O Guardião
Capítulo 31
Quando acordei eu estava deitado em uma cama, olhando para uma cobertura translúcida e para os postes que a sustentavam. Alguém havia tirado toda a minha roupa molhada e me vestido num robe branco e liso. O frio agonizante e a terrível sensação de cansaço tinham passado, substituídos por um calor que emanava do meu peito e alcançava cada uma de minhas extremidades.
- Estou morto? - perguntei para ninguém em particular. A voz de Célia surgiu de fora do meu campo de visão.
- Sim, aqui é o Chinvat.
- Fico imaginando no que fiz para conseguir a eternidade cercado de rendas.
- Algo maravilhoso, imaginaria eu.
Aquilo não condizia muito comigo.
- Como você me trouxe até aqui em cima?
- Magia, obviamente. Uma utilidade menor de minha Arte.
- Estou meio lerdo para acompanhar. Deve ser culpa da hipotermia. Devo supor que você também tenha feito um truque para ela passar?
Agora eu podia vê-la com o canto dos meus olhos, depois que ela veio se sentar ao meu lado.
- Apenas um toque. A maior parte do truque foi tirar aquelas roupas molhadas de você e colocá-lo de frente para o fogo. Você passou a última hora dormindo, mais ou menos - ela posicionou minha cabeça em seu colo. - Lamento por tê-lo feito esperar. Eu estava fazendo uma experiência na estufa e estupidamente não pude prever que você estava vindo me visitar seminu e congelado.
- O segundo na linha de comando de Operações Especiais estava incomodado com minha higiene pessoal. Decidi melhorar nosso relacionamento com um banho rápido no canal.
- Pensei que a Casa Negra não estivesse mais no seu rastro - o amuleto dela balançou no pescoço. Célia exalava felicidade e canela fresca.
- Aparentemente eu evoquei um nível de ódio que torna a proteção do Comandante ineficaz. Além disso, eu não cumpri exatamente minha parte no acordo. Mais uma criança foi morta.
- Fiquei sabendo.
- E Crispin também.
- Sinto muito - disse ela.
- Como está o Grou?
- Não muito bem. Um pé cá outro lá.
- Preciso subir e ir vê -lo. Depois de colocar as calças.
- É melhor não.
- Eu sempre uso calças - disse eu. - Não sei o que fazer sem elas.
Ela deu uma risada suave e tirou o corpo debaixo de mim.
- Você precisa descansar agora. Volto daqui a pouco para ver como você está. Conversamos mais depois.
Esperei ela sair da sala e sentei-me na cama, rápido demais, como percebi a seguir. Minha vista rodou, meu estômago revirou e achei que fosse sujar as belas cobertas de Célia. Voltei a deitar a cabeça no travesseiro e esperei meu corpo me perdoar pela mais recente rodada de péssimas decisões.
Depois de alguns minutos de suplício, coloquei os pés no chão e levantei-me lentamente. Minha barriga manifestou sua reprovação, mas com menos ênfase que antes. Peguei minha bolsa no pé da cama, saí pela porta, fui para a escada e subi dois lances até o andar de cima.
A sala estava vazia, as janelas bem fechadas e a lareira repleta de cinzas. Fiquei ali por alguns momentos. O Grou era um homem de generosidade ilimitada e de uma paciência praticamente infinita, mas preservava sua privacidade. Desde que o conheci, nunca entrei no quarto particular dele. Mas eu também não podia voltar para casa com o robe de algodão que estava vestindo.
Sentindo-me quase um intruso, esgueirei-me para dentro do quarto do Mestre. Seu aposento era menor que o de Célia, com pouca coisa além da cama, de uma mesa de cabeceira e de um armário num canto. Os candeeiros das paredes estavam apagados e uma cortina escura se estendia sobre as janelas, bloqueando a parca luz dos dias cinzentos.
Célia havia me avisado quanto ao declínio do Grou e, ao vê-lo, não a poderia acusar de exagero. Ele estava deitado todo torto na cama, com o corpo contorcido de quem tinha febre.
A maior parte de seu cabelo tinha caído e o que restava pendia de tufos que desciam por seu pescoço. Ele tinha os olhos vidrados e sem foco e sua cor estava mais próxima da de um cadáver do que da de uma pessoa saudável, uma expressão mais envelhecida em comparação com minha visita de apenas alguns dias antes.
Eu queria estar de calças.
Ele não reagiu à minha entrada. Quando falou, sua voz estava fraca e tremida, de acordo com a decadência do restante de seu corpo.
- Célia... Célia, é você? Querida, me ouça, por favor, ainda há tempo...
- Não, Mestre. Sou eu - disse isso e sentei-me em uma banqueta ao lado de sua cama. Ele não parecia melhor quando visto de perto.
Os olhos dele tremeram e depois centraram o foco em mim.
- Oh, me desculpe. Eu... eu não tenho recebido visitas ultimamente. Não ando me sentindo muito bem.
- É claro, Mestre, é claro. Existe algo que eu possa fazer por você? - perguntei com a esperança de que ele não me pedisse para alcançar o decantador com líquido verde que estava na mesinha de cabeceira. Todo homem tem o direito de escolher como vai encontrar a morte, mas era uma coisa difícil ser cúmplice da erosão da mente fértil e imaginativa do Grou.
Ele sacudiu a cabeça, mas o movimento pareceu mais com um calafrio.
- Não, nada. Está tarde demais para o que quer que seja.
Passei cinco ou dez minutos sentado ao lado de sua cama enquanto ele caía num sono cortado. Eu estava prestes a me levantar e fuçar o guarda-roupa dele quando me ocorreu que devia algo àquele homem. Então procurei na minha bolsa a corneta que Garrincha havia roubado e a coloquei sobre uma mesa próxima.
As mãos do Grou de repente saíram por debaixo das cobertas, agarraram meu punho e eu tive que segurar um grito.
- Ruão, você estava certo. Lamento por não o ter ouvido.
Em seu delírio ele pareceu me confundir com seu antigo tutor.
- Sou eu, Mestre. Ruão, o Implacável, já morreu faz meio século.
- Eu tentei manter isso longe, Ruão, tentei proteger. Mas ele conseguiu entrar, ele sempre consegue.
- Suas proteções estão mantidas, Mestre - disse eu. - O povo da Cidade Baixa se lembra e lhe é grato por isso.
- Não há nada a ser mantido longe, Ruão. É como você dizia. Era o que você dizia e eu não conseguia entender. A podridão vem de dentro. Ela já está entranhada.
Tentei pensar em algo apaziguador para dizer, mas nada me ocorreu.
- Isso esteve sempre por aí. Entendo isso agora. Como se constrói um muro para manter longe o que sempre esteve por aí? É impossível, é impossível - ele estava quase gritando agora. - Levante uma cerca, cave um fosso, erija uma barricada e mine os arredores. Não vai adiantar nada, pois já estava lá! No fundo não há nada além de sangue e merda! - ele soltou aquelas últimas palavras e eu me encolhi inconscientemente. Eu nunca tinha ouvido o Mestre dizer palavras assim antes. Ele também não era muito dado a demonstrações de raiva. Fiquei a pensar em quanto de suas habilidades ainda lhe restavam e se, em sua demência, ele não seria capaz de incinerar o Ninho e tudo a seu redor.
- Quem pode manter isso longe? - perguntou ele enquanto gotas de saliva saltavam para sua barba. - Quem pode acabar com isso?
Eu queria confortar meu velho mentor e disse sem pensar:
- Eu posso. Vou cuidar disso. Você pode contar comigo.
Ele então gargalhou e eu tive a terrível certeza de que a loucura havia passado e que agora ele me reconhecia, de que sua gargalhada não era um reflexo insano, mas sim uma avaliação honesta do meu caráter. Forcei-me a ficar de boca fechada.
Foi assim que acabou, apesar de que ainda esperei por alguns minutos para ter certeza. O Grou voltou a dormir levemente, mas não dava sinais de que iria acordar. Fui até seu guarda-roupa e peguei um calção que não servia direito e uma blusa que caía até o joelhos, mas que era apertada no peito. Peguei um par de botas de um baú no corredor e desci para a cozinha.
Célia estava ao fogão, colocando uma chaleira para ferver. Seus cabelos escuros balançavam para cima e para baixo.
- Lembra da vez que tentamos fazer chocolate quente e quase botamos fogo no Ninho? - perguntei.
- Você não deveria estar em pé. Se você tivesse chegado aqui cinco minutos depois do que chegou, eu estaria agora procurando um túmulo ao invés de fazendo o jantar.
- Você não tinha dito isso antes.
- Não o estava querendo preocupar com a gravidade dos seus ferimentos. Dada a sua dificuldade em diferenciar a loucura da coragem, eu provavelmente deveria ter exagerado.
- Tudo sempre é claro em retrospectiva. Se eu tivesse que viver esse dia de novo, teria tentado evitar me dar mal desse jeito.
Aquele era o máximo de repreensão a que alguém poderia chegar diante de meu devastador e contínuo ataque de deboche. A chaleira apitou. Célia serviu uma xícara para si mesma, adicionou umas folhas e já sabia, sem perguntar, que eu não iria querer um pouco.
- Conversei com o Mestre - contei.
- Suponho que foi assim que você conseguiu os calções.
- Ele achou que eu fosse Ruão, o Implacável.
- Como eu disse antes, um pé cá outro lá - ela suspirou. - Às vezes ele me chama pelo nome da mãe dele, às vezes pelos nomes de mulheres que nunca mencionou antes.
Era estranho imaginar o Mestre tendo um passado antes de se tornar o Grou, sendo um adolescente cheio de acne ou um jovem dando suas escapadas.
- Quanto tempo você acha que ele tem? Célia soprou suavemente seu chá.
- Não muito - disse ela, e aquilo era o bastante.
Ficamos sentados juntos em silêncio. Lembrei-me que tinha muita coisa na cabeça para começar a gastar energia com a iminente morte do Grou. Era cruel, e verdadeiro, assim como muitas outras coisas. - Estive escavando - disse eu por fim.
- E?
- Você sabe de alguma coisa sobre um praticante chamado Brightfellow? Ele deve ter sido da sua classe na Academia.
A asa da xícara ocultava sua boca e seus olhos estavam escuros. Depois de algum tempo ela colocou a porcelana sobre a mesa. - Vagamente - disse ela.
- Não muito. Ele era do grupo do Adelweid, sempre mexendo em áreas que seria melhor não explorar.
- Parece que você se lembra de mais coisas do que pensa.
- Tente acompanhar meu raciocínio - pediu ela. - Eu já disse a você. Era uma turma pequena. Eu não o conhecia bem... não queria isso. Ele tinha vindo de alguma das províncias, não me lembro qual. Ele era do campo e aparentemente nunca superou a impressão de que o mundo todo ria de sua cara por ter sido criado em um celeiro. Ele andava por aí procurando alguém para atingir. Mas ele era próximo de Adelweid, viviam grudados.
Eu não conseguia imaginar o idiota altivo que conheci durante o cerco a Donknacht tendo muito a ver com Brightfellow.
Mas, à exceção disto, tudo o que Célia havia me contado coincidia com o que eu sabia do homem.
- Você acha que o Espada e o Brightfellow estão trabalhando juntos? - Célia perguntou.
- Eles estão fazendo alguma coisa juntos. Eu só não tenho certeza do que é ainda.
- E o talismã ainda aponta para o duque?
- Sim.
- Então do que mais você precisa? Você não poderia simplesmente... - ela fez um movimento com a mão que poderia sugerir prendê-lo ou matá-lo.
Preferi interpretar como o primeiro.
- Com base em quê? Um pedaço de uma prova roubada sugerindo a culpabilidade de um indivíduo de alguma forma ligado e um nobre poderoso? A informação de Crispin vai na direção de confirmar minhas suspeitas, mas no que diz respeito à Casa Negra... - eu sacudi a cabeça. - Eu não tenho nada.
Ela roeu a unha do polegar.
- Deve haver algo que eu possa fazer para ajudá-lo.
- Você me conhece. Eu sou orgulhoso demais para pedir ajuda, mas não tão orgulhoso ao ponto de rejeitá-la.
- Posso fazer alguma adivinhação na casa do duque. Isso poderia lançar alguma luz sobre as atividades dele, ou pelo menos indicar onde você poderia procurar por mais evidências.
- Qualquer ajuda que você puder dar será bem-vinda - disse eu, pensando em por que ela não havia pensado em tentar aquilo antes.
- Vou precisar de um ou dois dias. Vou mandar um mensageiro procurá-lo assim que tiver algo.
- Obrigado - disse eu, com sinceridade.
Célia assentiu e então se serviu mais uma xícara de chá, mexendo a seguir dois cubos de açúcar na infusão.
- Tive um encontro outro dia com uma das videntes da Casa Negra - relatei.
Ela enrolou uma mecha de cabelo em seu dedo indicador.
- Estou surpresa em saber que a Casa Negra lhe permita acesso a seus recursos.
- Você diz isso logo depois de um de seus agentes ter acabado de tentar me matar? Existe uma coisa irônica em relação a essas organizações clandestinas: uma parte tende a ignorar as atividades de seus parceiros, mesmo que isso envolva assassinato.
- Eles conseguiram colher algum sinal do corpo?
- Nada sobre o assassino. Mas a vidente captou sinais de que a menina foi sacrificada.
- Suponho que se trate do que estávamos temendo. Nós sabíamos que o duque estava penetrando na sombra. Faz sentido que ele vá até o fim.
- Partindo do princípio que se trata do Espada.
Ela fez um aceno com desprezo. Para ela aquele assunto já estava resolvido. Eu preferia ter deixado às coisas como estavam. Célia tinha um coração muito bom para se envolver em um negócio tão sujo.
Mas havia coisas que eu precisava saber e não tinha ninguém mais a quem perguntar.
- O que você pode me dizer sobre isso?
- Sobre sacrifício humano? Temo que eu não tenha muito a dizer. Eles não ensinavam esse tipo de coisas na Academia.
Por que não? Eles haviam ensinado Adelweid a evocar demônios da escuridão, a trazer horrores para o mundo e lançá-los contra seus semelhantes.
- Não estou tentando recriar a mecânica disso. Estou apenas tentando elucidar o motivo. O que se teria a ganhar com um ato desses?
Célia fez uma pausa antes de responder.
- A maior parte dos trabalhos é desencadeada pela energia inata do praticante, filtrada e dirigida de acordo com sua vontade. Para trabalhos maiores, a energia pode ser obtida junto a outras fontes ou de objetos criados com esse propósito. Em casos extremos, o praticante pode até mesmo extrair a essência de uma forma de vida inferior e usá-la para criar um feitiço. Em teoria, o sacrifício de um humano proporcionaria a mesma oportunidade, mas numa escala muito maior.
Deixei aquela informação entrar na minha cabeça, na tentativa de dar a ela um equilíbrio coerente.
- Não consigo juntar os pontos. O Espada está falido, muito bem. Para um homem como Beaconfield este é um grande motivo. Se ele perde o dinheiro, perde tudo, perde o status, até mesmo seu nome. Não que ele não possa ir pra rua e arrumar um trabalho de verdade. Seja como for, então ele se alia a Brightfellow, começa a evocar monstros do vazio e a matar crianças, para quê? Para recompor sua conta bancária? Não é suficiente.
- Você está pensando pequeno - disse ela. - Se eles andaram sacrificando crianças, a energia que têm para extrair é praticamente ilimitada. Ele poderia transformar uma montanha de lixo em ouro. Ele seria capaz de refazer a própria estrutura da existência. É esse o tipo de poder que você gostaria de ver nas mãos de um homem como o Espada?
Pressionei a têmpora em círculos com meus dedos indicadores. O efeito do que quer que Célia tenha feito por mim estava passando e eu já podia sentir o início de uma dor de cabeça.
- Houve mais uma coisa que a vidente me mostrou. Mesmo que Caristiona tivesse sido assassinada, não iria ficar muito tempo neste mundo. Ela tinha a peste.
- Isto é... improvável - disse Célia.
- Eu vi a mancha.
- Uma mancha pode ser sintoma de um monte de coisas.
- Era a peste - insisti, um pouco mais grosseiro, para depois voltar a um tom mais delicado. - Tive contato suficiente para ter certeza. Será que as proteções do Grou estão perdendo efeito?
- Isto não é possível.
- Como você sabe?
- Porque eu assumi a responsabilidade por elas - disse Célia, erguendo a xícara de chá até a boca enquanto disparava uma cápsula de artilharia contra minhas defesas.
- Você não tinha me contado isso - disse eu.
- A cidade dorme à noite porque sabe que o Mestre está olhando por ela.
É melhor não fazer nada capaz de abalar essa certeza. Apenas algumas pessoas na cúpula do Birô de Assuntos Mágicos sabe da mudança. Foi por isso que eu fui promovida a feiticeira de primeiro escalão, para que eu esteja pronta quando o Mestre não puder mais executar suas funções - era um baita de um eufemismo para a morte de um pai, mas era bom ver que Célia estava lidando com a situação de modo tão desapaixonado, tendo em vista que todo o peso do futuro de Rigus aparentemente estava prestes a recair sobre seus estreitos ombros. - Eu saberia se as proteções estivessem cedendo, e elas não estão - afirmou.
- Você está dizendo que é impossível que Caristiona estivesse com a peste?
- Não, eu não estou dizendo isso. Não existe meio de a peste eclodir naturalmente, mas ela pode ser disseminada deliberadamente. Se alguém a introduzir na população, espalhá-la entre um número suficiente de pessoas... As proteções do Mestre não são impermeáveis. Elas podem ser vazadas pelo peso da quantidade.
- Você acha que o Espada poderia estar infectando crianças com a peste? Com que fim? O que ele ganharia com isso?
- Quem saberia dizer qual tipo de pacto o duque pode ter feito para receber ajuda do vazio? Não consigo imaginar que a criatura que você viu agiria sem uma contrapartida. Talvez aparte de Beaconfield no acordo seja disseminar a febre.
- Você acha que isso é alguma espécie de... pacto diabólico? Como é possível ter certeza disso?
- Não tenho porra nenhuma de certeza - respondeu Célia. O palavrão soou constrangedor em sua boca e evidenciava o quanto ela estava assustada. - Não posso ler a mente desse homem. Não saberia dizer cada detalhe de sua trama doentia. O que eu sei é que, se ele continuar, será uma questão de tempo até que as proteções comecem a fraquejar. Enquanto você investiga em círculos, a Cidade Baixa flerta com a morte.
Podia sentir o sangue começar a subir.
- Eu vou cuidar disso.
- Quantas crianças mais vão ter que morrer antes que você consiga dar conta de suas responsabilidades? - insistiu ela.
- Eu vou cuidar disso - repeti, nervoso por estar sendo pressionado, mas no fundo ciente de que Célia estava certa, que eu não devia ter deixado aquilo se desenrolar por tanto tempo.
Havia muita coisa em jogo para mais demora. Beaconfield era o meu homem. E logo ele descobriria o significado disso.
- Não podemos permitir que o trabalho do Mestre tenha sido em vão.
- Isso não vai acontecer - eu disse. - Pelo Primogênito, vou garantir que isso não aconteça.
Aquilo pareceu tê-la acalmado um pouco. Ela colocou uma mão sobre a minha e ficamos sentados daquele jeito durante algum tempo.
Estava ficando tarde e a caminhada de volta para casa não seria mais curta por conta disso.
- Tem uma outra coisa que eu gostaria de comentar. Eu conversei com a mãe da última criança. Ela contou que o filho dela sabia de segredos que ninguém contara a ele. Isto me fez lembrar de algumas das coisas que fizeram o Grou ter certeza de que você poderia ser treinada para a Arte.
Célia respondeu sem olhar para mim:
- Estou certa de que isso não é nada. Para um pai, todo filho é especial. Aquilo era verdade. Despedi-me dela e fui embora. Já estava no começo da noite e o vento gelado que afligiu meus deslocamentos anteriores havia diminuído, deixando para trás uma espessa névoa acinzentada. Havia mais coisas que eu queria fazer, negócios que eu precisava cuidar, pistas que eu tinha que seguir. Mas em minha frágil situação, tudo o que eu podia fazer naquele momento era voltar pra o Conde, engolir alguma coisa quente e desmaiar na minha cama, que era, e eu notei isso com azedume, muito menos confortável que a de Célia.