O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 36 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 35

 

 

Cordelia e Rillie caminharam em direção ao Howard Hotel onde uma multidão estava

reunida. Naquele momento, as Irmãs Fox eram algumas das pessoas mais famosas de

Nova York.

SESSÃO ESPÍRITA DAS IRMÃS FOX, dizia o cartaz. Vários homens seguravam grandes

placas nas quais se lia NÃO INSULTEM NOSSO SENHOR e mensagens semelhantes.

— Mas você não acha, Cordie — perguntou Rillie, observando o interesse

demonstrado pelos passantes — que essas irmãs estão tentando ganhar a vida exatamente

como nós? Entre todas as pessoas, podemos julgá-las? É claro que é uma fraude, sabemos

disso melhor do que ninguém, e elas devem saber o que estão fazendo.

— Exatamente o que eu estava pensando — respondeu Cordelia, irônica. — Tudo isso

me lembra de como éramos em Londres, tempos atrás, mas em uma escala muito maior

com toda essa publicidade americana! Veja as manchetes dos jornais!

Pois garotinhos ofereciam jornais em qualquer oportunidade.

Eram aguardadas no andar de cima, próximo à sala em que a sessão espírita

aconteceria: Monsieur Roland, Arthur, Alfie e Regina. Estava bastante claro que Regina

havia tido algumas discussões sobre haute couture com sua cunhada ou suas sobrinhas,

pois se vestia na moda, de um modo que Cordelia e Rillie nunca haviam visto antes.

— Elas me obrigaram a isso — confidenciou Regina assim que as viu. — Mas eu disse a

elas: só dessa vez. Olhe como esse chapéu é grande e exagerado! — E o tirou

imediatamente voltando a se parecer com ela mesma, só que em um vestido pomposo.

Alfie conversava com o inspetor Rivers e com Monsieur Roland. Regina baixou a voz e

assumiu um tom de conspiração.

— Eles são mesmo muito gentis — contou. — Compraram até uma cadeira de balanço

para mim! Mas é que, às vezes, não parece certo . Ainda sinto falta da sua mãe, Rillie,

aquela senhora engraçada. E sinto falta de vocês conversando na sala. Receberam mais

cartas da nossa menina?

— Nenhuma outra carta — respondeu Cordelia rapidamente.

— Venham, senhoras! — chamou Alfie, pois haviam sido convidados a entrar no salão

mal-iluminado, onde se acomodaram ao redor de uma grande e moderna mesa de

mogno. O salão era realmente mal-iluminado: apenas uma vela acesa sobre uma prateleira

atrás deles. As cortinas estavam cerradas.

Não era, porém, o que nenhum deles esperava.

O que chocou Cordelia e Rillie em um primeiro momento, e até mesmo Monsieur

Roland, foi o fato de as irmãs que foram levadas até o salão e apresentadas como as Irmãs

Fox, Kate e Margaret, serem inacreditavelmente jovens. Kate, a mais nova, devia ter apenas

11 ou 12 anos; a outra irmã, Margaret, parecia ter, no máximo, 15 anos. Muitas colunas e

artigos de jornal foram dedicados a elas e às misteriosas batidas dos mortos; houve

muitos exames relatados sobre as irmãs (realizados por respeitadas mulheres da cidade, é

claro), para verificarem se escondiam algo por baixo das roupas ou nos sapatos para

fazerem os estranhos sons: nada foi encontrado, mas registros das investigações e

verificações das vestimentas e dos corpos das irmãs eram notícias de primeira página e

tudo isso resultava em publicidade ainda mais ostensiva. Então, Cordelia e Rillie as

imaginaram como jovens espertas (sabendo bem como eram quando começaram o

negócio do mesmerismo em Londres). As Irmãs Fox, porém, com seus cabelos escuros e

beleza singular, pareciam ser extremamente respeitáveis e respeitosas — e jovens demais

para assumirem um papel e enganar toda Nova York. É claro que contavam com uma

comitiva: a irmã bem mais velha, Leah, parecia estar no comando; uma mulher de

aparência perturbada e que, na verdade, era a mãe das meninas; e vários cavalheiros que

recolhiam discretamente as doações. Um desses cavalheiros fez um pequeno discurso

pouco depois de ter apresentado as irmãs.

— As irmãs Fox são transmissoras — informou ele. — São um meio para que os

espíritos conversem com os mortais. Pedimos agora que os senhores e as senhoras

coloquem as mãos espalmadas sobre mesa. Agora, precisaremos esperar um tempo,

como sempre acontece, para ver se os espíritos desejam se comunicar. — O homem e a

mãe desapareceram. A irmã mais velha ficou de pé em um dos lados. Apenas as duas

meninas mais novas estavam sentadas à grande mesa, cercada de estranhos.

A segunda surpresa que tiveram foi o fato de que a sessão espírita, na verdade, não

chegou a acontecer.

E, de alguma forma, aquilo pareceu ter sido por culpa de Cordelia. A menina mais

jovem, Kate Fox, possuía olhos grandes e expressivos que brilharam sob a luz da vela

quando pousaram em Cordelia na grande mesa. E Cordelia e Rillie, que as observavam

com bastante atenção, perceberam que Kate fez um sinal bem discreto para a irmã

Margaret, que era mais bonita, e cujos olhos brilharam ainda mais quando viu Cordelia

também. A irmã mais velha, Leah, que parecia não ter problema algum com a dama da

mecha de cabelo branco declarou:

— Às vezes, usamos o mesmerismo em nosso trabalho. Agora, vou colocar as minhas

irmãs em um sono magnético para que se comuniquem melhor com os espíritos. —

Nesse momento, porém, tanto Kate quanto Margareth ergueram as mãos para impedi-la,

mas não fizeram qualquer movimento.

Seguiu-se um longo silêncio, durante o qual não afastaram os olhos de Cordelia e

pareciam estar ouvindo algo. Kate, com voz infantil, quebrou o silêncio:

 

— O espírito está aqui? — Mas não houve qualquer resposta. E não houve batidas na

— O espírito está aqui? — Mas não houve qualquer resposta. E não houve batidas na

mesa, nem embaixo nem em cima como fora descrito nos jornais. Então, de forma

educada e pesarosa, Kate disse: — Sentimos muito. Isto acontece algumas vezes. Os

espíritos não conseguiram vir.

Todos se agitaram ao redor da mesa de mogno, demonstrando decepção, raiva ou

ceticismo (e Leah parecia estar bastante zangada).

— Eu sou repórter do Globe — reclamou um jornalista, sem acreditar.

Mas a jovem Kate apenas repetiu com dignidade:

— Sinto muito. Os espíritos devem ter tido algum problema. Eles voltarão às 17 horas.

Sem querer, Arthur Rivers (se perguntando o que estava fazendo com as mãos

espalmadas sobre a mesa de mogno junto com trinta outras pessoas crédulas) riu alto

diante da precisão do horário. Entretanto, a jovem pareceu não ouvir: ela e a irmã

simplesmente se levantaram e deixaram o salão; a mais velha nada pôde fazer, a não ser

segui-las.

O séquito se apressou a se desculpar, o dinheiro foi devolvido e as reservas para

outros horários foram feitas. Algumas pessoas foram embora. Ouvia-se o som de xícaras

de chá vindo de outros aposentos do hotel com iluminação bem melhor: uma sala de

jantar e outro salão.

— Talvez eu possa convencê-los a tomar um refresco comigo — sugeriu Alfie.

Então, todos se sentaram em bancos de madeira no outro salão para comer pão de

gengibre e beber chá de sarsaparilla, enquanto ao lado deles alguns membros

uniformizados e exaltados de uma banda de música comiam torta de ostras, com seus

instrumentos ao lado da mesa. Regina começou a conversar com o tocador de tuba e

perguntou quais músicas conhecia.

Arthur Rivers disse em voz baixa:

— Elas a reconheceram, Cordelia.

— Parece que sim. Mas por que será que isso as fez parar?

— O circo foi a Rochester?

— Sim.

— É provável que tenham assistido ao seu número. Se elas forem uma fraude, talvez

achem que você será capaz de descobrir.

— Mas já descobri. É claro que tudo não passa de fraude! Mas não interromperia os

procedimentos. Meu Deus, Rillie e eu fizemos coisas bem semelhantes a isso.

— Elas não sabem disso — respondeu Arthur.

— E você não é uma fraude, minha querida — interveio Monsieur Roland, de forma

irônica. — E as irmãs devem saber disso. Tudo isso será explicado para a irmã mais velha

e não haverá nenhum transe de mesmerismo às 17 horas se você estiver na grande mesa. E

quem sabe elas não terão tempo de verificar alguns fatos sobre a sua vida (se conseguirem

jornais velhos até esse horário) de modo que os espíritos comecem a regurgitá-los?!

— Espero que não façam isso — declarou Cordelia, de forma decidida.

 

— Bem, espero que nosso velho e podre pai não venha nos assombrar — desejou

— Bem, espero que nosso velho e podre pai não venha nos assombrar — desejou

Alfie, melancólico. — Isso sim seria uma péssima surpresa! Ali é tudo muito escuro para

o meu gosto.

— Se ele aparecer, vou esbofeteá-lo, Alfie, e dizer-lhe para ir embora — prometeu

Regina. Então, ela se voltou para o músico cuja boca estava cheia de torta de ostra e disse:

— Sim, é sempre bom ouvir “Whistle and I’ll Come to You”, não é mesmo?

Às 17h, todos voltaram ao salão pouco iluminado. Algumas pessoas da sessão

anterior voltaram e havia alguns rostos diferentes, incluindo uma mulher chorosa com

um grande chapéu. Todos se sentaram ao redor da mesa de mogno. As meninas foram

uma vez mais conduzidas até o salão e todos ouviram a mesma mensagem: as irmãs Fox

eram transmissoras. As duas jovens se sentaram, serenas, à grande mesa e, daquela vez, não

olharam para Cordelia em especial. A mulher com o grande chapéu continuou a chorar.

Cordelia ficou extremamente surpresa com a preocupação estampada no rosto da

menina mais jovem. A pequena Kate Fox se levantou da cadeira, caminhou até a mulher e

pousou a mão de forma gentil no braço dela e a manteve ali por um instante. Nada mais.

A mulher ergueu o olhar, parou de chorar e, por alguma razão, retirou o grande chapéu.

Ela pareceu muito mais humana e ainda triste, porém não chorava mais. A jovem

retornou à cadeira. Então, o grupo de pessoas permaneceu sentado, em silêncio, na

penumbra. Todos, incluindo as Irmãs Fox, colocaram as mãos espalmadas sobre a mesa

conforme foram instruídos.

O que também não ficou claro nos artigos dos jornais foi como entrar em contato

com os espíritos demorava. Talvez tenham se passado dez minutos.

— O espírito está disposto a conversar? — perguntou Kate.

Passaram-se mais cinco minutos de silêncio. Regina estava começando a ficar agitada

nessa segunda vez e chegou a tossir alto algumas vezes. Não havia qualquer outro som no

aposento, exceto a respiração das pessoas ou algum cavalheiro limpando a garganta.

Então, um suspiro quebrou o silêncio, como se alguém já impaciente: Rillie tinha certeza

de que fora Monsieur Roland, mas não se atreveu a olhar para Cordelia, pois poderiam

rir.

Por fim, Regina disse em voz alta:

— E eu farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, e ficarás mudo, e não lhes servirás

de repreendedor; porque eles são casa rebelde. Ezequiel 3 — acrescentou ela como

explicação.

Essa interrupção foi tolerada, mas não discutida. Então, aconteceu. Apenas uma batida

baixa vinda de lugar nenhum quebrou o silêncio.

Margaret Fox perguntou:

— Alguém deseja falar?

Três batidas. Sim.

— Com alguém nesta sala?

Três batidas. Sim. As mãos das irmãs Fox permaneciam na mesa, paradas e

espalmadas, como as dos demais em torno da mesa. Seja o que for que estivesse acontecendo ali, não eram elas que provocavam os sons de batidas na mesa.

— Um cavalheiro? — perguntou Margaret.

Silêncio.

— Uma dama?

Três batidas. Sim.

— Com quem deseja falar? — Seguiu-se uma cacofonia de batidas. — Deseja usar o

alfabeto?

Três batidas. Sim.

À medida que o alfabeto foi lido, as batidas que vinham de lugar nenhum começaram

a escrever um nome: G.E.O. o que fez com que Alfie Tyrone (também conhecido como

George Macmillan) se contraísse na cadeira. No entanto, de repente, em vez de continuar

escrevendo aquele nome, ouviram outra investida de batidas escrevendo H.E.R.B. Então,

outras batidas altas se seguiram escrevendo V.Á. E.M.B.O.R.A.

— Peço que tenham paciência — pediu Margaret, educada. — Os espíritos estão

brigando para ver quem deve falar primeiro.

O som de risadas abafadas serviu para relaxar um pouco a tensão. Ninguém ao redor

da mesa reivindicou os nomes Geo ou Herb como seus ou como o de uma pessoa com a

qual desejavam entrar em contato.

— Tu disseste uma mulher — declarou Margaret em tom educado. Seguiu-se uma série

de batidas, resultando em E.L.I.Z.A.B.E.T.H. Cordelia sentiu mais do que viu a reação de

Arthur Rivers: ele, de repente, ficou muito tenso ao seu lado. Cordelia sabia que o nome

da primeira esposa dele era Elizabeth.

— É ele! — exclamou a mulher chorosa. — Ele está me chamando. Sou Elizabeth! —

informou ela para a mesa parecendo confusa. Arthur Rivers relaxou. — Meu marido está

me chamando! John! John! — Ela se inclinou para a frente como se quisesse abraçar a

mesa.

Kate disse com sua voz infantil:

— Ele está ouvindo a senhora. O que deseja perguntar a ele?

A mulher se sentou mais ereta, tentou se recompor e pareceu não saber mais o que

fazer. Por fim, falou com voz trêmula:

— Mas... Você está bem, querido?

Três batidas. Sim.

— Você pensa em mim?

Três batidas. Sim.

A mulher chorosa, de repente, pareceu muito frágil e digna enquanto encarava a mesa

de forma intensa, como se conversasse com ela.

— Isso é um truque, querido? — perguntou ela para a mesa. — Você pode me provar

que não é?

Não houve qualquer batida. Apenas o silêncio. A mulher pareceu chocada, como se

talvez o encanto tivesse sido quebrado, mas nada disse, apenas ergueu o olhar para a menina mais jovem, que tinha nas mãos o poder de sua sanidade. As batidas

recomeçaram.

EU AMO VOCÊ. LEMBA DE MIM.

E embora o espírito não tenha sido capaz de escrever “lembra” de forma correta, a

mulher chorosa olhou para as médiuns com uma expressão de gratidão e alívio no rosto.

Então, pegou seu grande chapéu e saiu do salão em silêncio. E Cordelia pensou consigo

mesma: de algum modo, elas estão fazendo algo que nós fazemos também. Elas oferecem

conforto para as pessoas.

As batidas recomeçaram quase que imediatamente: ao que parecia H.E.R.B. estivera

aguardando uma chance para falar, embora ninguém no salão quisesse falar com ele. Mas

antes que terminasse o que queria dizer com as batidas, uma banda de música passou

pelo corredor do lado de fora. H.E.R.B. não ficou nem um pouco chateado. Enquanto

acordes não de “Hail Columbia” ou da onipresente “O Susanna!” — mas sim uma versão

bem alegre de “Whistle and I’ll Come to You” passou por sob a porta (como se, na

verdade, a velha Sra. Spoons estivesse fazendo contato pela porta que dava para o

corredor), o espírito apenas batucou alegremente no ritmo da música (fazendo Rillie e

Cordelia rirem) até que a banda de música, depois de terem consumido suas tortas de

ostras seguiu pelo corredor, desceu as escadas e saiu para a rua. Então Herb continuou:

Ouvi dizer que encontraram ouro, disseram as batidas. A corrida do ouro ainda está

acontecendo?

— Diga a ele que há milhares de pessoas partindo para a Califórnia — respondeu um

cavalheiro.

— Há milhares de pessoas indo para a Califórnia — repetiu Margareth Fox, conforme

solicitado.

Obrigado, camarada. Boa sorte! Adeus.

— Adeus — despediu-se Regina, como se fosse a coisa mais natural do mundo falar

com uma mesa de mogno.

Toc toc. Outra mensagem chegou logo depois. A.L.F.R.E.D.

Alfie, que estava recostado na cadeira, não se moveu.

— Alguém aqui está esperando por Alfred? — perguntou Margaret, mas ninguém

respondeu.

— Alguém aqui se chama Alfred?

Regina, por fim, cutucou Alfie com o cotovelo de forma nada sutil, mas ele não olhou

para ela. Ninguém respondeu.

Um cavalheiro arriscou:

— Será que não querem dizer Fred? Meu velho avô se chamava Frederick.

Isso deu início a uma conversa sobre a família do cavalheiro, cujo avô se chamava

Frederick. Na verdade, a conversa foi bastante mundana, já que o cavalheiro sentado à

mesa contou para o espírito todas as novidades da família. De repente, as batidas se

tornaram uma cacofonia do mesmo modo que antes quando G.E.O. e H.E.R.B. estavam

brigando para ver quem falaria primeiro.

— Há crianças aqui — informou Kate Fox e, pela primeira vez, olhou diretamente para

Cordelia.

Cordelia emitiu um pequeno suspiro de surpresa e raiva. Logo depois, porém, seu

rosto se tornou completamente inexpressivo, embora as batidas agora viessem em rápida

sucessão. As batidas resultaram em E.U., seguido de N.Ã.O. E.U. P.R.I.M.E.I.R.O.

— Há duas crianças. — Kate e Margaret olharam para Cordelia que as olhou com

expressão neutra no rosto.

Os espíritos bateram. C.

No entanto, outra mulher na mesa declarou:

— É para mim! É Algernon. Ela começou a chorar compulsivamente e, por fim, houve

um intenso contato com uma criança falecida chamada Algernon e as batidas ficaram

bastante animadas em determinado momento e a mãe de luto, através das lágrimas, disse:

— Ele sempre foi um problema, Deus o abençoe.

As batidas estavam intensas naquele momento, parecendo vir de lugar nenhum, mas

era provável que viessem de baixo da mesa. Então, Margaret declarou:

— Um pai está chamando. Será que alguém aqui perdeu o pai recentemente?

E várias pessoas gritaram para falar com os pais falecidos e houve uma troca de

mensagens de amor e afeto além de notícias. Então, as batidas pararam e a sessão espírita

chegou ao fim. As irmãs Fox retiraram-se em silêncio.

Entretanto, à medida que as pessoas saíam lentamente do salão para o ar mais leve do

corredor do hotel, colocando doações em uma grande caixa próxima do local onde mais

pessoas aguardavam pacientemente pela sua vez, um cartão foi entregue para Cordelia por

um dos cavalheiros que recolhiam o dinheiro. Nele estava escrito com uma letra infantil e

apressada: Amanhã. Sessão Espírita Privada. Meio-dia.

 

Alfie puxou o paletó e alisou o bigode enquanto caminhavam de volta para casa em

Maiden Lane onde La Grande Celine os aguardava a fim de ouvir um relato (pois não

pôde deixar o caixa do seu restaurante).

— Venham! — chamou ela. — A mesa atrás do biombo está livre. Temos torta de maçã

e melão e amendoim. Já vou me juntar a vocês.

— Não acredito em nenhuma palavra daquilo! — exclamou Alfie, sentando-se ao lado

de Regina. — Mas não respondi quando ouvi meu nome, Queenie, só para me prevenir

caso o papai estivesse procurando por mim!

Regina soltou uma gargalhada, enquanto Cordelia, em tom alegre, contou a Celine

sobre o erro de grafia, lemba de mim, e Rillie relatou com grande animação sobre a banda

local tocando no corredor e o espírito batendo na mesa no ritmo de “Whistle and I’ll

Come to You” como se a Sra. Spoons tivesse enviado um pedido de algum lugar.

— Era como quando eu tocava Schubert com a minha flauta! — exclamou Rillie, ainda

rindo. — Para promover uma atmosfera agradável para Cordelia enquanto ela praticava o mesmerismo. Querida mamãe, eu derramei uma lágrima, mas também ri! Isso me fez

pensar nela.

— Existem tantas citações da Bíblia que eu poderia ter usado! — exclamou Regina. —

Não é de se estranhar que a Igreja não esteja muito entusiasmada com isso. Vocês viram

todas aquelas pessoas protestando com cartazes do lado de fora sobre Deus ser o único

milagreiro? Isso é uma competição de milagres! — E soltou outra gargalhada, explicando a

Celine sobre a citação de Ezequiel 3.

Monsieur Roland olhou para Cordelia.

— Então?

Ela esperou um pouco antes de falar. Não mencionou o pequeno cartão que recebera.

— Não sei como fazem o som das batidas — declarou por fim. — Observei com muita

atenção, assim como o senhor, e não faço a menor ideia de como elas fazem aquilo.

Talvez sejam os ossos do joelho ou dos pés. Talvez haja mais alguém as ajudando. O

senhor tem alguma resposta?

Ele meneou a cabeça. Os outros ainda contavam os eventos para Celine. Monsieur

Roland e Cordelia se sentaram à extremidade da mesa.

— Quanto aos nomes — continuou ela. — Creio que às vezes elas reconheçam algumas

pessoas ou pesquisem informações sobre seus clientes quando eles chegam. Mas aposto

que quase sempre usam nomes populares ou fazem perguntas que as orientam na

resposta. O senhor notou como elas recebiam informações de forma tão esperta do

público? Tanto “Elizabeth” quanto “Fred”, nomes bastante comuns, provocaram

informações do público. Tudo isso é facilmente explicado e, é claro, que o pai de alguém

já terá morrido. Mas não é estranho que não sejam “espertas” como eu esperava que

fossem, elas são bem comportadas, agradáveis e muito atraentes. Além de serem tão

jovens! De alguma forma, entraram nesse negócio para confortar as pessoas, o senhor não

acha? Assim como nós. — Ele nada respondeu. — Mas é claro que sei que aquilo não

passa de um truque — concluiu Cordelia.

— É claro que é um truque, mas concordo com você que havia algo ali. — Ele fez uma

pausa antes de dizer a palavra. — As meninas mais jovens tinham algo de empático. O

desejo de ajudar e de confortar as pessoas era genuíno. Eu mesmo achei que elas seriam

mais traiçoeiras. Achei que fariam mais truques.

— Entendo o que quer dizer — concordou Cordelia. — E achei engraçado de uma

maneira positiva. Meninas jovens se divertindo. Adorei quando o espírito começou a

batucar no ritmo da música! É óbvio que, de alguma forma, uma das meninas estava

fazendo aquilo. Mas é exatamente o tipo de coisa que um jovem faria e isso me fez rir!

Sempre cercamos a morte com tristeza e nunca esperei rir. Mas fiquei zangada quando

tentaram falar comigo. — Seus lábios se contraíram. — No entanto, elas têm um jeito

gentil, empático, como o senhor disse. Ajudam as pessoas.

— E como o senhor acha que elas produzem os sons de batidas, Monsieur Roland? —

perguntou Celine do outro lado da mesa. Ele meneou a cabeça e Cordelia respondeu:

 

— Rillie Spoons, você às vezes estala os dedos dos pés quando tira as botas! Tire as

— Rillie Spoons, você às vezes estala os dedos dos pés quando tira as botas! Tire as

botas e mostre a eles! Tem de ser um truque, mas se trata de um muito inteligente. Talvez

consigam estalar os ossos das pernas? Caso não sejam os dedos dos pés?

Rillie acatou o pedido e estalou os pés, produzindo, na verdade, um som de batida, e

todos riram.

— Adoraria que minha idosa mãe aparecesse quando eu estalasse os dedos dos pés —

declarou Rillie em tom irônico. — Gostaria de vê-la e abraçá-la uma vez mais.

— Eu me pergunto — começou Monsieur Roland. — Eu me pergunto se talvez tudo

não tenha começado como uma brincadeira de criança, para provocar os pais e os

vizinhos e, de repente, elas perderam o controle e a irmã mais velha se juntou a elas. Li

em algum lugar que havia quacres que as apoiavam. E se religiosos afirmaram que era

real, elas provavelmente não souberam como acabar com tudo aquilo. E quem é que pode

dizer que elas mesmas talvez não acreditem, já que parecem despertar a crença de muitas

pessoas? Sei que a tristeza e a perda fazem com que as pessoas enlouqueçam. Algumas

chegam a procurar por qualquer coisa para aliviar a dor, mesmo que seja obviamente um

truque. Mas, em nosso trabalho, não mentimos para essas pessoas. Não lhes dizemos que

elas, na verdade, não morrem e que podem, de alguma forma, voltar e conversar por

meio de batidas na mesa. Essas meninas Fox, pois, creio que não passem de meninas, se

transformaram em algo perigoso por causa da promoção feita por adultos, que deveriam

ser responsáveis, e que se aproveitam delas para ganhar dinheiro.

— Talvez nada disso tenha importância, querido Monsieur Roland — interrompeu

Cordelia em tom gentil. — Se o que elas fazem ajuda as pessoas a lidar com a dor. Aquela

mulher de chapéu. Elas a ajudaram.

— Certamente, você não acredita que ela estava conversando com o falecido marido.

— É claro que não! Mas talvez, em sua tristeza, ela acreditou que estava. Será que

importa o fato de não estar falando com ele? O senhor sabe o que acho? Acho que elas

deveriam ser deixadas em paz para fazerem o que quer que façam, pois as pessoas estão

dispostas a gastar alguns dólares em troca de conforto.

— Minha querida, seu argumento não tem qualquer rigor intelectual.

Cordelia riu.

— Meu querido Monsieur Roland, eu não tenho nem um osso com rigor intelectual

no meu corpo!

Em um lugar mais distante da mesa, Arthur Rivers se levantou para seguir para as

docas. Ele se dirigiu a Alfie:

— Estou muito feliz que tenha organizado essa saída — disse ele. — Muito obrigado.

Eu me diverti! E eles chamaram por Alfred!

— Agora, ouça bem, Arthur, ninguém me chama de Alfred! — indignou-se Alfie. —

Nunca fui Alfred. Nem mesmo meu pai me chamava de Alfred. Diga a eles, Queenie! — E

Regina concordou com a cabeça. — E se ele nunca me chamou de Alfred enquanto era

vivo, tenho certeza absoluta de que não me chamaria assim depois de morto! As senhoras me desculpem a franqueza, queridas senhoras, mas estou aliviado de não ter de

confrontar meu pai mais de cinquenta anos depois de ter me livrado dele!

Quando Arthur se dirigiu para a porta, Cordelia o acompanhou e, de forma pouco

usual, puxou o seu braço.

— Elas sempre escolhem nomes conhecidos, Arthur. É claro que se trata de um

truque. Certamente haveria mais de uma pessoa para quem o nome Elizabeth significava

algo.

Ele olhou para a esposa por um momento.

— Eu sei disso, Cordelia — respondeu ele, na porta da casa de Celine.

Como ela tem sorte, pensou La Grande Celine, vendo-os juntos. Quem poderia

acreditar que ela deixava algo passar?

— Oh! — exclamou Regina. — Esqueci meu grande chapéu.

 

Na manhã seguinte, Cordelia mostrou para Rillie o pequeno cartão, no qual se lia Sessão

Espírita Privada. Meio-dia.

— Você irá? — perguntou Rillie, curiosa.

— Sessão espírita privada. Pois sim! Estou interessada em analisá-las melhor, mas

temo que comecem a dizer “há crianças aqui”, como fizeram na noite passada.

— Meu Deus! Elas são tão jovens e cometem erros de grafia! Talvez tenham pesquisado

a sua história como bem disse Monsieur Roland e pensaram que poderiam confortá-la.

— Não quero que meninas estranhas que não sabem nada sobre mim tentem me

confortar! — exclamou Cordelia de forma uma tanto acalorada e Rillie percebeu que ela

trazia uma expressão estranha e tensa no rosto. — Oh, sinto muito, Rillie — desculpou-se

ela, tentando rir. — Talvez eu esteja encarando isso de forma muito grosseira. Afinal, são

apenas meninas com boas intenções. E talvez seja porque eu sinta muita falta da minha

menina bonita e esperta. É que eu... Bem, acabei de voltar da agência dos correios. Sei que

é um absurdo, mas eu vou à agência dos correios todos os dias, às vezes, duas vezes. Por

que não chegaram mais cartas? Já passaram várias semanas. Comecei a me preocupar com

ela. Acho que talvez tenha acontecido algo de ruim. Penso no duque. E se ele também

mandou irlandeses atrás dela?

— Cordie, ouça com atenção o que tenho a dizer! Tenho certeza absoluta de que, a

essa altura, se algo de ruim tivesse acontecido, já teríamos recebido alguma notícia de

Peggy Walker ou de Silas.

— Eu sei. Eu sei. No fundo, eu sei. Mas é que os meus instintos fazem com que eu

tema pelo pior. E simplesmente não quero que essas meninas Fox comecem a falar dos

meus filhos, qualquer um deles. Mesmo sabendo que elas devem ter encontrado

informações antigas sobre mim e sei que querem ser bondosas. Mas é apenas o meu

instinto — lamentou-se. — Ah, eu sou tão supersticiosa quanto todo mundo!

— Onde está o seu instinto, Cordie? — perguntou Rillie, tentando fazê-la rir. Mas

Cordelia não riu. Em vez disso, levou a mão ao estômago e respondeu:

— Bem aqui.

 

Cordelia, por fim, apareceu no salão do Howard Hotel ao meio-dia, atendendo ao convite.

Apenas a irmã mais velha, Leah estava ali, deitada em uma chaise longue e não parecia nada

bem.

— Tenho terríveis dores de cabeça — declarou ela em tom de desculpas, segurando

uma das duas garrafas de láudano, enquanto a outra estava ao seu lado. Seus olhos

estavam um pouco vidrados: estava bastante claro que havia tomado uma grande

quantidade de ópio bem ali, no salão do hotel.

A porta se abriu e as duas irmãs mais jovens entraram, seguidas pela mãe e por dois

cavalheiros que sempre aceitavam “doações”. As jovens pareceram hesitar quando

perceberam que a convidada já havia chegado. Sorriram para Cordelia e falaram com

timidez e respeito. Kate, corando um pouco, trazia um pequeno buquê de flores

escondido atrás das costas e o entregou a Cordelia.

— Queríamos conhecê-la — explicaram ambas em uníssono.

— Nós a vimos no circo em Rochester — contou Margaret. — Não muito antes de

ouvirmos as batidas em nossa casa.

— Nunca esquecemos a senhora — declarou Kate. — Lemos tudo a seu respeito. A

senhora é muito famosa.

— Vocês também são famosas agora — respondeu Cordelia, segurando o pequeno

buquê, cheirando as flores e sorrindo para as meninas, porque não conseguia evitar.

Havia algo de muito sincero e simples nelas.

— Nós tínhamos de vê-la. Os espíritos estão chamando a senhora — contou Kate com

sua voz suave e infantil. — E nós nos perguntamos se poderíamos aprender rapidamente a

sermos mesmeristas se houver tempo.

Aprender rapidamente a ser mesmeristas!

— Creio que sua irmã tenha dito que já era mesmerista — respondeu Cordelia, seca.

Leah ainda estava deitada de olhos fechados na chaise longue.

— Bem, às vezes, fingimos estar em transe — contou Margaret, sem qualquer

subterfúgio. — As pessoas parecem gostar e queremos fazer tudo para que fiquem mais

receptivas. Na verdade, porém, gostaríamos de aprender a fazer isso da maneira correta.

Para ajudarmos outras pessoas! Podemos fazer isso depois de conversarmos com os seus

espíritos?

Cordelia lhes lançou um olhar penetrante e tirou as luvas bem devagar.

— Talvez eu possa ajudar com a dor de cabeça de Leah — sugeriu ela. Mas a irmã mais

velha agora dormia com a garrafa vazia caída no chão ao seu lado.

— Todas nós sofremos com dores de cabeça — informou Margaret. — E precisamos

de láudano. Acho que deve ser algum problema de família.

— Talvez seja porque tenhamos de nos concentrar tanto e com bastante frequência —

opinou Kate. Ela olhou para Cordelia com seus olhos grandes e escuros, e Cordelia, tão habituada a intuir o que as outras pessoas sentiam, pensou que ambas eram jovens e

sinceras demais para mentir ou enganar. Uma sensação estranha de queda passou por sua

cabeça, mas ela se empertigou e pensou: não seja tola.

— Sente-se aqui, Kate — convidou Cordelia, por fim.

— Ah não, eu não quero ser mesmerizada. Não mesmo. O que eu quero é aprender a

mesmerizar outras pessoas. Não como Leah, mas sim do modo correto.

— Creio que ninguém consiga ser um mesmerista sem nunca ter sido mesmerizado

antes, Kate. É parte do aprendizado e do treinamento.

A jovem se sentou, um tanto relutante. Cordelia começou a fazer os passes longos e

lentos, repetidas vezes, sem parar, sobre a cabeça e os ombros de Kate, sem tocá-la e sem

parar. Kate pareceu adormecer rápido demais: todos no aposento assistiram em silêncio.

Cordelia parou com os longos passes. Então, todos permaneceram silenciosos em seus

assentos.

Ouviam o som da respiração profunda de Leah em seu sono induzido pelo láudano;

um dos cavalheiros presentes tossiu, inquieto. Observavam Kate que, depois de um

tempo, moveu um dos braços. Então, abriu os olhos. Olhou para Cordelia e não afastou

o olhar. O rosto de Cordelia era uma máscara. Por fim, Kate falou algo que nada tinha a

ver com o mesmerismo.

— Tenho uma mensagem para a senhora — declarou ela. — Do seu filho.

O rosto de Cordelia não demonstrou qualquer sentimento e ela nada disse.

Depois de um momento de silêncio profundo, Kate disse:

— É verdade, não é? Que, às vezes, há energia entre as pessoas?

— Sim — respondeu Cordelia. — Creio que sim.

— É isso que sentimos — explicou a menina, de forma simples. — A senhora verá.

Obrigada por me mesmerizar. Agora, vamos conversar com os espíritos.

Cordelia se virou para as outras pessoas no salão. Notou que Leah agora parecia

parcialmente acordada.

— Gostaria de saber — começou Cordelia —, se os senhores fariam a gentileza de

permitir que eu fique sozinha com Kate e Margaret. Existe algo sobre o mesmerismo que

eu, como praticante, preciso passar para elas reservadamente.

— Mas nós queremos conversar com os espíritos. Eles querem muito falar com a

senhora!

— Eu preciso conversar com vocês — afirmou Cordelia. — Vocês têm capas?

— Mas elas não podem sair, há pessoas aguardando por elas nas escadas no hotel.

— Eu moro aqui perto — informou Cordelia. — E conheço outro caminho.

— Seria muito bom sair para um passeio — concordou Margaret. — Nós nunca

saímos para passear porque as pessoas sempre nos reconhecem.

— Mas há uma sessão espírita pública marcada para as 15 horas. — A Sra. Fox parecia

confusa com a mudança nos planos. — Não acho que isso seja uma boa ideia.

— Estaremos de volta bem antes desse horário — garantiu Cordelia, com firmeza. —

Um pouco de ar puro lhes fará bem.

Então, as irmãs Fox e Cordelia Preston caminharam pelos becos dos fundos até terem

se afastado de Maiden Lane. Cruzaram a Broadway enquanto as meninas olhavam a sua

volta com grande interesse e alegria. Além disso, conversaram com Cordelia e riram

sobre a primeira vez que ouviram batidas na casa delas, ao lembrarem-se dos próprios

temores. Contaram que chamaram os pais e que estes chamaram os vizinhos. Contaram

também sobre a longa viagem que fizeram até Nova York e sobre como era estarem com

ela na cidade. Então, chegaram ao Battery Park, sentaram-se com Cordelia sob um plátano

e olhavam os navios que chegavam e partiam. Cordelia as observava durante toda a

conversa: estavam tão animadas e, de algum modo, tão alegres, abertas e sinceras. Eram

jovens adoráveis e era difícil não admirá-las. Cordelia desejou poder capturar a imagem

delas. Gostaria de fazer daguerreótipos desses rostos. Não era de se espantar o fato de fazerem

sucesso, principalmente com os cavalheiros. Afinal, quem não gostaria de olhar para

esses rostos atraentes?

— Olhem para todas essas pessoas acenando e chorando! — apontou Margaret. — Eu

não gostaria de deixar a América.

Mas Kate respondeu:

— Oh, Maggie, um dia nós iremos para a Inglaterra, para a França e para muitos

outros lugares.

Com voz muito suave, Cordelia falou. Levou o buquê de flores até o nariz para cheirá-

las.

— Por que você não quis ser mesmerizada, Kate? — A menina pareceu se assustar,

mas Cordelia continuou. — Sou uma mesmerista muito experiente. Você achou que

conseguiria me enganar?

Kate corou.

— Eu... Eu senti algo. Com certeza senti. — Sua irmã a ouviu com muita atenção. —

Mas lutei contra o que senti, eu acho. Eu... quero ajudar as pessoas. Maggie e eu

conseguimos sentir o que as pessoas desejam. Apenas fingimos estar em transe para

tornar a experiência um pouco mais dramática, mas não queremos entrar num de

verdade, pois assim não poderíamos ajudar as pessoas!

Margaret declarou simplesmente:

— Às vezes, é como se eu pudesse sentir o que eles querem ouvir. É exatamente assim,

na verdade.

Elas são tão encantadoras, pensou Cordelia. Não é de se estranhar que as pessoas as achem

intrigantes.

— Sim — concordou Cordelia. — Acredito que vocês duas possuem uma empatia

pouco comum em relação às pessoas. Consigo perceber isso. — Então, ela perguntou em

voz baixa: — Vocês precisam de ópio frequentemente?

— Ah, sim — responderam ambas. — Quase todos os dias. Para nossas dores de

cabeça. Ficamos muito excitadas e, se não tomarmos, não conseguimos fazer nosso

trabalho.

 

Cordelia não permitiu que sua expressão demonstrasse qualquer sentimento. Não fez

Cordelia não permitiu que sua expressão demonstrasse qualquer sentimento. Não fez

perguntas sobre as misteriosas batidas, porque, estranhamente, não era aquilo que a

intrigava: elas faziam os sons de alguma forma, talvez estalando os ossos como Rillie. Ela

permaneceu sentada, em silêncio, com as irmãs.

Então, ficou assustada ao notar que os grandes olhos escuros de Kate estavam cheios

de lágrimas. Olhos que pareciam quase roxos à luz do dia.

— Não é por isso que pedimos para a senhora vir, para que pudéssemos ser

mesmerizadas! Pensamos que a senhora poderia transmitir alguns ensinamentos rápidos

e úteis, mas o que realmente queríamos era lhe passar mensagens dos seus filhos e a

senhora não permitiu que o fizéssemos. Ora, nós lemos tudo sobre a sua vida! Sabemos

que enfrentou situações terríveis. Costumávamos guardar os jornais. Fomos ao circo

duas vezes só para poder vê-la! Por que a senhora nos impediu? Por que não permitiu

que lhe déssemos algum conforto? Foi por isso que a convidamos para uma sessão

privada, para que seus filhos pudessem vir e ninguém mais ouviria, apenas a senhora! —

Kate agora chorava copiosamente. Cordelia pegou em seu casaco claro um lenço e o

entregou para ela. Margaret também começou a chorar.

— Queríamos ajudá-la!

Uma reação perversa e terrível dentro de Cordelia fez com que quisesse rir da

situação: duas meninas jovens, estranhas, chorosas e talvez histéricas sob um plátano em

Battery Park. Às 15h e às 17h e, sem dúvida, às 20h, levariam mensagens dos mortos às

pessoas. Naquele momento estranho, daria qualquer coisa por uma taça de vinho do

Porto.

— Sim, vocês poderiam ter me confortado de alguma forma e sou muito grata por

terem pensado nisso. — Cordelia respirou fundo. Ela entendia essas meninas talvez

melhor do que elas mesmas e não tinha a menor intenção de machucá-las ou magoá-las.

— Eu nunca faria mal a vocês — disse ela, com cuidado. — E estou muito feliz por termos

passado um tempo juntas. Mas creio que sei — continuou em voz baixa e ambas

prestavam atenção em cada palavra. — E creio que também sabem que o conforto que

querem me dar viria de vocês, o que é muito gentil, mas não seria dos meus próprios

filhos.

Nenhuma das meninas falou. Margaret enxugou as lágrimas com a manga do vestido,

num gesto estranho e infantil. O choro bastante real de Kate foi ficando cada vez mais

fraco e ela olhava para Cordelia sem dizer nada. O silêncio se estendeu por um longo

tempo, enquanto Nova York seguia em seu ritmo frenético. Margaret mordeu o lábio

várias vezes, Kate mexia nervosamente nas dobras do vestido e no lenço de Cordelia.

— Bem — disse Margaret, de repente, como se as palavras de Cordelia não tivessem

sido ditas. — O menino Algernon passou de toda forma. Muito pomposo chamar uma

criança de Algernon! — E ela e Kate se esqueceram das lágrimas e soltaram uma

gargalhada infantil.

Cordelia se lembrou da mulher afirmando: “É Algernon!” Não foram as meninas que

escreveram aquele nome. Como elas aprenderam, pensou Cordelia, com ironia. Perguntar se alguém perdeu um dos pais ou um filho quando a resposta de mais de uma pessoa

provavelmente fosse sim. As meninas agora trocavam nomes ridículos que apareciam

durante as sessões espíritas: St. John, Marmaduke, Puss.

— Puss? — perguntou Cordelia. — Era um gato?

— Não, uma tia! Tia Puss! — E as meninas começaram a rir no ar morno.

Elas são cheias de boas intenções. Pensou na garrafa vazia de láudano caída no chão do

salão. Sabia que deveria condenar; mas, não importava o que dizia Monsieur Roland,

Rillie e ela, já bem mais velhas, haviam feito o mesmo e isso as sustentara. E à noite

(quando mal podiam acreditar em como estavam sendo bem-sucedidas), tomavam taças de

vinho do Porto. Sentiu uma onda de afeto por essas jovens: seus segredos desafiadores e

sua coragem.

— Deixem-me ler o futuro de vocês — sugeriu ela. — Deem-me suas mãos. — E como

uma grande charlatã, segurou as palmas e declarou: — Vejo que ambas serão ricas e

famosas e farão as pessoas felizes. Margaret, você conhecerá um estranho alto e moreno.

Kate você conhecerá um estranho alto e louro. E ambas viverão felizes para sempre.

E juntou as palmas das meninas e as segurou nas mãos por um momento e depois as

soltou. Elas sorriam como se ao juntarem as mãos tivessem estabelecido um pacto sem

palavras.

— Será que a senhora poderia dizer o nome do meu homem alto e moreno? — pediu

Margaret, ansiosa. — Para que eu saiba assim que conhecê-lo. — Era como se ela

acreditasse em todas as palavras.

— Oh, mas você saberá — afirmou Cordelia. — A pessoa sempre sabe! — E as irmãs

Fox riram juntas como qualquer menina jovem e, por uma fração de segundo, Cordelia

se permitiu imaginar que eram Manon e Gwenlliam, suas adoráveis filhas, que estavam ali

sentadas com a mãe, rindo e cheias de vida sob os plátanos. E, enquanto subiam a

Broadway, as meninas começaram a conversar de forma distraída, como se Cordelia nada

dissesse. Elas lhe contaram, animadas, sobre as pessoas famosas que haviam participado

das sessões espíritas e para onde viajariam depois de Nova York.

Ela as deixou em segurança na porta dos fundos do hotel. Ainda carregava o pequeno

buquê.

— Mas não façam brincadeiras com mesmerismo.

E ambas concordaram com a cabeça, obedientes.

— Mas a senhora virá de novo? — perguntou Kate, bastante ansiosa.

— Talvez — respondeu Cordelia. Mas sabia que não. — Agora, vão — disse ela, e as

meninas acenaram um tanto tristes, talvez, e olharam para trás uma vez mais, como se

também soubessem que não a veriam de novo.

Então, Kate voltou.

Um pequeno som se elevou no ar, quase inaudível e Cordelia não tinha certeza se

realmente o ouvira.

— As batidas são um truque. — As palavras se foram como se nunca tivessem sido

ditas. Tudo que Cordelia ouvia agora era a respiração irregular da menina. — Mas não o sentimento . O sentimento é real. Então, as palavras se agitaram: — Seja o que for que a está

perturbando, Sra. Preston, espero que melhore. — E, uma vez mais, Cordelia sentiu a

sensação de algo se virando e caindo dentro de sua cabeça. E Kate, parecendo

compreender isso, deu de ombros como se também não entendesse. — Eu não sei como,

mas consigo sentir — afirmou ela de forma simples. — Aqui. — E colocou as mãos sobre

o estômago.

Então, partiu.