O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 3 de 49

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O Guardião

Capítulo 3

De volta ao Conde de Sinuosa, o movimento do fim da semana estava a todo vapor. O cumprimento de Adolphus reverberou pelas paredes enquanto eu abria meu caminho pelos clientes apertados e arrumava um assento no bar. Ele serviu um copo de cerveja e se inclinou quando foi me entregar.

- O menino chegou aqui com seu pacote. Deixei no seu quarto - disse ele.

De alguma forma eu sabia que o garoto não ia decepcionar.

Adolphus estava ali meio sem jeito, com um olhar de preocupação em seu rosto deformado.

- Ele me contou o que você encontrou - disse então. Tomei um gole da minha bebida.

- Se você quiser falar sobre...

- Não quero - interrompi.

A cerveja era espessa e escura e abriu caminho para meia dúzia de rodadas enquanto eu tentava tirar da cabeça a imagem das mãos torcidas e brancas, da pele machucada da menina. A multidão ao redor de mim aumentou, encheu de trabalhadores das fábricas no fim de seus turnos e de bravatas sobre as aventuras noturnas. Nós estávamos fazendo o tipo de negócio que me fazia lembrar por que eu era sócio ali, mas a massa de indivíduos nefastos amigáveis tomando bebida barata era má companhia para meu humor.

Terminei meu copo e me levantei do balcão. Adolphus se afastou de um cliente e veio até mim.

- Você está indo embora?

Resmunguei afirmativamente. O olhar em meu rosto deve ter subentendido a intenção de violência, pois ele colocou uma de suas enormes patas em meu braço enquanto eu me afastava e perguntou: - Você precisa de uma navalha? Ou de companhia?

Fiz que não com a cabeça. Ele se afastou e voltou para conversar com os clientes.

Eu estava devendo uma visita a Tancredo, o Lábio Leporino, desde o dia que vi um de seus garotos passando vinonírica em meu território umas duas semanas antes. Tancredo era um operador menor que havia conseguido abrir seu caminho rumo a uma certa notoriedade por meio de uma combinação repugnante de violência barata e malandragem, mas ele não seria capaz de continuar assim por mais do que algumas estações. Ele iria pagar menos do que devia a seus garotos, ou tentar enganar algum guarda quanto a seu porcentual, ou dar mancada com alguma organização para acabar morrendo em um beco com uma punhalada em seus órgãos vitais. Eu nunca havia visto nenhuma grande necessidade de apressar seu encontro com Aquela que Espera Por Trás de Todas as Coisas, mas nosso negócio não admite erros. Vender em meu território equivaleu a me mandar uma mensagem e a etiqueta exigia uma resposta.

Lábio Leporino havia conseguido um estreito território a oeste do canal, perto do cotovelo, e conduzia suas operações de um lixo de um bar chamado Sangue de Virgem. Ele fez a maior parte de seu dinheiro de negócios que eram muito pequenos ou muito imorais até mesmo para os garotos das organizações, arrancando dinheiro de qualquer lugar onde os mercadores vizinhos fossem patéticos o bastante para pagar por proteção. Era uma longa caminhada até seu estabelecimento de merda, mas isso me daria tempo para passar o barato. Subi as escadas, peguei uma garrafa de Sopro de Fada e comecei.

O extremo oeste da Cidade Baixa estava quieto, os mercadores tinham ido para suas casas e a vida noturna se concentrava mais ao sul, na direção das docas, motivo pelo qual caminhei uma dúzia de quadras até o canal em relativa solidão. Nessa hora da noite a Ponte Hermes parecia sinistra, em vez de apenas dilapidada, com seus detalhes em mármore irreconhecíveis pela ação do tempo e por atos triviais de vandalismo. As ásperas mãos dos Daevas de pedra enroladas em súplica aos céus, as faces cansadas de olhos arregalados e bocas escancaradas. Sob a ponte, o Rio Andel corria preguiçoso e devagar, transportando o lixo da cidade em majestosa procissão até o porto e para o mar. Segui meu caminho, parando na entrada de um prédio indescritível cerca de oitocentos metros a oeste.

O barulho do segundo andar chegava às sombras embaixo.

Puxei um tiro de Sopro de Fada, depois mais um e mais outro, até a garrafa ficar vazia e o zunido começar a se parecer com um enxame de abelhas em volta dos meus ouvidos. Atirei a ampola na parede e subi os degraus, dois de cada vez.

O Sangue de Virgem é aquele tipo de mergulho que faz você querer esfregar a pele com desinfetante assim que consegue sair.

Ele faz a atmosfera do Conde parecer um chá na corte. Lamparinas lançavam uma luz engordurada no interior impalatável, uma decadente estrutura de madeira montada sobre um punhado de quartos que o Lábio Leporino alugava por hora, junto com um contingente de prostitutas de ar abatido. Elas faziam dupla jornada como empregadas e a iluminação precária era suficiente para evidenciar um prolongado comprometimento com sua vocação.

Peguei um lugar de frente para uma abertura na parede que servia de janela e acenei para uma das atendentes.

- Você sabe quem sou eu? - perguntei. Ela fez que sim, com o cabelo preso por cima do rosto esticado, os olhos tortos entediados e inabaláveis. - Traga pra mim algo que não tenha sido cuspido e avise seu chefe que estou aqui - pedi. Joguei um cobre para ela e a vi se afastar com cansaço.

O Sopro de Fada estava batendo forte e cerrei os punhos com firmeza para que as mãos parassem de tremer. Olhei atentamente para os clientes e me pus a pensar em como um ato incendiário bem localizado ajudaria a melhorar a vizinhança.

A servente reapareceu alguns minutos depois com uma caneca de cerveja pela metade.

- Ele vai aparecer logo - disse ela.

A cerveja era basicamente água da chuva. Entornei a caneca e tentei não pensar na criança.

A porta dos fundos se abriu e Lábio Leporino apareceu acompanhado de dois de seus garotos. Tancredo tinha um apelido condizente. A fenda em seu rosto dividia sua boca, uma aberração que nem mesmo sua barba espessa ajudava a ocultar. Além disso, havia pouco mais a falar sobre ele para o bem ou para o mal. Em algum momento ele adquiriu a reputação de ser durão, apesar de eu desconfiar que ela tenha resultado de sua deformidade.

Os dois parasitas pareciam violentos e estúpidos, o tipo de durão barato de rua de que Tancredo gostava de se cercar. Eu conhecia um deles: Aranha, um anão meio-ilhéu atarracado com um olho cego que ganhou num dia em que resolveu fazer onda na frente de um pelotão da guarda. Ele costumava perambular com um grupo de insignificantes ratos de rio, atacando embarcações de carga na calada da noite e saindo com o que fosse capaz de carregar. Eu nunca tinha visto o outro, mas o rosto empipocado e o cheiro azedo que emanava indicavam maus costumes, o que de certo condizia com o meio onde vivia e a carreira que havia escolhido. Parti do princípio de que ambos estavam armados, apesar de somente a arma de Aranha estar visível, um punhal mal lavrado que se sobressaía agressivamente de sua cinta.

Eles se espalharam pela mesa para me encurralar.

- Olá, Tancredo - disse eu. - Qual é a boa nova?

Ele me olhou com ar de desprezo, ou talvez não tenha olhado. O lábio dificultava a interpretação.

- Ouvi dizer que seu pessoal teve problemas com suas marcações. - continuei.

Agora eu tinha certeza que ele me olhava com desprezo.

- Problemas, Guardião? O que você quer dizer com isso?

- O canal é o limite entre nossos negócios, Tancredo. Você conhece o canal. É aquela enorme fossa a leste daqui, cheia d’água - ironizei.

Ele sorriu, com aquela faixa sem carne entre seu lábio superior e o nariz, deixando sua gengiva apodrecida incisivamente visível.

- Ah, aquele era o limite?

- Em nosso negócio, Tancredo, é importante se lembrar dos acordos. Se você estiver tendo problemas, talvez seja o momento de procurar trabalhar mais na conservação de seus talentos naturais. Você daria uma amável cantora de coral.

- Você tem uma língua afiada. - rosnou ele.

- E você tem uma língua deformada, mas nós somos do jeito que o Criador nos fez. De qualquer forma, não estou aqui para discutir teologia. Geografia é o que interessa no momento. Então por que você não começa e me diz qual é a nossa fronteira?

Lábio Leporino deu um passo atrás e seus garotos avançaram.

- Me parece que chegou a hora de redesenhar nosso mapa. Não sei quais são seus negócios com as organizações e não me importa o quanto você é amigo da guarda. Você não tem força para manter o território que mantém. Até onde eu sei, você é um operador independente, e não há mais espaço para operadores independentes nos dias de hoje - argumentou.

Ele continuou se animando com o conflito que estava por vir, mas eu mal podia ouvi-lo por conta do zumbido em meus ouvidos. Não que os detalhes de seu monólogo interessassem.

Eu não estava ali para discutir e ele não havia mobilizado seus homens para ajudá-lo a negociar.

O zunido cedeu enquanto Tancredo concluía qualquer que fosse o ultimato que estivesse fazendo. Aranha colocou a mão em sua arma. O bandidinho sem nome mostrou a língua em um riso forçado. De alguma forma eles ficaram com a impressão de que seria fácil. Eu pretendia corrigir essa falsa impressão.

Terminei minha cerveja e empurrei a caneca com minha mão esquerda. Aranha olhou-a estilhaçar-se no chão e eu o golpeei com o punho, afundando seu nariz. Antes que seu parceiro pudesse sacar uma arma, abracei-o pelos ombros e me lancei pela janela aberta o levando comigo.

Por uma fração de segundo tudo o que podia ouvir era a rajada de vento e a batida rápida do meu coração. Então nós caímos no chão e meus oitenta e poucos quilos enterraram ele na lama de barriga pra cima e um ruído baixo me permitiu perceber que ele havia quebrado algumas costelas. Livrei-me dele e fiquei em pé. A lua brilhava sobre o beco escuro. Respirei fundo e senti o sangue descer da minha cabeça. O homem empipocado tentava se recompor e afundei minha bota na cabeça dele.

Ele soltou um gemido e parou de se agitar.

Eu tinha uma vaga noção de que a queda havia feito alguma coisa com meu tornozelo, mas já tinha ido longe demais para sentir algo naquele momento. Eu precisava terminar aquilo rápido, antes que meu corpo tivesse tempo de acordar para o estrago que tinha sido feito.

Voltei para dentro do Sangue de Virgem e vi Aranha descendo a escada a toda velocidade, com sangue pingando do nariz e seu punhal em mãos. Ele avançou sobre mim com fúria. Um tonto, pois Aranha é daquele tipo de homem que se contorce por causa de uma dorzinha qualquer. Fui ao encontro dele, me agachei, encaixei meus ombros nos joelhos dele e o atirei escada abaixo. Ao me virar para terminar o serviço, vi o branco de um osso exposto em sua mão e percebi que não havia necessidade de mais violência. Deixei-o segurando o pulso e gritando como um recém-nascido.

De volta ao andar de cima, a maioria dos clientes estava encostada contra a parede à espera do desfecho. Em algum momento enquanto estive ocupado, Tancredo pegou um pesado porrete de madeira e o batia contra a palma da outra mão. Seu rosto retorcido havia se transformado em uma máscara da morte e havia uma longa fileira de fendas em seu porrete, mas ele estava de olhos arregalados e eu sabia que ele iria cair facilmente.

Eu me esquivei quando seu bastão passou zunindo perto da minha cabeça, fechei o punho e o golpeei no estômago.

Tancredo cambaleou para trás, procurando ar enquanto sacudia seu porrete impotente. Na sequência eu peguei seu pulso e o torci com força, trazendo-o para mais perto de mim enquanto ele gritava e deixava sua arma cair. Encarei-o de perto, seus lábios deformados tremiam, e apliquei-lhe um golpe que fez suas calças caírem.

Ele ficou aos meus pés, choramingando pateticamente. Um pequeno grupo de espectadores olhava por trás de mim, com seus narizes batatudos de beberrões e olhos de mongoloides imbecis, um zoológico de cruzamentos grotescos, gentalha e asmáticos. Tive vontade de pegar o porrete de Tancredo, agitá-lo na direção do público e começar acertar suas cabeças, crack, crack, crack, empapando a serragem de vermelho. Deixei aquele pensamento de lado, dizendo a mim mesmo que ele era apenas o efeito do Sopro de Fada. Era hora de acabar com aquilo, mas não tão rápido. A encenação tinha seu valor. Eu queria que aquelas dragas espalhassem o que tinham visto.

Arrastei o corpo mole de Lábio Leporino até uma mesa próxima, prendi um dos braços dele na madeira. Mantendo a palma de sua mão aberta sob minha mão esquerda, peguei seu dedinho com firmeza com minha mão direita.

- Qual é nossa fronteira? - perguntei, partindo-lhe o dedinho. Ele gritou, mas não respondeu.

- Qual é nossa fronteira? - perguntei novamente, quebrando o dedo seguinte. Ele chorava agora, procurando ar e quase incapaz de falar. Ele precisava tentar. Torci mais um dedo.

- Você tem uma outra mão inteira que eu ainda nem encostei! - ameacei. Eu gargalhava e já não tinha certeza se aquilo fazia parte da encenação.

- Qual é a nossa fronteira?

- O canal - gritou ele. - O canal é a nossa fronteira!

Não se ouvia mais nada no bar além de seus gemidos. Virei minha cabeça na direção dos observadores, saboreando o momento, e depois continuei em voz alta o bastante para ser ouvido nas primeiras fileiras do público.

- Seu negócio termina no canal. Esqueça-se disso mais uma vez e irão te encontrar boiando nele - disse eu. Soltei seu último dedo, deixei-o cair no chão e caminhei lentamente até a saída. Aranha estava sentado no pé da escada e desviou o olhar quando passei por ele.

Estava uma dúzia de quadras a leste quando passou o efeito do Sopro de Fada. Apoiei-me na parede de um beco e vomitei quase até não conseguir mais respirar, afundando-me na sujeira. Ajoelhei-me por um instante, à espera de meus batimentos voltarem ao normal. No caminho minha perna não aguentou e eu tive de comprar uma muleta de um falso aleijado para conseguir chegar mancando em casa.