O Guardião
Capítulo 43
Eu e Adolphus estávamos conversando no canto quando Adeline chegou, rechonchuda e esbaforida, apressada para a festa de Solstício de Inverno que estava prestes a preparar. Se eu estivesse sozinho, acho que poderia ter conseguido enganá-la, mas não se divide a cama com um homem durante dez anos sem conseguir alguma habilidade para avaliar seu temperamento. Além disso, Adolphus não é muito dado a enganar ninguém.
- Qual é o problema? - perguntou ela.
Eu e Adolphus trocamos aquele tipo de olhar que antecipa uma má notícia, mas nenhum de nós disse nada.
Ela me inspecionou com um olhar de causar inveja a muito magistrado.
- Cadê o Garrincha?
Um buraco se abriu no fundo do meu estômago e eu caí dentro dele. Tropecei numa mentira.
- Eu o deixei no Ninho.
- Você não havia comentado nada sobre visitar o Grou hoje.
- Eu não lhe aviso toda vez que esvazio os intestinos, mas o penico ainda tem bastante utilidade e uso.
Num movimento veloz, mais rápido do que eu a julgava capaz, ela estava diante de mim. A voz dela tinha um tom mais elevado que o comum, mas era firme.
- Pare de mentir pra mim. Não sou idiota. Cadê ele?
Engoli seco e fiz um sinal para Adolphus. Ele tirou o bilhete do bolso e o passou para ela.
Não sei dizer ao certo o que esperava, ou como achava que ela reagiria. Por mais que sua voz fosse baixa e ela fosse uma pessoa doce, por todos os delírios de tirania que ela permitia a Adolphus, Adeline não era uma criatura fraca. Mas eu não era capaz de imaginar o que a chegada de Garrincha para uma mulher havia tanto tempo sem filho significava.
Ela leu a mensagem sem que a amargura em seu rosto se alterasse. Ela então olhou para mim, incrédula.
- Como foi que aconteceu? - perguntou. Ela parecia mais confusa do que nervosa.
- Ele deve ter me seguido quando saí do bar. Ele já fez isso antes, mas eu disse para que não fizesse de novo. Mas não tenho certeza. Eu não o vi.
Ela me bateu no rosto, com a palma da mão fechada.
- Seu idiota, idiota - ela voltou a levantar a mão antes de deixá-la cair. - Você é um estúpido.
Engoli aquela.
- Prometa pra mim que você irá encontrá-lo.
- Vou fazer o que puder.
Ela sacudiu a cabeça e me segurou pela lapela do casaco com os olhos abertos e furiosos.
- Não, isso não. Prometa pra mim que você irá trazê-lo de volta, são e salvo.
Minha garganta estava tão seca que minha voz falhou.
- Eu prometo - respondi. Como regra, eu não prometo nada que não seja capaz de cumprir e me arrependi do que disse tão logo abri a boca.
Ela me soltou e desabou sobre Adolphus, a compostura demolida. Ele fez um carinho de leve nas costas dela. Fui para a saída.
- Devo voltar dentro de uma hora.
- Você não vai... - Adolphus interrompeu a frase no meio.
- Ainda não. Tenho que fazer uma coisa primeiro.
Eu não iria matar um membro da nobreza sem antes notificar as autoridades. Precisava falar com o Comandante.