O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 17 de 49

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O Guardião

Capítulo 17

Saí do escritório de Grenwald e o garoto apareceu ao meu lado sem nada dizer. O encontro havia sido um desperdício. Grenwald era um idiota sem fibra e eu não podia confiar em que ele fosse conseguir, não em relação a algo dessa importância, não em algo com as consequências que eu sofreria se tudo desse errado. Tudo isso significava que eu precisaria recorrer ao Plano B, e justamente por ser chamado de Plano B havia uma razão para que aquele plano não ocupasse o primeiro lugar.

Por Plano B deve-se entender Crispin, o único contato que eu tinha alto o bastante para arrumar informação e ao mesmo tempo uma pessoa de quem eu imaginava ter uma chance no inferno de ouvir um sim. Depois de nosso último encontro, a simples ideia de pedir ajuda a ele me causava náuseas, mas a sobrevivência vem à frente do orgulho, então engoli o meu e comecei a andar na direção de onde Adolphus havia me contado que tinham encontrado o corpo da criança.

Meus devaneios foram interrompidos por uma voz que eu demorei a perceber que era a de Garrincha. Acho que era a primeira vez que eu o ouvia falar voluntariamente.

- O que aconteceu quando levaram você para a Casa Negra?

Andei por meio quarteirão pensando na melhor maneira de responder àquela pergunta até que disse:

- Eu voltei para o serviço da Coroa.

- Por quê?

- Eles fizeram um apelo ao meu patriotismo. Farei o que for em nome da rainha e do país.

Ele engoliu minha resposta com bom senso e a seguir comentou:

- Eu não dou a mínima para a rainha.

- A honestidade é uma virtude sobrevalorizada. E todos nós amamos a rainha.

Garrincha concordou sabiamente enquanto atravessávamos o canal. A cena do crime era um ponto de tumulto algumas dezenas de metros para o oeste.

O lugar estava cheio de agentes da lei e, em contraste com a tradição geral de incompetência, eles pareciam estar levando aquele caso a sério. Crispin estava no centro do caos, perto do corpo da criança, fazendo observações e dando instruções. Nossos olhares se cruzaram, mas ele voltou a seu trabalho sem ter dado nenhum indício de que havia notado a minha presença. Eu podia ver Guiscard à procura de testemunhas em um cruzamento mais distante e alguns dos rapazes que na última vez haviam me dado uma lição também estavam atrás de informações, mas ficavam mais à vontade causando violência do que investigando-a.

- Fique aqui.

Garrincha sentou-se numa grade. Atravessei o redemoinho, me agachei para passar pelo cordão de isolamento e me aproximei de meu antigo parceiro.

- Oi, agente!

Ele respondeu sem olhar para o alto, fazendo anotações em um caderninho de capa preta de couro.

- Por que você está aqui?

- Você está por fora das novidades? Fiquei com tanta saudade de você que fui até o Comandante e implorei para ter meu velho emprego de volta.

- É, eu ouvi falar. Crowley mandou um mensageiro mais de uma hora atrás. Imaginei que você fosse aproveitar qualquer minuto a mais que sua conversa mole tivesse proporcionado com a Operações Especiais para sair logo da cidade.

- Você nunca botou muita fé em mim.

De repente o caderninho de Crispin estava no chão e ele me segurava pela lapela. A perda do temperamento tomava conta de uma pessoa normalmente tão autocontrolada.

- Não quero saber qual foi o acordo torto que você fez com o Comandante. Este caso é meu e eu não vou permitir que suas picuinhas sejam atraídas para dentro dele.

Minha mão se ergueu e tirou a pata de Crispin do meu ombro.

- Já fui bastante manuseado pelas forças da lei para um dia só. Tão gratificante quanto isso é ver a Coroa descobrir que há população ao sul do Rio Andel. Em nossa última voltinha, sua assistência provou-se muito menos do que eficaz. Até onde posso dizer, seu trabalho consiste em ficar ao lado de cadáveres e parecer perturbado.

Pareceu injusto depois que eu disse, mas aquilo o fez recuar um pouco.

- O que você quer de mim? - perguntou ele.

- Para começar, por que você não vai em frente e revista a cena do crime?

- Sobrou pouco para ser revistado. O corpo foi encontrado por um vendedor de peixes a caminho das docas. Ele chamou a guarda, que nos chamou. A julgar pelo estado do corpo, a menina foi morta na noite passada e despejada aqui no início da manhã.

Eu me ajoelhei ao lado da menina e removi o pano que a cobria. Ela era nova, mais nova que a primeira. Seu cabelo era muito negro e estava espalhado pela pele.

- O corpo sofreu... abuso?

- Limpo, ao contrário do outro. O único ferimento é o que a matou, um corte reto na garganta.

Recobri o corpo e me levantei.

- O que seu vidente disse?

- Nada ainda. Ela quer um pouco mais de tempo para examinar o corpo.

- Eu gostaria de falar com ela.

Ele engoliria essa com amargor, mas a permissão dele seria mera formalidade e nós dois sabíamos disso. O Comandante me queria no caso, e a palavra do Comandante é a lei da natureza.

- Guiscard deverá ir até a Caixa mais tarde. Suponho que você possa ir com ele.

- Essa é a primeira coisa - disse eu. - A segunda coisa é que eu preciso que você ponha as mãos em uma lista com os nomes de todos os feiticeiros que participaram da Operação Ingresso, em Donknacht, pouco antes do fim da Guerra. Isso deve estar escondido, mas deve estar por aí - sacudi a cabeça com ar de tristeza. - O exército não suporta a ideia de deixar nada disso vazar.

Ele olhou para mim, depois olhou para o chão.

- Esses são registros militares. Como Agente da Coroa eu não tenho acesso a eles.

- Talvez não diretamente. Mas você tem dez anos de contatos e toda a envergadura que o sangue azul que corre em suas veias proporciona. Não me diga que você não consegue pensar em algo.

Quando Crispin voltou a olhar para mim, seus olhos estavam claros como vidro.

- Por que você está aqui?

- O que você quer dizer com isso?

- Por que você está aqui? Por que você está nesta cena de crime, neste exato momento, tentando descobrir o assassino desta menina? - A raiva então passou e ele só parecia esgotado. - Você não é um agente. Você não tem nenhuma espécie de status legal. Qual é a sua?

- Você acha que eu sou voluntário? O Comandante estava se preparando para me sangrar. Essa foi a única saída que eu tive.

- Então corra. Saia da Cidade Baixa. Se é do Comandante que você está com medo, corra e não olhe para trás. Eu garantirei que não haja represálias aos seus. Simplesmente... desapareça.

Chutei uma pedra solta com a minha bota.

- O quê? Nada mais engenhoso? Nenhuma réplica inteligente? - insistiu ele.

- Aonde você quer chegar?

- Isto é só pra mostrar como você é muito mais esperto que o restante de nós? Tem algum esquema seu que não estou percebendo? Saia daqui. Você não é um agente. Até onde eu sei você é o mais distante disso que há. Caso você tenha perdido algo do que se passou nos últimos cinco anos, deixe–me condensá-los para você: você é um viciado e um chefe do crime, você desencaminha pais e mães, você se aproveita de qualquer um que cruze seu caminho. Você se transformou em tudo aquilo que sempre odiou e eu não preciso de você aqui para estragar minha investigação.

- Eu fui o melhor detetive que o serviço já teve e ainda estaria dando voltas em você e todo mundo se não tivesse irritado o comando.

- Não finja que seu erro foi uma escolha. Os outros podem comprar sua conversa mole, mas eu sei por que você não é mais um agente, e não foi porque você não queria acatar uma ordem.

Fiquei pensando em como seria divertido vestir de novo aquele uniforme cinza imaculado.

- Eu não me esqueci, não se preocupe. Eu me lembro que você ficou ao lado dos outros para me julgar, quando apagaram meu nome dos registros e esmagaram meu Olho.

- Isso não foi nada. Eu te falei para não entrar para Operações Especiais e avisei mais de uma vez para não se envolver com aquela mulher.

- Meu cauteloso e responsável Crispin, não faça ondas, não veja nada que não deva ver. Você é pior que o Crowley. Ele pelo menos é honesto em relação a quem é.

- Era mais fácil fugir. Você nunca precisou fazer a coisa funcionar, nunca precisou tomar decisões difíceis. Eu segurei a onda. Não fui perfeito, mas fiz mais bem como parte da engrenagem do que você vendendo veneno.

Pude sentir meus pulsos se comprimirem e tive de resistir à vontade de dar na cara de Crispin. A julgar pelo tom sombrio de seu olhar, ele estava pensando a mesma coisa.

- Quinze anos limpando merda - disse eu. - Eles deviam lhe dar uma medalha.

Estudamos um ao outro com o olhar, na tentativa de perceber se aquele diálogo não iria terminar em violência. Ele cedeu primeiro.

- Basta! Vou conseguir essa lista e depois acabou. Eu não lhe devo nada. Quando me vir na rua, aja como se estivesse diante de qualquer outro agente.

- Cuspo no chão?

Crispin franziu o cenho, mas não respondeu.

- Mande a lista para o Conde quando a conseguir. Voltei para a ponte e arranquei Garrincha da grade.

- Vamos embora!

Estávamos no meio do caminho quando o garoto deu uma nova demonstração de sua recente loquacidade.

- Quem era aquele?

- Era meu antigo parceiro.

- Por que ele estava gritando com você?

- Porque ele é um grande idiota.

Garrincha teve que se virar, mas suas pernas acompanhavam o ritmo das minhas.

- Por que você estava gritando com ele?

- Porque eu também sou um grande idiota.

- Ele vai nos ajudar?

- Vai.

- Por quê?

- Você era melhor companhia quando não falava tanto assim - disse eu. Dei uma última olhada para Crispin. Ele estava inclinado sobre o corpo, decifrando algum detalhe. Imaginei ter dito algumas coisas das quais me arrependia. Imaginei também se teria a chance de me desculpar, apesar de minha falta de prática. Eu estava errado. Já estive errado sobre uma porção de coisas, mas aquela era uma que machucava.