O Guardião
Capítulo 29
Eu seguia rumo ao sul quando o avistei, um anão ossudo me acompanhando pelo lado oposto da rua, meia quadra atrás de mim. Ele poderia ter me abordado a qualquer momento depois que saí da Mairi. Teria sido fácil escapar por um beco qualquer em meio àquela espessa neblina.
Eu parei em uma barraca de um velho kiren e inspecionei suas mercadorias.
- Duoshao qian? - perguntei, posicionando um bracelete escovado contra a luz como pretexto para poder olhar atrás de mim. O vendedor me deu um preço dez ou doze vezes maior do que valia aquela porcaria. Eu simulei desapontamento e joguei a bugiganga numa caixa. Ele a pegou rapidamente e a botou na frente do meu nariz, iniciando um monólogo incoerente sobre os méritos excepcionais de seus produtos. Naquele ponto, a pessoa que me seguia já estava perto o bastante para eu captar alguns detalhes. Eu não conseguia imaginar o Espada contratando o bandidinho barato caricaturado por aquele tipinho briguento e obviamente ele não era um herege, então Ling Chi também não era. É claro que havia um monte de outras pessoas espalhadas pela cidade que não se importariam em me ver caindo em cima de algo afiado, algum traficante que se sentia injustiçado ou algum dono de favela que me via como ameaça a seus negócios.
Nós descobriríamos isso logo.
Eu não tinha me armado antes de sair para ver a Mairi, pois parecia um jeito ruim de deixar uma boa impressão, mas eu não precisaria de uma arma para saltar em cima daquele bastardinho pele e osso. A única coisa melhor do que armar uma emboscada para um filho da puta é armar uma emboscada para o filho da puta que acha que está emboscando você. Saí da barraca, fui na direção de uma viela lateral e dobrei a esquina, acelerando um pouco o passo ao contornar.
Quando me dei conta, estava no chão, com a estranha sensação de luz e calor que acompanha um golpe forte contra a cabeça que distorcia minha visão, motivo pelo qual a figura em pé sobre mim foi, por um instante, irreconhecível. Mas apenas por um instante.
- Oi, Crowley.
- Oi, bicha.
Tentei pegá-lo pelos tornozelos, mas meus movimentos eram lentos e desajeitados. Crowley acabou com qualquer esperança minha de escapar com um bico em minhas costelas. Curvei-me contra a parede na esperança em que este último golpe não me tivesse quebrado nenhum osso, mas a dor agonizante sugeria que tamanho otimismo não tinha fundamento. Meus pulmões tinham dificuldade para funcionar adequadamente, numa pausa durante a qual Crowley teve a delicadeza de segurar a vontade de me bater novamente, apesar de o ter feito com um sorriso exageradamente inamistoso. Consegui tossir algumas poucas frases.
- Problemas com a aritmética? Ainda tenho cinco dias, Crowley. Cinco dias. Se números grandes o confundem, tire os sapatos e use os dedos do pé para fazer as contas.
- Eu não te disse que ele era engraçado - disse Crowley a alguém atrás dele. Então eu percebi que ele não estava sozinho.
Ele tinha o apoio de três homens. Acho que não eram agentes, mas eram durões, músculos do crime organizado talvez. Independentemente disso, inamistosos ao extremo. Eles me observavam com expressões que iam numa escala do absoluto tédio ao júbilo sádico.
Fui enganado como um amador. O primeiro se deixou avistar, desviando a atenção enquanto Crowley e os demais ficaram na espera. Pelo Cicatrizado, como eu pude ser tão burro?
- Você vê algum uniforme em mim, seu inútil? Isto não tem nada a ver com a Coroa ou com o Comandante. - Ele acentuou a última frase com um chute em meu ombro. Eu recuei e mordi a língua. - Hoje é meu dia de folga.
- Então ter trombado comigo foi apenas um desvio do destino? - perguntei enquanto sentia o gosto do sangue, que escorria pelo meu rosto.
- Eu não atribuiria nada disso ao acaso. Deve ter algo a ver com o fato de eu achar que você já viveu muito além de sua inutilidade. Outro corpo apareceu hoje cedo. É um menino desta vez.
Pobre Avraham Mayana.
- Não finja que você se importa com as vítimas.
- Você tem razão. Não tem nada a ver com elas - disse ele, esfregando o rosto embrutecido no meu, o bafo quente entrando pelo meu nariz. - Tem a ver com você. Eu odeio você pra caralho. Odiei você durante dez anos, desde que você me atravessou no caso da Banda Manchada. Quando o Comandante deu as ordens para te buscar na semana passada, quase pulei de alegria. Então te deixamos ir -ele sacudiu a cabeça e abriu os braços.
- Dez anos esperando para acertar as contas e você consegue mais uma chance por causa dessa sua lábia? Eu sei que eles dizem que não se deve levar trabalho para casa, mas... o que eu posso dizer? Talvez eu seja um servidor público muito dedicado.
- O que você acha que o Comandante vai dizer quando souber que você acabou comigo?
Ele gargalhou de um jeito cômico, mas nem por isso menos ameaçador.
- Quando eu sair desse beco você estará bem vivo - ele disse isso e molhou um dedo gordo no sangue que escorria de meu nariz e inspecionou com cuidado, quase com carinho, a mancha vermelha e úmida. - É claro que eu não tenho como falar por estes cavalheiros. Destreinados, sabe, mas cheios de entusiasmo. Além disso, eu não contaria muito com o bom humor do seu benfeitor. Segundo minha última checagem, você não fez muito para conter a violência em seu guetinho. Nós encontramos o menino no rio hoje, e eu acho que você já sabe da morte infeliz de seu velho parceiro.
Alguma coisa queimou em meu estômago.
- Não fale de Crispin, seu gorila sodomita.
Ele bateu com a ponta da bota na minha testa e minha cabeça bateu na parede atrás de mim.
- Você está muito mal-humorado para um homem prestes a ter as entranhas demoradamente analisadas.
Um de seus rapazes, um Mirad magrela com cicatrizes faciais ritualísticas usadas para marcar os criminosos naquela infeliz teocracia, sacou um punhal de dentro de seu casaco, grande demais para ele, e disse algo que não consegui entender.
Crowley tirou os olhos de mim para resmungar com ele, o rosto tomado pelo ódio.
- Não ainda, seu degenerado de merda. Eu já disse a vocês: primeiro ele sangra.
Era a melhor oportunidade possível. Dei um coice com o pé direito na rótula de Crowley. Minha visão ainda estava embaçada, porém, e acabei por acertar sua tíbia.
Tinha sido o suficiente. Ele uivou, recuou um passo e caiu aos meus pés. Acho que Crowley pensou que o primeiro golpe me deixaria derrubado por mais tempo. Burro filho da puta. O sujeito me conhecia havia uma década e ainda não tinha aprendido a levar em conta a grossura do meu crânio.
Dobrei uma esquina e ouvi o barulho do metal contra a pedra, indicando que o punhal do Mirad havia errado o alvo por pouco. Depois eu estava um passo adiante de outro com o máximo da diligência que meu corpo espancado podia desempenhar, seguindo a oeste na direção do canal com cada gota restante de energia.
Os becos daquela parte da Cidade Baixa cercam os cruzamentos principais como se fossem a teia de uma aranha bêbada, indo para lá e para cá sem uma regularidade. Nem eu mesmo conheço todos eles muito bem, fato reforçado sempre que uma ou duas vezes eu me deparava com entroncamentos que já havia cruzado antes. Mas se eu estava com problemas, podia afirmar com segurança que Crowley e sua gangue não estavam se saindo melhor.
Os gritos nervosos de meus perseguidores ecoavam nas paredes cinzas, dando um ímpeto desnecessário a meus movimentos.
Consegui me proteger nas vielas e sair no amplo bulevar que margeia o canal. Naquele ponto o canal tem sua máxima largura, logo ao sul do Rio Andel, com a Ponte Rupert ligando uma margem à outra. Corri o mais que pude, chegando à parte inferior da ponte e subindo seu arco de pedra calcária. Num dia normal essa região estaria cheia de viajantes se acotovelando rumo a seus destinos e de pessoas fazendo piquenique e aproveitando a vista, mas o tempo estava ruim e eu era a única pessoa à vista. Pelo menos a princípio.
Cruzando a ponte, do outro lado, com uma adaga longa e curvada presa ao braço, estava o homem que eu vira me seguindo havia pouco, e ele parecia bem maior do que antes. Atrás de mim, o Mirad com a cicatriz saiu da viela, com suas características turvas em meio à densa neblina.
Parei no zênite da Ponte Rupert, pensando desesperadamente em alguma saída. Pensei na possibilidade de sair correndo na direção do capanga e estreitar a distância entre nós, mas, desarmado como estava, ele me seguraria ali por tempo o bastante até que o resto da gangue chegasse e me cortasse em pedaços. Dali eu podia ouvir Crowley amaldiçoando minha linhagem em meio a promessas de punição gratuita. Uma rápida olhada me permitiu ver que ele vinha logo atrás do Mirad, que diminuiu o passo, esperando a chegada do bando antes de investir contra mim.
De vez em quando o êxito depende de estratagemas complicados, como o sacrifício de um peão ou de um bispo encurralado. Na maior parte das vezes, porém, ele depende de velocidade e surpresa. Crowley jamais poderia ser confundido com um gênio, mas eu não era o primeiro bastardo que ele perseguia pelas ruas de Rigus. Com mais alguns segundos para pensar ele saberia que eu preferia tomar um banho a entrar no corpo a corpo com seus capangas. Mas, quando virou a esquina, ele ainda não tinha processando essa possibilidade e ficou paralisado ao me ver escalar a grade e saltar de cabeça no canal abaixo.
O gelo não estava tão fino quanto parecia do alto da ponte e eu me machuquei bem no ombro ao atravessar a camada. Não senti o machucado por algum tempo, já que a água gelada me anestesiava até os ossos. Ao me ajeitar, consegui me livrar do casaco pesado e arrancar as botas, já que minhas mãos dormentes tateavam os cadarços, mas os dedos não respondiam.
Crowley imaginaria que eu seguiria rio abaixo, mas eu nunca fui um grande nadador e não tinha esperança de ir mais rápido que ele e seus capangas. Em vez disso, tomei impulso e fui ainda mais fundo. O canal era cheio de lixo, muito sujo para se enxergar algo mesmo que eu fosse tolo o bastante para abrir meus olhos, então eu tinha que esperar que Crowley caísse na minha. Segurei a respiração pelo máximo que consegui e depois fui até a superfície em busca de ar, levantando a camada superior de gelo apenas alguns centímetros acima da água e depois mergulhando novamente para o fundo.
Eu não aguentaria muito tempo daquele jeito. Meus membros já estavam pesados e lentos e cada movimento era cada vez mais difícil. A vontade de meu corpo de obedecer a meus comandos diminuía a cada segundo que se passava.
Fui à superfície duas vezes em busca de ar antes de o frio tornar-se demasiado, então eu nadei até a margem oeste e me arrastei pelo lado do canal. Durante alguns segundos fiquei prostrado sobre o pavimento sujo, querendo me movimentar, mas com meu corpo machucado antipático a minhas vontades.
Até que o pensamento em relação ao que poderia acontecer se Crowley e seus homens me encontrassem, o que significava dizer a ameaça iminente de tortura e morte, me deu energia suficiente para me levantar.
Em qualquer outra tarde aquilo não teria funcionado. Eles me veriam sair da água e me pegariam. Mas a neblina estava bastante espessa naquele dia, protegendo até quem fosse azarado demais para ser visto e tornando a perseguição praticamente impossível. Crowley teve que engolir minha artimanha. À distância eu conseguia ouvi-los gritando uns com os outros, tentando entender onde tinham me perdido.
Eu sabia que jamais conseguiria retornar ao Conde. Eu nem tentei. Simplesmente dirigi-me ao sul por uma viela lateral e me desloquei o mais rápido que pude. O vento batia com força contra meu rosto e eu tive a peculiar sensação de que meu cabelo congelava na minha cabeça. Se eu não tirasse logo aquelas roupas e fosse para frente do fogo logo, o frio faria o que Crowley foi incapaz de fazer, talvez com menos dor, mas tão definitivamente quanto.
As ruas estreitas iam e vinham, minha visão começava a sair de foco e uma dor terrível subia pelo meu peito. Restavam apenas alguns quarteirões. Imaginei que seria uma aposta de meio a meio se eu iria conseguir.
Minha corrida virou uma meio corrida, depois uma lenta caminhada e, por fim, um tropeço desajeitado.
Mais um passo. E mais um.
Debrucei-me sobre o muro de pedra branca com uma impressionante falta de dignidade, arrastando os joelhos enquanto o fazia. Até mesmo aquele muro pequeno era difícil de ser vencido com meus membros congelados. Passei então pelo último, caindo de cabeça erguida de frente para a torre. Minhas mãos apalparam por dentro da camisa em busca do Olho de Crispin, numa ideia atrasada de que poderia romper as defesas do Ninho, mas meus dedos não se moviam e de qualquer forma eu sabia que jamais teria como reunir a concentração de forças exigida. Fiquei em pé e bati inutilmente contra a porta. Meus gritos para que me deixassem entrar perdiam-se no vento.
A gárgula permanecia muda, testemunha silenciosa enquanto eu desmoronava no chão.