O Guardião
Capítulo 38
Eu estava no meio da Rua Tolk quando percebi que o Mirad com cicatriz de Crowley estava me seguindo, mais ou menos meia quadra atrás de mim.
Eu não tinha tempo para aquela insensatez, precisava ir ver Cadamost, ouvir o que ele tivesse a dizer sobre Brightfellow. Mas não imaginava que Crowley fosse sensível às complexidades de minha situação. Despistá-lo também estava fora de questão. Meu ex-colega era um filho da puta tenaz e a situação estava ficando muito agitada para deixar fios soltos por aí.
Então decidi fazer uma coisa sobre a qual já vinha pensando desde o mergulho que dei no canal dois dias antes. Parei repentinamente para que ele soubesse que eu o havia visto, entrei numa viela lateral e segui ao sul na direção de Kirentown. Eu andava rápido, mas não rápido demais, para ter certeza que Crowley e seus rapazes não me perderiam na escuridão. Eles seguiram o tom, astutos o bastante para seguir no meu encalço, mas ansiosos demais para virem para cima. Quinze minutos mais tarde eu estava em pé, de frente para o Dragão Azul, e no momento seguinte atravessei a porta.
O bar estava cheio de gente e eu ignorei os olhares pouco amistosos a mim direcionados. No balcão da frente, o baleia estava conversando com um cliente, mas então ele me viu, parou e assumiu o ar vago que adota sempre que fazemos negócios. Não era a hora de fazer aquilo com sutileza, então forcei minha passagem até a frente.
Eu me inclinei, ciente do cheiro ruim que subia de seu excesso de carne.
- Preciso ver Ling Chi. Imediatamente - ele não deu a menor indicação de me ter ouvido, pesando suas opções, plenamente consciente da política de Ling Chi quanto a porteiros tolerantes. - Em três anos alguma vez eu desperdicei o tempo do homem?
Ele concordou e eu segui para a porta que levava à antecâmara. Se os dois guardas ficaram surpresos em me ver, não demonstraram. Qualquer que tenha sido o sinal que o gordo tenha dado a eles, aparentemente foi silencioso e eficaz. Joguei minhas armas na mesa e me submeti a uma rápida revista antes de ser autorizado a entrar para ver o homem em pessoa.
Eu ainda tinha suspeitas quanto à autenticidade dos hábitos de Ling Chi, mas se havia alguma encenação, ele era capaz de organizá-la com uma rapidez impressionante. Seus trajes estavam impecáveis, desde a diadema prateada sobre sua cabeça às marcas de beleza que davam ênfase a sua maquiagem. Ele tinha as mãos diante do peito como se estivesse rezando e o amarelo dourado de suas unhas postiças havia sido substituído por um jogo verde jade.
- A alegria que se faz em meio peito pela chegada sem aviso de meu companheiro é quase demasiada para que meu velho coração aguente.
Eu me curvei, acatando a repreensão.
- É uma mancha em minha honra que eu seja forçado a invadir a tranquilidade do meu mentor, uma mácula que trabalharei incansavelmente para apagar.
Ele deixou de lado minha preocupação, contente por poder começar a discussão de uma posição fortalecida.
- As preocupações de meu amado amigo honram seu senso de princípio. Mas que necessidade temos de cerimônia, nós que somos mais próximos que irmãos? Alegremente eu ordeno a abertura de qualquer portão que nos separe. Com toda a pressa eu ordeno que as portas de meu santuário sejam abertas ao meu gêmeo de coração.
- Uma felicidade além da medida é compartilhada por seu servo, por saber que sou respeitado por aquele cuja palavra é a lei, por aquele cujas mãos protegem seus filhos.
Ele piscou duas vezes e foi impossível deixar de notar a alteração de seu plácido semblante.
- Protegem...
- Bem sabe meu protetor que a inocência não protege ninguém dos lobos e que as ações oriundas da amizade são capazes de nos destruir.
- O Imperador Celestial não deposita sobre as costas de nenhum homem mais peso do que ele é capaz de transportar.
- Que ele impere infinitamente - entoei.
- Que ele impere infinitamente.
- Grandes homens estão diante do oceano e comandam as próprias ondas, enquanto nós, os pequenos, temos dificuldade para evitar as pedras.
- Todos estão sujeitos à vontade do Imperador - disse ele cuidadosamente.
- Palavras sabiamente verdadeiras, e ainda onde os sábios encontram pares na Ordem Celestial, nós, as criaturas humildes, temos dificuldade para enxergar o caminho diante de nós. Temo eu que, em minha pressa de ser útil a meu companheiro, tenha me tornado alvo daqueles que agiriam contra ele.
- Isto é uma infelicidade - disse ele, e sua simpatia não era nada palpável.
- E quem são esses homens que querem ferir meu mais querido primo?
- Entristece-me falar da corrupção daqueles que deveriam promover a lei de nossa terra e da errônea cruzada deles contra mim e contra meu irmão.
Seus olhos ficaram frios como o gelo do auge do inverno e comecei a temer a possibilidade de ter cometido um erro ao ir ali.
- Grandioso como é meu amor por meu aliado, não posso interferir com os representantes do Trono.
- Os homens que me seguem não estão em uma missão autorizada pela Casa Negra. Nenhum deles, à exceção de um, está oficialmente a serviço dela.
- À exceção de um?
- Um subordinado ao chefe da Casa Negra, cujas injustiças são muitas e incontestáveis. Talvez você esteja familiarizado com ele, um certo agente
Crowley?
Um embaraço atravessou suas duras feições.
- Nossos caminhos se cruzaram.
Era o que eu esperava. Crowley tinha um talento particular para ser odiado.
- Para a vergonha de meus ancestrais, houve um tempo em que eu e esse agente tivemos envolvimento. Sem saber de nossos laços de irmandade, o agente Crowley tentou usar meus serviços para causar dano ao lar de Ling Chi. Brevemente, muito brevemente, eu fingi ajudar esse agente duplo, de quem tive d eadquirir confiança para saber de seus movimentos. Mas o verniz de um traidor não pode dourar a essência de um homem íntegro e meu logro foi descoberto.
Ling Chi tamborilava firmemente as unhas de jade, peneirando a conversa mole em busca de fatos concretos. A corrupção de Crowley era profunda e antiga. Eu lembrava de cabeça de uma dúzia de ações criminosas com as quais ele lucrou, e provavelmente haveria uma centena mais sobre a qual eu não tinha a menor ideia. O Comandante estava ciente de algumas delas, de mais do que gostaria, tenho certeza, mas o Comandante não era do tipo que punha de lado um bom instrumento só porque ocasionalmente ele operava à revelia de suas ordens.
O mais importante era que tudo se encaixava na grande paranoia de Ling Chi, uma loucura justificada e derivada de uma vida inteira de traições e enganações. Ele podia muito bem achar que eu estava tentando entrega-lo a Crowley e simplesmente mudado de lado quando as coisas esquentaram. Era o tipo de coisa que ele faria, já tinha feito e faria novamente.
- O gato não está ciente da ação de suas patas? - perguntou ele.
- Quem seria capaz de dizer quais segredos são possuídos pelo mestre da Casa Negra? Ele deve saber das atividades de seu subordinado, e não as apoia.
O tamborilar dos dedos foi diminuindo de velocidade até finalmente cessar.
- Tão caro é o meu bem-estar para o meu irmão que ele colocou em risco sua própria segurança e reputação na esperança de frustrar um complô contra mim. Como se poderia esperar que eu, Ling Chi, faça menos que isso por ele? - ele sorriu de forma selvagem e fiquei feliz por não ser o alvo de sua raiva. - A harmonia deve ser prezada acima de todas as outras posses, mas caso meu sócio descobrir que os homens que planejam nossa destruição não têm ouvidos para as palavras de reconciliação, pode descansar confortavelmente ciente de que a escassa força que posso oferecer está a sua disposição.
Curvei-me profundamente, quase até o chão, e saí. Depois de me rearmar no banco da antessala, corri para o bar e sentei-me a uma mesa num canto. Quatro kirens me seguiram da sala dos fundos, homens duros, tão diferentes dos demais clientes quanto um lobo de um cachorro. Os trabalhadores na mesa ao lado da minha deixaram o lugar sem nada dizer, permitindo que os recém-chegados tomassem seus lugares. Um dos quatro, um homem sólido com uma elaborada tatuagem de dragão no rosto, olhou para mim e fez um sinal com a cabeça. Retribuí o aceno. Então acenei para um atendente e disse a ele que trouxesse alguns kisvas.
Depois de alguns minutos a porta se abriu e Crowley entrou, acompanhado pelos três rapazes que me havia apresentado antes. O bar ficou em silêncio e Crowley olhou para o mar de rostos hereges com uma cara de desdém não disfarçado. Ele me viu e cochichou alguma coisa para seus homens. Eles se separaram e foram em direção ao balcão, enquanto Crowley veio lentamente até a minha mesa.
Ele parou atrás da cadeira de frente para a minha, ruborizado com uma pequena alegria. A taberna voltara a algo perto da normalidade, caso não se estivesse prestando muita atenção.
Crowley não estava.
- Pensei que tivéssemos perdido você - disse ele.
- Estou apenas tomando um drinque - chutei a cadeira na direção dele.
- Descanse o corpo. Sei que a caminhada foi longa.
- Mas chegamos até aqui, não é? - respondeu ele, despejando seu corpanzil na cadeira de madeira.
- Pode ficar mais disputado agora que estou armado.
- Se você parasse para pensar em suas chances, não correria.
- Você sempre teve problemas com o conceito de recuo tático.
- Sim, eu sou um ogro e você é um gênio, mas aonde é que toda a sua inteligência vai levá-lo? Morto na sarjeta em uma noite de inverno - sua massa acomodou-se nas costas da cadeira. - Isso não me parece nada brilhante.
- Não quando você fala desse jeito.
- Claro, se você fosse esperto, não estaria aqui. Se você fosse esperto, seria o chefe de Operações Especiais a essa altura. É por isso que o Comandante o odeia tanto, você sabe. Porque você o desapontou.
- Lamento todos os dias não ter atendido às expectativas dele.
- Posso lhe dizer: ele ficou extremamente chocado quando você fez o que fez. Foi a única vez que eu vi o bastardo perder a cabeça - ele mostrou seu feio sorriso, formado ainda criança, na primeira vez em que arrancou as asas de uma mosca, aperfeiçoado durante os longos anos de atos diários de crueldade.
- Como era mesmo que ela se chamava?
- Albertine.
- Isso, Albertine - disse ele. - Deixe-me perguntar uma coisa: ela valeu a pena? Porque até onde eu sei todas as bocetas são iguais.
Deixei aquilo penetrar em meus poros, irritante como uma dor de dente, guardando até que pudesse devolver.
O atendente veio para atender a um novo pedido, mas Crowley o dispensou.
- Por que diabos você escolheu esse lugar para se esconder? Malditos kirens -ele olhou ao redor com repugnância. - Ele são como insetos.
- Formigas - disse eu. - Eles são como formigas.
Ele apontou um dedo grosso em minha direção.
- Todos esses filhos da puta que se curvam e te chamam de mestre serão os primeiros a meter o pé no seu pescoço à menor chance que você der.
- Estejam eles bancando os tiranos ou submetendo–se como escravos.
- Exatamente, não são como nós. Nenhum senso de orgulho. Este é o problema.
- Não são como nós - concordei. Atrás de Crowley os homens de Ling Chi estavam ficando impacientes, entendendo o bastante para se sentirem insultados.
- E a língua de macaco deles - Crowley bateu nos joelhos. - Falem rigun, seus bastardos de olhos puxados.
- Não é difícil, desde que você tenha a manha para isso. Aqui, vamos praticar um pouco - disse eu antes de beber o fim de meu kisvas. - Shou zhe cao ni ma -prossegui.
- Zou ze ca nee maa - repetiu ele, rindo da própria falta de jeito. - O que isso quer dizer?
O kiren tatuado disse uma coisa em seu idioma nativo. Fiz um sinal para ele.
- Significa: “acabe com esse filho da puta”.
Juro que Crowley era tão burro que ainda levou uns três ou quatro segundos para juntar as peças. Ele finalmente entendeu e tentou se levantar, mas acertei um soco em seu rosto e ele caiu para trás.
A violência entrou em erupção no bar. Os homens que atacaram Crowley primeiro estavam a serviço de Ling Chi, mas não demorou muito até a multidão entrar na briga, feliz em dar ao arrogante de olhos grandes no meio deles uma merecida punição permanente. Os rapazes de Crowley caíram rápido. O bartender, a quem eu normalmente mais comparava com um líquen do que com um mamífero, tirou um cutelo que tinha sob o bar e arrancou a cabeça de um vaalão forte com um desprendimento indicando que aquela não era à primeira vez que ele decapitava um cliente. O mirad conseguiu sacar sua faca antes de ser engolido, gritando enquanto uma multidão o derrubava impiedosamente a pancadas com a primeira arma improvisada que encontrava.
Depois disso eu decidi que seria melhor eu me retirar pelos fundos. Nós não queríamos que os hereges confundissem quem deveria ser morto. Além disso, o murro que dei em Crowley acabou por abrir os pontos de meu ferimento da noite anterior. Meu ex-colega resistiu o quanto pôde, encurvando um dos homens de confiança de Ling Chi com um gancho de esquerda antes de o kiren tatuado derrubá-lo ao chão. Então entrei em ação, afastando o herege antes que ele cortasse a garganta de Crowley. Eu o queria vivo. Os amigos dele não me importavam muito.
Os kirens são pouco profissionais e exaltados, mas são eficientes. Depois de cinco minutos não havia nada ali que sugerisse o assassinato de três homens brancos. Os cadáveres já haviam sido retirados para que fossem desovados em algum dos muitos modos que Ling Chi havia criado para apagar as evidências de suas frequentes execuções. Crowley estava caído no chão e dois dos homens de Ling Chi revezavam-se para dar pontapés toda vez que ele se contorcia. Apontei para uma porta lateral e eles o arrastaram para fora pelos braços.
A tempestade tinha dado uma pausa e a luz da noite refletia na neve. Os joelhos de Crowley deixaram um rastro na neve recém-caída, manchado por gotas de sangue que pingavam da cabeça dele. Paramos em um beco sem saída atrás do bar, com os capangas segurando meu velho castigo com firmeza. O apoio deles era a única coisa que impedia Crowley de desabar. Tirei minha bolsinha de tabaco e enrolei um cigarro enquanto esperava ele voltar a si.
Não foi pouca a minha alegria ao vê-lo despertar e ver a vitória de meu plano de ataque sobre o dele.
- Você está de volta?
Ele soltou algum xingamento agressivo e original.
Puxei uma adaga de meu coldre no ombro e a segurei firmemente na mão esquerda. Um dos kirens disse algo a seu colega rápido demais para que eu entendesse.
- Crowley, olhe para mim.
Pressionei minha faca contra a garganta dele. Em benefício de Crowley, ele não demonstrou medo nem se mijou.
- Eu poderia acabar com você exatamente agora, Crowley, e os hereges fariam seu corpo desaparecer e não haveria nenhuma pessoa em todas as Treze Terras que se importaria - a pele dele estremeceu contra o metal frio.
Deixei a arma cair ao meu lado.
- Mas eu não vou te apagar, Crowley. Vou deixar você sair andando. E quero que você se lembre, de hoje até o dia em que eu decidir te matar, deste ato de gentileza. Eu sou seu benfeitor, Agente, e cada tarde ensolarada, cada trepada e cada refeição que puder desfrutar você deverá a mim - ele piscou duas vezes, confuso. Eu abri um sorriso. - Mas só para o caso de você se esquecer - eu disse isso e minha adaga abriu um corte na parte debaixo de sua testa até a bochecha. Ele deu um grito e amoleceu.
Eu o vi sangrar por um momento e depois fiz um sinal para o kiren tatuado. Os dois trocaram olhares confusos. Aparentemente não havia a tradição de perdões de última hora entre os hereges. Fiz novamente um sinal com a cabeça e eles soltaram Crowley, que desmoronou no chão, imóvel a não ser pela hemorragia involuntária.
Os kirens voltaram para o bar, gargalhando dos hábitos absurdos deste país estrangeiro. Eu, por minha vez, saí pelo beco e retornei ao Conde. Estava muito tarde para ir ter com Cadamost. Eu tinha que esperar que aquela missão colateral não me custasse mais do que valia. Ainda assim, enquanto voltava para casa eu tive que me esforçar para disfarçar o sorriso em meu rosto enquanto pensava na marca permanente que havia deixado em Crowley.