O Guardião
Capítulo 5
Saí do Conde meio chateado. Dependo de Adolphus para uma dose matinal de leveza e me sinto um aleijado quando saio sem ela. Somando isso ao tempo fechado, eu estava começando a desejar que tivesse mantido minha vontade original e passado o restante da tarde na cama, queimando vinonírica. Até ali, o melhor que se poderia dizer sobre o dia era que ele já tinha passado da metade.
O inesperado encontro da noite anterior havia me desviado de minha intenção original de visitar o Rimador - uma circunstância que eu precisava retificar. Ele perdoaria a minha ausência. Provavelmente já sabia o motivo. Mas nós ainda precisávamos nos falar. Àquela hora do dia ele podia estar trabalhando nas docas ou então na casa de sua mãe. A mãe dele tinha a mania de tentar me arranjar com as mulheres do bairro, então decidi que ele estaria no cais e segui naquela direção, com a dor no meu tornozelo mostrando-se tão relutante em diminuir quanto a de minha cabeça.
Yancey era provavelmente o mais talentoso músico da Cidade Baixa, além de um excelente contato. Eu o conheci na época em que era agente - ele fazia parte de uma trupe de ilhéus que se apresentava em bailes aos frequentadores da corte e aristocratas.
Eu o ajudei a sair de uma fria uma vez e em troca ele começou a me passar informações, frivolidades, conversas de bastidores.
Ele jamais comprometeu ninguém. Desde então, as trajetórias de nossas carreiras tomaram direções diametralmente opostas e hoje em dia suas habilidades são requisitadas em alguns dos mais exclusivos eventos da capital. Ele ainda mantém os ouvidos abertos para mim, apesar de as aplicações para as informações que ele me fornece terem mudado.
A ironia da situação não era ignorada por nenhum de nós dois.
Eu o encontrei a apenas alguns passos do cais oeste, cercado por um punhado de passantes indiferentes, tocando um número de Kpanlogo enquanto recitava a poesia rítmica que lhe rendeu seu apelido. Por tudo o que Yancey sabia, eu o considerava um dos piores artistas de rua que já tinha visto. Ele não atendia a pedidos, parava em lugares de pouco movimento e era grosseiro com quem ficava olhando. Na maior parte dos dias, ele tinha sorte se conseguia arrecadar alguns cobres, uma recompensa modesta para um homem com todas as suas habilidades.
Apesar de tudo isso, ele sempre fazia festa quando me via e eu acho que ele não gostava de exibir sua estonteante habilidade a um público ingrato. Ele ganhava dinheiro suficiente tocando para as classes mais abastadas e aquelas exibições não tinham nenhum propósito mesmo.
Enrolei um cigarro. Yancey detestava ser interrompido no meio de uma apresentação, independentemente do que estivesse tocando. Certa vez eu tive de desatracá-lo de um cortesão que cometeu o erro de rir durante sua apresentação. Ele tinha o humor imprevisível dos baixinhos, aquela raiva que surge violentamente com a mesma rapidez que vai embora.
Um momento depois ele terminou seus versos e o pequeno público respondeu com aplausos baixos. Ele riu da falta de entusiasmo deles e depois se dirigiu a mim.
- Veja só se não é o Guardião. Finalmente conseguiu vir visitar seu amigo Yancey - disse ele com sua voz grossa e doce.
- Tive uns imprevistos - respondi.
- Ouvi falar - disse ele enquanto sacudia a cabeça em tom de lamentação. -Que coisa terrível. Você vai ao funeral? - perguntou ele.
- Não.
- Bom, eu vou, então me ajude a arrumar tudo isso aqui - pediu. Yancey começou a desmontar suas coisas, envolvendo cada um de seus pequenos tambores em sacos de algodão. Eu peguei a menor das peças e fiz o mesmo, mas deixei-a cair. Como regra, Yancey era capaz de esfolar qualquer pessoa tola o bastante para encostar em seus instrumentos, mas ele sabia qual era a minha e deixou passar sem falar nada. - A nobreza ficou desapontada por você não ter aparecido na noite passada - comentou.
- E a tristeza deles muito me comove - ironizei.
- Tenho certeza que você perdeu o sono por isso. Se quiser, pode aparecer na propriedade do Duque de Illador na terça-feira à noite, por volta das dez -convidou.
- Você sabe como a opinião da nobreza é importante para mim. Devo supor que você esteja esperando sua porcentagem de sempre?
- A não ser que você queira aumentá-la - brincou.
Eu não ia. Continuamos em silêncio até que os curiosos se afastarem mais.
- Disseram que foi você quem a encontrou - disse Yancey então.
- As pessoas dizem coisas.
- Você está firme?
- Como uma rocha.
Ele balançou a cabeça em sinal de compreensão.
- Que coisa terrível - lamentou. Ele terminou de guardar suas coisas em um espesso saco de lona e depois o levou ao ombro. - A gente conversa melhor depois. Quero achar um lugar decente na praça - ele disse isso, bateu no meu pulso e saiu.
- Fica tranquilo.
As docas estavam praticamente desertas. A massa de trabalhadores, mercadores e clientes estava a caminho do funeral e, como Yancey, feliz por matar algumas horas de trabalho para participar de um espetáculo de luto público. Com a ausência de todo esse povo, um silêncio estranho se estabeleceu naquela área, em extremo contraste com o costumeiro comércio pulsante. Depois de ter certeza que não havia ninguém olhando, peguei minha garrafinha para uma dose de Sopro de Fada. A dor na cabeça diminuiu, assim como a que eu sentia no tornozelo. Observei o reflexo do céu acinzentado na água, lembrei-me do dia em que estive nas docas junto com cinco mil outros jovens preparando-me para embarcar em um navio para a Gália. Meu uniforme tinha uma bela aparência, eu achava, e meu capacete de aço reluzia ao sol.
Pensei em acender uma vinonífera, mas depois achei que seria melhor não. Nunca é boa ideia ficar chapado quando se está sentimental. A vinonífera tende a acentuar nossas ansiedades, ao invés de embotá-las. Aquela solidão não estava caindo bem e de repente meus pés se viram caminhando para o norte, na direção da igreja. Depois de tudo aquilo, parece que eu estava a caminho do funeral.
Na hora que cheguei, a missa já havia começado e a Praça da Benevolência estava tão cheia que mal era possível enxergar o palanque. Contornei a multidão, entrei em uma viela que saía da praça principal e me acomodei sobre uns caixotes. Era longe demais para ouvir o que o sacerdote de Prachetas estava falando, mas eu tinha certeza de que era algo muito bonito. Não se encontra um sentido em uma vida na qual as pessoas se vestem com objetos de ouro se você não for capaz de dizer coisas muito bonitas nos momentos oportunos. Além do mais, o vento estava mais forte, então a maior parte da multidão também não conseguia ouvir o que estava sendo dito. Primeiro a multidão tentou se aproximar o mais que pôde, aguçando os ouvidos para conseguir escutar. Como isso não funcionou, as pessoas começaram a ficar agitadas, com as crianças pulando sobre seus pais e trabalhadores tentando aquecer os pés.
Sentada no palanque, uns respeitosos dez passos atrás do sacerdote, estava a mãe da menina, reconhecível até mesmo de longe pela expressão em seu rosto. Era a mesma expressão que eu via na guerra, nos olhos de jovens que haviam perdido os membros, no olhar de alguém que sofreu um ferimento que deveria ter sido mortífero, mas não o foi. Essa expressão tende a se acomodar como um molde de gesso, ficando permanentemente marcada na pele. Suspeito que esta seja uma máscara que aquela pobre mulher jamais seja capaz de deixar cair, a não ser que um dia se torne pesada demais e ela acabe por enfiar um estilete no pulso em alguma noite de frio.
O sacerdote alcançou um ápice, ou pelo menos eu achei que tivesse. Ainda não conseguia ouvir nada, mas seus gestos grandiloquentes e as bênçãos repetidas pela multidão pareciam indicar alguma espécie de clímax. Eu tentava acender um cigarro, mas o vento continuava apagando o fogo. Gastei uma meia dúzia de fósforos antes de desistir. Era uma tarde desse tipo.
Então acabou. As orações foram concluídas e as invocações oferecidas. O sacerdote segurou a estátua dourada de Prachetas sobre sua cabeça e desceu do palanque, os carregadores de caixão vinham logo atrás dele com o corpo da menina. Uma parte da multidão acompanhou a procissão. Mas a maioria não seguiu.
Estava ficando frio e o cemitério era longe.
Esperei a multidão esvaziar a praça e me levantei. Em algum ponto do discurso que eu não ouvira, decidi violar meu exílio auto imposto e voltar ao Ninho para conversar com o Grou Azul.
Malditos funerais. Maldita mãe. Maldita criança.