou a manchete como era de

costume, só que não conseguia pronunciar o nome galês, mas eles leram no jornal:

MORRE O DUQUE DE LLANNEFYDD .

E Arthur imediatamente tomou a esposa nos braços; ela se aconchegou a ele e nada

disseram.

Mas a Sra. Colleen estremeceu de leve.

— Ela costumava chorar em sua cabine. Achava que eu não sabia. Nunca conheci uma

garota mais valente do que ela, voando daquele navio como um pássaro para tentar

escapar. Fico feliz que aquelas aventuras tenham terminado.

E Cordelia lhe deu um abraço caloroso e repentino em Oxford Street. E Colleen

pensou ter sentido lágrimas caírem em seu cabelo.

Chegaram ao Arco de Mármore onde o nobre príncipe menor a aguardava. Estava

aliviado, satisfeito, zangado e apaixonado, tudo ao mesmo tempo. Explicações e desculpas

foram trocadas. Arthur e Cordelia se despediram na noite e seguiram para Hyde Park.

 

A Grande Tenda estava silenciosa e vazia depois dos acontecimentos daquela noite.

A Grande Tenda estava silenciosa e vazia depois dos acontecimentos daquela noite.

Um policial em serviço cumprimentou o detetive-inspetor quando este passou. Cordelia

olhou para a bandeira que tremulava no alto: INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P.

SWIFT .

— Você sente falta do circo? — perguntou Arthur.

— Com esses joelhos? — replicou Cordelia com firmeza e ambos riram. Enquanto

caminhavam pelo parque, uma brisa leve soprou um jornal no caminho, ele dançou na

frente deles e, então, parou, preso nas raízes retorcidas de um carvalho. MORRE foi a

única palavra que conseguiram ler. À distância, agora, conseguiam ver o Palácio de Cristal

brilhando sob o luar.

Outro policial em serviço cumprimentou Arthur e permitiu que ele e Cordelia

entrassem por uma porta lateral na construção grande e quase vazia. Ouviam,

ocasionalmente, vozes conversando enquanto outros policiais faziam a ronda usando

chinelos especiais para não arranharem o piso de madeira, verificando as alas leste e

oeste. Todas as exposições estavam escuras e em silêncio. Estava tudo quieto na noite e o

diamante Koh-i-Noor trancado em segurança no pedestal da gaiola dourada.

Arthur e Cordelia caminharam pelos corredores grandes e vazios enquanto os raios

de luar atravessavam o teto de vidro. Passaram por detectores de tempestade, máquinas e

âncoras; passaram por bustos de Shakespeare, do duque de Wellington, da Rainha

Vitória; passaram pelo escafandro e pelo edredom de cetim vermelho feito com penas de

êider da Heals e pela estátua da Escrava Grega. Caminharam em silêncio até a fonte de

cristal, a peça central onde a nave se encontrava em um transepto elevado. Sentaram-se

juntos nos degraus que levavam ao trono sob o olmeiro cativo, de onde a Rainha Vitória

fizera seu discurso de abertura sobre a Providência Beneficente e a felicidade da

humanidade. A capa de Cordelia refletiu a luz do luar em suas dobras e sombras

estranhas pairavam sobre eles e a palmeira e o cheiro de flores.

Por um tempo, se sentaram sozinhos no enorme Palácio de Cristal, lindo,

extraordinário e enluarado.

E quando ela deitou a cabeça sobre o ombro quente do marido e olhou para o modo

como o luar atravessava o vidro, pensou: este seria o daguerreótipo mais lindo do mundo, e

conforme sentia o calor do corpo de Arthur ao seu lado, oh, como tenho sorte, apesar de

tudo, um dos policiais deslizantes começou a tocar um dos pianos. A música se ergueu

pela nave até onde estavam.

— Arthur, eles realmente vão levar tudo isso para outro lugar? Todo o Palácio de

Cristal?

— É o que dizem.

Ela meneou a cabeça, descrente.

— E suponho que a grama vai crescer novamente e que esta linda construção que foi

visitada por tantas pessoas de todas as partes do mundo nunca tenha estado aqui em Hyde

Park, nunca mesmo. É muito estranho pensar nisso.

 

— Mas você e eu lembraremos desta noite — disse ele em voz baixa. E como os

— Mas você e eu lembraremos desta noite — disse ele em voz baixa. E como os

pequenos cacos de vidro entre eles haviam desaparecido, por fim, ela sabia que ele

também estava dizendo para ela “aprendemos com o velho senhor francês: são nossas

memórias que nos tornam quem somos”. E ela apoiou a cabeça com cabelos curtos por

apenas alguns instantes sobre o coração amado e o beijou. Ele a abraçou apertado.

Levantaram-se, por fim, e caminharam pela nave e ainda ouviam a música: uma valsa

alegre, deslizante que até poderia ter sofrido censura, mas que estava na última moda.

Ele envolveu a esposa nos braços e ela pousou a mão sobre a dele e, no Palácio de

Cristal vazio e bonito, sob o luar, eles dançaram ao som do piano distante.

Nota

 

 

* Tradução livre: “Graça maravilhosa! Como é doce o som / Que salvou um infeliz como

eu! / Eu estava perdido, mas agora fui encontrado / Era cego, mas agora eu vejo.” (N.T.)