O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 44 de 49

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O Guardião

Capítulo 44

Abri as portas da Casa Negra como se ainda fosse o maior agente do lugar, e não como um traficantezinho qualquer. Devo ter deixado uma impressão e tanto, pois o guarda da porta me deixou entrar sem problemas. Dali fui entrando pelos labirínticos corredores do prédio e percebi sem nenhuma surpresa que não havia esquecido meu caminho.

O gabinete do Comandante situa-se exatamente no centro do prédio, no coração de um emaranhado de escritórios e de corredores de tapeçaria simples. Entrei sem bater, mas de alguma forma ele já sabia que eu estava chegando e estava acomodado confortavelmente em sua cadeira, dominando completamente o espaço que habitava. A mesa de madeira diante dele não tinha nenhum papel, livro ou quinquilharias em geral. O único adorno era um pequeno pote de doces.

- Um dia antes - disse eu, sentando-me na cadeira de frente pra ele e jogando o pacote sobre a mesa.

O pacote caiu com um estrondo. O Comandante olhou para mim, depois para o dossiê e mais uma vez para mim.

Ele pegou o arquivo e recostou-se na cadeira, folheando–o com uma demora agonizante. Finalmente ele colocou os papéis sob a mesa.

- Parece uma leitura interessante. Infelizmente, não é a informação que o incumbi de encontrar. Para o seu bem, eu realmente espero que isto não seja tudo o que você trouxe.

A navalha estava dentro de minha bolsa. Tudo o que eu precisaria fazer era colocá-la sobre a mesa e ir embora, livre e com a barra limpa, pelo menos até a próxima vez que eles quisessem alguma coisa de mim. A navalha estivera em sintonia com o vazio e servia como uma confissão assinada. Mas com o garoto desaparecido aquilo estava fora de cogitação. Um menino de rua não significava nada para o Comandante, não valia um cílio nem uma unha do pé.

O Espada chamaria muito a atenção se simplesmente desaparecesse dentro da Casa Negra e para nunca mais ser visto novamente. Se fosse atrás dele, a Casa Negra manteria sua pretensa legalidade, forçaria semanas de intimações e disputas judiciais e eu não imaginava que Beaconfield deixaria Garrincha sair vivo dessa situação. Isto, é claro, partindo-se do princípio que o Comandante fosse tentar derrubá-lo, o que eu duvidava. O mais provável era que ele usasse minha prova para enquadrar Beaconfield, colocá-lo a serviço da Casa Negra. Afinal, o duque era mais valioso em seu bolso do que pendurado pelo pescoço.

A única chance que eu teria de sair com o garoto são e salvo era tendo as rédeas da situação, e isso significava que eu precisava segurá-las com firmeza, repassar o suficiente para que o duque fosse punido, mas sem soltar demais as mãos nem permitir que o Comandante assumisse o controle. Peguei um doce do pote, desenrolei o papel lentamente e coloquei o confeito na boca.

- Isto que eu lhe passei é apenas o motivo, certamente. Suponho que Guiscard já tenha lhe contado sobre a conexão de Beaconfield com a Operação Ingresso -disse eu. A repentina boa vontade do agente em me ajudar nunca cheirou bem, mas foi só diante do chefe dele que resolvi externar minha suspeita. Foi um belo tiro no escuro e fiquei satisfeito ao ver um soluço de surpresa atravessar a compostura perfeita do Comandante. - Depois de não ter conseguido ninguém que contratasse seus serviços ilícitos, o Espada partiu para um Plano B. Alguém, provavelmente Brightfellow, contratou o kiren para o sequestro. Quando viram que não funcionou, eles decidiram fazer tudo com as próprias mãos. Posso continuar, se você quiser. Eu sei que já faz tempo que você não faz um trabalho policial de verdade.

O rosto do Comandante retomou o ar amistoso e vazio. Ele então sacudiu a cabeça, entristecido com a má notícia que estava prestes a me dar.

- Não é suficiente. Não é nem perto do suficiente. Talvez tenha sido minha a culpa. Talvez eu não o tenha motivado o bastante. Talvez eu devesse ter mandado alguém ao seu bar, para uma agradável visitinha aos seus amigos.

Deixei aquela provocação passar sem cair na dele.

- Pode não ser suficiente para um mandado, mas é suficiente para que nós dois saibamos.

- O que você está querendo sugerir?

- Vou tratar disso, por fora.

Ele fez um som reprovador.

- Sangue demais, barulho demais. Vai parecer o quê?

- Você é a Operações Especiais. Vai parecer o que você disser que parece. Não finja que não saboreia a ideia de pegar um nobre, um aliado do Príncipe Herdeiro. Estou lhe fazendo um favor, e você sabe disso - avancei na cadeira, encurtando a distância entre nós. - A não ser que você queira esperar o Espada e seu feiticeiro de estimação concluírem o ritual.

Os olhos do Comandante estavam azuis como uma tarde de verão.

- Você está se oferecendo para retornar ao serviço da Coroa?

Eu sabia que ele estava jogando uma isca, mas não iria mordê-la.

- É uma proposta singular. Eu e o lorde Beaconfield tivemos uma discussão e amanhã você acorda com um problema a menos para tratar.

- E por que você está tão disposto a assumir a responsabilidade pela morte do bom duque?

- Eu me entedio com facilidade. Mas o que importa? Eu vou fazê-lo.

O Comandante esfregou as mãos diante do rosto, dando a impressão de pensar seriamente no assunto. Depois de quinze segundos de um desconfortável silêncio ele tirou as mãos do rosto e se reclinou na cadeira.

- Acidentes acontecem - disse ele.

Levantei-me para ir embora, abri a porta e voltei-me na direção dele.

- É bom que você saiba que será necessária uma limpeza. Vai ser rápido, mas será barulhento.

- Como você disse, nós somos a Operações Especiais.

- Quando eu chegar para sua vez, será tão silencioso como uma capela. Ele soltou um riso constrangido, decepcionado com meu mau comportamento.

- Mas que temperamento! Você nunca vai chegar à minha idade se não aprender a curtir um pouco mais a vida.

Eu nada respondi. Fechei a porta do insípido gabinete atrás do homem mau que ali vivia.