O Guardião
Capítulo 30
No auge do verão de meus dezenove anos Rigus estava tomada pela febre da guerra. Havia alvoroço nas ruas por conta do fracasso da Conferência Hemdell e das notícias de que nossos aliados no continente, Miradin e Néstria, haviam se mobilizado para defender suas fronteiras contra o avanço da República Dren. O Alto Chanceler Aspith havia convocado um contingente inicial de vinte mil homens, o maior recrutamento de soldados já promovido pelo Império.
Pouco era capaz de fazer alguém avaliar que este primeiro sacrifício se mostraria nada mais do que combustível para a conflagração que deixaria o continente em chamas.
Nos anos depois que ela acabou eu ouvi uma série de diferentes razões pelas quais nós fomos à guerra. Quando eu me alistei disseram a nós que estávamos sendo enviados à morte para manter os tratados assinados com nossos companheiros de armas.
Mas qual seria o meu interesse em assegurar a integridade do antigo Império Mirad e de seu degenerado Sacerdote-Rei, ou ajudar os nestrianos a vingar os danos que a jovem Comunidade Dren causara a eles quinze anos antes eram coisas que estavam além de minha compreensão, tanto naquela época quanto agora. Não que isso importasse. As forças ocultas abandonaram esse argumento rapidamente, tão logo nossos aliados eternos capitularam dois anos depois de iniciado o conflito. Depois disso eu comecei a ouvir que minha presença a centenas de quilômetros de casa era necessária para proteger os interesses do Trono no exterior, para impedir que os drens conquistassem um porto de águas quentes que permitiria a eles ameaçarem as joias espalhadas de nosso Império. Um professor que eu conhecia, cliente meu, certa vez tentou me explicar que a guerra foi a consequência inevitável do que chamava de “movimento de expansão dos interesses financeiros da oligarquia”. Nós estávamos bastante chapados de Sopro de Fada naquele momento, porém, e eu tinha dificuldade em acompanhar o raciocínio dele. Ouvi um monte de explicações. Porra, até hoje metade da Cidade Baixa atribui a culpa de tudo aos bancos ilhéus e sua sobrenatural influência sobre a corte.
Eu ainda me lembro, no entanto, da organização da guerra e das longas filas nos centros de recrutamento. Ainda me lembro dos gritos de guerra, “Os drens, os servos, vamos jogá-los em suas covas!” , que podiam ser ouvidos em todos os bares da cidade, a qualquer hora do dia ou da noite. Ainda me lembro dos relâmpagos no ar, dos namorados se despedindo nas ruas, e só posso dizer o que penso: nós fomos à guerra porque guerrear é legal, porque existe algo no coração humano que sufoca o pensamento, se não a realidade, de que se está assassinando semelhantes em grandes números. Lutar numa guerra não é divertido. Lutar numa guerra é uma verdadeira tristeza. Mas deflagrar uma guerra? Bom, iniciar uma guerra é melhor que uma noite boiando em mel de Daeva.
Quanto a mim, bem, ter passado a infância brigando com os ratos pelo lixo novo não contribuiu muito para inculcar em mimas virtudes das classes média do patriotismo e da xenofobia que fazem ignorar o pensamento de que se está matando pessoas que você nunca viu antes. Mas um período no exército era melhor do que mais um dia nas docas, ou pelo menos era isso que eu imaginava. O recrutador disse que eu regressaria em seis meses e me deu um jogo de armadura de couro e um quepe que não cabia direito na minha cabeça. Havia pouca coisa em relação a treinamento. Eu jamais havia visto uma lança até desembarcar na Néstria.
Eu me alistei na primeira onda de recrutamento, a que eles chamariam eufemisticamente de as Crianças Perdidas, quando as baixas nos terríveis primeiros meses da guerra alcançaram três em cada quatro e quatro em cada cinco. A maior parte dos rapazes com quem lutei não chegou a viver doze semanas. A maior parte morreu berrando com uma flecha na barriga ou uma chuva de estilhaços.
Só que tudo aquilo ainda estava no futuro. Durante aquele verão eu andei pela Cidade Baixa enfiado em meu uniforme. Os mais velhos me cumprimentavam e me ofereciam cerveja, enquanto as meninas bonitas coravam quando eu passava pela rua.
Eu nunca fui um tipo sociável e duvidava que o restante dos homens das docas choraria minha ausência, então não tive uma despedida muito elaborada. Mas dois dias antes de minha presença no front ser requisitada, fui ver as duas únicas pessoas vivas que em minha opinião chorariam a minha morte.
Quando entrei o Grou estava de costas para mim e uma brisa fresca entrava pela janela. Eu sabia que o guardião já o havia avisado de minha chegada, mas ainda sim demorei a cumprimentá-lo.
- Mestre - disse eu.
Seu sorriso era largo, mas seus olhos estavam tristes.
- Você está parecendo um soldado.
- Um do nosso lado, espero eu. Não quero ser apunhalado já no navio que nos transportará até lá.
Ele assentiu com uma seriedade desnecessária. O Grou geralmente não se interessava pela política, pendendo, como a maior parte das pessoas de seu tipo, a ter interesses mais esotéricos. Apesar de seu status de Feiticeiro de Primeiro Escalão, ele raramente ia à corte e exercia pouca influência. Mas ele já era um homem de grande sabedoria e creio que ele já sabia que o resto de nós não sabia: aquilo que estava por vir não iria acabar no Solstício de Inverno e, uma vez solta àquela besta chamada guerra, não seria fácil levá-la de volta para a jaula.
É claro que ele não dizia nada disso para mim. Eu iria de uma maneira ou de outra. Mas eu podia ler a preocupação em seu rosto.
- Célia irá para a Academia no outono. Tenho a sensação de que o Ninho ficará muito frio durante o inverno, sem ela por aqui. E também sem suas visitas, inconstantes, mas que acabam se concretizando.
- Você decidiu enviá-la?
- O convite não foi escrito como um pedido. A Coroa quer consolidar os praticantes da nação dentro de sua própria esfera de influência. Nada mais de vidas errantes em torres nas charnecas expostas ao vento. Não estou empolgado com isso, mas... há pouca coisa que um velho possa fazer em relação ao futuro. É para um bem maior, ou pelo menos foi isso o que me disseram. Parece que hoje muitas coisas grandiosas estão sendo sacrificadas em nome de um ideal nebuloso -e talvez percebendo que sua crítica poderia se aplicar também à minha situação, ele adotou um tom mais animado. - Além do mais, ela está empolgada. Será bom para ela passar mais tempo com pessoas. Ela passa muito tempo sozinha com seus estudos. Há momentos nos quais temo que... - ele sacudiu a cabeça na tentativa de afastar pensamentos ruins. - Eu nunca tive planos de ser pai.
- Você se adaptou muito bem.
- Não é tão fácil assim, você sabe. Talvez eu ache que a tenha tratado muito como uma pessoa adulta. Quando percebi que ela tinha talento para a Arte... Às vezes imagino o que teria sido se não a tivesse adotado tão cedo como aprendiz. Eu tinha doze anos quando fui viver com Ruão. Tinha o dobro da idade dela e além disso era um menino. Houve coisas que ela aprendeu, coisas às quais foi exposta...- ele encolheu os ombros. - Foi o único jeito que eu tive de criá-la.
Eu nunca antes tinha ouvido o Grou falar tão abertamente de suas preocupações. Era perturbador e eu já estava cheio de coisas com que me preocupar.
- Deu tudo certo, Mestre. Ela se transformou numa bela jovem.
- É claro que sim, certamente - disse ele, sacudindo a cabeça com um vigor exagerado. Um momento se passou enquanto ele mastigava o bigode. - Ela alguma vez lhe contou o que aconteceu com ela antes de você a encontrar? O que aconteceu com a família dela? Como ela foi parar na rua?
- Eu nunca perguntei. Uma criança tão pequena, e ainda menina? - deixei no ar, preferindo não responder à pergunta, não pensar tão profundamente no assunto.
Ele concordou, tendo os mesmos pensamentos sombrios que eu.
- Você vai vê-la antes de partir.
- Irei.
- Seja gentil. Você sabe dos sentimentos dela por você. Não era uma pergunta e eu não disse nada.
- Queria poder garantir sua segurança com a minha Arte, mas não sou um mago de combate. Não imagino que meu pião que gira sem impulso será de grande utilidade numa batalha.
- Creio que não.
- Então eu suponho que não tenha nada a oferecer além de minha bênção -disse ele. Por falta de prática, nosso abraço foi desajeitado. - Tenha cuidado - disse ele. - Pelo amor de Sakra, tenha cuidado.
Deixei aquele comentário sem resposta, vacilante demais para dizer alguma coisa.
Desci as escadas na direção do quarto de Célia. Bati na porta com as articulações dos dedos. Uma voz suave respondeu:
- Entre.
Ela estava sentada no canto da cama, uma gigantesca monstruosidade roxa que em nada combinava com seu pequeno zoológico de animais empalhados. Ela andara chorando, mas se esforçava para não demonstrar.
- Você foi lá então? Você se alistou?
- Era uma precondição para pegar o uniforme - respondi.
- Você... você vai ter que ir?
- Eu assinei um contrato. É ir para a Néstria ou para a prisão.
Os olhos dela transbordaram, mas ela deu duas piscadelas e seguiu adiante:
- Por quê?
Como eu poderia responder àquela pergunta? Como resumir milhares de noites perdidas olhando para o teto de um cortiço, com três amontoados na mesma cama, joelhos roçando em você, o sono infinitamente interrompido pelo ronco sem graça do sujeito meio idiota ao seu lado? Como descrever a percepção de que o mundo está feliz em vê-lo exaurir todas as suas forças a serviço de outro homem, matar seu espírito na construção de uma fortuna que você nunca verá? Como explicar que o baralho está na mesa e que, se jogar limpo, acabará falido?
- Esta é a minha chance. As guerras mudam as coisas, sacodem a ordem. Aqui eu não sou nada, sou lixo arrastado pela chuva. E lá? - continuei. - Lá eles vão ter que transformar os alistados em oficiais. Não serão muitos que poderão comprar suas patentes. Vou virar tenente. Você pode dobrar suas apostas nisso. E depois? Existe espaço no mundo para um homem capaz de manter os olhos abertos para o futuro.
Quando terminei, os olhos de Célia estavam do tamanho dos de um cachorrinho e achei que teria sido melhor ficar de boca fechada. Não era para aquilo alimentar sua paixão cega.
- Eu sei que você vai. Você será um general antes dessa guerra acabar - ela corou e levantou-se da cama. - Eu o amei desde a primeira vez que te vi, resplandecendo ferocidade na escuridão - eu estava bastante consciente de sua proximidade e do fino tecido que separava o corpo dela do meu. - Vou esperar por você. Vou esperar por você pelo tempo que for preciso - as palavras vieram como a água que transborda de uma represa, as sílabas escorrendo uma após a outra. -Ou, se você não quiser esperar... - ela me abraçou. - Você não tem namorada. Eu sei que você está se poupando.
Coloquei minhas mãos nas costas dela de modo desajeitado. Era melhor fazer aquilo rápido, um momento agudo de sofrimento.
- Quando eu tinha treze anos paguei duas pratas a uma prostituta nas docas para me levar atrás de um banheiro. Eu nunca ter trazido uma mulher para te conhecer não justifica o que você pensa.
Eu não teria conseguido um efeito mais expressivo nem set ivesse batido nela. Ela precisou de um tempo longo para se recompor e então voltou a jogar seu corpo contra o meu.
- Mas eu te amo. Sempre te amei. Somos iguais, você e eu. Você não percebe?
O rosto dela estava enterrado em meu peito e seus braços delgados me apertavam com força as costelas. Coloquei um dedo em seu queixo e ergui seus olhos de encontro aos meus.
- Você não é como eu. De jeito nenhum você é como eu - disse. O rosto dela estava molhado de lágrimas. Passei meus dedos por seus cabelos negros. - Eu te entreguei naquela noite ao Grou para ter certeza disso.
Ela me empurrou e foi correndo para a cama, chorando. Seria melhor assim. Ela sofreria, por um tempo. Mas ela era jovem, aquilo ia passar e nos anos seguintes a lembrança não passaria de um frágil constrangimento.
Retirei-me dali da maneira mais silenciosa e rápida que pude, desci as escadas e saí para a tarde. Então estava de volta ao meu quarto de pensão para dois dias de bebedeira e putaria, certificando-me de gastar todo o cobre do mísero bônus distribuído pela Coroa em reconhecimento a meu futuro serviço.
Quando fui tropeçando até as docas quarenta e oito horas depois eu estava totalmente falido e com uma dor de cabeça que mais parecia um coice na têmpora. Era um início inauspicioso para um empreendimento não lucrativo.
Quanto à Célia e ao Grou, bem, eu escrevi cartas e eles também me escreveram. Mas, como tudo mais no maldito exército, a comunicação era terrível. Então eu não recebi a maior parte das cartas deles e eles não receberam a maior parte das minhas.
Levaria mais de cinco anos até que eu voltasse a vê-los. Nesse período, muita coisa mudou para todos nós e pouco, suspeito eu, foi para melhor.