O Guardião
Capítulo 33
Eu estava atravessando Alledtown quando vi a ponta do horrível casaco de lã de Garrincha quando ele se agachava atrás de uma barraca de maçãs. Fiquei pensando se ele teria me esperado fora dos jardins, mas descartei a possibilidade como improvável. Ele deve ter ficado no meu encalço desde a hora que saí do Conde, por toda a Cidade Baixa, pelo bosque e agora de volta à cidade. Aquilo não era fácil de se fazer. Eu diria que era impossível se alguém me perguntasse antes de ele ter conseguido.
Assim que assimilei minha surpresa eu fiquei furioso, irritado de verdade, fiquei revoltado com a ideia de imaginar aquela criança idiota logo atrás de mim enquanto Crowley, Beaconfield e só quem mais Sakra saberia dizer empenhavam seus melhores esforços para acabar com a minha existência.
Entrei numa rua lateral, contornando a saída dos fundos de um boteco. Então me escondi atrás de uns caixotes e encostei as costas na parede, puxando as lapelas do casaco para encobrir a parte de baixo do rosto e deixando as sombras fazerem o resto do serviço.
Garrincha deve ter achado que eu estaria distraído àquela altura e entrou na rua com menos cuidado do que deveria. Antes que ele tivesse a ideia de checar o canto, eu já o tinha erguido do chão, segurando seus braços ao lado de sua cabeça.
Ele xingava e se debatia, tentando ganhar terreno, mas ainda era um filhotinho. Dei uma boa sacudida nele e o apertei mais até ele começar a ficar mole. Então soltei, fazendo-o cair de bunda na lama.
Ele ficou em pé a seguir, cerrou os punhos e os posicionou em guarda diante de seu rosto, com fogo nos olhos. Eu precisava dizer a Adolphus que as tardes que ele passou ensinando o garoto a boxear não tinham sido nenhuma espécie de desperdício.
- É assim que você se mostra útil? Ignorando minhas ordens toda vez que lhe convém?
- Estou cansado de ser sua porcaria de garoto de recados! - ele gritou. - Tudo o que eu faço é servir clientes no bar e entregar mensagens! Então eu vim atrás de você, que mal há nisso?
- Que mal? - eu ginguei e atingi a testa dele com as costas da mão. Garrincha recuou, tentando manter o equilíbrio. - Ontem à tarde uns caras perigosos se empenharam realmente em me matar. E se eles voltassem e percebessem que você estava me seguindo? Você acha que é novinho demais para que um homem abra suas entranhas?
- Eu cheguei até aqui - respondeu ele, orgulhoso e desafiador. Perdi a compostura e minha raiva fluiu numa torrente.
Bati do lado de sua guarda e o atirei contra a parede do beco,f orçando meu antebraço contra seu esterno. - Você chegou até aqui porque é um lixo, pior do que um rato, não vale o esforço de se eliminar. Levante sua cabeça do esgoto e veja como virão bem rápido atrás de você, com as facas afiadas para cortar sua garganta.
Percebi que gritei essas últimas palavras a poucos centímetros do rosto dele e que a minha lição provavelmente deixaria uma ferida permanente no garoto se eu não parasse. Tirei o cotovelo do peito de Garrincha e ele caiu no chão, e desta vez continuou ali.
- Você precisa ser mais esperto do que é, entendido? Há fileiras e mais fileiras de garotos espertos da Cidade Baixa deitados em valas comuns por aí. Você precisa ser mais esperto que isso, esperto o tempo todo, esperto em cada minuto do seu dia. Se você fosse o filho de um mercador de algodão, tanto faria, você poderia aproveitar sua juventude. Mas você não é, você é um lixo do gueto, e não se esqueça disso, pois Sakra sabe que eles não vão se esquecer.
Ele ainda estava com raiva, mas estava me ouvindo. Esfreguei a neve derretida do meu cabelo. A água escorria pela testa e pelo rosto. Então eu estendi a mão e o ajudei a se levantar.
- O que você viu? - perguntei, surpreso com a velocidade que minha cabeça esfriou, surpreso por ela ter ficado tão quente apenas alguns momentos antes.
Ele parecia tão disposto quanto eu a se acalmar enquanto nos recompúnhamos.
- Eu vi um nobre matar o outro e vi você sair com ele. Aquele era o Espada, certo?
- Certo.
- O que ele te disse?
- Ele apontou para a improbabilidade de eu morrer dormindo.
Garrincha olhou com arrogância, ainda convencido da minha invencibilidade.
- E o que você disse a ele?
- Eu disse a ele que tem gente fazendo fila para me matar e que, se não se apressar, vai acabar chegando atrasado à festa - eu disse isso e ele riu. Apesar do que disse antes, fiquei feliz por mantê-lo com suas ilusões, e talvez até um pouco orgulhoso por ele pensar tão bem de mim. - Onde Adolphus acha que você está?
- Eu disse a ele que você me mandou à casa do Yancey, que você queria mais alguma coisa sobre o Beaconfield.
- Tente não mentir para eles - aconselhei.
- Vou tentar - respondeu.
A nevasca estava piorando e ficar parado ali daquele jeito estava começando a me deixar tremendo.
- Se eu deixar você me seguir por um tempo, você promete que volta ao Conde quando eu mandar?
- Eu prometo.
- E sua palavra tem valor?
Ele cerrou os olhos e a seguir fez um rápido aceno afirmativo com o queixo.
- Tudo bem então - desci pelo beco e depois de um momento ele me alcançou.
- Aonde estamos indo?
- Preciso ver a vidente.
- Por quê?
- Agora seria a hora da manhã que você caminha ao meu lado em silêncio. Chegamos à Caixa depois de trinta minutos. Quando disse ao garoto para me esperar do lado de fora, ele aceitou e se encostou na parede. Felizmente o ilhéu que me havia deixado entrar na vez anterior estava cuidando da porta. Apesar de sua idade, ele ainda era afiado o bastante para me reconhecer e teve a decência de me deixar entrar desacompanhado.
Marieke estava inclinada sobre sua mesa quando entrei, revirando um velho caderno de capa de couro com uma intensidade que assustaria um durão do crime organizado. Bati a porta e ela virou a cabeça, preparando-se para descascar o bastardo idiota que ousava atrapalhar seu trabalho. Quando ela me viu, expirou lentamente o ar e um pouco de sua raiva aparentemente inesgotável saiu junto.
- Você voltou - disse ela, com cuidado para não parecer feliz com isso.
- Guiscard veio aqui mais cedo. Imaginei que você fosse vir junto.
- Brigamos. Eu queria minha liberdade e ele é uma garota de um homem só.
- Você acha isso engraçado?
- Me dê mais alguns minutos e a gente pode tentar de novo - respondi. Na laje no centro da sala um lençol cobria um corpo do tamanho de uma criança. Sob o lençol, o corpo de Avraham jazia em permanente repouso, prestes a ir para baixo da terra. Para ele não haveria nenhum grande funeral, nenhuma manifestação pública de pesar e com o tempo do jeito que estava eu duvidava que o Sumo-Sacerdote deixaria sua capela para se dirigir ao lote de terra perto do mar onde os ilhéus sepultavam seus mortos. A Cidade Baixa havia gozado o patos outonal, um momento de luto comunitário em meio a folhagens vibrantes, mas com as temperaturas caindo ninguém tinha muita pressa de deixar suas casas apenas para manifestar pesar à família de um garotinho negro. Além disso, na velocidade que as crianças estavam desaparecendo da Cidade Baixa, a coisa toda acabou perdendo sua novidade.
- Suponho que você não teve muito mais sucesso do que no caso anterior ao tentar captar algo dele.
Ela fez um sinal negativo com a cabeça.
- Tentei todos os truques conhecidos, realizei todos os rituais, refleti em cima de cada prova encontrada, mas...
- Nada - concluí o raciocínio por ela, e pela primeira vez Marieke aparentemente não se incomodou por ter sido interrompida.
- Você encontrou algo de concreto de seu lado.
- Não.
- Você continua falando desse jeito e eu nunca consigo uma palavra na direção certa.
- Isso - até aquele momento a conversa estava muito perto de ser prazerosa. Eu poderia até mesmo me enganar com ilusão de que a vidente teria uma quedinha por mim.
- O Birô de Assuntos Mágicos já sabe do talismã no seu ombro? - ela perguntou.
- É claro. Tenho o hábito de manter o governo informado de todas as minhas atividades ilícitas - respondi.
Um sorriso começava a se formar no rosto de Marieke, mas ela retesou o pescoço antes que ele pudesse amadurecer.
- Quem colocou isso aí?
- Não consigo me lembrar. Eu estava meio alto.
Ela posicionou as mãos na mesa atrás dela e arqueou a coluna para trás, uma exposição assustadoramente desinibida para alguém de autoconsciência quase patológica como ela, no equivalente grosseiro a um humano funcionalmente normal tirando a roupa e defecando no chão.
- Tudo bem, não precisa me dizer. Era assim que eu preferia mesmo.
- Se eu levantar o lençol e procurar manchas no menino - perguntei - vou encontrar alguma?
Ela olhou para os lados de modo conspirador, desnecessário pelo fato de estarmos em uma sala fechada, mas compreensível.
- Sim - disse ela -, você vai.
Era o que eu esperava ouvir, mas isso não facilitava a assimilação. O Espada havia matado mais uma criança, tirado ela de bem debaixo do meu nariz, escondida nas catacumbas de sua mansão, tirado sua vida e atirado seu corpo no rio. E, como se toda essa blasfêmia já não fosse suficiente, ele infectou o garoto com a peste, enfraquecendo as proteções que guarneciam a cidade contra o retorno da doença. E tudo isso porque ele não consegue suportar o pensamento de trabalhar honestamente, ou de abrir mão de suas extravagâncias.
- Se você levantou o lençol e viu a mancha - perguntou ela -, você já tem alguma ideia quanto ao motivo de ela estar ali?
- Estou investigando - disse eu, apesar do pouco significado de meu esforço se a cidade voltasse a ser atingida pela Febre Vermelha.
Os olhos dela, normalmente claros como o céu limpo, ficaram nebulosos. A incerteza era um modo que Marieke assumia com pouca frequência, o que a incomodava mais que o comum.
- No momento você é a única pessoa que sabe disso. Eu não confio na Casa Negra e não quero causar pânico, mas se aparecer mais uma...
- Eu compreendo - disse eu. Depois de alguns momentos, fiz a pergunta óbvia:- Por que contar a mim?
- Captei algo de você na primeira vez que nos vimos, quem é você e aonde está indo. Algo que me dizia que eu devia deixá-lo a par.
Aquilo explicaria o merecimento. Aquilo explicaria, por exemplo, por que alguém tão naturalmente incapaz de gentileza perderia seu tempo falando comigo.
- Você não quer saber o que eu vi? - ela perguntou. - Todo mundo sempre quer saber o que está logo adiante de si.
- As pessoas são tolas. Não é preciso um profeta para lhe dizer o futuro. Olhe para ontem, olhe para hoje. Amanhã provavelmente será igual, e depois de amanhã também.
Era hora de ir embora. Garrincha estava lá fora no frio e eu ainda tinha coisas a fazer antes de merecer o descanso do dia.
Olhei demoradamente para Avraham. Ele seria o último, disse a mim mesmo, de um jeito ou de outro. Marieke interrompeu meus devaneios.
- Você sobreviveu a isso, na primeira vez?
- Não, eu morri. Você não viu?
Ela corou um pouco e seguiu adiante:
- Eu quis dizer...
- Eu sei o que você quis dizer - disse eu. - E sim, eu sobrevivi.
- E como foi?
As pessoas às vezes me perguntavam aquilo, como se já soubessem que eu estava na Cidade Baixa no pior momento. “Conte-me sobre a praga”, como se isso fizesse parte de alguma fofoca do bairro ou de uma conversa sobre o resultado de uma briga. E o que você pode contar a essas pessoas? O que elas querem ouvir?
Conte a elas sobre os primeiros dias, quando não parecia ser nada pior do que apenas mais um verão, um ou dois em uma quadra, o mais velho e o mais novinho. Como as marcas de doenças nas casas começaram a se espalhar, a se disseminar, a se multiplicar, até que não houvesse nenhuma barraca ou prédio sem um “X” pintado na porta da frente. Quanto aos homens do governo que vinham incinerar essas habitações, às vezes eles não eram cuidadosos o bastante para confirmar se lá dentro todos estavam mesmo mortos, ou então para conter as chamas.
Conte a elas então sobre a segunda noite, quando colocaram mamãe e papai num carrinho, quando os vizinhos saquearam nossa casa, simplesmente entraram, não com felicidade, mas também não com vergonha, saindo com as poucas pratas que meu pai havia conseguido economizar, dando-me um soco na cara quando tentei contê-los. Os mesmos vizinhos de quem emprestávamos açúcar e cantávamos hinos no solstício de inverno. E quem os poderia culpar afinal, já que ninguém mais se importava com que os outros faziam?
Conte a elas sobre os cordões de isolamento em torno da Cidade Baixa, os mesmos guardas de rosto arredondado que se empanturravam de subornos, mas não deixavam nenhum pobre bastardo sair, pois até onde eles sabiam nós éramos a escória e era melhor nos manter longe das pessoas decentes com a ajuda das pontas das lanças. Que eu fiquei de olhos abertos durante anos e anos depois de tudo aquilo com a intenção de acertar as contas, que fico de olhos abertos até hoje.
Conte a elas sob a cara de Henni quando voltei para casa sem comida nenhuma pelo terceiro dia seguido. Não estava brava, não estava triste. Estava apenas resignada. Minha pobre irmãzinha pondo sua mão em meu ombro e me dizendo que tudo ia ficar bem, que no dia seguinte eu teria mais sorte, com a voz tão doce e o rosto tão magro que cortava o coração, que cortava a porra do seu coração.
Acho que eu poderia ter contado a ela um monte de coisas.
- Não foi grande coisa - disse eu. E pelo menos naquela vez Marieke teve o bom senso de manter sua boca idiota fechada.
E naquela altura era hora de ir embora, hora de sair antes de fazer algo que não devia. Fiz um último e rápido aceno com a cabeça para Marieke e acho que eu parecia nervoso porque ela tentou se desculpar de alguma forma, com um poderoso olhar de arrependimento, mas eu a ignorei, voltei para rua e dispensei Garrincha de um modo curto e grosso. E apesar de eu estar perto demais do centro para fazê-lo com segurança, coloquei uma ampola de Sopro de Fada sob meu nariz e puxei até minha cabeça ficar tão tomada pelo zumbido que não havia espaço para muita coisa mais. Então me recostei a uma parede até me sentir firme o bastante para iniciar a longa caminhada de volta para casa.