O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 45 de 49

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O Guardião

Capítulo 45

Eu estava então no caminho de volta ao Conde, caminhando lentamente pela neve na altura dos joelhos. Aquele frio todo estava me cansando.

Conseguia me lembrar de um tempo no qual o céu era claro e as nuvens não soltavam gelo, mas apenas vagamente.

Cheguei ao Conde e descobri que o bar ficaria fechado durante a noite. Não que houvesse muito movimento, estando o clima como estava. O salão dianteiro estava deserto. Adolphus provavelmente estava no fundo cuidando da esposa. Eu não tinha tempo para ir atrás dele. Eu não tinha planos de fazer nada contra o Espada antes do cair da noite, mas eu precisava de cada minuto daquele intervalo para deixar tudo organizado.

No meu quarto percebi um pequeno envelope sobre a penteadeira. Adolphus havia rabiscado sobre ele uma rápida mensagem:

O mensageiro de Grenwald passou aqui depois que você saiu.

Sob outras circunstâncias aquela situação mereceria uma boa gargalhada. Pensei que pelo menos uma vez em sua existência fodidamente inútil, meu velho major finalmente acabara fazendo alguma coisa para me ajudar, mas era tarde demais para me servir. Ignorei o envelope e passei a me dedicar a tarefas mais prementes.

Retirei o embrulho marrom do estojo sob minha cama, sentei-me em minha mesa e comecei a abri-lo. Duas horas foram gastas na tarefa importante mas enfadonha de deixar o equipamento pronto para uso. Peguei um par de adagas e um rolo de arame fino antes de escorregar uma lata de tinta de camuflagem para dentro do bolso e descer as escadas.

Eu estava tão concentrado no que fazia que quase não percebi a presença de Adolphus no pé da escada, que estava quase invisível por conta da luz fraca e de sua sinistra imobilidade.

Sob seu pesado sobretudo, um áspero e apertado casaco de couro com pregos cobria seu peito. Ele também tinha desencavado seu velho capacete, cujo aço estava amassado por cinco anos de escapadas por pouco. Além das roupas, ele estava enfeitado de armas: duas espadas curtas, uma em cada lado da cintura, e um machado de combate preso nas costas.

- Que porra é essa que você está vestindo? - perguntei espantado.

A ferocidade nos olhos dele não me deixou com nenhuma dúvida quanto à seriedade de meu camarada em relação à escolha de suas roupas.

- Você acha que está nessa sozinho? Não é a nossa primeira extravagância. Estarei na sua retaguarda, como sempre.

Será que ele estava bêbado? Tentei sentir o hálito dele. Aparentemente não estava.

- Não tenho tempo pra isso. Cuide de Adeline. Estarei de volta dentro de algumas horas.

- O Garrincha é meu filho - disse ele, sem nenhuma espécie de afetação ou de exaltação. - Não vou ficar sentado de frente pro fogo enquanto a vida dele estiver em perigo.

Que o Guardião dos Juramentos nos poupe de tamanha nobreza sem sentido.

- Sua oferta de ajuda é apreciada, mas desnecessária.

Tentei passar por Adolphus, mas ele botou uma mão no meu pescoço e me segurou contra o corrimão.

- Não se trata de uma oferta.

Os fios grisalhos superavam os negros em seus cabelos, que um dia foram pretos como o carvão. Seu rosto cheio de marcas era grosseiro. Será que eu também estava velho daquele jeito?

Será que eu parecia tão estúpido, seguro pelo colarinho como um rufião, as armas salientes em meus bolsos, um homem de meia-idade fazendo as brincadeiras de um adolescente?

Eu não queria pensar daquela forma. Garrincha precisava de mim. Eu poderia entrar numa crise existencial se estivesse vivo dali a seis horas.

Tirei a mão de Adolphus de meu pescoço e voltei um degrau na escada, ganhando um pequeno espaço de manobra.

- Você está gordo. Sempre foi grande, mas está gordo agora. Você é lento, não tem esquiva e não possui mais o ímpeto de matar um homem, não da forma como irei fazer. Não tenho certeza de que você já tenha feito isso, aliás. Não tenho tempo para inflar sua vaidade. A cada minuto perdido o garoto fica mais perto da morte. Saia da porra da minha frente.

Por um instante achei que havia exagerado e que ele iria arrancar minha cabeça dos ombros. Mas então ele olhou para o chão e toda sua energia pareceu vazar de dentro dele, como se saísse por um buraco no fundo de uma caneca. Ele saiu da frente da escada. Sua coleção de armas tilintava.

- Cuide da Adeline - disse eu. - Estarei de volta daqui a uma ou duas horas -afirmei. Aquela previsão estava longe de ser exata, mas não havia sentido em deixar aquilo claro. Saí para a noite.