O Guardião
Capítulo 36
De volta ao Conde tive que ver Adolphus tentar fingir que não estava preocupado comigo. Os ombros dele se ergueram quando me viu entrar, mas ele logo voltou a secar o balcão com pouco mais do que uma rosnada. Sentei-me junto ao bar.
- Está tudo bem? - perguntou ele, fingindo falta de interesse.
- Tudo bem - respondi. - Apenas saí muito tarde e não quis voltar para casa com aquele tempo.
Estava claro que Adolphus não acreditava em mim.
- Isto chegou enquanto você estava fora - disse ele, entregando-me um par de envelopes e esperando enquanto eu abria os selos.
O primeiro, escrito em um papel cor de creme, era de Célia.
Meus trabalhos renderam frutos. Você vai encontrar evidências dos crimes do Espada em uma câmara escondida na mesa do escritório dele, sob um fundo falso. Boa sorte.
C
Curto daquele jeito, eu tive de lê-lo novamente para ter certeza de que havia entendido direito. Depois eu o coloquei de lado, tentando evitar que um sorriso surgisse em meu rosto. Eu tinha praticamente esquecido do trabalho prometido por Célia.
Essas coisas raramente saem como esperado e nunca com a rapidez necessária para ter alguma utilidade. Mas se ela estivesse certa eu poderia sair de lá com algo concreto para mostrar à Casa Negra. Comecei a pensar na mansão de Beaconfield e nas maquinações necessárias para poder voltar a entrar lá.
Garrincha veio correndo da sala dos fundos, tão bem harmonizado com o clima do lugar que pôde pressentir minha chegada. Aquilo era bom, pois havia um homem com quem eu precisava entrar em contato e eu não estava a fim de andar.
- Preciso que você leve uma mensagem para mim.
A expressão dele se manteve inalterada, mas eu já dispunha de demonstrações suficientes da qualidade de sua memória para precisar de evidências externas de atenção.
- Pegue a Rua Pritt à esquerda pelas docas, entre em Alledtown, mas antes de chegar ao enclave Asher - expliquei, concluindo a orientação com o nome da rua e o número da casa.
- Diga à mulher na entrada que você quer falar com Mort, o Peixe. Ela vai deixar você subir. Diga ao Mort que eu preciso ver o Doutor. Diga a ele que é urgente. Diga a ele que o Doutor vai ficar contente com o desafio.
- Não se esqueça do seu casaco - acrescentou Adolphus, apesar de que o garoto já estava indo pegá-lo. Garrincha vestiu o casaco e saiu na neve.
- Ele aguenta o clima - disse eu depois que o garoto se retirou.
- Eu não quero que ele fique gripado.
- Não é porque você está com ele há três meses que ele tem três meses de idade.
Adolphus deu de ombros e pegou a outra carta.
- O aristocrata veio aqui mais cedo atrás de você. Pediu a mim que lhe entregasse isto. Se você for fazer mais negócios com esse cara, que seja fora do meu bar.
- Guiscard não é tão ruim assim.
- Eu não confiaria nele.
- Não estou confiando, estou usando ele - respondi e li o bilhete. - E parece que ele está sendo útil.
Afonso Cadamost passa a maior parte das horas que está acordado em um reduto de erva na Rua Tolk com sinal de uma lanterna cinza na frente. Você estava certo. Nós ainda estamos de olho nele.
Guiscard seria muito cabaço se não soubesse que a Casa Negra estava de olho em praticamente todo mundo. Olhei para Adolphus.
- Você vai me dar o desjejum ou não vai?
Ele revirou os olhos, mas voltou-se para os fundos e fez o pedido para Adeline.
Eu estava massacrando meu prato de ovos quando Garrincha retornou, com o cabelo alisado pela neve e o rosto vermelho de entusiasmo, ou talvez de frio.
- Ele disse que tudo bem. Ele disse que o Doutor irá encontrá-lo no pub Daeva’s Work, perto de Beston, dentro de duas horas.
Fiz um sinal com a cabeça e voltei-me para terminar com minha salsicha.
- Quem é o Doutor? - Garrincha perguntou.
- Você vai descobrir daqui a duas horas - respondi. - Tire seu casaco. Está quente aqui dentro.
Garrincha me olhou, deu de ombros e voltou na direção do cabide.