O Guardião
Capítulo 28
Eu estava de frente para a entrada de uma casa de tijolos avermelhados enfileirados ao norte do centro, já perto do Morro de Kor e dos palacetes da nobreza. Modesto e despretensioso, não havia nada além da palavra de Yancey confirmando que aquele lugar abrigava um dos mais caros bordéis da cidade. As prostitutas de Cidade Baixa conduzem seus negócios honestamente, com os seios descobertos espreitando pelas cortinas vermelhas, convites feitos pelas janelas abertas. Aqui era diferente. Perto da porta acinzentada havia uma placa de bronze com os dizeres A ARCA DE VELUDO gravados nela.
Bati com firmeza na porta e depois de um intervalo ela se abriu para revelar uma mulher atraente em um modesto mas gracioso vestido azul. Ela tinha cabelos negros e olhos azuis e deu um encantador sorriso, bem praticado nesse tipo de negócio.
- Posso ajudá-lo? - perguntou ela, com a voz doce e clara.
- Estou aqui para ver Mairi - respondi.
Os lábios dela curvaram-se em desapontamento. Fiquei impressionado com a habilidade dela para transmitir calor e complacência em igual medida.
- Temo que Mairi não receba muita gente e que, as pessoas que recebe, já o faz há um bom tempo. Na verdade, ninguém na casa está interessada em novos amigos no momento.
Eu a interrompi antes de ela pensar em fechar a porta na minha cara.
- Você poderia dizer à dona da casa que o amigo de Yancey está aqui fora? Ela deve estar à minha espera.
O sorriso dela tornou-se um pouco mais natural depois de eu ter mencionado o Rimador.
- Vou ver se ela está disponível.
Pensei em enrolar um cigarro, mas achei que aquilo poderia denotar uma certa falta de classe. Em vez disso esfreguei as mãos em um esforço inútil para me manter aquecido. Quando a porta se abriu depois de alguns minutos, a moça de cabelos negros trocara a cordial indiferença por ardentes boas-vindas.
- Mairi tem alguns momentos para conversar. Entre, por favor.
Entrei por um elegante corredor com piso de mármore que levava a uma escadaria recoberta por veludo vermelho e ladeada por corrimãos de ébano. Um homem muito grande e muito mal-encarado vestindo um terno bem cortado me media discretamente desde o lado da entrada, desarmado, mas com punhos do tamanho de uma peça de presunto. Eu não tinha dúvida do incômodo de que eram capazes.
A bela recepcionista parou no pé das escadas, as mãos juntas atrás das costas.
- Acompanhe-me, a dona da casa está logo ali.
Tentei sem sucesso evitar olhar para a bunda dela enquanto subia as escadas na minha frente. Fiquei pensando na idade que ela tinha e em como teria vindo parar nesse emprego. Supus que houvesse meios piores de ganhar dinheiro. Era melhor que trabalhar dez horas por dia na linha de uma fábrica ou ser garçonete em algum boteco da Cidade Baixa. De qualquer forma, deitar é deitar, mesmo que os lençóis embaixo de você sejam de seda.
Entramos à direita no alto e seguimos por um estreito corredor com uma fileira de quartos que terminava em frente a uma porta de madeira, levemente dourada para ser diferenciada das demais.
A garota bateu levemente. Uma voz gutural respondeu e nos chamou para dentro e minha guia abriu a porta diante de mim.
No centro do quarto, talvez não de maneira chocante, uma suntuosa cama com dossel cercada de renda branca. Tudo no interior remetia a dinheiro antigo e gosto refinado, assemelhando-se mais ao quarto de uma duquesa que ao de uma prostituta.
Sentada em uma penteadeira no canto estava a mulher que imaginei ser Mairi Olhos Negros.
Pela imagem mental estimulada por Yancey, devo dizer que não fiquei impressionado. Ela era uma tarasaihgn de cabelos negros abaixo da meia-idade, mas não muito longe dela. Bem apessoada, mesmo com uns poucos quilos a mais na cintura, mas não bonita, certamente não excepcionalmente bela. Se tivesse que escolher entre as duas, preferiria a recepcionista, mais jovem e firme que era.
Mairi então virou-se para mim e eu vi seus olhos, dois profundos lagos negros que prenderam minha atenção por mais tempo que a educação permitiria. De repente eu já não conseguia entender o que me havia levado a comparar a mulher diante de mim à menina que me levou até ela. Minha boca estava seca. Esforcei-me para não lamber os lábios.
Num movimento suave, Mairi levantou-se de sua cadeira e diminuiu a distância entre nós, estendendo a mão com ar casual.
- Obrigada, Rajel, isto é tudo - disse Mairi em um nestriano sem sotaque.
Rajel fez uma reverência e saiu, fechando a porta por trás dela. Mairi ficou em silêncio, deixando-me inspecionar o terreno antes de iniciar sua jogada.
- Você fala nestriano? - perguntou ela.
- Nunca tive um ouvido bom pra ele.
- Mesmo? - perguntou ela olhando em meus olhos e depois dando uma sonora gargalhada, como o coaxar de um sapo-boi. - Acho que você está mentindo.
Ela tinha razão. Eu falava nestriano, não como um nativo, mas bem o suficiente para não ser atacado no caminho para a Catedral de Daeva Maletus. No primeiro ano da guerra, meu setor atacou as linhas nestrianas. Eles eram um bando de camaradas decentes para servos que chafurdavam na lama. O capitão deles caiu em pranto quando descobriu que seus generais haviam assinado um armistício em separado, mas o ódio e a incompetência da parte dos superiores foi uma coisa universal durante nosso infeliz conflito.
Ela saiu ao ataque e sorriu.
- Você percebe que me contou mais sobre si mesmo mentindo do que respondendo a verdade.
- E o que eu disse a você?
- Que a mentira é mais espontânea que a honestidade.
- Talvez eu só esteja querendo me adequar ao ambiente, ou cada gemido que sai desses quartos é autêntico?
- Todos. Cada. Um - ela pontuou cada palavra com ênfase. Havia um bar num canto. De uma garrafa no alto ela despejou um líquido esfumaçado em dois copos e entregou um para mim. - A quem nós vamos brindar? - perguntou ela num tom muito próximo do obsceno.
- À saúde da Rainha e à prosperidade de seu povo.
A velha saudação foi uma deselegância, mas ela era profissional o bastante para saber lidar com isso.
- À saúde da Rainha e à fertilidade de sua terra. Tomei um gole. Era bom, muito bom.
Mairi acomodou-se em um sofá de couro vermelho e indicou que eu me sentasse em um divã em frente. Segui a orientação e nos sentamos um de frente para o outro, com nossas pernas quase se tocando.
- Como você conheceu Yancey? - perguntou ela.
- Como a gente conhece as pessoas? No meu ramo de negócio, a gente precisa conhecer as pessoas.
- E qual é o seu ramo exatamente?
- Eu angario recursos para viúvas de guerra e órfãos. Nos dias de folga eu cuido de bichinhos abandonados.
- Que coincidência impressionante. É exatamente essa a nossa linha de trabalho aqui.
- Suponho que seu canil fique nos porões.
- Onde você mantém seus órfãos?
Ri e beberiquei meu drinque.
A boca dela se curvou para cima e seus olhos negros me acariciaram.
- É claro que eu sei quem você é. Fiz perguntas depois que o Rimador me procurou.
- Você sabia?
- Não tinha a menor ideia, quando Yancey falou comigo, de que teria a oportunidade de conhecer uma personagem tão famosa do submundo.
Deixei aquela afirmação pairando no ar entre nós. Ela ignorou a insinuação e seguiu adiante, confiante em que eu estava gostando de seu avanço.
- Sempre me perguntei o que havia acontecido com Eduardo Maluco e o resto de sua turma. Imagine a minha surpresa ao descobrir que o homem que acabou com a presença das organizações na Cidade Baixa estava vindo para uma visita vespertina a mim.
As fontes de Mairi eram boas. Havia apenas uma meia dúzia de pessoas cientes da verdade em relação ao que aconteceu com a gangue do Eduardo Maluco e duas delas estavam mortas. Precisava descobrir quem dos quatro restantes estava dando com a língua nos dentes.
A ponta da língua dela percorreu a metade inferior de seu lábio.
- Imagine a minha ansiedade.
Uma das poucas vantagens de ser fisicamente desfigurado é que geralmente você pode descartar o interesse honesto como motivo para os avanços de uma mulher. No caso de Mairi eu não tinha nem ao menos certeza de que havia uma finalidade.
No fundo, eu suspeito que ela apenas não se lembrava de como fazer para se desligar. A situação toda parecia azeda, das minhas provocações sagazes às respostas mecânicas dela.
- Fascinante - dei um outro gole em minha bebida, tentando tirar da boca o gosto de ser usado. - Mas eu não vim aqui para ouvir minha história. Estou bastante familiarizado com ela, de modo abrangente, pode-se dizer.
Ela reagiu à grosseria sem absoluta tranquilidade. A cor de seu rosto se apagou para se igualar ao clima. De uma caixa de prata sobre uma mesa próxima ela pegou um fino cigarro preto e o prendeu nos lábios vermelhos, acendendo-o com uma rápida passagem do fósforo.
- Então você está aqui para que, exatamente?
- Yancey não disse nada? - perguntei.
Uma coluna de fumaça escapou por suas narinas.
- Eu quero que você me conte.
Eu já havia sofrido insultos que me machucaram mais. - Yancey disse que você tem um ouvido aguçado e uma memória afiada. Eu gostaria de saber o que poderiam oferecer sobre lorde Beaconfield.
- O Espada? - ela fez algo que subentendia a intenção de girar os olhos, mas sem a grosseria de o fazer. - Além do talento que lhe rendeu o apelido ele é um aristocrata típico, enfadonho, sangue-frio, amoral e cruel.
- Trata-se mais de observações que de segredos - comentei.
- E ele está falido - ela concluiu.
- Então a mansão, as festas, o dinheiro que ele usou para me pagar...
- A primeira está empenhada para pagar pelos outros dois. O lorde Beaconfield foi abençoado com um nome tradicional, uma arma mortífera e nada muito além disso. E, como a maioria dos nobres, suas habilidades pecuniárias não vão muito além de gastar. Ele investiu dezenas de milhares de ocres no financiamento da dívida da Óstria e perdeu tudo no último outono, quando eles deram o calote. Dizem que os credores estão fazendo fila na porta e que seu alfaiate particular não está aceitando os honorários. Ficarei surpresa se ele chegar ao fim da estação sem declarar falência.
- E aqueles diamantes no brasão? - perguntei.
- Digamos que o leão é a parte mais pertinente.
A iminência da pobreza podia levar um homem a atos terríveis. Eu já havia visto muita coisa assim. Mas a ideia de perder aquela bela casa teria realmente levado o Espada Sorridente a matar crianças e a atos de magia negra?
- E as conexões dele com o Príncipe? - perguntei.
- Exageradas. Eles foram colegas em Aton, uma daquelas escolas sombrias, sufocadas pela tradição e cheia de funcionários pedófilos. Mas o querido Henry... -fiquei pensando se aquela menção espontânea ao primeiro nome do príncipe indicaria uma semente de verdade por trás dos rumores da ligação entre eles ou se ela queria apenas que eu pensasse isso - é um pouco conservador demais para o jeito louco do Espada.
- Interessante - disse eu, como se não fosse. - E quanto aos parasitas em torno dele, você sabe de algo? Ele tem um feiticeiro barato realizando missões para ele, atende pelo nome de Brightfellow?
Ela empinou o nariz com cara de nojo, como se eu tivesse cagado no chão.
- Eu conheço o homem, apesar de não ter ouvido que ele andava envolvido com o seu duque. Brightfellow faz parte de uma cepa desagradável de artistas que rondam as periferias da corte, vendendo seu talento a qualquer nobre que esteja entediado ou que seja burro o bastante para pagar por seus truques de salão. Nunca tive Beaconfield na mais alta estima, mas também não pensava tão mal dele ao ponto de achar que ele fosse se misturar com um lixo desses. Ele deve realmente estar desesperado.
- Que tipo de trabalho Brightfellow poderia estar fazendo para o Espada?
- Eu realmente não sei dizer, mas conhecendo os dois, imagino que não envolva filantropia - respondeu.
Imaginei que ela estivesse provavelmente certa.
Depois de alguns instantes ela pigarreou, um som que me fez pensar em açúcar e fumo, e que nossa reunião estava encerrada.
- Então é isso. Esta é toda a informação que posso lhe repassar quanto aos negócios secretos do Espada Sorridente - ela descruzou as pernas, depois as cruzou novamente. - A não ser que tenha algo mais que você deseje.
Levantei-me abruptamente, colocando meu copo sobre a mesa próxima de minha cadeira.
- Não, é só isso mesmo. Você foi de grande ajuda. Você dispõe de crédito comigo caso precise.
Ela também se levantou.
- Estou tentada a dispor desse crédito agora - disse ela, com os olhos voltados na direção da cama.
- Não, você não está, nem mesmo um pouquinho.
Seu olhar devasso se apagou e foi substituído por algo mais próximo de um sorriso genuíno.
- Você é um homem interessante. Volta aqui qualquer hora dessas. Vou gostar de vê-lo - ela chegou perto o bastante de mim para que eu sentisse o cheiro de seu perfume. Embriagante, como tudo o mais que havia nela. - E estou sendo sincera.
Não tinha certeza se acreditava também naquilo. Rajel não estava em nenhum lugar onde eu a pudesse ver no caminho até a saída, mas o leão de chácara fez um cumprimento mal-humorado quando me aproximei da saída.
- Aqui é um lugar divertido para trabalhar? - perguntei.
Ele deu de ombros. - Três semanas por mês. Fiz um aceno simpático e saí.