O Guardião

Daniel Polansky · Capítulo 41 de 49

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O Guardião

Capítulo 41

Quatro horas depois eu desci de uma carruagem e entrei num tapete vermelho. Dois guardas uniformizados abriram as portas para a mansão de Beaconfield, rigorosamente atentos apesar do intenso frio. Era a primeira vez que entrava ali pela porta da frente. Eu me senti muito importante.

Na antessala, um criado com um rolo de pergaminho controlava o acesso às delícias oferecidas no saguão principal. Ele me fez uma deferência, mas minha pose como membro da alta classe não me permitia retribuir. Lati meu nome e aguardei enquanto ele conferia a lista.

Eu deixaria o Espada intrigado por ter pedido para deixar meu nome na lista de convidados depois de ele ter encomendado meu assassinato, e a curiosidade sozinha muitas vezes é suficiente para estimular os nobres, desesperados como são por qualquer coisa que rompa a monotonia de seu hedonismo depravado. Se o instinto para o melodrama não fosse o bastante, o interesse próprio seria. Apesar de o Espada nos ter lançado a uma guerra declarada, eu não imaginava que ele tivesse resistência para mantê-la por muito tempo. Ele esperaria que minha mensagem sinalizasse um desejo de reconciliação e transigiria a qualquer indício de trégua.

Dito isto, um dos muitos obstáculos para meu plano era que, na verdade, eu não tinha sido convidado para a festa de Solstício de Inverno do lorde Beaconfield. Seria uma fria caminhada de volta para casa se eu não fizesse tudo direito.

Não houve problema nenhum, no entanto. O porteiro fez sinal para que eu entrasse. Passei por ele e desci para o saguão.

Qualquer um poderia falar o que quisesse do Espada, mas ele sabia dar uma festa.

O teto estava revestido por uma bem trabalhada cobertura de fios prateados, deixando a impressão de que festejávamos no interior da barriga de algum imenso animal. Pedaços de vidro e pedras semipreciosas pendiam da cobertura, atraindo os olhos para suas formas perspicazes. Um olhar mais minucioso revelava que o terceiro componente de cada um desses pingentes era uma bandeja repleta de vinoríficas enroladas em papéis coloridos. O chão estava coberto por brancos flocos cintilantes que engenhosamente imitavam a neve de verdade. O centro do salão era dominado por uma escultura de gelo de mais de três metros de altura representando Sakra, com os braços esticados, como se abençoasse os convidados da festa. O núcleo da escultura fora preenchido com alguma espécie de luz líquida que se espalhava pelo ambiente, refletindo nos ornamentos e banhando a todos como um íris de cores brilhantes.

Se Beaconfield estava quebrado, a decoração da festa não permitia que se chegasse a essa conclusão. A decoração fora feita para combinar com a opulência dos convidados, que enchiam o salão com um baixo zunido de festividade e encantamento. Perto de mim um nobre gorducho com um brocado de penas de pavão gesticulava exageradamente para um jovem anêmico vestindo uma calça de fios dourados bem justa. À minha esquerda, uma mulher um pouco mais velha que seria bonita se não tentasse tão desesperadamente parecer jovem exibia uma gargantilha com uma esmeralda do tamanho da mão de um bebê.

Uma criada se aproximou, chocantemente bonita em uma roupa de prata que mais exagerava do que escondia sua presença. Em sua bandeja havia taças de champanhe e as ampolas de Sopro de Fada que eu vendera a Beaconfield no dia do duelo. Os dois itens eram acompanhados por um olhar sugerindo que ela tinha uma terceira opção a oferecer. Aceitei uma taça de champanhe, abri mão do restante e a piranha seguiu seu caminho. O champanhe era muito bom, como era de se esperar.

A mulher com a gargantilha aproximou-se, inspecionando-me com a sutileza de uma cadela no cio. Parece que o mau gosto dela em relação aos homens era o mesmo que para as joias. De perto, ela parecia alguém a ser melhor observada de longe.

- Não creio que eu tenha tido o prazer - disse ela.

- Ficou maluca? Eu te comi no baile de primavera do Lorde Addington no ano passado! Fomos atrás daquele santuário e te peguei por trás. Você disse que eu tinha sido a melhor transa da sua vida!

O rosto dela perdeu a cor. Ela claramente não considerava o cenário totalmente implausível. Gaguejando uma desculpa qualquer, ela se afastou, deixando-me sozinho para assistir à celebração. Peguei mais uma taça de champanhe quando a garçonete passou novamente.

Beaconfield estava em pé, de frente para estátua de Sakra, de acordo com seu status de anfitrião e sua importância. Ele acenou para mim como se tivesse acabado de perceber minha presença, mas já estava acompanhando meus movimentos desde aminha chegada.

Mais de perto a luz era ofuscante, de um laranja-amarelado que impediam a observação de detalhes e nuanças. O Espada abraçava uma mulher de aparência totalmente mirad e sorriu para mim como se compartilhássemos um piada, como se não houvesse motivo para o fato de eu ter matado seus parceiros estragar nossa florescente amizade.

- Querida, este é o homem sobre quem falei - disse ele sem fazer menção de nos apresentar.

- Encantado - disse eu, sem tirar os olhos de Beaconfield. - Está uma festa e tanto. Deve ter lhe custado uma prata e tanto.

Beaconfield inclinou-se em minha direção, com o champanhe saindo pelas bordas da taça.

- Mas o que é o dinheiro afinal?

- Nada, quando se tem. Acorde falido um dia e logo começará a recalcular seus parâmetros.

Ele engoliu o restante de sua bebida.

- Tenho de admitir: fiquei surpreso ao saber que você viria. Não achei que você frequentasse esse tipo de tolice - as mãos dele percorreram a nuca da garota, que manteve inalterada sua agradável docilidade.

- Não podia deixar a noite passar sem vir lhe cumprimentar pela estação.

- Eu adoro o Solstício de Inverno, a promessa de renascimento e renovação, o ano anterior para trás e um novo ano inteiro pela frente.

- Se é assim que você enxerga.

- E como é que você enxerga?

- Como um jeito de enganar o frio - respondi.

O Espada assumiu um ar severo.

- O frio chegou cedo este ano.

- É, chegou.

A mulher de Beaconfield rompeu o silêncio.

- Você tem alguma resolução?

- Tenho a resolução de chegar ao próximo Solstício de Inverno - respondi.

- Não parece uma resolução muito desafiadora.

- Alguns de nós teremos problemas com isso.

Aproveitei a aproximação de outro convidado para sair dali.

- Longe de mim querer monopolizar as atenções de nosso anfitrião - disse eu. -Temo que precise encontrar o lavabo.

Curvei-me diante de Beaconfield e da mulher desmazelada e me afastei. Um guarda protegia a escada principal, claramente sem nenhuma empolgação para ocupar um posto que ficava a quatro salas da nascente orgia. Dei uma balançada no modo de andar.

- Diga, irmão, qual é o caminho? Estou quase molhando as calças - disse eu. Enquanto ele decidia se a segurança da propriedade tinha prioridade sobre as gentilezas aos convidados de seu mestre, passei por ele. Ele ofereceu a minhas costas um atrasado ronco de concordância e eu entrei por um corredor, encontrando o caminho para a entrada de serviço.

Entrar nos jardins da mansão não seria difícil para Kendrick.

As defesas eram pouco mais de uma dúzia de acres de árvores protegidas por uma alta cerca viva. Também não imaginei que ele fosse ter muito trabalho com a fechadura, apesar de ela ser nova e bem feita. Mas eu estava envolvido naquilo havia tempo demais para abrir mão de uma vantagem, então destranquei o ferrolho e destravei um trinco inferior antes de voltar pelo caminho que havia feito.

A festa já estava pegando fogo. A convivência jovial do início da noite começava a dar lugar a uma completa bacanal. Nuvens de fumaça multicolorida pairavam sobre os convidados e a antes imaculada neve postiça estava agora espalhada de qualquer jeito. As bandejas pendentes de vinonífera estavam já vazias, num grito distante da cornucópia das delícias narcóticas antes oferecidas. Em um canto vi um gordo fazendo algo com uma das criadas que imaginava ser visto com desdém numa sociedade educada. A luz mágica que emanava da estátua de Sakra havia mudado do laranja para o violeta, tornando os acontecimentos ao mesmo tempo maléficos e quiméricos.

Não sei dizer ao certo o que me levou a ir falar com Brightfellow, já que nossas interações anteriores não haviam sido tão prazerosas para se querer continuá-las. Quando o vi chegar à festa, mais cedo, temi que ele viesse grudar em mim e eu ficasse preso a noite inteira trocando farpas com ele. Em vez disso, Brightfellow sentou-se a uma mesa nos fundos virando todo copo de bebida que chegasse a seu alcance, complementando-os com goladas frequentes em um recipiente que trazia no bolso.

Fazia todo o sentido do mundo deixá-lo sozinho. Se Kendrick aparecesse, e se o trabalho de Célia estivesse certo, não havia razão para desestabilizá-lo, mas não que o feiticeiro se tenha mostrado facilmente suscetível a intimidação. Talvez tivesse a ver com meu inato instinto para arrumar confusão. Talvez eu apenas estivesse com vontade de fazer alguma coisa com o tempo livre.

Na verdade, acho que saboreei a oportunidade de dar alguns fortes pontapés agora que ele estava caindo. Ele era um homem fácil de se odiar. Na verdade, ele quase parecia cultivar isso. É melhor nunca se sentir assim com relação contra quem se vá insurgir. A inimizade pessoal enevoa a mente, mas o autocontrole nunca foi o meu forte. Pensei nas crianças, em Crispin, e ali estava eu, em pé e seguindo adiante.

Brightfellow olhou para cima quando minha sombra se fez sobre ele, com dificuldade para me reconhecer contra o cenário caleidoscópico. Desde que havíamos nos conhecido, eu ainda não tinha visto Brightfellow sóbrio, mas também nunca o tinha visto realmente embriagado. Ele me vencia no que dizia respeito a ser o tipo de pessoa que precisa de uma ou duas doses para encarar o dia, que ainda não está em condições de nada até que algo entre na circulação sanguínea.

Ele tinha isso bem claro, como resultado de um esforço ativo para alcançar a insensibilidade. Os olhos dele eram pontos carmesins cercados de carne inchada e de espessas gotas de suor que empapavam sua testa e seu nariz amassado. No início ele conseguiu fazer um pouco de suas bravatas convencionais, desprezando-me com uma imitação digna de crédito de um ódio homicida.

Mas o ímpeto durou pouco tempo, afogado na bebida que ele vinha enxugando e sua cabeça afundando no chão atrás de si.

- Noite longa? - perguntei, puxando a cadeira ao lado dele. Seu cheiro grosseiro misturava-se ao perfume com o qual havia se banhado.

- Que porra você quer? - respondeu ele, forçando cada sílaba pela boca que não o ajudava.

- Você está tão bonito. Pensei em lhe tirar para dançar.

Ele deixou aquela tirada passar. Na realidade, ele mal pareceu ter entendido.

Dei um gole em minha taça de champanhe. Já era meu quarto ou quinto copo e a bebida estava promovendo um caos no meu estômago.

- Tudo um bando de filhos da puta detestáveis, não são? E pensar que metade da nobreza de Rigus está aqui se sujando. Eu diria que eles precisam da religião, mas tenho quase certeza que aquele ali desmaiado na tigela de ponche é o Primeiro Abade - disse eu. O Primeiro Abade não estava desmaiado na tigela de ponche. Ele estava desmaiado ao lado da tigela de ponche, mas soou melhor do jeito que eu disse.

- Vou ver cada um deles apodrecendo no chão - respondeu Brightfellow, e eu quase retrocedi ante a maldade em sua voz. - Eu gostaria de colocá-los lá.

- O Espada escaparia?

- Não se dependesse de mim.

- Então para que tudo isso? Quando tudo vir à tona será o fim de vocês dois.

- Você sabe por que faz tudo o que faz?

- Eu costumo arriscar um palpite.

Houve uma longa pausa, tão longa que cheguei a pensar que o feiticeiro havia caído totalmente em torpor. Finalmente, depois de muito esforço, Brightfellow abriu os olhos e os dirigiu aos meus.

- Você era um agente - disse ele. - E agora não é mais.

- É verdade.

- Foi uma escolha sua?

- De certa forma.

- E por causa de quê?

- De uma mulher.

- É uma bela resposta - disse ele, voltando-se a seguir para o borrão da multidão. - Não imaginei que isso fosse tão longe. Eu não queria assim.

Alguma coisa na autocomiseração de Brightfellow reacendeu minha fúria.

- Não me confunda com um sacerdote. Não estou interessado em suas confissões e não estou aqui vendendo redenção. Você cavou sua própria cova, agora deite-se nela - disse eu e olhei para ele com desprezo, mas ele não estava me olhando e o efeito se perdeu. - Vou jogar o Espada logo a seguir, então você não vai ficar sozinho.

Achei que tivesse sido um bom ataque e que aquilo o tivesse desestabilizado. Mas quando ele respondeu, sua voz estava equilibrada e ele não parecia nervoso, apenas firme e triste.

- Você é um idiota do caralho - disse ele.

Peguei um baseado colorido de vinonífera de uma bandeja próxima.

- Você deve estar certo quanto a isso.

Ele não disse mais nada. Eu me levantei e desapareci no fundo. Depois que terminei minha taça de champanhe, não peguei mais nenhuma.

Mais adiante, o Espada e sua turma bebiam, fumavam e ocasionalmente gargalhavam ruidosamente. Fiquei pensando em onde é que ele arrumava seu estoque de companheiros. Eu havia acabado com quatro deles apenas duas noites atrás, mas ele não estava tendo nenhuma dificuldade em encontrar substitutos. A morte de seu círculo anterior também parece não ter pesado muito sobre a alma do duque. De vez em quando ele lançava em minha direção um olhar que ele acreditava ser ameaçador, mas depois de ter sido apresentado ao mundo da intimidação por homens como Ling Chi, aquilo não me impressionava.

O Doutor estava na mansão àquela hora. A noite estava apenas se estendendo e minha admiração inicial dera lugar a um desprezo generalizado por aqueles seres superiores, sibaritas tão degenerados que até seus prazeres eram sintéticos e vazios. A perspectiva de acariciar alguma das criadas era menos que sedutora, então eu apenas fiquei sentado sozinho, imaginando o que aconteceria se eu tivesse avaliado Kendrick erroneamente, se o trabalho de Célia fosse um alarme falso ou se meus conhecimentos alquímicos não estivessem à altura da missão.

Aconteceu sem preâmbulo. Uma das criadas derrubou sua bandeja e caiu logo a seguir, contraindo-se no chão e chorando, aparentemente depois de uma imersão no estoque do patrão alguns momentos antes. Por coincidência o segundo a entrar na onda foi um almofadinha que vinha atrás dela, caiu de joelhos e encheu o ar de bile. Como uma onda aquilo foi passando entre os convidados, grupos de pessoas por toda a festa derrubadas pela náusea, apertando a barriga e indo desesperadamente atrás de um lugar adequado para vomitar.

Qualquer idiota é capaz de misturar Sopro de Fada com uma substância capaz de matar um homem, seja ela flores-do–mal ou algumas gotas de leite de viúva, mas fazer a mistura com algo não-mortífero já é mais difícil. E é claro que não teria sido possível se Beaconfield não tivesse acabado com a primeira carga de Sopro de Fada e encomendado mais para a festa. Mas eu consegui, ele pediu mais e aqui estávamos. O que quer que tenha pensado o Espada, eu não estava ali para negociar nem para me engajar em um novo tête-à-tête. Ele não era um parceiro de briga e a caminhada era longa demais para se dizer a um homem que eu odiava que eu o odiava.

Estava ali para ter certeza que a hora que eu passei despejando três sementes de praga-de-mãe em cada ampola de Sopro de Fada que vendera a Beaconfield aquele dia nos jardins não tinha sido desperdiçada. Além disso, eu havia prometido uma distração ao Doutor.

O duque ainda não havia feito a conexão entre mim e o mal-estar que se espalhava entre seus convidados, então achei melhor ir embora antes que isso pudesse mudar. Pelo menos eu poderia dormir descansado por saber que tinha feito minha parte para aquela ser provavelmente uma das mais memoráveis festas de Solstício de Inverno do Espada.

Passei pela porta principal e comecei a voltar para a Cidade Baixa. Se Kendrick não conseguisse arrombar o escritório de Beaconfield com praticamente todo mundo na festa passando muito mal, então sua reputação era demasiadamente superestimada. Peguei o baseado do bolso e o coloquei entre os lábios, acendendo-o apesar da neve. Levando-se tudo em consideração, a noite tinha sido ótima, perfeita como uma engrenagem.

Por isso não consegui entender por que passei toda a caminhada de volta para casa em um silêncio ansioso, sem conseguir afastar a incômoda sensação de que eu estava totalmente fodido.