O Circo dos Fantasmas
Capítulo 17
Todos os dias esperavam saber o que estava acontecendo com o circo.
— Será que Silas fugiu com todo o dinheiro? — perguntou Gwenlliam.
— Se isso acontecer, você e eu nos tornaremos populares senhoras da daguerreotipia
— disse Cordelia. — Retratos, grupos, memoriais, a lua.
— Talvez o próprio Sr. Swift tenha decidido se tornar o fantasma acrobata — sugeriu
Monsieur Roland sem afastar os olhos do livro que lia.
— Talvez o leão o tenha devorado — zombou Rillie, mexendo algo em um enorme
caldeirão.
— Sabemos muito bem que aquele leão é só rugidos e nenhuma mordida — disse
Cordelia. — Eu mesma o vi outro dia dormindo profundamente, aconchegado ao Kongo.
— Ela estava cortando batatas e havia uma grande pilha de ervilhas para serem
descascadas. — Mas espero que o circo de Silas não feche como todos os outros!
— Ai! — reclamou Arthur, enquanto Gwenlliam limpava seu rosto machucado antes
que começassem a jogar pôquer. Era tão raro estarem todos juntos, essa família que vivia
no sótão de Maiden Lane: final de tarde, o ar leve e morno de primavera, todos os sete
sentados no quarto com o daguerreótipo da família pendurado na parede. O canário
estava em um canto da gaiola, silencioso, mas podiam ouvir carruagens, cavalos e pessoas
andando pela rua. Rillie preparava bife e torta de ostras. Regina lia o jornal e a Sra. Spoons
segurava a luva amarela, e ambas balançavam em suas cadeiras de balanço.
— Escutem isto! — exclamou Regina, segurando o jornal ainda mais próximo do rosto
do que de costume, pois não conseguia entender o que estava lendo.
AFINAL DE CONTAS SERÁ QUE OS MORTOS ESTÃO VIVOS?
Os primeiros boatos dessa história já haviam chegado a Nova York, mas os jornais
agora davam mais destaque do que antes: um pequeno parágrafo se tornou maior. Duas
meninas novas, as irmãs Fox, em um lugarejo chamado Hydesville, no estado de Nova
York, aparentemente ouviam sons de batidas no quarto em que viviam. De alguma forma,
acreditavam que se tratava de mensagens de almas que já haviam partido: estranhas batidas que talvez trouxessem mensagens de outra galáxia, ou do paraíso. Muitos artigos faziam
comparações com o novo telégrafo: se sinais elétricos podiam ser transmitidos por entre
estados e países, então, será que não seria possível que sinais espirituais pudessem ser
transmitidos por entre mundos? Pessoas de todos os cantos se aglomeravam agora na
pequena cidade de Hydesville: AFINAL DE CONTAS SERÁ QUE OS MORTOS ESTÃO
VIVOS?, leu Regina.
— Ora, isso é inacreditável — comentou em voz alta.
Para Monsieur Roland, isso era definitivamente inacreditável ao extremo, e, de repente,
levantou-se de forma intempestiva na pequena sala de estar e caminhou até a janela, como
se não conseguisse respirar: todos na sala o observavam com ansiedade. Monsieur Roland
era um homem espiritualizado, e não era tolo o bastante para pontificar o que acontecia
com uma pessoa após a morte; quando se virou da janela, havia se controlado e falou
com calma:
— Em meu trabalho, presenciei diversas vezes quando a vida deixava um corpo. Vi a
mesma energia que é o ingrediente essencial para o mesmerismo e a hipnose, essa mesma
energia, desaparecer de uma pessoa quando ela morre. Eu já vi: ela abandona o corpo
algumas vezes de forma selvagem e em outras gentil. É tudo o que sei. Dizer que essa
energia, ou espírito, pode ser recuperada e bater três vezes para sim e duas para talvez, em
resposta a perguntas mundanas, ofende tudo o que mais prezo na vida. — Falou ainda
com calma, mas com tanto fervor quanto um sacerdote. — Isso tudo é cruel, assim como
ridículo, mal informado e perigoso. Tais promessas alimentam a esperança de pessoas de
luto e ignorantes, ou de pessoas cuja tristeza as torna ignorantes, mon Dieu, o luto faz
com que pessoas outrora inteligentes percam o bom senso; é claro que vão se agarrar a
qualquer esperança de contato com um ente querido! Mas acho imoral sugerir que logo
poderão se encontrar novamente em uma agradável sessão de batidas em uma pequena
cidade americana.
Gwenlliam se aproximou dele por um momento, ele acenou para seu amável rosto e
sentou-se novamente.
— Não importa, monsiê — disse Regina. — Muitos concordam com o senhor; escute
este poema grosseiro sobre isso. Veja bem, este poema não é tão bom quanto os meus
costumavam ser. — Mas ela leu com gosto.
Sobre a cama deitam-se as crianças
Escutam batidas, surgem desconfianças.
E sendo preenchidas de medo e pavor
Contam aos pais sobre tamanho terror.
Os pais no começo não acreditam
Mas com o tempo até eles cogitam
À cabeceira e à cama o medo impera
Foi certamente assombrada pela quimera!
Agora para concluir a minha canção
Embora não seja de tão longa duração
Eu nunca tive uma vida estudantil,
No entanto, vou arriscar PRIMEIRO DE ABRIL!
Arthur e Gwenlliam estavam agora distribuindo as cartas sobre a mesa, o policial usava a
mão esquerda para lidar com as cartas e os centavos. Cordelia estava sentada perto deles,
descascando ervilhas em uma grande cumbuca.
— Ah! — exclamou Regina. — Ouçam isto: Foi informado de que um reverendo
pretende prender as irmãs Fox por blasfêmia contra as escrituras sagradas.
— Ai meu santo Deus! — disse Cordelia. — Quantas vezes já ouvimos isso? Era
exatamente o que diziam sobre nós!
— Você se lembra, Cordie? — perguntou Rillie. — Em Londres, quando recebemos a
visita daquele sacerdote da igreja do outro lado da rua? Ele se vestia de roxo, lembra? —
Voltou ao seu assento e segurava ostras nas duas mãos. — Ele se sentou no porão e disse
que devíamos parar com o mesmerismo imediatamente! “É uma blasfêmia!” exclamara ele
enquanto você lhe servia uma taça de vinho do Porto. E depois ele acabou com a garrafa
inteira!
Cordelia, observando Rillie agitando as ostras e rindo, começou a rir também.
— Não gostávamos de beber na frente de sacerdotes, lembra? Então, ele tomou a
garrafa inteira sozinho e continuava dizendo “vocês devem reconsiderar o que estão
fazendo! O trabalho de aliviar as dores só pode ser feito pelo SENHOR!”.
— Ele estava bêbado! — Rillie gargalhava. — Mesmo enquanto se empanzinava de vinho
do Porto com tanto entusiasmo e mesmo enquanto nos criticava violentamente, não
conseguia tirar os olhos de você!
— E ele ainda me acusou de insinuar que Jesus era um mesmerista, enquanto
terminava com as últimas gotas da garrafa, lembra-se Rillie? Não podíamos mais comprar
outra garrafa de vinho até conseguirmos um novo cliente. E isso foi logo depois que
começamos e só tivemos um novo cliente uns dois dias depois, então tivemos de ficar
sem beber por esse tempo também!
— Vocês deveriam ter me procurado — gracejou Regina. — Deveriam ter me contado o
problema e eu ajudaria vocês. — E, no final, estavam todos gargalhando de maneira
contagiante, inclusive Monsieur Roland. E Gwenlliam pensou: é assim que nossa mãe
costumava rir conosco quando éramos crianças, ela raramente faz isso agora e olhou para o
outro lado da mesa de pôquer, onde Arthur Rivers, machucado e enfaixado, observava o divertimento delas. Sorria para a esposa e para Rillie, mas parecia que seus olhos também
estavam machucados.
— O que é isto? — indagou Regina, aproximando ainda mais o jornal do rosto e
afastando-o, em seguida, para se assegurar de que não se enganara.
— Onde está a lente de aumento que compramos? — perguntou Rillie.
— Não gosto daquilo — respondeu Regina com firmeza, ainda tentando compreender
as palavras. — O que esta manchete quer dizer: EMPURRADO PARA JESUS?
— Trata-se de um enforcamento — explicou Arthur, seco.
— Que tipo de enforcamento?
Arthur explicou que, às vezes, na América, um homem negro era enforcado, mas não
de maneira legal, por um carrasco, como na Inglaterra, mas sim por cidadãos comuns
fazendo justiça com as próprias mãos, e é assim que eles descrevem seus feitos.
Regina lançou um olhar incrédulo.
— Tem certeza?
— Temo que sim, Regina.
— São essas claras verdades que carregamos que dizem que todos os homens são
iguais e foram agraciados pelo Criador com direitos inalienáveis, entre eles, a vida, a
liberdade e a busca por felicidade?
— Ah — disse Arthur.
Regina virou as páginas furiosamente e resmungou:
— Empurrado para Jesus! Eu nunca escreveria algo assim, nem nos meus dias de
glória. — Agitou as folhas. — Todo o resto das manchetes do jornal é sobre o maldito
ouro. Qualquer um pode ir, é o que dizem, só pelo preço da passagem. Ouro. Bom, por
que não vai todo mundo para lá para as coisas ficarem mais calmas por aqui? Ouro,
ouro, nada a não ser ouro.
— Mas demora muito até chegarem ao ouro! — disse Gwenlliam. — É um país tão
vasto, eu não tinha percebido o quão grande era até começarmos a cruzar uma pequena
parte dele. Sabe no vagão do telégrafo onde tivemos que abrir alguns caminhos? Mesmo
entre cidades às vezes. E não existem nem trilhas para todas as gigantescas partes da
América. Existem grandes montanhas entre Nova York e a Califórnia.
Regina agora lia para eles anúncios de navios de correio que desciam pela costa da
América do Sul, contornando o cabo Horn, para subirem pelo outro lado até chegarem à
Califórnia; uma jornada extremamente longa, que levava muitos e muitos meses. Mas
aquela era a América: as pessoas com certeza já haviam encontrado caminhos mais
rápidos.
DIMINUA O TEMPO DE SUA VIAGEM PARA AS MINAS DE OURO!
PASSAGENS DISPONÍVEIS ESSA SEMANA PARA CHAGRES!
— Onde fica Chagres? — perguntou Regina.
— Fica ao lado do istmo do Panamá — respondeu Arthur. — São apenas algumas
semanas de viagem de Nova York até lá, mas, depois, as pessoas devem encontrar seus
próprios meios para atravessar cerca de noventa quilômetros de rios e florestas tropicais
para chegar à Cidade do Panamá, na costa do Pacífico. E de lá devem tentar pegar um
navio que suba a costa até São Francisco.
— Bem, então escutem isto — pediu Regina. — Pode ser mais rápido, mas me parece
bastante insalubre! — E começou a ler em voz alta uma carta de um minerador aspirante,
usando um tom dramático e adequado.
Depois de navegar de Nova York para o istmo do Panamá em um barco
malconservado até Chagres, indígenas perspicazes e nada confiáveis nos
levaram rio acima, onde crocodilos espreitavam nas sombras sem fazer alarde.
Fizemos uma jornada inacreditável através da floresta tropical úmida, fétida
e infestada de cobras, onde a cólera está por toda parte. A chuva chega, a rota
fica intransponível, vários homens adoecem e têm de ser abandonados
imediatamente naquele inferno de vegetação e morte. Na mesma hora que o
caminho se tornara transitável de novo, resolvi voltar para poder ver
novamente meus entes queridos ainda nesse mundo.
Enquanto ainda digeriam essa informação, Regina encontrou um grande anúncio:
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Se o comprador untar-se completamente com nosso fantástico produto e então rolar
em uma encosta fértil em ouro na Califórnia, apenas o ouro, e mais nada, irá se aderir
à pele. APENAS $10 por caixa.
Ainda estavam rindo quando Silas P. Swift chegou para lhes informar sobre seus planos
para o circo; enquanto falava, Cordelia e Gwenlliam, conhecendo bem a Silas,
sussurraram, é claro e se perguntaram como não tinham adivinhado qual seria o plano
antes de ele contar.
O empresário estava cuidando dos negócios e ofegava devido aos lances de escadas até
o último andar (também estava ciente de que havia acabado de rasgar a carta que
arruinaria seus planos completamente). Começou a falar logo antes de entrar na sala:
— Senhoras, eu sei por fontes seguras que os mineradores californianos têm muito
dinheiro para gastar! Pepitas de ouro em seus bolsos! Pepitas do tamanho de maçãs! E
não há nada em que gastar nem qualquer tipo de entretenimento! Quisera eu ter pensado nisso antes. Vamos ganhar mais dinheiro do que nos áureos tempos em Nova York, mais
dinheiro do que podemos imaginar em nossos sonhos mais loucos. O INCRÍVEL
CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT está a caminho! — Sentou-se na cadeira mais próxima e
prosseguiu. — As carroças e os animais grandes partiram há dois dias para uma viagem
pelo mar. Menos o urso, eu me livrei do maldito urso que nunca dançava. A organização
de tudo isso tomou todo meu tempo até agora, mas a viagem pode durar 150 dias ou mais
se o tempo estiver ruim, então tive que mandá-los logo. Agora, nós não queremos levar
150 dias para chegar às minas! Então, nós, seres humanos, partiremos em uma semana,
com os cavalos e os animais pequenos, pelo mar também pela costa do Atlântico até um
lugar chamado Chagres e, de lá, cruzaremos facilmente o istmo do Panamá. — E estalou
os dedos como se tudo fosse simples. — Minhas investigações mostraram que estão
reduzindo o tempo de viagem, organizando os indígenas de forma adequada para que
possam levar as pessoas e os animais em segurança rio acima até a cidade do Panamá. De
fato, planejei levar os elefantes dessa maneira. Aníbal e Alexandre, o Grande, não
cruzaram continentes com elefantes? Mas fui informado de que o istmo do Panamá não
são os Alpes Suíços. No entanto, devemos torcer para que nossas carroças com a tenda e
os animais grandes não cheguem muito atrasados agora que já partiram e a rota do istmo
possa ser feita, com sorte, na metade desse tempo! E você, Cordelia, é imperativo que,
finalmente, se torne uma clarividente, assim como um fantasma e uma acrobata. Você
pode explicar a eles, de forma vaga, com termos fantasmagóricos, é claro, onde podem
encontrar ouro; vou arrumar uma bola de cristal para você olhar. E tudo será feito no
trapézio, com misteriosas sombras fantasmagóricas! Eu posso descrever: A FANTASMA
CLARIVIDENTE! Você balança vinda de lugar nenhum, segurando a bola de cristal,
clamando: “EU VEJO OURO!” Você pode descrever um morro, um riacho, uma curva em
certo caminho, qualquer coisa, até que “puff”, a bola de cristal e a Fantasma Clarividente
se dissolvam no nada e o trapézio seja deixado vazio como sempre, só que de forma
muito mais instigante. Arranjaremos fumaça e espelhos para fazê-la dissolver para o nada!
— E onde eu estarei realmente, Silas?
— Oh, você pode pular, desaparecer na fumaça, arranjaremos um fio invisível para
você se segurar ou faremos algo com os lampiões. Podemos cobrar até dez dólares por
ingresso por apenas um número. Ganharemos muito dinheiro! E podemos começar com
isso até antes de os animais grandes chegarem!
Estava tão animado, tão mergulhado em seus sonhos e tão ansioso em levar suas
mulheres embora de Nova York, direto para o navio, que mal se deu conta de que
Monsieur Roland, o inspetor Rivers, todo enfaixado, Rillie e as senhoras idosas também
estavam na sala. Como Monsieur Roland era um cortês cavalheiro, o pobre Silas P. Swift
foi pego de surpresa com o que aconteceu a seguir, assim como os demais presentes na
sala, que ficaram todos em completo estado de choque.
Monsieur Roland ergueu o proprietário do circo pela gravata, deixando-o na ponta
dos pés.
— Monsieur Swift. Eu nem vou começar a discutir com o senhor sobre este temerário
— Monsieur Swift. Eu nem vou começar a discutir com o senhor sobre este temerário
e perigoso plano de colocar tantas vidas em risco! Gostarei de saber se o leão e os
elefantes que o senhor enviou aos seus próprios destinos chegarão em segurança do
outro lado da América sem que enlouqueçam! Mas irei discutir o mesmerismo com o
senhor uma vez mais. Durante anos, suportei ver o senhor afastar Cordelia Preston cada
vez mais da integridade do seu legítimo papel de notável mesmerista e aproximando-a do
caminho desonroso e fraudulento de seu circo. Se ela não fosse uma mulher de moral e
fibra já teria se perdido há anos! — Embora Silas P. Swift fosse maior e mais forte do que
o francês, não conseguia se mexer, mesmo depois de Monsieur Roland já o ter soltado.
Sentiu os olhos do mesmerista queimarem-no. — Quantas vezes mais terei de lhe explicar
isso, Monsieur Swift? Mesmerismo é uma filosofia de honra. Não se trata de adivinhação. Não
prevê o futuro ou fala com os mortos ou encontra ouro. É a armadura da energia humana
usada para o poder do bem, especialmente para aliviar dores físicas e emocionais. Isso é o
mesmerismo! No entanto, Monsieur Swift, tenho duas artistas para sugerir ao senhor. Há
boatos de duas irmãs que batem em mesas e falam com os mortos e tenho certeza de que
elas podem ser convencidas a verem ouro também. São chamadas Irmãs Fox, creio eu.
Contrate-as para subirem em trapézios e verem ouro em bolas de cristal em seu circo!
Monsieur Roland, geralmente tão observador, não notou a expressão preocupada no
rosto de Rillie, a surpresa nos olhos das boquiabertas idosas, o choque de Gwenlliam,
que estava ao seu lado. Sequer olhou para Cordelia. Por fim, controlou-se: Silas P. Swift
percebeu a extraordinária força interior do francês quando este recomeçou a falar em voz
baixa.
— Perdoe-me, Monsieur Swift. Falo do trabalho de minha vida. É claro que não posso
falar por minhas queridas amigas e pupilas. Elas são donas da própria vida e contam com
meu respeito e amor não importando o que façam. Mas não consigo ficar sob o mesmo
teto que uma pessoa que fala com tanta ignorância. Excusez-moi.
E Monsieur Roland deixou o recinto e todos os corações pulsando. Escutaram seus
passos descendo pesadamente as escadas.
Por alguns momentos, ninguém falou nada. A Sra. Spoons soltou um pequeno
suspiro após o fim daquele drama, pois certamente percebia que um drama se
desenrolara diante de si, mesmo que não entendesse o conteúdo, e o canário, como se
quisesse animá-la, começou a cantar, e o canto animado era o único som no sótão
naquele momento. Por fim, Cordelia fez um gesto para que dono do circo voltasse a se
sentar. Viu o rosto da filha: Gwenlliam amava o circo de todo o coração. Também notou
o olhar estranho de Regina: perguntava-se se as senhoras idosas também teriam de
atravessar florestas tropicais infestadas de cólera, onde crocodilos espreitavam em
silêncio. Ainda não lançara um olhar em direção ao marido.
— Silas — começou Cordelia, com a voz calma. — Seus sonhos são sempre ousados.
Mas, animais e pessoas viajando por caminhos quase intransponíveis pela floresta
tropical? Além de todos nós, já pensou nos cavalos? Eles não são cavalos de carga, mas
sim de circo: altamente treinados e sensíveis. Quantos deles você acha que chegarão lá vivos? Ouvi dizer que a península do Panamá possui cerca de noventa quilômetros de
extensão. Pelo que lemos, isso significa meses de viagem extremamente perigosa.
Silas P. Swift nunca fora um homem de reconhecer o perigo.
— Noventa quilômetros! Mas já não viajamos muito mais do que isso com esses
cavalos neuróticos? Para que servem os charros e o cacique? O que acha que andei fazendo
em Nova York nessas últimas semanas? Tratando de todos esses assuntos, planejando
tudo com cuidado como sempre! As carroças e os animais maiores já estão descendo a
costa! Será que não entende o que estive preparando enquanto você aproveitava suas
pequenas férias? Em uma semana, meu circo estará a bordo em uma das embarcações
diárias para Chagres e, para ser franco, partiremos com ou sem vocês. Com meu ótimo
planejamento, e a sorte do nosso lado, creio que chegaremos a São Francisco, às minas de
ouro, antes da época das chuvas. Planejei tudo. — Ele falou com muita autoridade e
segurança. Mas, de fato, reconhecia que precisaria das duas mulheres e, em particular, de
Cordelia: seu número ainda era o que diferenciava seu circo dos demais.
— Com muita sorte do nosso lado pelo que entendi — declarou Cordelia, seca. —
Muito bem. Mas você tem que nos dar um tempo para que possamos decidir sobre seguir
com você.
— O que quer dizer? Vocês devem vir! Eu as trouxe da Inglaterra! Devemos partir o
mais rápido possível!
— Então permita que respondamos amanhã à tarde, Silas. Trata-se de uma decisão
muito importante. Isso significa deixar Nova York por muito tempo. — Lançou um olhar
rápido para o marido; mas a expressão estava neutra enquanto ouvia tudo.
— Haverá mais dinheiro, Cordelia, muito mais dinheiro assim que chegarmos lá.
— Sabemos melhor do que a maioria das pessoas sobre a importância do dinheiro,
Silas. Mas, você sabe, temos uma família com quem devemos discutir tudo isso. — Silas
fez uma pequena reverência para o inspetor de polícia cheio de bandagens, para Rillie e as
duas senhoras idosas nas cadeiras de balanço: não tinha nada a ver com aquele estranho
grupo. Confiava implicitamente em Cordelia: se ela dissera amanhã, então amanhã ele
teria sua resposta. Vislumbrara ouro e glória e, por um momento, esquecera a estranha
intransigência dela, mesmo quando precisava de dinheiro, e agora havia uma grande
fortuna a ser feita. Mas precisava de Cordelia, por Deus, estaria perdido se ela dissesse
não ou se o sujeito pedante a encontrasse.
— É claro que se você não puder prever o futuro ou indicar onde encontrar ouro,
ainda teremos a fantasma acrobata, como de costume — apaziguou Silas. — Em
consideração ao velho francês.
— Amanhã, Silas — foi tudo que Cordelia disse.
Ao sair, Silas passou por um jovem alto que também parecia ser da força policial.
Assim como outro, este também estava cheio de bandagens: Silas lançou um olhar de
desgosto para a estrela de cobre.
Antes que pudessem fazer qualquer comentário sobre Silas e seus planos, o policial alto e
enfaixado apareceu à porta do sótão.
— Ah, se não é meu bom e fiel parceiro, Frankie Fields — disse Arthur. — Ele
também apanhou como podem ver! Como você está, Frankie?
— Estou bem, senhor, foi apenas do lado esquerdo. Os nós dos meus dedos estão
bem piores. Fico feliz de saber que o rosto de alguém está mostrando o motivo! Estava
me perguntando como estaria o senhor. Trouxe todos os relatórios sobre o tumulto e o
chefe quer o seu. Houve grande cobertura dos jornais.
— Eu vi — respondeu o inspetor com indiferença. — É melhor eu falar com o chefe.
Não dá para escrever um relatório desse jeito.
— Eu escrevo! — ofereceram Gwenlliam e Frankie Fields em uníssono, então os dois
riram, e ela, apesar de estar com os pensamentos voltados para a Califórnia, ergueu os
olhos para o policial alto e bonito com interesse, e ele, apesar de estar com a cabeça no
tumulto, olhou para a bela jovem com simpatia. Isso não passou despercebido pelo
inspetor.
— Assuma o meu jogo de pôquer com Gwenlliam enquanto eu leio toda essa papelada
— disse Arthur a Frankie. — Depois escrevo meu relatório com sua ajuda. — Olhou para
Cordelia enquanto se levantava rigidamente do seu lado: a expressão do seu rosto era
indecifrável. Você vai para a Califórnia? Talvez estivesse perguntando.
— A torta não ficará pronta em menos de uma hora — informou Rillie.
— Vamos dar uma volta, Arthur, enquanto você escreve seu relatório — disse
Cordelia.
Encolheu os ombros, impotente, como se dissesse: Eu não sei, mas para Arthur mais
pareceu: Eu não me importo.
O Sr. Doveribbon (que havia, discretamente, seguido o Sr. Swift), estava exausto pela
caminhada rápida que dera por Nova York. Esperava, é claro, que policiais usassem
uniforme, e não suspeitou que um policial tivesse acabado de entrar na CASA DE
REFEIÇÕES DA CELINE e que outro já estivesse lá dentro, no sótão. (O Sr. Doveribbon
também não sabia que uma casa de refeições de Nova York poderia ter quartos para alugar
e que aquele era o lar de Cordelia e Gwenlliam Preston.) Ele se virou quando Silas P. Swift
reapareceu e, então, o seguiu novamente; dessa vez, passou por grandes e fétidas pilhas de
lixo nas docas do rio East até um lugar no qual havia uma placa em que se lia Terminal de
Embarcação do Brooklyn, onde multidões se acotovelavam enquanto embarcavam. Silas P.
Swift embarcou junto com a multidão e o Sr. Doveribbon, tolo, fez o mesmo. A travessia
não era longa; assim que a balsa estava sendo puxada para a costa com as pessoas se
empurrando para desembarcarem primeiro, Silas tirou vantagem da incontrolável
multidão, deu um passo para trás, como se estivesse escorregando, e simplesmente
empurrou o Sr. Doveribbon por cima da grade da barca, nas águas rasas e insalubres do
rio East.
As pessoas se voltaram para olhar o que causara o barulho na água seguido pelo grito
de um homem; alguém da tripulação suspirou e se virou para procurar o croque, que
estava submerso.
Enquanto isso, Silas P. Swift seguia para resolver seus assuntos.