O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 43 de 49

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O Guardião

Capítulo 43

Eu e Adolphus estávamos conversando no canto quando Adeline chegou, rechonchuda e esbaforida, apressada para a festa de Solstício de Inverno que estava prestes a preparar. Se eu estivesse sozinho, acho que poderia ter conseguido enganá-la, mas não se divide a cama com um homem durante dez anos sem conseguir alguma habilidade para avaliar seu temperamento. Além disso, Adolphus não é muito dado a enganar ninguém.

- Qual é o problema? - perguntou ela.

Eu e Adolphus trocamos aquele tipo de olhar que antecipa uma má notícia, mas nenhum de nós disse nada.

Ela me inspecionou com um olhar de causar inveja a muito magistrado.

- Cadê o Garrincha?

Um buraco se abriu no fundo do meu estômago e eu caí dentro dele. Tropecei numa mentira.

- Eu o deixei no Ninho.

- Você não havia comentado nada sobre visitar o Grou hoje.

- Eu não lhe aviso toda vez que esvazio os intestinos, mas o penico ainda tem bastante utilidade e uso.

Num movimento veloz, mais rápido do que eu a julgava capaz, ela estava diante de mim. A voz dela tinha um tom mais elevado que o comum, mas era firme.

- Pare de mentir pra mim. Não sou idiota. Cadê ele?

Engoli seco e fiz um sinal para Adolphus. Ele tirou o bilhete do bolso e o passou para ela.

Não sei dizer ao certo o que esperava, ou como achava que ela reagiria. Por mais que sua voz fosse baixa e ela fosse uma pessoa doce, por todos os delírios de tirania que ela permitia a Adolphus, Adeline não era uma criatura fraca. Mas eu não era capaz de imaginar o que a chegada de Garrincha para uma mulher havia tanto tempo sem filho significava.

Ela leu a mensagem sem que a amargura em seu rosto se alterasse. Ela então olhou para mim, incrédula.

- Como foi que aconteceu? - perguntou. Ela parecia mais confusa do que nervosa.

- Ele deve ter me seguido quando saí do bar. Ele já fez isso antes, mas eu disse para que não fizesse de novo. Mas não tenho certeza. Eu não o vi.

Ela me bateu no rosto, com a palma da mão fechada.

- Seu idiota, idiota - ela voltou a levantar a mão antes de deixá-la cair. - Você é um estúpido.

Engoli aquela.

- Prometa pra mim que você irá encontrá-lo.

- Vou fazer o que puder.

Ela sacudiu a cabeça e me segurou pela lapela do casaco com os olhos abertos e furiosos.

- Não, isso não. Prometa pra mim que você irá trazê-lo de volta, são e salvo.

Minha garganta estava tão seca que minha voz falhou.

- Eu prometo - respondi. Como regra, eu não prometo nada que não seja capaz de cumprir e me arrependi do que disse tão logo abri a boca.

Ela me soltou e desabou sobre Adolphus, a compostura demolida. Ele fez um carinho de leve nas costas dela. Fui para a saída.

- Devo voltar dentro de uma hora.

- Você não vai... - Adolphus interrompeu a frase no meio.

- Ainda não. Tenho que fazer uma coisa primeiro.

Eu não iria matar um membro da nobreza sem antes notificar as autoridades. Precisava falar com o Comandante.