O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 1 de 49

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O Guardião

Capítulo 1

Nos primeiros dias da Grande Guerra, nos campos de batalha de Apres e Ives, eu desenvolvi a capacidade de abandonar o sono com o mero tremular de uma pálpebra. Foi uma adaptação necessária, uma vez que os dorminhocos provavelmente acabariam despertados por um comando dren de navalha em punho. Este é um vestígio do meu passado que eu preferia ter deixado para trás, levando-se tudo em conta hoje. Rara é a situação que requer pleno funcionamento de todas as percepções de um indivíduo, e no geral o mundo se torna um lugar melhor quando visto apenas de soslaio.

Um bom exemplo disso: meu quarto era o tipo de lugar melhor de olhar quando se estivesse meio sonolento ou em torpor alcoólico. A luz do fim do outono atravessava minha janela empoeirada e fazia o interior, já situado apenas a poucos graus acima da imundície, parecer ainda menos atraente. Até mesmo para os meus parâmetros aquele lugar era um lixo. E meus parâmetros são baixos. Uma penteadeira gasta e um jogo de mesa e cadeiras lascadas eram os únicos móveis além da cama, enquanto o chão e as paredes eram cobertos por uma camada de sujeira. Urinei no penico e joguei o mijo na viela logo abaixo.

A Cidade Baixa estava a toda, com as ruas ecoando os berros dos vendedores de lampreias anunciando a pesca do dia aos carregadores, que as levavam para a Cidade Velha, ao norte. No mercado, algumas quadras para a direita, mercadores do leste vendiam produtos trapaceando no peso a intermediários por cobre prensado, enquanto na Rua da Luz os trombadinhas ficavam de olho na oportunidade de pegar desprevenido um vendedor qualquer ou algum sangue azul muito longe de casa.

Nas esquinas e nos becos, os garotos trabalhadores anunciavam as mesmas coisas que os vendedores de lampreias, mas num tom de voz mais baixo e por um preço mais alto. Prostitutas imundas estendendo o turno se insinuavam a quem passasse, na esperança de que seu encanto desbotado rendesse mais um dia de bebida ou abrigo. Os homens perigosos estavam quase todos dormindo ainda, com suas navalhas guardadas perto da cama. Os homens realmente perigosos estiveram acordados por horas, e suas penas e seus livros contábeis andavam sendo bastante utilizados.

Peguei do chão um espelho de mão e o segurei à distância de um braço. Na melhor das hipóteses, perfumado e bem cuidado, eu sou um homem feio. Um nariz grosseiro jaz abaixo de olhos grandes demais, enquanto uma boca mais parecida com um ferimento de faca compõe o centro do rosto. Reforçando meus encantos naturais há um acúmulo de cicatrizes que faria um masoquista corar. Uma linha incolor sobe pela minha bochecha, onde um estilhaço de artilharia passou a poucos centímetros de me botar na cova, e a carne revirada da minha orelha esquerda denuncia a briga de rua em que terminei em segundo lugar.

Um frasco de Sopro de Fada dava bom dia da madeira imunda da minha mesa. Saquei a rolha e inalei. Vapores intensamente adocicados preencheram minhas narinas, causando logo a seguir um familiar zumbido em meus ouvidos. Sacudi a garrafa, já meio vazia. Tinha ido rápido. Vesti a camisa e as botas, peguei minha bolsa embaixo da cama e desci as escadas para saudar o fim da manhã.

O Conde de Sinuosa era quieto naquela hora do dia e, na ausência da multidão, o salão principal era dominado pela gigantesca figura atrás do bar, Adolphus, o Grande, coproprietário e taberneiro. Apesar da altura - ele era uma cabeça inteira mais alto que meu metro e oitenta -, seu torso tinha forma de barril e era tão largo que dava a impressão de corpulência. Porém, um olhar mais atento revelaria o equilíbrio de seu corpanzil com os músculos. Adolphus já era um homem feio antes de um dardo dren ter custado seu olho esquerdo, mas o pano preto que ele usava para cobrir a cavidade e a cicatriz em sua bochecha esburacada não o ajudava em nada. Tudo isso, somado a seu lento ato de encarar, o faziam parecer um bandido e um idiota e, apesar de ele não ser uma coisa nem outra, essa impressão costumava manter as pessoas civilizadas em sua presença.

Ele estava limpando o bar e pontificando sobre as injustiças do dia a um de nossos mais sóbrios fregueses. Era um passatempo popular. Eu me infiltrei e peguei o banco mais limpo para me sentar.

Adolphus estava dedicado demais à solução dos problemas da nação para permitir que a cortesia interrompesse seu monólogo.

Então, como forma de me cumprimentar, ele fez um movimento sutil com a cabeça.

- E não tenho dúvida que vocês concordam comigo, tendo em vista o fracasso que sua senhoria tem sido como Alto Chanceler: deixem-no voltar a caçar rebeldes como Executor da Justiça do Trono. Esta pelo menos é uma tarefa para a qual ele é talhado.

- Não sei bem do que você está falando, Adolphus. Todo mundo sabe que nossos líderes são tão sábios quanto são honestos.

- Está muito tarde para um prato de ovos? - perguntei.

Ele virou a cabeça na direção da cozinha e berrou:

- Mulher, ovos. - E no momento seguinte voltou a falar com seu embriagado refém: - Cinco anos eu dei à Coroa. Cinco anos e um olho - Adolphus gostava de enfiar seu ferimento na conversa, aparentemente querendo dar a impressão de que era sem querer. - Cinco anos atolado até o pescoço na merda e na sujeira, cinco anos enquanto os banqueiros e os nobres aqui enriqueciam à custa do meu sangue. Meio ocre por mês não é muito por cinco anos daquilo, mas isso é coisa minha e maldito seja eu se os deixar esquecer. - Ele atirou seu paninho no balcão e apontou seu dedo do tamanho de uma salsicha em minha direção, na tentativa de me encorajar. - É seu meio ocre também, meu amigo. Você está muito quieto para um homem esquecido pela rainha e pelo país.

O que havia a dizer? O Alto Chanceler iria fazer o que quisesse e era improvável que os impropérios de um ex-lanceiro caolho servissem de alguma coisa para dissuadi-lo.

Rosnei sem me comprometer.

Adeline, quieta e pequena, justamente o contrário de seu marido, saiu da cozinha e me entregou o prato com um discreto sorriso. Aceitei o primeiro e retribuí o segundo. Adolphus continuou com suas divagações, mas eu o ignorei e me concentrei nos ovos. Éramos amigos havia uma década e meia porque eu suportava sua tagarelice e ele aguentava meu jeito taciturno.

A baforada de Sopro de Fada estava batendo. Podia sentir meus nervos mais estáveis, minha visão mais aguçada. Levei o pão preto assado até a boca enquanto avaliava o dia de trabalho pela frente. Eu precisava visitar meu homem na alfândega. Ele me havia prometido passes livres duas semanas antes, mas ainda não cumprira a promessa. Também tinha que fazer as habituais rondas aos distribuidores que compravam de mim, garçons sombrios, negociantes menores, cafetões e traficantes.

À noite eu precisava parar numa festa lá para os lados do Morro de Kor - eu tinha prometido a Yancey, o Rimador, que apareceria antes de sua apresentação.

De volta ao salão principal do bar, o bêbado encontrou uma chance de interromper a torrente de calúnias cívicas semi-coerente de Adolphus.

- Você ouviu algo sobre a pequenina?

O gigante e eu trocamos olhares descontentes.

- O burburinho é inútil - disse Adolphus, e voltou à limpeza.

Três dias antes, a filha de um trabalhador das docas havia desaparecido em uma viela perto de sua casa. Desde então, a “Tarinha” tornou-se uma espécie de causa nobre para o povo da Cidade Baixa. A associação de pescadores oferecia uma recompensa, a Igreja de Prachetas rezou uma missa para ela e até mesmo os guardas deixaram de lado a letargia durante algumas horas para bater em portas e olhar em poços. Nada havia sido descoberto e setenta e duas horas era tempo demais para uma criança permanecer perdida no quilômetro quadrado mais densamente povoado do Império. Se Sakra quiser, a garota estará bem, mas eu não apostaria nisso meu meio ocre.

A recordação da criança provocou o pequeno milagre de calar a boca de Adolphus. Terminei meu café da manhã em silêncio, empurrei o prato de lado e me levantei.

- Anote qualquer recado. Estarei de volta depois do anoitecer. Adolphus acenou para mim.

Saí para o caos da Cidade Baixa ao meio-dia e iniciei minha caminhada para o leste, na direção das docas. Encostado na parede, uma quadra pra frente do Conde, enrolando um cigarro, de cara fechada, avistei o metro e sessenta e cinco de Kid Mac, cafetão e valentão extraordinário. Seus olhos negros se esgueiravam por cima de velhas cicatrizes de duelos e, como sempre, suas roupas estavam uniformemente perfeitas, da aba larga de seu chapéu à empunhadura prateada de seu florete. Ele se apoiava contra os tijolos com uma expressão que era ao mesmo tempo de violência iminente e de profunda indolência.

Nos anos que se passaram depois de sua chegada ao bairro, Mac conseguiu dominar um pequeno território graças a sua habilidade com uma espada e à aberta dedicação de suas prostitutas, tão apegadas a ele quanto uma mãe a seu primeiro filho. Às vezes me passava pela cabeça a ideia de que Mac tinha o trabalho mais fácil da Cidade Baixa, que parecia ser, em grande parte, garantir que suas prostitutas não se matassem umas às outras, competindo por sua atenção. Mas não se podia dizer isso com base na expressão de raiva entalhada em seu rosto. Tínhamos uma relação amistosa desde que ele se estabeleceu ali, passando informações um ao outro, além do favor ocasional.

- Mac.

- Guardião. - Ele me ofereceu um cigarro.

Mac derrubou um pouco de tabaco de sua bolsa e começou a enrolar outro fumo.

- Aquela criança perdida as mantém mais ocupadas que uma carroça de galinhas. A Annie fez todas passarem metade da noite chorando, até que a Euphemia foi atrás delas com um açoite.

- Elas são muito sensíveis - respondi. Enfiei a mão na minha bolsa e sub-repticiamente entreguei a ele sua encomenda.

- Alguma notícia do Eddie, o Vagina Molhada? - perguntei sobre seu rival que havia sido expulso da Cidade Baixa uns dias antes.

- Ele trabalha a um passo da Central e acha que não tem que pagar suborno a fraude? Eddie é burro demais para viver. Ele não vai ver o fim do inverno. Eu aposto uma prata nisso. - Mac terminou de enrolar o cigarro com uma mão e guardou o pacote no bolso com a outra.

- Eu não apostaria nisso - respondi.

Mac apertou o cigarro com desleixo. Observamos a diminuição do movimento de nosso posto.

- Você ainda não arrumou aqueles passes? - perguntou ele.

- Vou ver meu homem hoje. Deve haver algo pra você em breve.

Ele grunhiu algo que deve ter sido um assentimento e eu me virei para ir embora. - Você já deve saber que os meninos do Lábio Leporino estão vendendo a leste do canal. - Ele tragou e exalou círculos perfeitos de fumaça, um depois do outro para o céu clemente. - As meninas têm visto o grupo dele por aí, de uma semana para cá mais ou menos.

- Estou sabendo. Continue esperto, Mac. Ele voltou a parecer ameaçador.

Passei o restante da tarde distribuindo o produto e fazendo negócios. Meu agente na alfândega finalmente apareceu com os passes, mas pelo ritmo com que o vício dele em Sopro de Fada ia progredindo, era bastante possível que aquele fosse o último favor que ele faria para mim.

Era começo de noite quando terminei e parei diante da minha barraca de rua favorita para pegar uma marmita de bife com molho de pimenta. Eu ainda precisava ver o Yancey antes da apresentação. Ele estava se apresentando para uns aristocratas pretensiosos perto da Cidade Velha e seria uma boa caminhada até lá. Cortava caminho por uma viela para economizar tempo quando vi algo que deteve meu progresso tão abruptamente que eu quase caí pra trás.

O Rimador teria que esperar. Diante de mim estava o corpo de uma criança, terrivelmente contorcido e enrolado em um pano empapado de sangue.

Parece que eu tinha encontrado a pequena Tara.

De repente fiquei sem apetite. Atirei meu jantar na sarjeta.