O Guardião
Capítulo 35
Acordei na manhã seguinte em um apartamento de um cômodo na área mais sombria do cotovelo do canal e descobri que o corte em meu bíceps havia se transformado em uma coisa asquerosamente colorida, brilhante e lívida. Vesti as roupas e o casaco, tentando evitar contato do tecido com o ferimento. Ao sair, bati o ombro na parede da pocilga e tive que me segurar para não dar um berro.
Eu não podia voltar ao Conde daquele jeito. Iam acabar amputando meu braço em metade de um dia. E eu não queria alarmar Célia mais do que já tinha, então o Ninho também estava fora de cogitação. Em vez disso rumei para o sul na direção do porto e de uma médica de rua que eu conhecia, uma senhora kiren que costurava ferimentos nos fundos de uma loja de roupas. Ela não sabia uma palavra de rigun e o dialeto herege que ela falava era suficientemente diferente do que eu conhecia para tornar o diálogo praticamente impossível. Mas apesar dessas coisas e de seu jeito irascível, ela era a melhor médica de campanha que se poderia procurar: rápida, experiente e discreta.
A tempestade de neve da noite anterior havia parado, apesar de parecer que ela continuou durante a maior parte da noite e que provavelmente voltaria dentro de uma ou duas horas. Nesse entreato, porém, parecia que toda a cidade tinha resolvido sair para a rua na mesma hora, com os entroncamentos cheios de casais de namorados andando de braços dados e as crianças comemorando a aproximação das festividades.
Essas manifestações da estação começaram a diminuir quando eu entrava em Kirentown, onde os habitantes não tinham interesse no feriado que estava por vir, partindo-se do princípio de que eles estavam cientes disso.
Entrei em uma viela sem nome, na esperança em que a dor no meu peito não fosse sinal de febre. O beco era organizado de acordo com os instintos comerciais dos hereges, uma dúzia de lojas subdividindo o trecho de cem metros de rua, cada uma anunciando seus produtos com placas coloridas cheias de ideogramas kirens misturados com rigun. Parei numa porta mais ou menos no meio da viela, diferenciada do resto apenas por uma placa curiosamente simples, uma inscrição gasta em pastilhas que dizia apenas “ROUPAS”.
Dentro da loja estava sentada uma senhora carrancuda, velha como pedra, o tipo de criatura antediluviana cuja existência os mais jovens considerariam até mesmo teoricamente impossível, como se tivesse sido tirada do útero já velha e decadente.
Ela estava cercada por todos os lados de roupas e faixas coloridas, espalhadas sem nenhuma preocupação de organização ou estética. Qualquer pessoa tola o bastante para querer comprar alguma das mercadorias anunciadas rapidamente mudaria de ideia ao perceber o mau estado de conservação das coisas, mas a velha carrancuda ganhava mais que o suficiente com seus negócios ilícitos para se preocupar com problemas secundários do mercantilismo legítimo.
Sem dizer nada, a proprietária fez um sinal para que eu me dirigisse aos fundos. Era um lugar escuro e sujo, com um banquinho giratório no centro. As paredes eram cobertas de prateleiras com suprimentos médicos, emplastros, manais e ingredientes alquímicos de todos os tipos. A maior parte de tudo aquilo era certamente inútil, mas a própria medicina já é metade ilusão, e dois terços no caso dos hereges.
Sentei-me na cadeira e comecei a tirar o casaco enquanto a matrona observava com ar de infeliz. Assim que tirei a camisa ela segurou meu braço, não com brutalidade, mas com menos delicadeza do que eu gostaria, dada a agonia das pontadas em meu lado esquerdo. Ela inspecionou a ferida e tagarelou algo em sua língua estrangeira. As palavras eram indecifráveis, mas de tom austero.
- O que você queria que eu fizesse? Você está certa, eu deveria ter previsto. O próprio Beaconfield me avisou. Achei que ele fosse precisar de mais tempo para se envolver pessoalmente nisso.
Ela começou a tirar potes das prateleiras, inspecionando e reinspecionando os recipientes sem rótulo de um jeito não muito positivo para minha confiança. Ela então pegou um dos potes, despejou o conteúdo em uma chaleira de aparência esquisita e a colocou sobre um forno de ferro que emanava calor em um dos cantos da sala. Esperamos até o conteúdo ferver, em um intervalo no qual a matrona me olhava com raiva e murmurava ofensas incompreensíveis. Ela tirou uma pequena ampola de um dos bolsos de sua roupa e o chacoalhou de maneira sugestiva.
- Eu não devia. Sigo firme minha regra de não consumir opiáceos antes do almoço.
Ela avançou com aquilo em minha direção novamente, insistindo em sua cantilena.
Eu suspirei e sinalizei para que ela seguisse adiante.
- É por sua própria conta e risco.
Ela tirou um conta-gotas da ampola e pingou uma gota em minha língua. O gosto era ácido e desagradável. A droga voltou rapidamente para o bolso, de onde ela tirou então uma faquinha cuja lâmina limpou em um lenço.
Minha visão estava ficando dilatada e era difícil me concentrar. Ela apontou para o meu braço. Tentei pensar em algo inteligente a dizer, mas não fui capaz de pensar em nada que prestasse.
- Vá em frente - falei.
Com mão firme ela empurrou meu ombro contra a cadeira e moveu a faca com rapidez no abscesso que havia se formado no lugar onde o homem do Espada havia me atingido. Mordi a língua até sentir o gosto de sangue.
A matrona passou para a etapa seguinte de seu trabalho sem proporcionar nada em termos de simpatia. Quando ela voltou para o canto eu tive a infeliz ideia de olhar a ferida agora reaberta, com efeitos previsíveis em meu trato digestivo. Ao me ver ficando verde, ela veio até mim e me bateu no rosto, apontando o dedo na minha cara e proferindo alguma série de xingamentos. Virei a cabeça para o outro lado e ela voltou para o fogão, despejando o conteúdo da chaleira agora fumegante em um pequeno copo de barro.
Ela voltou na direção da cadeira e o seu olhar foi suficiente para que eu soubesse que o que estava por vir não iria ser legal.
Segurei na parte de baixo da banqueta com o máximo de força que meu corpo permitia e fiz um sinal rápido com a cabeça. Ela ergueu o copo.
Então eu gritei, numa clara exultação ao tormento enquanto ela gotejava o óleo fervente em minha ferida, a feroz tortura do calor contra meu músculo lacerado. Inspirei profundamente algumas vezes enquanto lágrimas escorriam de meus olhos.
- Por que você não pega de novo aquela ampola?
Ela me ignorou, à espera de que a cera secasse. Depois de algum tempo ela pegou uma dura peça de ferro e começou a raspar o excesso de resina.
- Você é uma vadia maldita - disse eu. - Pelo caralho balançante de Sakra, eu te odeio.
Era impossível imaginar que ela não entendesse nada desses xingamentos depois de tantos anos fornecendo atendimento médico a criminosos, mas, se entendeu algo do que eu disse, não deu sinais. A dor diminuiu e se transformou num calor entorpecente. Sentei-me em silêncio quando ela pegou uma agulha e começou a costurar meu braço. O que quer que houvesse naquele pote era simplesmente incrível. Eu já quase nem notava a presença dela. Depois de alguns minutos ela levantou a cabeça com ar de curiosidade e gaguejou o que pareceu ser uma pergunta.
- Eu já disse. Foi o Espada Sorridente que fez isso. Você deveria ficar orgulhosa disso. Não sou um qualquer que veio aqui porque perdeu uma briga de faca em um bar. Pessoas importantes estão querendo me apagar.
Ela sorriu e passou o dedo em frente à garganta, o símbolo universal do assassinato, o mal se fazendo a língua mãe do homem.
- Eu adoraria, creia-me, mas não é possível simplesmente entrar no quarto de um nobre e enfiar uma espada em sua traqueia.
Naquele ponto seu interesse já havia diminuído e ela voltara a costurar meu ferimento. Tive alguns momentos de conforto em um estático calor narcotizante, tão profundamente anestesiado que eu só percebi que ela tinha acabado quando sacudiu meu ombro rudemente, ameaçando desfazer o trabalho que acabara de concluir.
Afastei a mão dela e conferi o trabalho. Tinha ficado nota dez, como sempre.
- Obrigado - disse eu. - Espero que eu fique um bom tempo sem a ver. Ela murmurou algo sugerindo sua pouca fé em minha capacidade profética e ergueu a mão mostrando cinco dedos.
- Você está louca! Eu podia ter meu braço reimplantado por esse preço. Ela me olhou firme e baixou dois dígitos.
- Assim está melhor - disse eu. Despejei três ocres na mesa. Ela os recolheu rapidamente e os colocou num bolso. Peguei a camisa e o casaco, vestindo-os novamente enquanto caminhava para fora. - Como sempre, seja qual for a língua que você fale, se alguém souber dessa visita você vai precisar de alguém melhor com o bisturi do que você mesma.
Ela nada respondeu, mas já não esperava que ela dissesse nada mesmo. Na hora que começou a passar o efeito do anestésico que ela me deu eu estava no meio do caminho para a Cidade Baixa e tinha começado a nevar novamente.