O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 48 de 49

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O Guardião

Capítulo 48

O Grou Azul estava morto havia cerca de seis horas. O corpo dele estava reclinado na cadeira de madeira de seu gabinete, com os olhos azuis revirados. As feridas em seus braços e a faca caída no chão confirmavam que sua morte fora auto-infligida. Na mesa diante dele, em um pedaço de pergaminho, duas palavras com seus garranchos.

Sinto muito.

Eu também sentia. Fechei os olhos dele e desci as escadas.

A porta da sala dela estava aberta e eu entrei. Célia e Brightfellow estavam de costas para mim. Garrincha estava sentado em uma cadeira num canto, desatado e com os olhos vidrados, insensíveis.

- Digo para fazermos isso agora - disse Brightfellow, que no decorrer do último dia escorregou ainda mais em direção à ruína. Ele vestia as mesmas roupas da festa do Espada e gesticulava loucamente. - Vamos fazer isso logo e desová-lo, antes que alguém se dê conta.

Célia, em contrapartida, estava firme como um bloco de pedra, com as mãos ocupadas arrumando os equipamentos alquímicos na mesa diante dela.

- Você sabe tão bem quanto eu que a febre leva metade de um dia para se alojar e nós ainda nem a passamos para o garoto. Não vou arruinar tudo o que já fizemos só porque você está apreensivo - ela despejou o conteúdo de uma proveta em outra menor e depois virou o rosto na direção de Garrincha. - Por que você não se senta e fica de olho nele?

- Ele não vai a lugar nenhum. Meu feitiço o deixará derrubado pelo resto da noite.

- Ele tem o dom, assim como os demais, mesmo que não saiba usá-lo. Você não tem como saber como ele irá reagir.

Brightfellow roeu uma unha suja entre os dentes.

- Você disse que não consegue mais sentir a gema.

- Sim, Johnathan, foi isso que eu disse.

- Isto significa que ele está morto, certo?

- Significa o que significar - respondeu ela, mas sem nenhuma espécie de nervosismo.

- Ele deve estar morto - repetiu Brightfellow.

Célia levantou a cabeça e cheirou o ar.

- Duvido muito - disse ela, deixando de lado um alambique e virando o rosto em minha direção. - Há quanto tempo você está aqui?

- Há tempo suficiente - respondi.

Ao me ver, o que restava do equilíbrio de Brightfellow sumiu completamente. Ele ficou branco como um cadáver e os olhos dele migravam de Célia para mim, de mim para ela, como se a distância entre nós fosse salvar a situação.

- Isto significa que Beaconfield... - Célia começou, implacavelmente calma, como se minha chegada não representasse o menor contratempo para seus planos.

- Deu sua última festa de Solstício de Inverno - completei. - Pobre bastardo idiota. Ele nunca soube de nada, não é mesmo? Acho que vocês o envolveram nisso depois que eu comecei a fazer perguntas, para garantir que havia um otário para levar a culpa.

- Johnathan já mantinha negócios anteriores com ele. Ele preenchia os requisitos.

- Ele era perfeito. Eu o odiei na primeira vez que o vi, queria que ele fosse envolvido nisso, fiquei feliz por entender o que sua pedra me dava como prova. E é claro que você estava sempre lá com seus conselhos, assim como para ocasionalmente plantar provas - disse eu, retirando a navalha de minha bolsa e atirando-a no chão. - Acho que você tem outra preparada para o Garrincha.

Célia olhou para o instrumento com o qual havia sacrificado já duas crianças, depois olhou casualmente para mim.

- Como você entrou no Ninho?

- O Olho da Coroa tem a capacidade de desfazer feitiços menores. Usei o de Crispin para forçar minha entrada. Você se lembra de Crispin? Ou tudo já começa a se misturar?

- Eu me lembro dele.

- Vejamos agora. Houve Tara e o kiren que vocês pagaram para sequestra-la. Também Caristiona e Avraham. Já mencionamos meu ex-parceiro. Lá em cima o Mestre preferiu curar–se pela navalha a encarar o que você se transformou, mas acho que não podemos adicionar um suicídio em sua contagem.

Brightfellow ficou rígido de surpresa, mas Célia apenas piscou.

- Entristece-me muito ouvir isso.

- Você parece realmente arrasada.

- Eu estava preparada para isto.

- Imagino que estivesse. Este foi o motivo de tudo, não foi? A preparação para a morte do Grou. Você jamais assumiu o controle das proteções, era mentira. Você não consegue e sabia que assim que o Mestre morresse suas proteções iriam embora junto.

- O Mestre era um gênio - disse ela. Um vacilo de lamentação passou por seu rosto. - Ninguém é capaz de fazer o que ele fazia. Fui obrigada a buscar alternativas.

- Você quer dizer matar adolescentes.

- Se você prefere colocar nessas palavras.

- E infectá-los com a peste?

- É uma exigência lastimável do ritual. Desagradável, mas necessária.

- Para eles principalmente.

Brightfellow entrou na conversa com entusiasmo.

- Por que você está dizendo tudo isso a ele. Mate-o antes que ele arruíne tudo.

- Ninguém vai fazer nada precipitado - Célia ordenou.

- E quanto a você, Brightfellow? Você entrou nessa pelo bem da cidade? Não achei que você fizesse trabalhos humanitários.

- Não dou a mínima para este esgoto. Quero que ele arda em chamas.

- É por causa de mulher então?

Ele virou-se de costas, mas eu já sabia a resposta.

- O que você achou? Que mataria duas crianças e ela cairia de amores por você?

- Não sou idiota. Sei que não significo nada para ela. Nunca signifiquei nada para ela, nem na época da Academia nem nunca. Ela disse que precisava da minha ajuda. Eu não podia deixar que ela fizesse tudo isso sozinha - ele não estava falando comigo, mas eu era a única pessoa que estava ouvindo.

- Ninguém significa nada para ela. Algo se quebrou dentro dela muito tempo atrás. Ela não superou, mas isso não importa mais, não pode ser consertado. Ela fala de Rigus, fala da Cidade Baixa, mas eles não são reais para ela. As pessoas não são reais para ela.

- Você é - disse ele. - Você é o único, e vai morrer por causa disso. Célia chamou a atenção dele.

- Johnathan - disse ela, mas ele já havia tomado sua decisão.

Quatro coisas aconteceram então, mais ou menos simultaneamente. Brightfellow levantou o braço para executar algum tipo de feitiço, mas antes que ele pudesse consumá-lo ouviu–se o barulho de fritura e o ar foi tomado por um cheiro de carne queimada. Esta foi a segunda coisa. A terceira foi eu me abrigar atrás de Célia, ou algo parecido com isso. A quarta aconteceu muito rapidamente e Célia nem percebeu. Brightfellow olhou para o espaço vermelho que agora não estava mais recoberto por carne, uma abertura grande o bastante para expor o branco de suas costelas. Ele virou a cabeça para cima para olhar para Célia e depois caiu pra frente.

As mãos de Célia ainda emanavam o calor do feitiço que matara Brightfellow. Célia desatou a falar imediatamente, com o corpo diante de nós esquecido assim que ela começou.

- Antes de você fazer qualquer coisa, antes de você dizer qualquer coisa, há algumas coisas que você precisa ouvir - ela se afastou, saindo efetivamente do meu alcance. - Aquilo que o Mestre fez, o trabalho que ele executou, não pode ser duplicado. Você entende isso? Eu não queria usar crianças, acredite em mim, eu não queria. Eu passei os últimos dez anos nessa porcaria dessa torre me preparando para hoje, para a morte do Pai. Eu queria ser melhor do que sou - ela fechou os olhos por alguns instantes e depois os reabriu. - Pelo Primogênito, eu queria ser melhor, mas não sou. Com a morte do Mestre, suas proteções perderão o efeito. Nós estamos no inverno agora, mas assim que o tempo esquentar, você não imagina como vai ser se a peste voltar.

- Eu me lembro como era. Não repita isso.

Ela suspirou uma admissão.

- É, eu sei que você lembra.

Pensei que ela fosse continuar a falar. Como ela não retomou, perguntei:

- Pra que você precisa do Garrincha?

- Nós precisamos de uma criança com potencial para a Arte. Não é fácil encontrar uma - a voz dela continha um vestígio mínimo de arrependimento, mas tão mínimo que era possível imaginá-lo. - Não tivemos tempo de procurar mais longe.

- E você sabia que, se o pegasse, me levaria a ir atrás do Espada.

- Sim.

Tentei esconder o jeito que me sentia com relação ao que ela dizia bem diante de mim, mas não devo ter conseguido porque ela apertou os lábios e disparou contra mim.

- Você não olhe para mim assim. Eu poderia ter matado você, e você sabe disso. Eu poderia ter lançado aquela coisa sobre você a qualquer hora, ou ter deixado você congelar na neve.

- Você é um doce - respondi. Sentia como se alguma coisa estivesse furando meu cérebro, alguma criatura com tentáculos havia se enfiado no meio do meu crânio e agora bagunçava meus miolos. A única coisa que me mantinha em pé era o Sopro de Fada. Eu tinha que me esforçar para conseguir ouvir Célia, tão forte era o barulho que ecoava em meus ouvidos. - O que aconteceu com você?

- Admito a troca que fiz. Não tenho nenhuma ilusão. Mas eu não deixaria o trabalho do Mestre ter sido em vão. Não vou deixar voltar a ser como foi antes. Dez mil mães, vinte mil pais, corpos empilhados, mais do que era possível contabilizar. Verão após verão, ano após ano. Não espero que você me perdoe. Não acredito que alguém me perdoaria, mas quando o próximo verão chegar o povo da Cidade Baixa não vai apodrecer como cadáveres ao sol.

- Acho que daqui do alto é difícil enxergar os rostos. Desenterre uma criança da lama e você vai começar a fazer as contas de um modo diferente.

- Eu não achei que você fosse entender.

- Talvez eu não seja tão altruísta quanto você. Eu matei gente hoje. Algumas dessas pessoas não mereciam morrer.

- As pessoas morrem - disse ela, e não há argumento contrário a isso. - Fiz o que fiz. Não queria que você ficasse sabendo. Mas tudo já foi longe demais para parar. Não vou deixar que os sacrifícios sejam em vão. Não vou deixar ninguém me deter, nem mesmo você. E você vai tentar, não vai?

- Vou.

- Você se lembra do dia antes de ir para a Guerra?

- Lembro.

- Você se recorda do que disse a mim?

- Sim.

- Eu acho que você estava enganado. Sou mais parecida com você do que é possível imaginar.

- Não, Célia - respondi segurando o colar dela, aquele que ela usava no dia em que nos conhecemos, aquele que ela usava para conectar aquela abominação com sua alma, aquele que eu peguei enquanto ela salvava minha vida momentos antes.- Você não é nada parecida comigo.

Ela levou as mãos ao pescoço.

- Como... como você...

- Vou levar o Garrincha agora - disse eu, pegando-o da cadeira e colocando-o sobre meus ombros. Mantive o pingente entrenós. Eu o sentia agitar-se na minha mão e sentia um calor sinistro.

- Ele está bem. Não está infectado. Não tem nada errado com ele - Célia gaguejou, com os olhos arregalados fixados no penduricalho. - Você precisa soltar isso. Você não entende o que é essa coisa, você precisa...

Parti o pingente ao meio.

- Sangue demais, Célia. Sangue demais.

O rosto dela perdeu a cor. Um baixo assobio preencheu o ar e uma rajada de vento abriu as janelas. Ficamos olhando um para o outro. Ela parecia querer dizer alguma coisa, mas não falou nada.

Agradeço ao Guardião dos Juramentos por qualquer que seja sua bênção. Eu senti a coisa vindo e fui para a escada. Meu estômago contorcia-se de terror. A criatura cristalizou-se na parede atrás de Célia. Ela me deu um último olhar, desolado e condenador.

Nem tudo precisa ser narrado. Basta dizer que depois disso a situação ficou terrível.