O Guardião
Capítulo 15
Quando voltei para o Conde, Adolphus estava atordoado no balcão, com o rosto inchado.
Acho que ele pensou que eu estivesse morto.
Não era uma conclusão absurda a se chegar, mas eu estava contente por poder mostrar que ele estava errado. Ele virou-se quando a porta se abriu e antes que ela estivesse fechada Adolphus já me tinha esmagado em seus enormes braços, esfregando o rosto em lágrimas em meu cocuruto e chamando Adeline e Garrincha.
Aquilo já era exagerado demais, especialmente por conta da probabilidade de eu só ter conseguido adiar o inevitável, e o melodrama de Adolphus seria reeditado dentro de mais uma semana. Mas ele parecia contente e eu não tinha ânimo para dizer nada, até que seu afeto começou a se tornar perigoso para a integridade das minhas costelas.
Adeline veio dos fundos e abraçou-me com seu corpo redondo. Por cima da cabeça dela pude ver Garrincha descendo, com sua natural indiferença no rosto.
- Não está feliz em me ver? Mais um dia no Conde, seu benfeitor preso pela Coroa e solto antes do almoço?
Adolphus respondeu exultante:
- Ele disse que não estava preocupado! Disse que sabia que você iria voltar, então não havia motivo para ficar preocupado.
- Bom saber que você confia tanto assim em mim - disse eu. - Mas lembre-se: o fato de seu cavalo chegar no fim da corrida não significa que você fez uma aposta inteligente.
Se dependesse de Adolphus, eu teria passado o restante do dia enrolado em um cobertor como uma vítima da febre, e da mesma forma que um longo cochilo me era uma ideia atraente, as pistas iam esfriando. Desvencilhei-me dele, fui até meu quarto e retirei uma cumprida caixa preta de baixo da minha cama.
Não ando armado regularmente, e isso há pelo menos meia década, desde que deixei o serviço à Coroa e tive que levantar meus negócios das ruínas da última guerra entre os grupos organizados. Andar com uma espada significa que alguém vai fazer você usá-la, e cadáveres não fazem bem para os negócios. É melhor ser amistoso com todo mundo, pagar quem tem de pagar e manter o sorriso no rosto até que seja realmente a hora de parar de sorrir.
E para ser sincero, eu não confio em mim com uma espada na mão. Se a coisa esquenta e você começa a perder as estribeiras, desde que não esteja armado, a situação tenderá a acabar bem. Talvez alguém saia de queixo quebrado ou com o nariz partido, mas as pessoas vão embora. Com uma espada a seu lado... Pois bem, eu já carrego coisas demais na alma sem adicionar o sangue de uns pobres bastardos que me soltaram olhares enviesados enquanto eu estava no barato do Sopro de Fada.
Portanto, em situações normais, eu não ando com a espada se não souber que vou precisar dela. Mas as circunstâncias nem sempre são normais, e apesar de a coisa que matou o kiren não ter demonstrado nenhum indício de suscetibilidade à fria lâmina da espada, quem mandou a criatura deve ter. Destravei o estojo e abri a tampa.
Já vi muitas armas durante a minha vida, desde as cimitarras dos sacerdotes ashers aos punhais adornados de joias com os quais a nobreza tanto gosta de brincar, mas para o meu bolso nunca houve nenhum instrumento de assassínio tão perfeitamente desenvolvido para seu propósito quanto a espada de lâmina serrada. Mais de meio metro de aço terminando em uma empunhadura de sândalo, afiada somente de um lado para um corte mais forte, mais larga perto da ponta, mas estreitando–se agudamente a seguir. Aquela vinha sendo minha arma por opção desde a Guerra. Eu não a levaria para nenhum desfile, mas com as costas contra o muro não havia nada mais que eu preferisse ter nas mãos.
Peguei essa espada de um comando dren no meu terceiro mês na Gália. Os drens estavam sempre à nossa frente no que dizia respeito a esse tipo de coisa. Eles assumiam as trincheiras da guerra como se tivessem nascido para isso, livravam-se de todas as armaduras reluzentes e seus guerreiros camuflados começavam a atravessar os muros na calada da noite levando consigo machadinhas e bombas de pólvora negra. Os comandantes do nosso lado ainda estavam distribuindo sabres e lanças de cavalaria a nós oficiais seis meses antes do armistício, apesar de eu quase nunca ter visto cavalos nos cinco anos que passei tentando escapar das salvas de artilharia e encontrar água que ainda não tivesse sido suja pelos dejetos de meus camaradas.
Peguei a empunhadura e ergui a espada com minha mão direita. A sensação ainda era boa, natural. Peguei a pedra de amolar de dentro do estojo e afiei a lâmina até que ficasse boa o bastante para que fosse possível fazer a barba com ela. O aço refletia minha imagem, de um roxo vivo que se misturava confortavelmente a minhas cicatrizes anteriores. Era um rosto velho e eu desejei que ele estivesse à altura do que estava por vir.
Ainda de dentro do estojo eu retirei um par de adagas, pequenas demais para serem usadas numa peleja, mas ótimas para serem atiradas. Prendi uma perto do meu ombro e outra na minha bota. Um último armamento, um soco-inglês com três pontas afiadas foi parar no bolso do meu casaco, para facilitar o acesso.
O estojo estava vazio agora, exceto pelo pacote quadrado que eu vinha guardando desde a Guerra. Eu o inspecionei, para ter certeza que todos os itens ali dentro estavam em boas condições, depois o guardei novamente na caixa e empurrei tudo de novo para debaixo da cama. Sentindo-me um pouco constrangido, prendi a cintura de meu casaco com força por cima da empunhadura da espada e desci as escadas.
- Onde a menina foi encontrada? - perguntei a Adolphus.
- Ao sul da Rua da Luz, ao lado do canal. Você pretende ir até lá?
Não havia utilidade de explicar para Adolphus a barganha que eu tinha feito com a Operações Especiais, não enquanto eu tivesse alguma chance de sucesso, então eu o ignorei e me voltei para Garrincha.
- Pegue seu casaco. Vou precisar da sua ajuda por um tempo.
Partindo do pressuposto de que aquilo envolvia algo mais interessante do que transmitir mensagens e me trazer a janta, Garrincha me atendeu com um incomum entusiasmo. Adolphus me olhava, reconhecendo o contorno da espada sob minha roupa.
- O que você vai fazer? - perguntou Adolphus.
- Vou visitar um velho amigo nosso - respondi.
O olho de Adolphus tentava decifrar alguma coisa. - Por quê?
- Porque eu ainda não tive emoção suficiente por hoje.
Garrincha apareceu enrolado em uma blusa de lã horrível que Adeline tinha feito pra ele. - Eu já te falei o quanto isso é feio? - perguntei.
Ele fez que sim com a cabeça.
- Já que estamos todos no mesmo barco - disse eu a Adolphus - o garoto volta antes do pôr-do-sol. Guarde qualquer coisa que chegar para mim.
Adolphus consentiu, suficientemente familiarizado com meus costumes a essa altura para saber que eu não pediria mais nada.
Eu e Garrincha saímos do Conde e nos dirigimos para o oeste.