O Circo dos Fantasmas
Capítulo 28
O rosto pálido da Sra. Spoons ficou ainda mais branco, enquanto retorcia e retorcia e
retorcia a luva amarela e seu olhar vazio nada compreendia. Era Regina quem se sentava na
outra cadeira de balanço. Era Regina, a quem a Sra. Spoons não mais conhecia — mas
sentia falta, em Londres e em Nova York: era Regina quem, por anos, a tirava de perto do
fogo quando os outros haviam saído, ou quando Rillie estava no trabalho. Era Regina
quem cantava com sua voz forte. Também era a voz de Regina que lia os jornais por horas
a fio.
Então, quando Sra. Spoons acordava de manhã, Rillie a colocava na cadeira de balanço
junto à janela no sótão de Maiden Lane. Ela se sentava, pálida, na própria cadeira, e seus
olhos perscrutavam a sala. Não conseguia compreender a cadeira de balanço vazia ao seu
lado e o silêncio que a envolvia. Tornou-se cada vez mais agitada conforme as horas
passavam, começava a balançar loucamente, produzindo barulhos agoniantes. Por vários
dias, Rillie se sentava na cadeira vazia e tentava explicar, mas a Sra. Spoons não
compreendia. Quando Rillie disse Regina não houve qualquer sinal de reconhecimento no
olhar da idosa, apenas incompreensão, conforme as horas passavam. Olhou para a luva
amarela com o mesmo olhar confuso e a deixou cair no chão.
Então, certa manhã, ela disse de maneira repentina e clara:
— Está tudo bem por causa do bolo, é claro, mas Bert disse que eu não deveria sair.
E sua voz, o balançar da cadeira e suas palavras incoerentes ficaram cada vez mais
agitadas. Durante o dia, Rillie banhou gentilmente o rosto angustiado da mãe com um
pano fresco e falou com ela várias vezes. Tentou fazê-la prestar atenção no canário
amarelo, mas os olhos da idosa desviaram-se mesmo quando o valente pássaro cantou
alto e inspirado. Quando Monsieur Roland e Cordelia retornaram das salas da rua Nassau
no começo da noite, ouviram os lamentos de sofrimento curtos e altos da Sra. Spoons
enquanto subiam as escadas para o sótão; e perceberam que Rillie chorava. Monsieur
Roland compreendeu que, embora a Sra. Spoons não se lembrasse de Regina, ela se
lembrava de que algo não estava lá. Pegou a mão da idosa e falou com ela por bastante
tempo. Cordelia serviu uma grande dose de vinho do Porto para Rillie e envolveu a amiga
angustiada em um forte abraço. Monsieur Roland explicou à senhora que sua amiga mais
antiga, Regina, havia partido para ver a família de Alfie, que eles viviam em outra parte de
Nova York, e que ela retornaria com muitas histórias interessantes; enquanto falava, passava as mãos, de forma gentil e vagarosa, repetidas vezes, sem parar e sem tocá-la,
sobre o rosto e o corpo pequeno e agoniado da idosa. Ela se acalmou por um tempo: não
adormeceu, mas também não estava acordada, porém parecia calma e tranquila.
— Ela esteve assim o dia todo? — perguntou a Rillie com voz baixa.
Rillie tentou não chorar de novo enquanto olhava para a mãe, que agora parecia estar
em paz.
— Ela nunca ficou tão mal assim. Quem poderia imaginar que sequer perceberia que
Regina não estava aqui. Como posso ajudá-la?
— Você a ajuda, Rillie, minha querida — afirmou ele. — Você a ajuda todos os dias de
sua vida.
Quando a Sra. Spoons abriu os olhos e viu Rillie sentada ao lado dela, deu um sorriso
gentil, como se a reconhecesse e Rillie sorriu de volta, se inclinou e beijou a mãe. Logo
em seguida, porém, o olhar da senhora voltou a ficar confuso. E eles observaram o rosto
querido e pálido e o olhar perdido e sem compreensão.
— Venha para a cama agora, mamãe — chamou Rillie com voz suave, por fim.
A senhora idosa de rosto frágil, pálido e miúdo olhou para Rillie, de forma intensa,
por um longo tempo e, então, a Sra. Spoons, que cruzara de forma corajosa e sem
reclamar o oceano Atlântico de Londres a Nova York, provavelmente sem saber o que
estava acontecendo, estremeceu e morreu em Nova York, enquanto a filha Rillie segurava
sua mão de forma gentil e amável.
***
Enviaram uma mensagem para Regina, e Alfie a trouxe de volta para o funeral.
— Eu não deveria ter ido! — exclamou Regina, muito aflita. Havia ido contra todos
seus instintos; e é claro que isso mudava tudo. Mas Rillie e Cordelia a abraçaram e
falaram sobre como ela havia sido uma boa amiga durante todos aqueles anos, e
Monsieur Roland disse:
— Ela era uma senhora muito idosa.
Rillie lamentou:
— Tentei fazer alguns cálculos. Acho que já devia ter quase oitenta anos.
Alfie organizou tudo: a Sra. Spoons foi enterrada no cemitério da Capela de St. Paul na
Broadway, e Rillie, chorando durante a cerimônia curta e impessoal, colocou a luva
amarela sobre o caixão que abrigava o pequeno corpo, enquanto o desciam para a terra
sob o jardim do cemitério, voltado para o rio Hudson e talvez (Rillie queria acreditar), à
distância, para Londres.
— Então — disse Alfie, rapidamente.
Um amigo dele era dono de uma adega bastante barulhenta que servia ostras e cerveja,
e ficava nos arredores do cemitério. A pedido de Alfie, conseguiram uma pequena sala privativa no estabelecimento. Lá, Cordelia, Rillie, Monsieur Roland, Regina, Arthur Rivers
e Alfie Tyrone beberam em memória da Sra. Spoons e contaram a Alfie histórias de sua
vida em Londres; e também em sua memória, lembraram como ela ainda sabia a letra e a
melodia da antiga canção escocesa e, quando acabaram as histórias, cantaram de forma
serena:
O whistle and I’ll come to ye, my lad,
O whistle and I’ll come to ye, my lad,
Though father and mother and a’ should gae mad
Thy Jeannie will venture wi’ thee, my lad
Todos insistiram para que Regina retornasse a Washington Square após o funeral,
pois ela mal havia partido: novamente todos acenaram enquanto os dois velhos irmãos
tagarelavam pela noite virando a esquina de Maiden Lane, Alfie como sempre, calculara
para Cordelia o progresso estimado da viagem de Gwenlliam.
— Ela já deve estar saltando pelos trapézios agora! — disse ele da carruagem. — Ainda
vai demorar até você receber uma carta!
Naquela noite, Rillie Spoons foi para a cama sozinha pela primeira vez em tanto tempo
que nem se lembrava ao certo. Embora a Sra. Spoons dormisse quieta e encolhida do
outro lado da cama, Rillie se sentiu só ao se lembrar de todos os anos em que dormiram
juntas, e chorou; sentiu que essa mudança era, de alguma forma, mais do que havia
compreendido, que agora não restava mais nada de seu passado distante. Cordelia entrou
no quarto: não precisaram dizer nada, tão profunda era a relação entre ambas depois de
tantos anos. Cordelia apenas se sentou na cama e envolveu a amiga nos braços até que
dormisse. Escutou, por fim, a respiração profunda e constante de Rillie, mas continuou
lá, envolvendo-a gentilmente e pensando em como tudo havia sido, e como conseguiram
chegar tão longe. Lembrou-se que certa vez Rillie lhe dissera: Eu sou seu espelho. Todos
precisam de um espelho. Alguém que os conheça melhor do que eles mesmos. Se você não tem
um espelho, você não se vê e isso é ruim para as pessoas. Mas Cordelia também era o espelho
da amiga: Rillie sempre fora leal, amorosa e cuidava de todos eles, mas também possuía
um coração que precisava ser cuidado. Certa vez, um caçador de fortunas perseguira Rillie
presumindo que fosse rica: Monsieur Roland, Regina e Cordelia frustraram os planos
dele bem na hora, mas Cordelia percebera na época quanta esperança Rillie depositara em
outras alegrias. Ela era cheia de amor; amara sua querida mãe com muito carinho, e
Cordelia compreendia melhor do que qualquer pessoa o que aquela perda significava, e
durante toda a noite manteve a amiga em seus braços.
É claro que não haviam contado com La Grande Celine.
Várias semanas após a morte da Sra. Spoons, ela subiu para falar com Rillie:
Várias semanas após a morte da Sra. Spoons, ela subiu para falar com Rillie:
certificou-se de que todos estariam presentes também. Era tão óbvio que tinha algo
importante a dizer que Arthur ofereceu cortesmente uma cadeira para ela.
— Ora, obrigada, Arthur. Boa noite a todos. — Deu então um profundo suspiro,
agitou os cabelos ruivos e sorriu. — Rillie, há muito tempo quero lhe fazer um pedido,
mas pensei que talvez fosse demais para você. Nunca tive ninguém com quem pudesse
dividir minhas responsabilidades na casa de refeições. Eu nunca, nunca mesmo, tive um
dia ou uma noite de folga. Por favor, por favor, será que você poderia trabalhar comigo lá
embaixo quando se sentir forte o suficiente para isso? — (Escutaram um gritinho de
satisfação?) — Podemos chegar a um acordo sobre o turno e pagarei a você muito bem, eu
prometo. — E a pérola do tapa-olho reluziu e Celine deu um longo sorriso, que incluiu
também Monsieur Roland, como se dissesse: podemos dar uma volta pelos jardins de
Battery qualquer noite dessas, você e eu.
Rillie, na verdade, soltou uma risada:
— Eu adoraria! — respondeu, deixando todos tão satisfeitos que ela riu novamente. —
E ficaria muito feliz em poder ganhar algum dinheiro para nossa família.
— Como a última pessoa que trabalhou com Rillie — disse Cordelia em tom solene e
brincalhão. — E ela foi, Celine, minha sócia por muitos anos, eu não poderia deixar de
recomendá-la, ainda que, devo alertá-la, ela pode ser mandona às vezes! Também gostaria
de sugerir que pedisse para ela tocar sua flauta quando o movimento estiver tranquilo. —
E Cordelia e Rillie riram juntas como costumavam fazer, e Monsieur Roland acenou para
Celine como se dissesse obrigado, querida e Celine sentiu-se levemente extasiada.
Então, em algumas noites, Rillie se sentava à mesa do caixa: cortês, firme, afável,
hospitaleira: toda a tristeza que havia em seus olhos se fora. Apenas de vez em quando,
caminhava até a Igreja de St. Paul pela manhã, sentava-se e conversava com a querida mãe,
contando tudo o que vinha fazendo. A Sra. Spoons não podia responder, mas como já
não respondia fazia anos, então, talvez, as coisas não tivessem mudado tanto assim.