O Circo dos Fantasmas
Capítulo 36
Marylebone
Londres
Estimado Arthur,
O senhor escreveu perguntando por que não recebeu mais cartas! Pois bem, eis a
resposta: o pequeno Arthur faleceu há dois meses. Lembra-se dele? O único neto que conheceu? Ou será que já esqueceu? O pequeno caixão foi enterrado e Faith não contou com o conforto do marido nem do pai. Conviva com isso, Arthur Rivers, se for capaz.
Rogo para que volte a Londres para cumprir seu dever.
Deus parece achar que mereço ainda mais sofrimento. Tenho dores de cabeça durante todo o dia e toda a noite também. Não fosse por Millie, não sei o que seria de mim. Os médicos são imprestáveis. Não estou mais em condições de cuidar de forma satisfatória da casa do senhor em Marylebone e não temos dinheiro para contratar um criado. Millie sugeriu que TODOS deveriam morar comigo! Sete crianças! Estou muito doente e sentindo muitas dores em todas as partes do corpo. Também sofro de
inchaços e é claro que não tenho como conviver com crianças agitadas. Quanto ao marido de Faith, aquele bêbado, quanto menos eu falar, melhor.
Ninguém se importa comigo, ainda assim, abri mão da minha própria vida para cuidar de sua família, Arthur Rivers, sua família.
Londres está um verdadeiro caos. Há estrangeiros por todos os lados, todos se preparando para a Grande Exposição do Príncipe Albert. É impossível ir a qualquer parte (não que eu tenha saído ultimamente) sem trombar com um estrangeiro. E Hyde Park agora está cheio de bordéis e prostíbulos abertos por eles.
Continuo, como sempre, sua zelosa cunhada,
Agnes Spark (Srta.)
PS: recebemos cinco pagamentos.
Oh, papai, eu sinto muito por ter ficado tanto tempo sem
escrever. As coisas por aqui estão cada vez mais difíceis. Foi tão
triste o que aconteceu com o pequeno Arthur, papai. Não foi a
cólera, que já se foi, mas sim outro tipo de febre, e Faith sem
poder contar com o apoio do marido! Foi muito difícil para
ela. Aquele velho e bêbado do Fred desapareceu e nunca mais
foi visto. Ficamos sempre muito felizes com suas cartas e com o
dinheiro que envia, mas a vida anda tão exaustiva. Oh,
papai, será que o senhor não poderia vir para casa agora,
mesmo que por pouco tempo, só para tentar resolver as coisas
por aqui? Tentei conversar com a tia Agnes como o senhor
sugeriu, mas ela se mantém inflexível. Seremos bem mais
amáveis com a Sra. Preston agora que estamos mais velhas, pai.
Como fomos horríveis naquela época! Ninguém mais se lembra
daquele escândalo. Afinal, surgem escândalos novos e maiores
toda semana — ontem, um homem esquartejou duas mulheres
em Islington e colocou os pedaços em um vagão de trem, e os
jornais baratos dizem que 15 mil estrangeiros inundaram
Londres na semana passada e que, assim que chegaram,
alugaram casas para abrir bordéis e cassinos clandestinos para
atender aos milhões de pessoas que virão para a Grande
Exposição do Príncipe Albert no ano que vem, mas Charlie
diz “se acreditar em tudo que os jornais dizem, não vai mais
sair de casa” (como tia Agnes). Gostaria que o senhor
continuasse insistindo para que nos mudemos para
Marylebone, pai, apesar dos protestos da tia Agnes. Seria mais
barato — somos onze pessoas vivendo apenas com o salário de
Charlie na Companhia de Água e da sua gentil contribuição
(sem a qual já teríamos nos afogado em dívidas há muito
tempo, pai). Talvez o senhor possa vir para casa por pouco
tempo, apenas até ajeitarmos as coisas? Estou quase
enlouquecendo tentando agradar a todos e cuidar do
dinheiro. Graças a Deus por eu poder contar com o querido
Charlie, que sempre me ajuda e apoia. Faith está morando conosco agora, e não ouso deixar nenhuma das crianças com
ela no momento; ela perdeu o emprego na fábrica de conservas,
está muito triste e deprimida. Chora muito. E nós achamos os
desenhos que o senhor fez para o pequeno Arthur, ele sempre os
guardou, na despensa, atrás das geleias e das conservas. Chorei
quando os encontrei, pobre menino. Oh, papai, não consigo
descrever o quanto sinto sua falta. Mas também sei que o
senhor tem sua própria vida agora e fico contente que esteja
feliz. Então, se não puder vir para casa agora — bem, então
quando o senhor puder, querido pai, seria maravilhoso
recebê-lo, mas nós vamos nos arranjando até lá.
Com amor, Millie. Beijos.
Era uma noite quente e úmida. O inspetor Arthur Rivers se encontrava sozinho na
delegacia. Logo, nenhum outro policial de Nova York (que simplesmente não acreditaria
nos próprios olhos) viu o rosto do chefe banhado de lágrimas. Porque, é claro, ele se
lembrou do pequeno Arthur; o neto que carregara, amara e do qual se orgulhara: seu
primeiro neto, que recebera seu nome, e ele lhe desenhara navios no mar. E partira.
Talvez as lágrimas fossem também por coisas pelas quais não havia chorado; pois
homem, é claro, não chorava.
Sentado no ar quente e úmido da noite, cercado por relatórios sobre violência,
roubos e assassinatos nas docas de Nova York, pensou no menino e na querida filha
Millie tentando lidar com todos os problemas da família, sem dinheiro suficiente e,
mesmo assim, não pressionando o pai; pensou na primeira esposa, Elizabeth, que
falecera jovem demais. Pensou em Cordelia e, de repente, sentiu dificuldades para
respirar. Viu-a com os cabelos curtos cheios de pontas, segurando o ferro de passar.
Cordelia lhe dissera: “o passado não pode ser resolvido por um detetive.”
Fitou novamente os relatórios das docas, mas as palavras estavam embaçadas. Não
releu as cartas, mas as colocou, não em sua gaveta trancada a chave na delegacia, mas sim
no bolso da sua capa. Sabia que já deveria ter contado a Cordelia há muito tempo sobre
essas cartas, mas havia muitas coisas sobre as quais não conversavam.
Talvez, no fim das contas, os cacos de vidro entre eles fossem realmente
intransponíveis.
O pensamento se formou sozinho em sua mente.
Voltarei para Londres.